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Em Foca

De fato, fizemos mais do que beber e dançar no Sul. Um dos pontos que gerou polêmica entre os focas na volta da viagem foram as condições de vida dos produtores de tabaco em Santa Cruz do Sul. A questão era o ajuste focal. Em maior ou menor grau, o meio rural era uma incógnita para todos os focas. Foi uma experiência ímpar aquele contato efêmero, de não mais de quatro horas de duração, com uma realidade tão diferente da nossa vida cosmopolita, deslumbrada e confortável no coração financeiro do país.

Navarro e a Gabi foram os primeiros a manifestar indignação com a tal ‘falta de perspectiva’ de quem vive de agricultura. O Navarro resumiu: “O fumo movimenta MUITA grana, em especial para o governo, que recolhe um dinheirão em tributos. O absurdo, neste caso, está na falta de bem-estar social promovida pelos gestores estaduais, municipais etc”. A Gabriela justificou e argumentou: “Eles não escolheram aquela vida, é a opção menos pior que eles têm. Os caras [indústria] fabricam 60 milhões de cigarros por dia e quem dá duro de verdade não leva 1/23432 avos disso. Quero ver alguém levar a família pra roça pra fazer um trabalho desses e aguentar mais de um ano”.

O contraponto, no caso, foi feito pelo Davi. (Aliás, o saudável de ter o Davi na turma é ele ser aquela pessoa disposta a dar opiniões controversas, mesmo que seja só pra alimentar a discussão). “[A gente tem a] prepotência de achar que as coisas funcionam na nossa lógica. [Dizemos que] eles são “pobres coitados”, são “desassistidos”… Acho que são formas diferenciadas de se encarar a vida. Tento muito afastar de mim essa visão romântica do campo. Mas no fundo queria muito mesmo pode me bastar naquela imensidão verde, estando perto de pessoas que valham a pena estar. No final das contas, a gente só quer amar e ser amado, capisce? Eles sabem amar da forma deles. Repeitemo-la”.

Considero a resposta do Gabriel um primor: “É menos importante saber escrever que saber respeitar. Eu respeito, acho. Mas acho inocente demais achar que viver bem é viver a vida que escolheram para você. Em especial quando governo e iniciativa privada parecem fazer questão de continuar escolhendo”.

Do alto do meu existencialismo neurótico e nicotínico, acredito que as pessoas precisam ter opções. Por um lado, considero preocupante que as pessoas que conhecemos estejam há, sei lá, 50, 60 anos vendo todos os dias a mesma paisagem. Me angustia a sensação de que elas ‘acham’ que levam uma vida boa só porque não conhecem outra coisa – e que haja tanta gente trabalhando para que as coisas continuem exatamente assim.

Mas, por outro, tenho uma dolorida consciência de que ter acesso a várias opções abre espaço para insatisfação – que pode se tornar crônico e te fazer morrer infeliz. Fatalista, pois é. Uma sensação recorrente e clichê em São Paulo é constatar que somos uma multidão de solitários. Os laços são efêmeros. Nós mesmos, focas, temos a garantia de estar juntos por apenas 100 dias. Caminhamos no fio da navalha todos os dias, jornalistas sem rotina e sem seguranças – por escolha própria, frise-se.

Somos, todos, feitos de sociedade, complexidades, contextos e economia (que cada vez mais domina todas as esferas da nossa vida) . Mas também somos carne, osso, sangue e o amor que sentimos pelos outros.

E aí, o que os leitores acham: tem como esse não ser um dilema?

Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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20.outubro.2011 10:47:50

Cinquenta

A Nau dos Insensatos, de Hieronymus Bosch (1450-1516)

SANTA CRUZ DO SUL (RS) — Noite de festa. Em meio a palestras, visitas de campo, deadlines para reportagens e para posts deste Em Foca, eu e meus novos 29 grandes amigos ganhamos um jantar especial ontem. Por isto, este texto não se compromete com a habitual seriedade do autor. Hoje é dia de haikai, bebê leitor(a).

Nossa passagem para a segunda metade do Curso Estado de Jornalismo — que nesta quinta-feira, 20, chega a seu quinquagésimo dia de um total de 100 — traz uma lição improvável, incidental em meio a todo rigor que nos é cobrado: não é preciso álcool para ficar ébrio. Embriagar-se de amizade é o melhor presente que podemos nos dar nos justos momentos de celebração.

