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Em Foca

09.dezembro.2011 18:00:49

Elas, as aspas

Para fazer o caderno especial de fim de curso, no qual tínhamos pouco espaço para pôr muita informação, um dilema apareceu: como usar as aspas? Eram várias pessoas entrevistadas com histórias e análises interessantes, mas não seria possível colocar todas elas na matéria. Uma das principais dificuldades era, entre tanto material, identificar falas que merecessem estar reproduzidas no texto e se elas eram realmente importantes para aproximar o texto do leitor.

Ainda na primeira metade do curso, ao corrigir uma de minhas matérias, o jornalista Iuri Pitta fez duas observações sobre aspas. Na primeira, ele disse que não as usei para transmitir a opinião contundente de uma fonte, o que poderia trazer-me problemas se alguém entendesse que aquela opinião era do repórter. Já na segunda, Pitta avisou que eu havia dado muito espaço para aspas de quem não tinha muito para dizer, desperdiçando linhas preciosas do texto. Desde então, comecei a ficar intrigado sobre como e quando devemos usar esse recurso.

Segundo o professor Paco Sánchez, um bom texto deve ter poucas aspas. Elas nunca devem ser usadas, por exemplo, para transmitir uma fala do próprio jornalista, mesmo se estiver narrando um episódio do qual ele participou. O motivo é óbvio: assim como Pitta havia advertido, o relato do repórter já é o texto em si. As aspas, então, devem ser usadas quando estritamente necessárias, como para expressar algo mais opinativo.

Para Carla Miranda, existem situações em que um personagem ou outra fonte qualquer pode aparecer na matéria mesmo sem ter alguma fala reproduzida. Durante a correção de outra matéria minha, Carla disse que não fica estranho citarmos o nome de alguém e não transmitirmos, por meio das aspas, exatamente o que ele disse. Isso evita, inclusive, que coloquemos elementos sem importância e que não acrescentem nada na notícia.

Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal

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Clichê colossal: sempre quis ter um blog. Não só para fazer aquelas análises pretensiosas sobre temas que a gente acredita dominar, mas principalmente para exercitar a escrita. Depois das aulas do Paco Sánchez, lá no início do Curso, resolvi acreditar um pouco mais no meu estilo. Manter um blog seria uma boa forma de aprimorá-lo. Menos amarras, eu acho.

A verdade é que, há algum tempo, venho construindo um personagem que daria sentido a essa minha empreitada: Júlio Alencar, jornalista na meia-idade transbordando em amarguras. Elaborei o texto inicial, pensei em um nome sapeca e até criei um banner. Agora, me vejo em uma encruzilhada. Criar o blog ou não? A recepção ao presente post poderá me esclarecer. Portanto, caro leitor – se puder –, leia o texto abaixo e deixe as suas impressões. O Júlio e eu agradecemos.

O dia do surto e outras queixas – 1ª postagem

Tomáz segurava um copo de refrigerante quando pronunciou as seguintes palavras: “Bebida alcoólica! Jamais ousarei me acostumar com uma coisa tão desprovida de sabor”. Depois saiu, devagarzinho. Tomáz. Ele tinha tanta razão quanto alguém que prefere guaraná poderia ter, por isso continuei a entornar o meu vinho.

Fim do domingo, 23h47min. Aniversário de um companheiro de trabalho. O gosto forte do álcool em contato com as minhas glândulas palatinas – as poucas ainda em funcionamento – ajudavam a esquecer a iminência de mais uma dolorosa segunda-feira.

Entrar no estúdio e apresentar aquele jornal tinham sido atividades prazerosas em algum lugar da longínqua década passada. Hoje não mais.

A insatisfação estava assumindo dimensões paquidérmicas, beirando o abjeto. Saiba: nos últimos meses, o primeiro pensamento que me vem à mente quando eu acordo é o quanto foi estúpida aquela minha simulação de asma no exame para admissão no Exército. Há 22 anos. Tenho a impressão de que teria sido um ótimo major; o mais condescendente deles, sem dúvida, mas ainda assim um ótimo major.

