ir para o conteúdo
 • 

Em Foca

É feriado, mas não para os focas do Estadão. Se o fosse, eu com certeza estaria “passeando ociosamente” em busca da observação de novos ângulos da maior cidade do país. Trocando em miúdos, gosto muito de “flanar” quando estou numa cidade diferente da minha e, portanto, estranha para o forasteiro que a ela chega. O que primeiro gosto de fazer ao desembarcar num lugar novo é me aventurar por suas ruas, praças, paisagens belas ou não.
.
Flanar é algo muito jornalístico. Sempre ouvimos dizer que muitas pautas estão logo ali, numa fachada, numa esquina, num beco qualquer, clamando por um olhar atento que as dê voz e vez. Confesso que ainda não tenho esse olhar de gavião dos jornalistas mais experientes, mas sigo em busca de adquirir tal capacidade.
.
Minha especial afeição por artefatos antigos, repletos de histórias para contar, tem me levado a visitar museus e igrejas paulistanos. Em cada fim de semana, sempre que sobra um tempo, lá estou eu explorando, por horas a fio, esses verdadeiros templos de contemplação do que o trabalho e esforço humanos foram capazes.
.
Essa minha prática de sair por aí, andando sem rumo, começou em Viçosa. Depois, aprimorei-a em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Agora, faço isso em São Paulo. Quais serão os próximos destinos pelos quais vou flanar nas horas vagas? Aguardemos.
.
Mateus dos Santos, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)

1 Comentário | comente

06.outubro.2011 16:30:46

Primeira(s) vez(es)

Entrar em um cemitério pela primeira vez não é agradável. Acho que nem pela segunda ou terceira. Visitar uma delegacia não costuma ser passeio turístico. Como Foca 02, fui obrigada a conhecer estes dois lugares, que até então faziam parte só do meu imaginário. Nos meus pensamentos, os cemitérios eram mais tristes e as delegacias mais movimentadas. Mas o deslumbre de entrar em qualquer desses locais pela primeira vez não teve espaço no momento: havia ido em busca de pautas.

Outras primeiras vezes vieram no último mês, como consequência do meu estado de foca. Há uma semana, pela primeira vez, alguém projetava meu texto em um telão apontando cuidadosamente cada erro cometido para uma plateia de 29 pessoas. Dias depois, vi algo (bem pequeno, é verdade) escrito por mim ser impresso, pela primeira vez, nas páginas do jornal. Pela primeira vez, minha família prestou atenção deveras nas breves que ficam escondidas no canto da página do primeiro caderno, sem assinatura.

Entendi, pela primeira vez, a quantas é disputado o espaço no jornal. Pelos anunciantes, pelas editorias, pelos repórteres – entre um grupo e outro, e internamente. Percebi que não é ruim para um repórter (de plantão em um domingo à noite) se um correspondente não enviar o texto a tempo do fechamento. Graças ao desencontro entre o envio da matéria feita pelo colaborador e o horário do jornal, eu, pela primeira vez, ajudei a fazer o abre de uma página. Trabalhei feliz em um domingo à noite, pela primeira vez.

Pela primeira vez, em toda a minha vida paulistana – que é toda a minha vida -, fui a uma sequência de lugares-chave da cidade em um período tão curto: Praça da Sé, Anhangabaú, Parque do Ibirapuera, Câmara Municipal, Rua Augusta, delegacias, cemitérios variados.

Quantas mais primeiras vezes os próximos dois meses me proporcionarão? O verdadeiro sabor das últimas semanas foi descobrir lugares, sensações, pessoas, pela primeira vez, e de novo. Dentro ou fora do prédio do Grupo Estado, mas sempre motivada pela condição de foca que, espero, dure para a vida toda.

Deixo a pergunta para os demais focas (os outros 29 atuais e os de turmas anteriores): o que viveram pela primeira vez enquanto focas?