Ouvimos e dançamos todos os tipos de música, entre tantas cores e corpos. Talvez parecesse ridículo se visto de fora. Mas, para nós, foi um instante belo de comunhão. E como não acreditar na beleza quando nossa alma fica com menos de 20 anos? Que comemoremos a vitória de metade do percurso! Não há ressaca quando só transbordamos bons sentimentos.

José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

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09.dezembro.2010 14:25:10

Retrospectiva

Era 1º de setembro e 30 jovens jornalistas entravam na sala em que passariam boa parte dos seus dias nos próximos três meses. Quase todos os rostos eram desconhecidos, um ou outro colega de sala, de corredor de faculdade, mas, no geral, um bando de estranhos. E naquela semana aprenderíamos sobre como, com esforço, poderíamos ter uma carreira tão promissora quanto boa parte dos mais de 600 ex-focas do Estadão.

Com dez dias escrevíamos a nossa primeira matéria para o professor Luiz Carlos Ramos, já éramos a foto da 21ª turma e começávamos a decorar os nomes uns dos outros. E já podíamos nos considerar colegas.

Em 1º de outubro, a língua portuguesa e a filosofia já tinham sido aprofundadas. Conversamos com jornalistas mais experientes, um deles, ministro. As aulas de como se portar em ambientes formais também tinha ficado pra trás. Começávamos a passar pelas primeiras editorias. Pessoalmente, nos conhecíamos um pouco mais, brincávamos com nossos sotaques e queríamos saber um pouco mais das trajetórias dos nossos colegas.

Duas semanas depois éramos muito diferentes. O espanhol Paco Sánchez, que desembarcou na sala dos focas, nos ensinaria tanto sobre jornalismo que, dali em diante, tínhamos a certeza de que sairíamos profissionais muito melhores do que quando entramos. Os perfis que fizemos uns dos outros traziam para mais perto mesmo aqueles que estavam sentados mais distantes. E o Em Foca nascia, com, ironicamente, uma reflexão do que havíamos passado até ali.

Novembro começava deixando para trás as experiências de dois turnos das eleições, o contato com boa parte do alto escalão do Grupo Estado e uma viagem para o Rio Grande do Sul. Olhando o tempo que passou, creio que foi lá, em Santa Cruz do Sul, que os laços se estreitaram por completo. Nas viagens de avião, de ônibus, nos restaurantes, no hotel, foram 72 horas unidos, quase inseparáveis. E ali víamos 30 amigos aproveitando as oportunidades que a vida lhes havia dado.

Ao longo de novembro, nossa rotina mudaria completamente. Era hora de montar nosso suplemento. Para isso conheceríamos a fundo (literalmente) a cidade de São Paulo, uma experiência nova não apenas para os “estrangeiros”, mas também para os que vivem na metrópole. Enquanto isso, começávamos a aprender um pouco mais de política e economia. E reclamávamos de como o tempo havia passado tão rápido.

Quando chega dezembro, retornamos da Argentina com aquele sentimento de fim de festa. Faltam dez, nove, oito dias… “Meu Deus, acaba esta semana!” E queremos ficar mais perto, passar mais tempo juntos. Somos uma família – meio estranha, é verdade, já que não há mais velhos ou mais novos – em que todo mundo ri, chora, discute e se abraça numa comunhão que nunca imaginei que pudesse se efetivar em 90 e poucos dias.

É hora de pensar no futuro. De cada um escolher seu caminho. Sozinho. O ciclo, infelizmente, se fecha. Mas adianto aos focas que virão no ano que vem: nada vai te enriquecer mais nestes meses do que os outros 29 focas. Não perca eles de vista. Nunca.

Rodrigo Rocha, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP)

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Depois de quatro dias na Argentina, estamos de volta ao Brasil. Na mala, trouxemos algumas boas lembranças, como as visitas aos jornais Clarín e La Nación. E voltando para casa também iniciamos nossa temporada de despedidas.

Essa foi nossa última viagem. Antes, fomos ao interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Ótimas oportunidades para conhecermos mais sobre algumas indústrias polêmicas. E uma chance para nos divertirmos fora da rotina no Estadão.

Além disso, teremos concluído nosso suplemento em poucos dias. Motivo de alívio e de orgulho. Tem sido um trabalho realmente grande lidar com o prazo apertado para produzir as matérias. Só espero que gostem do resultado no dia 11.

A última semana também se aproxima. É tempo de refletir sobre os últimos três meses e, entre uma aula e outra, de preparar estratégias para o pós-curso. Tarefa tão complicada quanto assustadora.

