Jornalistas que conquistaram suas baias próprias na redação da Agência Estado. Foto: Thiago Queiroz/AE
O mercado jornalístico é selvagem e muitas vezes nós só percebemos essa realidade quando tentamos nos inserir no mercado, lá pelo segundo, terceiro ano de faculdade. É aí que vemos que o salário da categoria é realmente baixo, a carga horária é realmente extenuante e que tem um monte de gente que realmente quer sofrer nas redações e que concorre com você.
Mas se você curte mesmo o texto, só escrever, sem correr o risco de passar 12h em uma redação, trabalhar como frila pode ser uma boa. Trabalhar de casa exige uma dedicação enorme, mas compensa se pensarmos em organizar nossos dias de acordo com os horários em que estamos mais dispostos, em que o clima está mais gostoso, enfim, fazer pelo menos o tempo do nosso jeito. Outra grande vantagem é poder ver seu trabalho vinculado em mais de um veículo. Às vezes de uma vez, às vezes de vez em nunca. Mas é uma possibilidade bem legal.
Ontem um amigo me consultou sobre um frila que está fazendo. Queria saber se negociou o valor justo, uma dúvida frequente para todos que não tem intimidade com esse mundo paralelo às redações, e que muitas vezes salva edições inteiras. Como saber se o preço está bom?
Perguntei para Amanda Polato, amiga e ex-foca que eu sei que entende desse mundo. Quando ela saiu do curso em 2008, fez muito frila antes de conquistar sua baia própria na redação. A dica da Amanda é boa e prática: usar as tabelas das organizações de jornalistas. As tabelas são objetivas e se os iniciantes nesse ramo cobrar com base nelas, a negociação fica séria, e o contratante respeita o frila.
Depois do post da Romina, que mostra onde conseguir trabalho, pensei em fazer este post simples, pra ajudar os frilas de primeira viagem a não serem explorados. A desvantagem dessa forma de trabalhar é que não há estabilidade, nem a garantia de um salário no fim do mês. O mínimo que se espera é ganhar o justo.
Amanda diz que “na maioria das vezes, são as empresas que oferecem o valor e você aceita ou tenta negociar. Quanto a pauta é de emergência, às vezes até oferecem um pouco mais”. Pra mim, o importante mesmo é saber negociar.
Além da tabela do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo que a ela me mostrou, também achei a da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais, confiável. Vocês conhecem mais tabelas boas, confiáveis para ajudar os que desejam iniciar agora a carreira de frila? A simples organização de preços é uma forma de ajudar a valorizar o nosso mercado.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Senadores votam no PLC 41/2010, a Lei de Acesso a Informações. Foto: Beto Barata/AE – 25/10/2011
O Senado aprovou a Lei de Acesso a Informações Públicas no dia 25 de outubro. A lei, como já diz o nome, dá direito ao cidadão de pedir informações públicas, em geral documentos documentos, para qualquer órgão público, seja ele municipal, estadual ou federal. A nova legislação estabelece um prazo máximo de vinte dias para que os órgãos respondam e esse prazo pode ser prorrogado por mais dez dias, desde que o órgão apresente motivos legais para o adiamento.
Além de regulamentar o acesso, a lei também cria categorias de sigilo para os documentos cujo segredo é considerado essencial, que variam entre ultrassecreto (guardados por 25 anos), – secreto (15 anos) e reservado (5 anos). A lei é sem dúvida grande avanço, mas a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) considera que há pontos “obscuros”, que ainda precisam de regulamentação específica.
Os senadores aprovaram a lei sem mexer essencialmente no texto que passou pela Câmara e agora só falta a presidente Dilma sancionar o texto para que os jornalistas ganhem um instrumento de trabalho nunca antes visto na história deste País. No Senado, os grandes opositores à lei foram Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-MA). É, amigos, reflitam.
Sarney e Collor foram os grandes opositores da Lei. Collor queria o sigilo de documentos pudesse ser prorrogado por 25 anos, e que alguns ficassem secretos para sempre Foto.: José Cruz/Abr – 25/10/2011
Jornalista é um bicho esquisito, acha que os problemas mortais não lhe atingem. Como se a mais venal das profissões estivesse distante dos pecadilhos humanos. O preconceito, meus amigos, está sim entre nós.