Proteger territórios e fronteiras, todavia, sempre me pareceu uma atividade muito mais exaurível do que escrever textos e aparecer na televisão. Acabei, então, me tornando um jornalista (explico melhor depois). Âncora do telejornal mais assistido da cidade, salário abaixo do razoável até mesmo para um tocador de cítaras na Macedônia, liberdade de criação zero e o mesmo prestígio que um garoto de 3ª série experimenta quando tenta beijar a boca da professora gostosa de ciências e tudo o que consegue é um-leve-roçar de-lábios-no-maxilar-direito. Ah, a proporção que o embaraço pode assumir na vida de uma pessoa…

Meu nome é Júlio Alencar e além de um completo desafortunado, recentemente descobri que as entrevistas do “meu” telejornal não mais serão definidas por mim. Uma estagiária novata e de grande potencial parece ter mais tempo do que eu para “essas coisas sem importância”, assim me segredou a direção da emissora. Eles não precisam de álcool para tomar decisões equivocadas.

Quando cheguei à redação naquela segunda-feira, cumpri minha rotina de obrigações fingindo ser um amigável urso de pelúcia. Eu sou bom, acreditem. Ao entrar no estúdio, porém, e depois de ter apresentado três blocos de notícias sobre buracos de origens enfadonhamente óbvias e postos de saúde tão úteis quanto os quatro dentes sisos de um gato siamês, senti pela primeira vez na vida que o meu corpo era formado por um instável emaranhado de mitocôndrias pululantes.

Tudo o que elas desejavam naquele momento – individual e simultaneamente – era um pouco de privacidade, um pouco
mais de espaço, o que acabaria resultando na minha própria explosão, infelizmente.

Aconteceu logo depois que o entrevistado do dia respondeu de uma maneira para lá de evasiva ao meu questionamento (não era como se eu estivesse fugindo do assunto) sobre um possível aumento da pedofilia entre os usuários da internet. Aquela atitude dispersa me deixou tão perplexo que a próxima pergunta não poderia ter sido outra:

–E o senhor, já usou a internet para consumir pornografia?

Escândalo. Balbúrdia. O pessoal da redação me contou depois que eu fiz pelo menos mais umas quatro perguntas impróprias, algumas envolvendo termos da moda como ejaculação precoce e masturbação tântrica. Não me lembro. Para ser preciso, a última coisa da qual me recordo é do sorriso nos lábios de Tomáz, o câmera 3. Ele parecia bastante feliz por finalmente poder comprovar – tanto para mim quanto para si próprio – o quão destrutivas algumas doses de uísque podem ser. No final das contas, talvez tenha alguma razão. Um beijo para o meu pai, para minha mãe e para você, Tomáz.

Continua… Ou não.

Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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Foto: Mosab Omar/Reuters

Thiago Santaella arruinou a primeira aula do Paco Sánchez. Lá se vai um mês e tanto (foi ontem?) desde que o galego entrou na sala de treinamento perguntando: “O que é comunicação?”. Já que as respostas estavam tímidas (como assim, a lenda viva já chegava perguntando?), Santaella, que já tinha assistido a um curso dele, disparou: “Formar comunidade”. Era para a discussão ter evoluído antes que chegássemos a esse ponto, o Paco argumentou. Mas seguimos com a conversa, que, afinal, foi apaixonante.

Na programação do MediaOn, o primeiro debate na quarta-feira era, na verdade, exposição e sabatina de Meg Pickard, diretora de Estratégias para Mídias Sociais no grupo Guardian News & Media. Quer dizer, a responsável por um dos modelos de jornalismo participativo mais bem sucedidos do mundo. Em muitos aspectos, vários tópicos que ela abordou dialogam com o que havíamos aprendido com Paco Sánchez.

Pickard (londrina típica, sorriso fácil, empatia imediata) começou a exposição com o conceito reverso da nossa primeira aula do Paco: “Communities communicate”. Para existir uma comunidade de fato, é preciso que haja interação, comunicação. A grande sacada do Guardian, segundo a Meg, está em “encorajar e premiar essas iniciativas”. A história que ela citou foi fantástica. Em 2009, o Parlamento britânico tornou pública a prestação de contas de cada um de seus membros, em um total de 500 mil páginas em .pdf. Ou seja, o inferno na terra.

A solução encontrada pelo jornal para transformar aquilo em uma análise interessante exigiu dez dias de execução: foi o tempo que o programador precisou para criar uma ferramenta online de pesquisa. E aí o Guardian incentivou os leitores a entrar no site e pesquisar o parlamentar que eles haviam elegido. Além de ser um exercício de cidadania, os (e)leitores podiam classificar as contas do seu parlamentar como Interessantes e merecedoras de investigação, Interessantes mas já conhecidas, ou apenas informar que não havia nada de errado. Dessa forma, em menos de quatro dias, 5 mil .pdf’s foram analisados.

