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Em Foca

12.outubro.2011 10:21:27

O desespero da pauta

Caro leitor, se você não é familiarizado com os jargões jornalísticos, eis aqui mais um para o seu dicionário: a pauta.

Para o Houaiss, pautar pode ser seis coisas diferentes, sendo o quarto significado “programar (determinado assunto) para uma edição de jornal, revista, programa de rádio ou televisão etc” e “detalhar (o assunto programado), quanto aos aspectos que deverão ser focalizados”.

Sim, a pauta é o “tema” da matéria, se foi isso que você pensou inicialmente. Nas redações, o pauteiro e o chefe de reportagem, normalmente, são os responsáveis por decidir as pautas e distribuir entre os repórteres as pautas da edição a ser produzida. São eles que decidem a sorte do repórter, definindo se ele irá cobrir a movimentação de um festival de jazz num dia de sol no Ibirapuera ou se fará uma cobertura in loco dos pontos de alagamento da zona oeste da cidade, numa tarde de chuva, às 18h.

Nesta dinâmica, como pode, então, um repórter virar dono do seu próprio destino? Trazendo de casa, junto com todo o seu repertório, uma pauta boa, digna, mas acima de tudo, factível.

Se você ainda tem dúvidas sobre essa dinâmica, pode dar uma olhada no site do The Guardian. O jornal inglês The Guardian abriu a pauta do dia para os leitores, [http://www.guardian.co.uk/help/insideguardian/2011/oct/10/guardian-newslist] o que significa que você pode acompanhar os assuntos que estão sendo produzidos para a edição de amanhã, e ver quem está fazendo o quê.

Para nós, focas, a pauta é sinônimo de desespero. Ainda sem os melindres da redação, poucas vezes temos uma ideia pronta para uma matéria, o que resulta numa perspectiva de realidade nada animadora, de coberturas nada agradáveis, das pautas que ninguém quer pode  fazer, afinal, estão todos ocupados com as pautas que eles mesmos sugeriram e pré-apuraram.

Os focas estão desesperados, ficamos loucos atrás de pautas e, agora, estamos loucos atrás de fontes, dados, estatísticas, tudo para construí-las. Pais, amigos, namorados, estamos bem, estamos vivos, neste mundo paralelo chamado apuração.

Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP

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16.setembro.2011 23:20:22

E a rebarba?

“A melhor matéria é a em que sobram informações”, nos lembrou na manhã de quinta-feira Edison Veiga, repórter do caderno Metrópole. Para as três matérias já realizadas pelos 30 focas neste curso, imagino as histórias ou declarações que meus colegas, a muito custo, tiveram de retirar dos seus textos para cumprir a meta das 30 linhas, Times New Roman, corpo 13, para nosso alívio.

Acabei deixando de fora a história de um migrante da Paraíba, conterrâneo da personagem escolhida para o meu perfil no Parque do Ibirapuera, o Coco. Um senhor simpático e monossilábico que o tempo todo me indicava outras pessoas que ele considerava mais interessantes que ele. Tinha vendido cinco cocos no feriado do Sete de Setembro. E olha que seu Estado estava com moral. “Só compro coco da Paraíba, que é mais doce, se não os fregueses não gostam”, me contou outra ambulante no parque. Ela vende mais de cem nos feriados e fins de semana.

Também não consegui encaixar algumas das declarações polêmicas de um delegado em plantão no domingo. Despreocupado, afirmou que “o melhor período para trabalhar foi a ditadura, mas depois o poder corrompeu”. E tentou me convencer que “você não entrega o seu trabalho para a concorrência”, sobre a integração das polícias civil, militar e a guarda municipal.

À primeira vista, pode parecer frustrante deixar estas informações para trás. Mas o que sobra de uma entrevista nunca é desperdiçado. Ao cortarmos, ganhamos concisão e clareza porque ali só estará o que encontramos de melhor. E o que resta não são sobras, são possibilidades. Aproveite-as em outro momento. Por ora, coloque aquilo que você não usou em sua gaveta de boas ideias.

Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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14.setembro.2011 20:00:29

Serendipity


Foi com o icônico repórter Gay Talese que conheci o termo serendipity. Soa estranho a princípio, mas poderia ser traduzido de forma reduzida como “encontrar boas coisas por acaso” – no sentido de se deparar com algo melhor do que o objeto pretendido originalmente. Bom mesmo é sentir a serendipity na pele.
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Quando os focas receberam a missão de encontrar um personagem em pleno Parque do Ibirapuera de feriado, eu tinha duas coisas em mente: o Museu Afro Brasil, com belíssimas exposições da cultura negra; e o planetário, com ingressos esgotados para todas as sessões do dia. Para a minha infelicidade, nada entre oguns e iemanjá; e ninguém disponível no concorrido simulador de céu de interior.
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Acabei conversando com três praticantes de kenjutsu, a arte samurai da espada, que treinavam devidamente paramentados em meio às árvores colossais. “Não é o melhor, mas é o que tem”, consolei-me na sabedoria popular. Foi quando um quarto participante se aproximou da roda. Nos apresentamos. Era João Paulo Delicato, diretor dos planetários de São Paulo e da Escola Municipal de Astrofísica. Um samurai que queria ser astronauta. Habemus papam!
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Rafael Abraham, de 24 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

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13.setembro.2011 17:00:38

60 minutos

Antes de passar o exercício, Carla Miranda, uma das professoras do curso, avisou: estava sugerindo apenas assuntos. A pauta, éramos nós que precisávamos encontrar. Aí estava a grande dificuldade. Foram sorteados cinco temas e fiquei com a missão de ir ao Instituto Médico-Legal (IML). Escolhi visitar o da zona sul, mas no domingo nada de diferente aconteceu e não era possível contatar a Secretaria de Segurança Pública, órgão que centraliza as informações sobre todas as unidades do instituto em São Paulo. Neste dia, os outros focas que tentaram entrar no IML também não obtiveram sucesso.

Como os funcionários não estavam autorizados a nos passar nenhuma informação, a única coisa que me chamou a atenção foi um cartaz pendurado numa das paredes, sobre o Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi). Deixei a carta na manga, ou melhor, anotada no caderno.

Na segunda-feira, foi impossível conseguir qualquer posição da secretaria. Os pedidos da imprensa precisam ser analisados e dificilmente são atendidos no mesmo dia. Eu procurava dados sobre o público que busca atendimento nas cinco principais unidades do IML na capital – nas zonas norte, sul, leste, oeste e centro.

Às 17h, depois de passar novamente pelo IML da zona sul e de uma tentativa frustrada de conseguir algo que rendesse matéria no da zona oeste, eu não tinha sequer uma pauta. Desde as 11h estava tentando falar com o pessoal do Cravi pelo telefone, mas ninguém atendia. Voltando de trem para o IML da zona sul, onde pelo menos havia pessoas fazendo exame de corpo de delito, consegui falar com uma assistente social, que confirmou que as unidades do instituto são um ponto de divulgação do trabalho do Cravi.

De volta à zona sul, entrevistei mais uma pessoa. Às 17h30 eu tinha uma pauta. Uma hora e meia, depois estava em casa e com mais 30 minutos escrevi um primeiro rascunho do texto. Gastei mais algum tempo para revisar, e a apenas dez minutos do deadline estabelecido enviei a matéria. Todos nós tínhamos um mundo de possibilidades, mas um prazo curto para apurar. Vivenciamos a lição do Chico: os prazos precisam ser cumpridos, pois o importante é que o jornal chegue cedo à casa do leitor.

Mariana Niederauer, de 21 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)

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08.setembro.2011 11:10:26

Contra os estereótipos

Feriado de Sete de Setembro. Uma quarta-feira ensolarada, agradável e sem chuvas em São Paulo, contrariando todas as previsões do tempo. Lindo dia para passear no Parque do Ibirapuera, certo? Melhor dizendo… Lindo dia para trabalhar no Parque do Ibirapuera, não? Foi ali que corremos atrás da nossa segunda pauta. O desafio: fazer o retrato de um personagem que estivesse no parque durante o feriado, fosse ele trabalhador ou frequentador do local.