Longe de pregar uma vigília, mas é preciso um exercício diário de autocrítica, de pensar sobre o que a gente pensa, assim, bem redundante, se isso nos atrapalha como profissionais.
Precisamos chegar como uma folha em branco, abertos às pessoas, aos lugares, aos instantes. Afinal, elas são nosso principal instrumento de trabalho. Ideias pré-formatadas, rótulos e conceitos engessados atrapalham demais.
Tenho a doce ilusão de que se despir de preconceitos é possível. Haja fôlego.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Caro leitor, se você não é familiarizado com os jargões jornalísticos, eis aqui mais um para o seu dicionário: a pauta.
Para o Houaiss, pautar pode ser seis coisas diferentes, sendo o quarto significado “programar (determinado assunto) para uma edição de jornal, revista, programa de rádio ou televisão etc” e “detalhar (o assunto programado), quanto aos aspectos que deverão ser focalizados”.
Sim, a pauta é o “tema” da matéria, se foi isso que você pensou inicialmente. Nas redações, o pauteiro e o chefe de reportagem, normalmente, são os responsáveis por decidir as pautas e distribuir entre os repórteres as pautas da edição a ser produzida. São eles que decidem a sorte do repórter, definindo se ele irá cobrir a movimentação de um festival de jazz num dia de sol no Ibirapuera ou se fará uma cobertura in loco dos pontos de alagamento da zona oeste da cidade, numa tarde de chuva, às 18h.
Nesta dinâmica, como pode, então, um repórter virar dono do seu próprio destino? Trazendo de casa, junto com todo o seu repertório, uma pauta boa, digna, mas acima de tudo, factível.
Se você ainda tem dúvidas sobre essa dinâmica, pode dar uma olhada no site do The Guardian. O jornal inglês The Guardian abriu a pauta do dia para os leitores, [http://www.guardian.co.uk/help/insideguardian/2011/oct/10/guardian-newslist] o que significa que você pode acompanhar os assuntos que estão sendo produzidos para a edição de amanhã, e ver quem está fazendo o quê.
Para nós, focas, a pauta é sinônimo de desespero. Ainda sem os melindres da redação, poucas vezes temos uma ideia pronta para uma matéria, o que resulta numa perspectiva de realidade nada animadora, de coberturas nada agradáveis, das pautas que ninguém quer pode fazer, afinal, estão todos ocupados com as pautas que eles mesmos sugeriram e pré-apuraram.
Os focas estão desesperados, ficamos loucos atrás de pautas e, agora, estamos loucos atrás de fontes, dados, estatísticas, tudo para construí-las. Pais, amigos, namorados, estamos bem, estamos vivos, neste mundo paralelo chamado apuração.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Quais foram os textos mais populares deste blog no mês de setembro?
Chegamos à segunda semana de outubro, então já podemos contar, com justiça, o número de retweets e recomendações no Facebook dos posts dessas duas primeiras rodadas. São eles:
1º) Um pouco de amor em São Paulo, de Luiza Calegari
A crônica com personagens da cidade teve 89 recomendações no Facebook e um solitário tweet. Marca 90 pontos na nossa audiência.
2º) A eterna síndrome de Clark Kent, de Gabriela Forlin
O primeiro e mais famoso super-herói do mundo decidiu ser jornalista. E é sobre a ambição de salvar o mundo que a Gabriela escreveu, sendo recomendada por 47 pessoas no Facebook e mais meia dúzia no Twitter. 53 pontos.
3º) A preparação diária para um bom jornalismo, de Natália Peixoto
36 recomendações no Facebook e 11 tweets somam 47 pontos. Natália parte do fato de que alunos de Engenharia escrevem melhor que os de Jornalismo.
4º) Elegância à mesa, de Talita Matias
Os twitteiros adoraram as dicas de Talita sobre modos à mesa e marketing pessoal. 44 tweets, apesar de não ter ainda repercutido no Facebook.