Mas a lição mais importante sobre esse estilo de jornalismo participativo ficou para o final. O caminho da notícia não é mais linear, e esse é o rumo que nós, jornalistas, precisamos entender. Não cabe mais na redação o profissional que bate ponto, que não pensa digitalmente – recebe a pauta, entrevista personagem e especialista, ouve os “dois lados”, publica, vai embora, e no outro dia começa tudo de novo. É imprescindível que o jornalista acompanhe a repercussão de sua matéria, e, mais que isso, se inspire pela interação com as pessoas que leem e comentam os textos.

Ao final, o que se aprende com as sensíveis aulas de texto com Paco Sánchez é magistralmente resumido pela frase apresentada por Pickard: “It’s not about those who speak, but those who act” (algo como “não importa quem fala, mas quem age”). Somos menos importantes do que as histórias que contamos. E menos importantes do que os efeitos que causam essas histórias. Aos apaixonados pelo ofício, não deveria ser necessário o conselho final de Meg, mas vale a inspiração: “Don’t light the fire and walk away” (“Nunca comece um fogo e depois vá embora”).

Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina – e tem muito mais perguntas que respostas

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Esta semana revi um espanhol. Ele veio do outro lado do Atlântico para nos mostrar que o jornalismo pode ser um pouco mais literário, um pouco mais próximo das pessoas, e muito mais como a realidade do mundo. Essa, que é múltipla e multifacetada, e tantas vezes passa despercebida diante dos nossos olhos e embaixo do nosso nariz.Tive uma semana de aulas de teoria da comunicação com o jornalista Paco Sánchez em 2009. Aproveitei um convênio da minha universidade e fui para a Galícia, na Espanha, estudar comunicación audiovisual. Escutei e aprendi, uma pequena parte do muito que nos foi ensinado nesta última semana, em que o reencontrei. Naquela oportunidade, ele nos recomendou ler este texto: “La escritura como modo de vida (Pomar)” . Não li.

Agora, criei vergonha na cara, e na segunda recomendação, li. “Há uns anos, quando me perguntavam quais qualidades deveria possuir um estudante de jornalismo, um bom jornalista ou qualquer comunicador, costumava responder – com a ênfase excessiva de quem pensa que descobriu o Mediterrâneo – algo assim: ‘Um bom comunicador não é aquele que domina umas técnicas ou habilidades mais ou menos mecânicas, e, sim, aquele que é capaz de: saber olhar, saber escutar, saber pensar e saber expressar aquilo que viu, escutou e pensou’.”

Um mês após as aulas que tive com Paco em La Corunha, fiz um mochilão pela Europa, para aproveitar o tempo que restava até a volta ao Brasil. Em Paris, após uma noite absurdamente frustrada em um hostel no Quartier Latin, fui para outro, mais afastado, mas bem melhor frequentado (e ainda era mais barato). Lá, conheci outros mochileiros, com histórias muito parecidas com a minha: universidade, ia formar muito cedo, experiência internacional, blá, blá, blá.  Conheci também três carecas. Infelizmente, não lembro seus nomes. Lembro apenas dos rostos, do tipo físico e da história deles.

Os três eram brasileiros, do interior de seus respectivos Estados (que não recordo quais eram). Ligavam todos os dias para suas famílias. Aquela coisa básica: “Tudo bem por aí? Está frio? Como está o mano(a)?”. Eu não ligava quase nunca para casa.

O maior deles lembrava o Adriano, agora um jogador fora de forma no Corinthians, dos tempos de seu auge na Inter de Milão. Os outros dois, mais baixos que eu, tinham cerca de 1,70 metro, mas uns 20 centímetros a mais em ombros. Estavam treinando há três meses na França para servir na Legião Estrangeira.

Fiquei, com meus preconceitos, um tanto boquiaberto. Eram soldados treinados que falavam pilhas de palavrões e queriam festas todos os dias, até mesmo um certo tipo de divertimento pago por hora. À parte isto, e talvez por isso, eram figuras extremamente agradáveis. Empolgados e contagiantes, em especial o grandalhão.

No meu último dia em Paris, o Adriano da Legião Estrangeira, com seus colegas, se juntou ao nosso grupo de mochileiros à mesa do bar do hostel. E começou a descer jarra atrás de jarra de cerveja. Perdi a conta e a memória de quantas foram. Todo mundo se divertiu absurdos.