Beatriz Bulla, de 21 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero

comentários (3) | comente

Que jornalista deve mais ouvir do que falar, todos já sabem. Mas esse imperativo não vale somente para quando estamos diante de nossas fontes de informação; ele vale também para os momentos vividos nas redações jornalísticas, conforme têm feito os focas do Curso Estado.
.
Como tive pouca coisa para fazer em minha primeira semana atuando nas redações do Grupo Estado, aproveitei para observar as relações entre repórteres e fontes, bem como entre repórteres, editores, fechadores e diagramadores da editoria de Cidades/Metrópole do Estadão.
.
Aprendi a reconduzir ao assunto principal fontes que fazem rodeios e acabam se desviando daquilo que o repórter pretende. Em outra ocasião, prestei atenção às orientações que o chefe de reportagem dava à equipe de editores, na reunião diária das 15h, a respeito do enfoque que cada matéria deveria ter.
.
O momento mais intenso, porém, foi quando chegou à redação a notícia de que um menino de 10 anos havia atirado em sua professora e em seguida se matado em uma escola de São Caetano do Sul. Foi muito interessante acompanhar a correria de parte da equipe de Metrópole/Cidades no fim da tarde do último dia 22. Enquanto repórteres do Estadão, do JT e da Rádio Estadão ESPN iam para o local do fato, na redação uma repórter entrevistava, por telefone, uma psicóloga e professores, pedindo que analisassem a atitude do aluno. Outro pesquisava, no arquivo online do jornal, o massacre de Realengo, ocorrido no dia 7 de abril no Rio de Janeiro, para relacioná-lo ao caso do ABC. Editores do caderno acompanhavam, pela TV, a cobertura ao vivo da tragédia.
.
Do início ao fim da faculdade de Jornalismo, sempre ouvi dos professores mais experientes que aprenderíamos a ser jornalistas, de fato, ao vivenciarmos a rotina diária das redações, e isso é mesmo verdade. Durante a graduação, temos dias e, às vezes, até semanas para apurar e redigir uma reportagem. Depois de formados, esse prazo diminui para apenas algumas horas ou minutos. As lições ensinadas aos focas pelas redações são muitas e indispensáveis para a formação de bons jornalistas.
.
Mateus dos Santos, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade 
Federal de Viçosa (UFV)

sem comentários | comente

19.setembro.2011 23:30:42

Que privilégio

Na última quinta-feira, os jornalistas do Estadão Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise falaram de um tema que desperta a atenção de muitos de nós, focas. A insegurança na hora de apurar, iniciar uma conversa na rua e entrevistar personagens é uma situação comum entre todos os jornalistas – como bem descreveu o foca Thiago Lasco no post Medo da Rua.

Vitor Hugo também mencionou que, apesar do temor inicial, a insegurança da entrevista e da abordagem passa logo na segunda pergunta. Quando o entrevistado começa a falar de sua vida, e a mostrar uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, a insegurança dá lugar a uma sensação curiosa que mistura orgulho e sensibilidade. “Muitas vezes saio das entrevistas pensando: ‘Que privilégio conhecer esta história’”, disse.

Não é por arrogância ou por achar que o jornalista é um espectador privilegiado dos fatos. Pelo contrário, é até uma demonstração de humildade reconhecer as tantas outras histórias de vida, movimentos e situações inusitadas, atitudes e pensamentos importantes que não imaginávamos existirem e que passamos a descobrir no exercício da profissão.

Nesta curta trajetória de foca, já pude vivenciar tal sensação. Na pauta trabalhada na última semana, sobre cemitérios da capital, conheci Marina Ribeiro, uma senhora de 63 anos que trabalha de domingo a domingo em Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. Viúva, ela começou a atividade de jardineira há 13 anos. Realizando a manutenção de 30 jazigos e túmulos do cemitério. Por três anos, esta foi sua única fonte de renda, até conseguir receber a pensão do marido, também jardineiro. Em uma curta conversa ela dividiu, com sabedoria e sensibilidade, sua impressionante história de vida – da vida de retirante do interior do Ceará, do tempo em que passou fome e dificuldades em São Paulo, até a conquista de sua casa própria e as dificuldades para mantê-la.

Sem dúvida, foi um privilégio ouvi-la naquele momento, para questionar aquilo que eu, recém-chegado a São Paulo, poderia chamar de dúvida, dificuldade e insegurança. A oportunidade de conhecer boas histórias em personagens simples é a melhor forma de incentivo para vencer as resistências iniciais à apuração, às entrevistas e ao trabalho de campo. Às vezes, jornalisticamente, uma entrevista não nos rende o esperado. Mas há sempre um ganho ali, nem que seja para ampliar a visão que temos (e que incorporamos às matérias) sobre a realidade à nossa volta.

Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

sem comentários | comente

16.setembro.2011 23:20:22

E a rebarba?

“A melhor matéria é a em que sobram informações”, nos lembrou na manhã de quinta-feira Edison Veiga, repórter do caderno Metrópole. Para as três matérias já realizadas pelos 30 focas neste curso, imagino as histórias ou declarações que meus colegas, a muito custo, tiveram de retirar dos seus textos para cumprir a meta das 30 linhas, Times New Roman, corpo 13, para nosso alívio.