Por mais dolorido que pareça seguir em frente, sinto estar dando um passo necessário. Ou, como diriam os especialistas em administração de carreiras Vicky Bloch e Luiz Carlos Cabrera, fechando um ciclo. Aliás, o maior e mais intenso dos últimos tempos.

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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02.novembro.2010 13:37:26

Levantando voo

“O voo que vocês irão fazer é o mesmo que sofreu aquele acidente em 2007″, ou seja, o trajeto entre os aeroportos Salgado Filho, em Porto Alegre, e o de Congonhas, em São Paulo. A lembrança foi feita pelo professor Luiz Carlos Ramos pouco menos de uma semana antes da nossa viagem a Santa Cruz do Sul (RS). Dos 30 focas deste ano, 5 nunca haviam viajado de avião, inclusive eu. Depois de uma frase como essa, a tensão dobra, triplica.

Além de mim, Daniela, Ivan e dois dos Gustavos – o Antonio e o Aleixo – eram estreantes nessa “aventura”. Ninguém recuou, ninguém gritou, talvez alguém tenha suado frio na decolagem e na aterrisagem. Mas ver o mundo de cima é realmente impressionante.

A viagem de avião é provavelmente a mais banal das experiências novas pelas quais passamos ou passaremos durante o curso. Seja entrevistando um ministro ou visitando pela primeira vez uma grande redação, todos nós encontraremos algum ineditismo nesse processo de aprendizado.

Quando nasceu, o avião não saiu do chão na primeira tentativa. Cada erro ou acerto era uma lição. A cada experiência nova, o êxito se aproximava mais. E é a cada experiência nova que nos preparamos para atingir uma carreira sólida, sem turbulências. Para que possamos levantar voo sem medo de cair no chão.

E por falar em aviões, indico um texto que o professor Paco Sánchez nos apresentou: Un aterrizaje de libro, um belo exemplo de como abordar de uma maneira diferente uma simples coletiva de imprensa.

Rodrigo Rocha, de 23 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP)

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28.outubro.2010 20:00:53

A caça da pauta

Na viagem que fizemos pelo curso à cidade de Santa Cruz do Sul (RS), tivemos a missão de apurar, e posteriormente, escrever um texto jornalístico no tamanho de 40 a 50 linhas de texto. O tema era livre, recebemos a recomendação de sermos criativos e estarmos atentos ao que fosse interessante.

Por isso, quando embarquei rumo a Santa Cruz, busquei me preparar para prestar atenção em tudo o que pudesse render uma matéria diferente. Essa não foi a primeira reportagem que tivemos que produzir sobre um local específico. Também não foi a primeira na qual os focas buscaram pautas não escolhidas por outro aluno.

Entretanto, ainda não havíamos produzido uma pauta em uma viagem patrocinada. Como o texto de Flávia abordou de maneira exata, a programação da visita, elaborada pela assessoria da indústria de cigarros Philip Morris Brasil (PMB), limitou o número de temas possíveis de se realizar, pois não deixava tempo livre para apuração. Aí surgiu o desafio: como não repetir o mesmo tema e como fugir da pauta óbvia?

Minha estratégia foi prestar atenção não só às palestras. Decidi dar importância especial a tudo o que fazíamos e víamos fora da programação oficial de palestras da visita. Precisava depender o mínimo possível da assessoria de imprensa da indústria, que provavelmente receberia depois da visita um volume grande de solicitações e poderia não atender todos no prazo do deadline.

Em um dos jantares que tivemos em Santa Cruz, quando assistimos à apresentação do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Tropeiros da Amizade (retratada no último texto de Bernardo), fomos recebidos por executivos da Philip Morris e de entidades ligadas à economia do tabaco. Cada um deles sentou em
à mesa junto a focas para conversar. Na minha, ficou o diretor da Philip Morris na América Latina.

A interação com os alunos fluiu bem e perguntei a ele sobre sua trajetória de vida profissional. Durante mais de uma hora falamos sobre sua carreira e sobre o que pensava ser essencial para obter o sucesso profissional. A história me chamou a atenção porque, filho de pequenos produtores de tabaco, ele havia trabalhado como office boy para pagar a faculdade. Depois, ingressou na indústria do fumo como trainee e deu início a uma carreira de rápida ascensão. Passou por três multinacionais do ramo e em todas chegou ao cargo de gerência. Decidi ali que meu texto seria o perfil do executivo e que traria o cigarro como elemento secundário e não como tema principal.

Não me arrependi, pois além de ter praticado a escrita de um dos gêneros que mais gosto no jornalismo, acertei na previsão sobre a assessoria de imprensa da PMB, que não conseguiu atender todas as solicitações de imprensa.