No dia seguinte fui embora. Os três também partiam nesse mesmo dia, mas não nos vimos na saída do hostel nem da cidade. Escutei toda a história em janeiro 2009, e a ficha só caiu em 2011. Aqueles dias em que estavam em Paris eram suas férias do treinamento, que tinham acabado de completar. Três dias de descanso, antes de irem lutar no Afeganistão.

A esbórnia era o escape de tudo que não puderam aproveitar durante o treinamento e a vida (só passaram a receber um salário decente quando saíram do Brasil e se alistaram na França). Viveram ali, naqueles três dias, o que talvez não vivessem nunca mais, sem a certeza de que retornariam da guerra. Agora, queria lembrar seus nomes, ter algum contato, para ouvir o final da história que ainda não estava feita. Não lembro, não tenho e não posso, nem ao menos sei se eles ainda estão por aqui.

Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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Paco Sanchéz nos disse:  “O amor é o melhor exemplo de comunicação. É capaz de tudo sem nada, sem palavras. O amor multiplica a capacidade de ver”.  Concordo. Acho que uma pitada de amor no fazer jornalístico pode fazer toda a diferença.

Para mim, um dos maiores exemplos disso é Cremilda Medina, jornalista, pesquisadora e professora da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, o repórter, no exercício da reportagem, não deve ser mais do que um mediador social de discursos. Em seu livro A arte de tecer o presente (2003), Cremilda explica sua tese de doutorado intitulada Modo de ser, mo’dizer, defendida na USP em 1986. Sua teoria está fundamentada na experimentação da linguagem dialógica, na defesa do conceito de “diálogo possível”, que consiste na pesquisa teórica da entrevista como “arte do diálogo”.

Sua tese não se pautou pela cartilha ortodoxa das normas acadêmicas, mas, sim, pela experimentação prática. Para Cremilda, devemos humanizar as técnicas jornalísticas no cotidiano, principalmente quando lidamos com anônimos. Ainda de acordo com a professora, “a pedagogia de um novo jornalismo recupera o prazer e o desejo solidário de descobrir pessoas”. Na prática, ela defende que a entrevista deve atingir a fluidez do diálogo entre entrevistado e entrevistador. Quem pergunta não deve se impor através de agressividade ou autoritarismo. A interação entre os dois, repórter e fonte, deve ter como objetivo a busca da confiança recíproca para promover um verdadeiro diálogo.

Assim, e de uma forma ampla, amar é dialogar, é se interessar pelo outro e pela sua história. É também passar por cima de preconceitos e pudores para dar voz e ouvidos. Uma tarefa aplicada no dia a dia. Uma pitada que pode dar um sabor diferente e muito mais humano a um trabalho que, muitas vezes, se faz mecanizado.

Lidiane Ferreira, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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Semanas atrás, Davi postou no Facebook uma dessas piadas sobre sotaques e expressões regionais. Um exemplo destacava-se entre os vários enumerados pelo pequeno texto: “Mineiro não sente agonia, ele sente gastura”. A frase, tão trivial, me pegou sem jeito.

No meu mineirês, gastura e agonia não fazem sentido contrapostas. Sinto gastura com a unha que é roída na minha frente, o sorvete gelado que faz doer até a raiz do cabelo, a cadeira que lamenta em tons agudos o movimento durante as palestras, e o respingo da água que recebe os talheres velozes e sujos do restaurante Puras.

A agonia é mais intensa, vem do aperto no peito sem motivo, da sensação de insegurança permanente, do medo de fazer algo errado. Desde o dia 1º de setembro, quando o Curso começou, as gasturas são corriqueiras e a as agonias
duradouras. Paco Sánchez me perguntou mais de uma vez nos poucos dias que ficou conosco: “Por que sofre tanto?”. Não era sofrimento – respondi – só aflição.

Profundo sentimento, a aflição é usual, comum e natural, especialmente entre focas. Foi o que Roberto Godoy disse há algum tempo, e Alexandre Gonçalves demonstrou com sua experiência diária. Um paradoxo: saber isso foi atormentador, mas um alívio. Lembrei-me de uma definição batida da nossa profissão, que até então subjulgava, e me acalmei. Se a inquietação com o mundo faz o jornalismo melhor, acredito (e espero) que a agitação faça o mesmo pelo jornalista. Ufa.