Munida de protetor solar (sim, Cecília, segui o seu conselho), saí de casa disposta a encontrar o personagem perfeito. Mas foi só chegando ao parque que percebi como os meus olhos estavam viciados. Eu buscava o pintor de retratos, o músico, o tatuador de henna, o homem-estátua, o grafiteiro, a senhorinha meditando, o vendedor de água de coco, o guarda, o skatista, o punk, o velhinho corredor… minha cabeça estava recheada de estereótipos.

Era como se, só de olhar para a pessoa, eu magicamente já soubesse como era a vida dela e simplesmente descartasse o que eu achava que seria uma história de vida comum.  Em cinco minutos já tinha cometido dois pecados capitais sobre os quais Chico Ornellas tinha nos alertado logo no primeiro dia: preconceito e dedução.

Ingênua, achei que iria topar com um ou outro amigo foca enquanto estivesse lá, para dividir as minhas angústias, já que vira e mexe a gente se esbarrava nas andanças pelo centro da cidade no último sábado. Esqueci que em São Paulo não tem praia. Com aquele mar de gente, ficou difícil encontrar qualquer rosto familiar.

Felizmente, lembrei-me a tempo dessa máxima tão simples: para falar sobre qualquer assunto, é preciso perguntar. E para falar sobre qualquer pessoa, é preciso conversar. E muito. Acho que neste feriado fiz vários novos amigos.

Heloisa Aruth Sturm, de 29 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP)

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06.setembro.2011 17:30:42

Quem viu primeiro?

A primeira atividade prática já ocorreu no terceiro dia de curso. Isso, sábados e domingos acabam sendo considerados dias úteis para os focas. No dia 3, a proposta lançada pelo professor Luiz Carlos Ramos reuniu nós 30, da nova turma, na Praça da Sé. No lugar onde tudo começou, no marco zero da cidade, o desafio era conhecer os principais pontos turísticos do centrão paulistano e logo depois desenvolver uma pauta. Ali, na hora, de supetão! A entrega do texto ficaria para o dia seguinte.

Logo depois de juntar o grupo, às 10h de um sábado ainda frio, nas ladeiras da catedral, eis que surge diante de todos uma pauta caída do céu, ou melhor, talvez de bicicletas. O ciclista e também jornalista Elcio Thenorio estava dando partida do marco zero da Sé para uma trajetória em prol do meio ambiente. Durante 5 anos ele irá dar a volta ao mundo de bicicleta, percorrendo 90 mil quilômetros por 80 países, nos 5 continentes, reportando tudo que estiver sendo feito em favor da preservação do planeta.

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Foto: Davi Lira de Melo


Uma notícia pronta. Certa. Simbólica e reportável. Mas havia apenas uma notícia para 30 focas. A “descoberta” da matéria ficou para quem viu primeiro – o próprio Luiz Carlos. A indelicadeza de assumir a pauta para si, acredito, acabou ficando com ninguém. Optei por uma segunda opção. Mas que a notícia era bacana, isso era. No entanto, ser gentleman em jornalismo algumas vezes pressupõe dar a posse do fato a quem primeiro desbravou ou sugeriu. Isso quando as outras possibilidades de pautas são factíveis. Senão é fight: a boa e leal luta jornalística pela diferenciação de uma mesma cobertura. Seguimos.

PS: Saiba mais sobre o projeto Rodas Livres.

Davi Lira de Melo, de 26 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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Saber lidar com o inesperado é uma característica essencial aos jornalistas. E para que eu não me esquecesse disto, tive de lidar com o improviso logo de cara, no meu primeiro exercício enquanto foca. Depois de um breve passeio pelo centro de São Paulo com o jornalista e professor Luiz Carlos Ramos, tivemos de sair à caça de pautas e personagens.

Comecei, então, a caminhar sem destino, apenas com os olhos atentos e ouvidos abertos. Horas depois, me vi no tão famoso cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João. Apesar de já ter passado por ali inúmeras vezes, algo me chamou a atenção desta vez: um prédio de arquitetura clássica, aparentemente residencial, ostentava em suas janelas cartazes que diziam que ali funcionava uma academia e um sex shop. Achei curioso e resolvi entrar.