5º) 10 dicas infalíveis para futuros focas, de Davi Lira de Melo
Todos os anos, quase duas mil pessoas disputam as 30 vagas do Curso Estado de Jornalismo. Quarenta e duas pessoas – 36 no Facebook e 7 no Twitter – compartilharam as dicas do Davi para competir na prova.
Frederico “Cedê” Silva, de 25 anos, é repórter do Estadão.edu e foi foca em 2010
Dezenas de jornalistas correm pela mesma notícia. Preparação é o diferencial. Foto: Agência Brasil
Na semana passada, o Comunique-se publicou que “os estudantes de Comunicação Social têm pior desempenho na escrita do que os universitários da área de exatas, como Engenharia, por exemplo. No estudo, os engenheiros obtiveram a melhor avaliação e 87,5% conseguiram passar no teste”, enquanto 65,3% dos alunos de Comunicação foram reprovados.
Como assim essa galera de Exatas escreve melhor que a gente?
Ao longo da matéria, percebe-se que o que é avaliado é gramática, não a escrita em si. Em janeiro deste ano, “dez mil candidatos a vagas de estágio realizaram um ditado de 30 palavras, que permitia até seis erros. Dentre as palavras avaliadas estavam: desajeitado, autorizar, exceção, seiscentos e anexo.”
Acho grave um estudante de Publicidade não saber escrever anexo. E em pior situação está um estudante de RP que desconhece a grafia de autorizar. E é triste ver um jornalista escrever em seu bloquinho que seu entrevistado é uma “excessão”.
Apesar do drama, não acho que isso seja a doença, mas um sintoma.
Os estudantes de Jornalismo, em geral, esperam que a universidade dê o pacote completo. A maioria espera sair expert em redação, anseiam felizes e satisfeitos que seus professores cuspam os leads dos melhores livros, e que isso seja o suficiente para formar toda sua bagagem teórica. Não vão além do arroz e feijão da academia.
É sempre um exercício interessante perguntar para pessoas diferentes, da mesma turma da faculdade, o que cada uma achou do curso. As respostas vão de “péssimo” a “fascinante”. Pergunto: quem está errado? Ninguém.
É o jornalista que faz a faculdade, é o foca que faz o curso. São as suas referências pessoais que determinam a quantidade e a qualidade das informações que você retém das aulas e da redação. Na nossa profissão, tem que ler e estudar, sim e sempre. E na 22ª turma de focas, há 30 cursos em andamento. Cada um aprende o que quer, o que consegue.
O diferencial do bom jornalista é ele perceber que para ser um bom profissional, ele dever ser, no mínimo, um ser humano interessante. Tem que ter a pegada com informação, tem que ir além do preto-no-branco. Jornalista bom não pode acreditar em tudo, muito menos de primeira. É preciso investigar, debulhar dados, ser insatisfeito, ser “humilde sem ser subserviente”, como se diz aqui no Curso. Jornalista bom segue o ditado que o repórter especial Lourival Sant’Anna ensinou para os focas: “A sua mãe diz que te ama? Cheque”.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Foto: Henry Romero/Reuters
Nós, jornalistas, temos um quê mórbido em nossas alegrias. Gostamos do torto, do errado, torcemos para que as tragédias nos encontrem e que o sossego não nos alcance, não durante o expediente.
Pode parecer um tanto quanto sádico, mas, juro, é puro profissionalismo. Uma mistura de pressão do patrão com a gana de informar o mundo do que acontece em cada esquina, em todos os hospitais, delegacias e assembleias legislativas.
Sofremos com você, querido leitor. Nós, focas, sofremos ainda mais. Agarramos o jornalismo por pura paixão e ainda queremos fazer bem feito, apesar dos deadlines assustadores e das pautas, digamos, diferenciadas.
Escolhemos “a melhor profissão do mundo”, disse o mestre Gabriel García Márquez. E se o gênio colombiano, escritor das vilas encantadas e dos personagens de almas fundas, não evita o clichê, quem sou eu para fazer o contrário?
“Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar diante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta de imprevistos da vida não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso não pode nem sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.”
- Gabriel García Márquez, no discurso “A melhor profissão do mundo“
Natália Peixoto Rodrigues, 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
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