Juliana Deodoro, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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06.outubro.2011 11:24:01

Laboratório de escrita

Os focas começaram hoje, quinta, um intensivo laboratório de escrita. Se no início do curso nos dedicamos mais às discussões de pauta e às apurações, nos últimos dias pudemos nos debruçar mais detidamente sobre o texto – melhor dizendo, sobre cada palavra. Sobre a importância do verbo, do substantivo, do adjetivo. Nesta ordem. Aprendemos a aguçar o olhar para compreender de forma mais crítica tudo o que os outros escrevem e, de tabela, o que nós mesmos escrevemos. Quem nos tem fornecido esta preciosa lupa é Paco Sánchez, diretor editorial do Grupo Voz, da Galícia (Espanha).

Em nossos encontros, assistimos entusiasmados às ideias de Paco sobre a função do jornalista: partindo do pressuposto de que comunicar é formar comunidades, o jornalista tem a importante missão de trabalhar para o bem comum, fazendo o possível para que essa comunidade seja livre. Livre, aqui, significa saber tudo o que for necessário para ter a capacidade de tomar decisões. Em última instância, trabalhar pra o bem comum é contribuir para a felicidade da comunidade a que se pertence.

Nosso trabalho, como comunicadores, é fazer com que os distintos grupos que compõem cada comunidade se conheçam e se compreendam. Devemos ser capazes de entender o mundo, o país, o local – ou seja, toda a cultura. E ele enfatiza: a cultura é um intento de dar sentido ao viver. Parafraseando Nietzsche, reforça: “O homem é capaz de suportar qualquer quê se tem um para quê“. Daí a necessidade de se ter uma formação muito especial para entender a natureza humana e, especialmente, essa nossa cultura.

Para isso, é preciso ler. “Ler muito. Ler sempre um metro de livros (deitados) por ano. Cem páginas por dia.” Nessa vida atribulada de hoje em dia, a dica dele para aproveitar o pouco tempo livre é carregar sempre um livro, para ler sempre que der. Podemos começar já, lendo alguns dos muitos textos que Paco tem nos sugerido:

- A Bíblia

- “Cartas a um jovem poeta”, de RM Rilke.

- “A arte de fazer um jornal diário”, de Ricardo Noblat

- “O homem à procura de sentido”, de Viktor Frankl

E para finalizar, um texto de Paco sobre as qualidades que todo comunicador deve ter, e que ilustra muito bem a essência do escrever: La escritura como modo de vida.

Heloisa Aruth Sturm, de 29 anos, é formada em Direito e em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP)

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Outubro será um mês complicado. O ritmo do curso começa a acelerar, nos dando uma boa ideia do que está por vir: temos um caderno para fechar em dezembro. Entre as aulas com o queridinho Paco Sánchez, as intermináveis pautas para apurar e os plantões que quero acompanhar nas redações, ainda tenho que encontrar tempo para assistir minhas queridas 14 séries que acabam de reestreiar na TV americana – e britânica.

Não. Abrir mão das séries não é uma opção. Seria a atitude mais sensata, mas eu perderia metade do meu bom humor e das minhas valiosas horas de procrastinação. Se para uma boa formação cultural é importante ler, ir ao cinema e ao teatro, televisão de qualidade é mais um item nesta lista.

É verdade, algumas das séries que assisto são puro guilty pleasure e outras já tiveram temporadas melhores. Mas existem aquelas que te fazem idolatrar os roteiristas, admirar atores e se surpreender com escolhas narrativas.

Escolhi três das minhas séries preferidas pra indicar – uma pra cada gosto. Não que isso vá fazer alguma diferença na formação de ninguém, mas com certeza renderá bons tópicos para conversar de bar – as vezes é bacana variar  o papo sobre o futebol sabe?

Parks and Recreation, da NBC (http://www.youtube.com/watch?v=jcyH-qIPKMA)

Apesar de já estar na 4ª temporada, a comédia que mostra os bastidores de uma repartição pública em uma cidade do interior dos EUA, é mais engraçada a cada ano. O grande mérito da série é fazer personagens tão hilários quanto reais. Todo mundo é meio exagerado mas ninguém sai do tom. Conseguir esse equilíbrio entre o bobo e o supercool é uma arte que não é para qualquer um. Anotem aí: ela ainda irá conquistar o posto que hoje é de Modern Family.