Acabei deixando de fora a história de um migrante da Paraíba, conterrâneo da personagem escolhida para o meu perfil no Parque do Ibirapuera, o Coco. Um senhor simpático e monossilábico que o tempo todo me indicava outras pessoas que ele considerava mais interessantes que ele. Tinha vendido cinco cocos no feriado do Sete de Setembro. E olha que seu Estado estava com moral. “Só compro coco da Paraíba, que é mais doce, se não os fregueses não gostam”, me contou outra ambulante no parque. Ela vende mais de cem nos feriados e fins de semana.

Também não consegui encaixar algumas das declarações polêmicas de um delegado em plantão no domingo. Despreocupado, afirmou que “o melhor período para trabalhar foi a ditadura, mas depois o poder corrompeu”. E tentou me convencer que “você não entrega o seu trabalho para a concorrência”, sobre a integração das polícias civil, militar e a guarda municipal.

À primeira vista, pode parecer frustrante deixar estas informações para trás. Mas o que sobra de uma entrevista nunca é desperdiçado. Ao cortarmos, ganhamos concisão e clareza porque ali só estará o que encontramos de melhor. E o que resta não são sobras, são possibilidades. Aproveite-as em outro momento. Por ora, coloque aquilo que você não usou em sua gaveta de boas ideias.

Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

1 Comentário | comente

16.setembro.2011 22:00:31

A gaveta das boas ideias

Todo mundo já quis ser um pouquinho Gay Talese. Entramos na faculdade pensando em um futuro recheado de boas histórias, perfis memoráveis e, quem sabe, até um livro com nosso nome em auto-relevo estampado na capa. (Tive um professor na faculdade que dizia que essa denominação “jornalismo literário” é, na verdade, a busca pela eternidade do livro. Nem nós mesmos acreditamos no nosso trabalho. Mas isso aí é discussão para outro momento). Os períodos vão passando, a vida adulta começa a tomar forma, temos os primeiros contatos com o jornalismo da vida e concluímos: “É, não dá para ser Gay Talese.”

De fato, Gay Talese(s) não se formam aos montes. Muito menos em quatro anos. A gente sabe disso. Só queria ser um pouquinho como ele, Tom Wolfe, Trumam Capote – 0,01% já estava bom. “Mas também não existe espaço para isso nos jornais atuais” – ouvimos isso, repetimos para quem quiser ouvir (e para nós mesmo) e vamos montando nossas pirâmides invertidas diárias.

A conversa com os jornalistas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, ambos do caderno Metrópole, me fez lembrar que ainda existem vozes que pronunciam frases diferentes na mesmice “mas não existe espaço!”. Os dois contaram para os focas que, se você acredita e batalha por uma ideia, existe espaço, sim. É claro que não dá para ficar meses e meses escrevendo um perfil para ser publicado “na edição da primeira quarta-feira de novembro”. Se existe alguma coisa noticiosa para dar gancho à matéria, por que não? É só correr atrás, convencer o editor e compartilhar com o leitor a sua boa ideia.

Talita Duvanel, de 24 anos, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

comentários (2) | comente

Achar pautas a partir de assuntos batidos não é fácil. Entre os focas, um assunto foi onipresente nesta segunda-feira: como achar uma matéria legal sobre um tema conhecido? O debate me fez lembrar minha curta experiência em jornalismo econômico. “Os assuntos se repetem e o desafio constante é trazer sempre uma nova abordagem, que faça o leitor querer ler algo que já foi escrito”, já diria o editor. Aliás, “sua excelência, o leitor”, nos avisou o coordenador do curso, Chico Ornellas.

A experiência de achar pautas no IML, delegacias de polícia, cemitérios, na Rua Augusta e na 25 de Março é uma amostra disso. Uma realidade com a qual teremos que nos confrontar muitas vezes, em um futuro que pode não estar tão distante assim. Eu mesmo me pego reclamando muitas vezes.

Desistir é sempre uma possibilidade. “Alguém quer?”. Já saímos de nossas zonas de conforto e ninguém disse que ia ser fácil. A solução? Vá para a rua, repórter! E que Deus abençoe a arte de sujar os sapatos.

Leonardo Berns Gorges, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

1 Comentário | comente

Comentários recentes

  • danielli: uau! adorei texto, e ainda mais achei o Lucas De Abreu Maia muito lindo e muito forte por nunca desistir
  • Isabella: Algumas pessoas nem se prepara, pensam que Jornalismo é aquela coisa, você escreve ganha dinheiro ou até...
  • Davi Lira: Excelente post para resumir a história da 22ª turma. Tá tudo aí: nas imagens, vídeos, no perfil e...
  • José Gabriel Navarro: “Agora, vamos. Aonde? Embora. Embora não saibamos aonde, vamos.” — Lindo,...
  • Thiago Lasco: Mandou bem, Betti. Vamos ver quem vai se aventurar a reunir a trajetória da nossa turma em dezembro de...

Arquivo