Conversei com algumas pessoas e logo descobri que a academia estava ali instalada desde o início da década de 60. Saí de lá com algumas entrevistas feitas e o telefone do atual proprietário, filho do fundador da academia. Em casa, pesquisei um pouco mais sobre o estabelecimento e descobri que havia pouquíssimas publicações a respeito. Perfeito! Ao menos até eu ligar para o tal proprietário, que, por motivos pessoais, não conseguiria me atender a tempo.

Sem uma carta na manga, passei parte da noite de sábado pesquisando uma nova pauta. Acabei me decidindo pelo Mosteiro de São Bento, que celebra aos domingos uma missa acompanhada pelo canto gregoriano de padres beneditinos. Por fim, acabou dando tudo certo. Lá, encontrei personagens que não só atendiam a minha busca, mas acabaram por tornar a matéria ainda mais rica e interessante.

Enfim, lidar com o inesperado tem sido um aprendizado constante. Muitas e muitas pautas ainda vão cair, e me desesperar em nada ajuda. O texto tem de ser entregue, o jornal tem de ser fechado, impreterivelmente. Manter o foco e ter flexibilidade em momentos como esse é fundamental.

Cristiane Nascimento, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero

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06.setembro.2011 08:47:49

Cinco sentidos

O desafio de andar pelo centro de São Paulo e achar uma história interessante, que rendesse pauta, foi algo mais difícil do que eu esperava. Na manhã do sábado todos os focas entraram nessa aventura e, para mim, a empreitada trouxe uma reflexão.

Ir para a rua sem nenhuma pauta em mente não deveria ser algo tão difícil, mas se mostrou um grande obstáculo. O ato básico de observar um ambiente em que até então nunca havia andado foi atrapalhado pela insegurança e a pressa em achar rapidamente algo interessante.

Parece que nós, jornalistas iniciantes, estamos acostumados a já sermos pautados previamente e, habituados com isso, passamos a fechar os olhos inconscientemente para outros fatos, que também podem ser interessantes. A reflexão que fica é a necessidade de treinar não apenas a técnica, mas também os cinco sentidos. Afinal, o jornalismo é uma atividade humana e a sensibilidade é uma arma poderosa para se produzir um bom trabalho.

Ciro Campos, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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05.setembro.2011 19:32:05

A primeira pauta

Os 30 focas acordaram cedo no sábado para o primeiro exercício prático: encontrar uma pauta no centro de São Paulo. Alguns com sede de redação, outros com uma certa preguiça de fim de semana, nos reunimos na Catedral da Sé para encontrar o jornalista Luiz Carlos Ramos, professor do curso e nosso guia turístico. É difícil encontrar alguém que conheça tanto a cidade quanto ele. Cada prédio era apresentado com uma explicação detalhada de datas, fatos importantes e estilo arquitetônico.

(Nota mental: sempre levar protetor solar. Mesmo com um frio absurdo, o sol de São Paulo queima. E muito.)

Depois do tour, cada um saiu para caçar uma pauta nas ruas do centro. Confesso que achei que seria mais simples, afinal com tanta gente circulando e tanta coisa acontecendo, pauta não iria faltar. Meu olhar estrangeiro pareceu me atrapalhar um pouco. Conhecer a dinâmica da cidade e perceber o que é clichê por aqui pode levar um tempo, e esta era minha principal preocupação: fugir de temas batidos.

Circulei por algumas horas pelo centro, sem muita pressa, observando as coisas, até achar ter encontrado minha pauta. Entrevistei o José, um artista de rua que conversava com “bonecas videntes” para ler a sorte das pessoas. Era um personagem excêntrico, mas pouco disposto a falar sobre si. Consegui arrancar as informações que queria, mas fui embora nem um pouco satisfeita.

Na volta para casa, vi o piano que está instalado na Estação da Sé desde março, à disposição de quem quiser tocar. Gastei mais uns minutos por ali, olhando a aglomeração que se formava. Às 13h, achei o Mario e o Paulo, dupla que se encontra todos os sábados no piano da Sé para aulas de música. Sábado era a primeira vez que Mario tocava para a família e amigos depois de cinco meses de aulas.

Pauta salva, hora de enfrentar a Linha 3-Vermelha do Metrô, que não fica vazia nem no fim de semana.

Cecília Cussioli, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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