Breaking Bad, da AMC (http://www.youtube.com/watch?v=2LOzMtI6RCM)

Walter White é um professor de química, seu filho adolescente tem paralisia cerebral, sua mulher está grávida e como o salário não é o suficiente, Walter trabalha em um lava rápido. Para aumentar a renda, o professor decide fabricar e vender metanfetamina. Com linguagem inovadora, ângulos de câmera geniais e desenvolvimento lento, somos levados em uma narrativa de bons diálogos, atuações impecáveis e situações inesperadas.

O que você está fazendo que ainda não vê Breaking Bad?

Sherlock, da BBC (http://www.youtube.com/watch?v=cSQq_bC5kIw)

O famoso morador da 211B Baker Street ganha releitura moderna e um roteiro impecável de Steven Moffat, o maior gênio da TV inglesa (assistam tudo que tiver a assinatura dele). Em uma série madura, com acidez típica inglesa, o exelente Benedict Cumberbatch da vida ao jovem detetive impetuoso, arrogante e imperfeito, assim como a criação original de Arthur Conan Doyle. Muito melhor que outras versões cinematográficas, a série só tem três episódios, cada um de 1h30; e a próxima temporada está prometida para este ano.

PS. Não é seriado, é jornal. Mas se eu fosse obrigada, trocava todas as séries que assisto pelo The Daily Show with Jon Stewart, programa obrigatório no meu dia.

Cecília Cussioli, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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Está muito claro que o Curso Estado gosta de provocar os focas. Somos desafiados a duvidar de opiniões formadas, a discutir o que pensamos sobre o jornalismo e jornalistas, e também a por nossas habilidades em perspectiva. Isto acontece de muitas maneiras.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, por exemplo, foi incansável na tentativa de mostrar que ás vezes nossas opiniões podem ser apenas simples reproduções de alguma corrente de pensamento. Suas aulas sobre religião, ciência e ética nos fizeram meditar sobre aborto, relativismo cultural, preconceito, ateísmo e outros temas “simples” assim. O mundo se tornou um lugar mais complicado depois dos encontros com ele.

O que é ótimo. Como afirmou o professor espanhol Paco Sánchez, “Humildade é a virtude básica do jornalista”. Outro bom instigador, ele acredita que o repórter deve deixar a arrogância de lado e tentar enxergar as pessoas da forma como elas se enxergam.  Só assim entenderá melhor a sociedade e a natureza humana. Munido dessa compreensão, poderá, enfim, realizar um trabalho verdadeiramente relevante.

E, claro, com aquele texto perfeito, que o talento natural e os quatro anos de faculdade nos deram. Ou não? A jornalista Carla Miranda corrige nossas matérias e aponta o quanto insistimos em usar lugares-comuns, construções preguiçosas, clichês, obviedades, chavões. Todos os textos são projetados para a turma e os defeitos vistos em cada excruciante detalhe.

No final das contas essas provocações me fazem dar um passo à frente: pelo menos sou um jornalista que “sabe que nada sabe”.

Guilherme Fujimoto, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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A soma das palavras constrói as notícias. Usamos o abstrato para falar sobre o concreto, o que estava lá, o que aconteceu. O difícil processo de escolha das palavras define a informação a ser transmitida ao leitor. Um bom texto passou por esta rigorosa seleção em cada frase e guia a leitura naturalmente, como se os olhos navegassem sobre o papel.

Na definição de Chico Ornellas, coordenador do curso, não podemos escrever no jornal o que não diríamos para o nosso namorado ou namorada. O texto deve ter simplicidade e ritmo. Para começar, elimine os “quês”. Muitas vezes eles podem ser substituídos por um novo sujeito ou formar uma frase com outro tempo verbal. Depois, reavalie os “és”. Recomenda-se usar verbos mais ricos e informativos.

Carla Miranda, editora do suplemento Viagem e do caderno dos focas, faz outra orientação: evite as metáforas nos objetos inanimados. O sofá da sala não “recebe” os visitantes, assim como as árvores do quintal não “observam” a quem chega.

De Paco Sánchez, a última dica deste post: não existem sinônimos. Cada palavra tem um significado único e uma razão fundamental de estar ali. Ao tentar descobrir o valor de cada uma, com a humildade de quem ainda sabe pouco, os focas aperfeiçoam a sua escrita. O objetivo é que, um dia, nossas palavras fluam tão naturalmente, que nosso texto, mesmo sem refrão e rimas, toque ao leitor como uma música.

Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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