Ivan Martínez, de 21 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade de Taubaté (Unitau)

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Certa vez li num desses e-mails de corrente uma definição para jornalista: alguém com opiniões sobre os mais variados assuntos. Pouco a pouco, percebi que esse retrato era fiel à realidade. No entanto, qual a consequência disso?

Ao fazer uma entrevista com candidato a um cargo político, devo mostrar para ele minha inclinação a votar no seu concorrente? Ou será que, se ele for acusado de corrupção, eu devo ser mais agressivo nas perguntas?

Recentemente, nós fomos a Santa Cruz do Sul (RS) conhecer o processo fabricação do cigarro. Junto ao itinerário montado, que incluía visitas desde as plantações de tabaco até a fabricação do cigarro, tivemos palestras com executivos da indústria e produtores de fumo. Muitos de nós já tinham uma opinião sobre o assunto e, boa ou ruim, influenciou as perguntas.

Se um repórter considera a empresa de tabaco como uma produtora indireta de câncer de pulmão, terá perguntas com um tom agressivo. Se o repórter a legitima pela quantidade de empregos que gera (aproximadamente 2,5 milhões), buscará defendê-la.

No entanto, onde ficam aqueles pequenos detalhes que vão além desses dois pontos de vista, como a agricultura familiar, a invasão dos cigarros paraguaios (sem controle de qualidade), ou os 2% de todas as exportações brasileiras representadas por esta indústria?

Pois bem. É neste ponto que a definição do e-mail encontra um obstáculo. Toda opinião pré-concebida limita a visão e, consequentemente, a curiosidade. Por isso que é fundamental nos esvaziarmos de nossas opiniões, ao menos na hora de fazer uma cobertura.

“Vocês não podem chegar numa entrevista com uma tese formada e tentar achar argumentos para comprová-la”, adverte Chico Ornellas, coordenador do curso.

“Mirar, escuchar, pensar y contar”, sugere Paco Sánchez. Inverter o processo, colocando o “pensar” antes do “mirar y escuchar” pode ser como colocar a carroça na frente dos bois ao escrever uma matéria.

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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25.outubro.2010 15:20:09

As viagens de imprensa

Experimentar. Aguar os sentidos. Transpor fragmentos da vida para o papel. Esse acaba sendo o trabalho do jornalista: dar um recorte da realidade para o leitor. Quando o profissional ainda tem a oportunidade de sair do seu nicho, sua cidade, seu cotidiano para viajar por outras realidades, entendemos o quão encantador pode ser essa profissão e o motivo de muitos se apaixonarem por ela.

Histórias como a do repórter Lourival Sant’Anna, que viajou por 47 países a trabalho, nos inspiram como jovens jornalistas. Afinal, assistir a história ao vivo é um privilégio. Entre as experiências de Lourival estão a entrevista com Yasser Arafat, na Palestina, os dias que passou com membros do Taleban no Afeganistão, a cobertura da guerra na ex-Iugoslávia. A propósito, quem quiser conhecer melhor suas reportagens pode acessar o site de Lourival.

Porm, as viagens de Lourival e de outros repórteres como Patrícia Campos Mello, que cobriu a saída dos mineiros no Chile, são cada dia mais raras no jornal. Seja pelos custos, seja pela invasão das agências noticiosas. Por isso, hoje o mais comum são as viagens a convite de empresas.

Mas isso não significa a perda da independência de um jornal. Até porque nenhuma empresa obriga o jornalista a fazer uma matéria sobre o que ela quer. Entendo as viagens a convite mais como uma tentativa sofisticada da assessoria de emplacar o seu cliente e tentar pautar a mdia. O que muitas vezes dá certo, porque o jornal dificilmente libera um repórter para uma viagem se ele não for produzir algo.

Não critico as viagens a convite, até porque, nesses casos, o leitor é comunicado. Em casos de cadernos de consumo como Viagem e o de Autos, raras são as viagens não patrocinadas.

O que o repórter precisa é ter claro que, em viagens pagas por empresas, o tempo de apuração e da programação da assessoria de imprensa, não a dele. Aliás, difícil apurar além do proposto pela programação oficial, que geralmente apressada e movimentada. Sentimos isso na pele durante a expedição a Santa Cruz do Sul (RS), onde pudemos conhecer o processo produtivo da fumageira Philip Morris.

Com atividades nos três turnos, a empresa nos mostrou o que tinha de melhor e os benefcios que trazia para a região. De vez em quando, algumas situações pareciam artificiais, como a visita que fizemos a uma família produtora de tabaco. Entendi a visita como as que fazemos casa de um parente: ele sempre quer mostrar o que há de melhor em sua casa, por isso, ele vai arrumar a bagunça antes de você entrar e vai servir o melhor lanche.

Muitos colegas voltaram frustrados da viagem. Acho que esperavam aventuras como as de Lourival Santanna e Patrícia Campos Mello. Para mim, fica o aprendizado que a postura de uma viagem a convite difere de outra custeada pelo jornal. Não entendam como uma postura passiva frente a uma empresa anfitriã, mas que, de um convite, de uma tentativa de pautar a imprensa, é possível extrair muito aprendizado e possibilidades de pautas mais criativas do que se tivéssemos ficados sentados dentro de um prédio na redação.

Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)

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21.outubro.2010 19:17:27

Barbaridade

Além de conhecer o funcionamento da indústria do tabaco, os focas também tiveram contato com a típica cultura gaúcha durante a recente viagem a Santa Cruz do Sul (RS). Na noite de terça-feira, durante um jantar oferecido pela Philip Morris Brasil, integrantes do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Tropeiros da Amizade mostraram danças, roupas e costumes do Estado.

Foto: Fábio Pupo

O hábito de tomar o célebre chimarrão ganhou contornos poéticos: oferecer a bebida a alguém com casca de laranja, só se suas intenções com essa pessoa estiverem além de uma amizade; caso contrário, ofereça o chimarrão apenas com açúcar. E se você receber uma cuia com chimarrão e mel, atenção: é pedido de casamento. Ainda há o chimarrão com sal, um jeito discreto de dizer a uma pessoa que não quer mais vê-la…

A música e a dança do gaúcho também mereceram destaque. Primeiro, uma demonstração da chula, bailado exclusivamente masculino, executado em forma de desafio diante de uma lança de madeira de entre 3 e 5 metros de extensão que não pode ser tocada.

Com o vídeo acima, dá para entender porque nenhum foca se atreveu a participar de um desafio de chula. Depois, foi a vez da vanera, agora com os rapazes, chamados de peões, dividindo espaço com as prendas, o nome dado às belas jovens que participam das danças locais.

A apresentação do CTG Tropeiros da Amizade deixou claro que a cultura gaúcha, mesmo com características tão únicas, faz parte da brasileira. Prova disso é que todos os presentes, oriundos das mais diversas Regiões do País, se deliciaram com um saboroso churrasco gaúcho.

Bernardo Barbosa, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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A compra de uma carteira de cigarros na banca de revista é um ato simples, mas exige o funcionamento de toda uma indústria por trás. Em três dias de viagem a Santa Cruz do Sul, conhecemos diversas etapas do processo produtivo do cigarro. Tivemos contato com produtores, sindicalistas e empresários que sustentam a existência do tabaco não como um produto maléfico a saúde, mas como meio de subsistência.

Um a um, eles enumeraram argumentos para defender seus pontos de vista, fundamentados com números e dados concretos. Só na Região Sul do País, 185 mil pequenos produtores vivem do tabaco em 720 municípios, disseram. Juntos, os agricultores são responsáveis por 668 mil toneladas do produto, constituem 2% das exportações brasileiras e faturam U$ 17,4 bi ao ano.

No meio desse processo, nos foi apresentados o agricultor Alceu Tornquist, que nos mostrou sua casa, família e modo de sustento. Ele nos fez enxergar além dos números. Ele e a mulher mantêm, sozinhos, a propriedade de 8 hectares que herdaram dos pais dele, mas na época de colheita de tabaco recebem a ajuda de outras sete pessoas. Para Alceu e as famílias que vivem do produto, este é apenas um meio de sustento que, por ora, gera mais lucros em pequenas propriedades de terra.

Gostaria de ter tido a oportunidade de conhecer Alceu e sua família mais de perto, assim como outros produtores de tabaco da região que iniciam todo o processo e são, muitas vezes, a parte esquecida da equação pelos consumidores, críticos e até pelos empresários que se utilizam deles como estratégia para continuar o seu negócio.

Conseguimos, aos poucos, enxergar uma realidade que vai além do nosso cotidiano e das imagens pré-fabricadas que levamos conosco. Resta para nós, agora, procurarmos por nossa conta as etapas seguintes do processo para daí fazer recortes fundamentados sobre o assunto e não somente pensar que a compra do cigarro na banca é um ato isolado.

Carolina Almeida, de 22 anos, é formada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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