Entrar em um cemitério pela primeira vez não é agradável. Acho que nem pela segunda ou terceira. Visitar uma delegacia não costuma ser passeio turístico. Como Foca 02, fui obrigada a conhecer estes dois lugares, que até então faziam parte só do meu imaginário. Nos meus pensamentos, os cemitérios eram mais tristes e as delegacias mais movimentadas. Mas o deslumbre de entrar em qualquer desses locais pela primeira vez não teve espaço no momento: havia ido em busca de pautas.
Outras primeiras vezes vieram no último mês, como consequência do meu estado de foca. Há uma semana, pela primeira vez, alguém projetava meu texto em um telão apontando cuidadosamente cada erro cometido para uma plateia de 29 pessoas. Dias depois, vi algo (bem pequeno, é verdade) escrito por mim ser impresso, pela primeira vez, nas páginas do jornal. Pela primeira vez, minha família prestou atenção deveras nas breves que ficam escondidas no canto da página do primeiro caderno, sem assinatura.
Entendi, pela primeira vez, a quantas é disputado o espaço no jornal. Pelos anunciantes, pelas editorias, pelos repórteres – entre um grupo e outro, e internamente. Percebi que não é ruim para um repórter (de plantão em um domingo à noite) se um correspondente não enviar o texto a tempo do fechamento. Graças ao desencontro entre o envio da matéria feita pelo colaborador e o horário do jornal, eu, pela primeira vez, ajudei a fazer o abre de uma página. Trabalhei feliz em um domingo à noite, pela primeira vez.
Pela primeira vez, em toda a minha vida paulistana – que é toda a minha vida -, fui a uma sequência de lugares-chave da cidade em um período tão curto: Praça da Sé, Anhangabaú, Parque do Ibirapuera, Câmara Municipal, Rua Augusta, delegacias, cemitérios variados.
Quantas mais primeiras vezes os próximos dois meses me proporcionarão? O verdadeiro sabor das últimas semanas foi descobrir lugares, sensações, pessoas, pela primeira vez, e de novo. Dentro ou fora do prédio do Grupo Estado, mas sempre motivada pela condição de foca que, espero, dure para a vida toda.
Deixo a pergunta para os demais focas (os outros 29 atuais e os de turmas anteriores): o que viveram pela primeira vez enquanto focas?
Beatriz Bulla, de 21 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero
Na última quinta-feira, os jornalistas do Estadão Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise falaram de um tema que desperta a atenção de muitos de nós, focas. A insegurança na hora de apurar, iniciar uma conversa na rua e entrevistar personagens é uma situação comum entre todos os jornalistas – como bem descreveu o foca Thiago Lasco no post Medo da Rua.
Vitor Hugo também mencionou que, apesar do temor inicial, a insegurança da entrevista e da abordagem passa logo na segunda pergunta. Quando o entrevistado começa a falar de sua vida, e a mostrar uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, a insegurança dá lugar a uma sensação curiosa que mistura orgulho e sensibilidade. “Muitas vezes saio das entrevistas pensando: ‘Que privilégio conhecer esta história’”, disse.
Não é por arrogância ou por achar que o jornalista é um espectador privilegiado dos fatos. Pelo contrário, é até uma demonstração de humildade reconhecer as tantas outras histórias de vida, movimentos e situações inusitadas, atitudes e pensamentos importantes que não imaginávamos existirem e que passamos a descobrir no exercício da profissão.
Nesta curta trajetória de foca, já pude vivenciar tal sensação. Na pauta trabalhada na última semana, sobre cemitérios da capital, conheci Marina Ribeiro, uma senhora de 63 anos que trabalha de domingo a domingo em Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. Viúva, ela começou a atividade de jardineira há 13 anos. Realizando a manutenção de 30 jazigos e túmulos do cemitério. Por três anos, esta foi sua única fonte de renda, até conseguir receber a pensão do marido, também jardineiro. Em uma curta conversa ela dividiu, com sabedoria e sensibilidade, sua impressionante história de vida – da vida de retirante do interior do Ceará, do tempo em que passou fome e dificuldades em São Paulo, até a conquista de sua casa própria e as dificuldades para mantê-la.
Sem dúvida, foi um privilégio ouvi-la naquele momento, para questionar aquilo que eu, recém-chegado a São Paulo, poderia chamar de dúvida, dificuldade e insegurança. A oportunidade de conhecer boas histórias em personagens simples é a melhor forma de incentivo para vencer as resistências iniciais à apuração, às entrevistas e ao trabalho de campo. Às vezes, jornalisticamente, uma entrevista não nos rende o esperado. Mas há sempre um ganho ali, nem que seja para ampliar a visão que temos (e que incorporamos às matérias) sobre a realidade à nossa volta.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
“A melhor matéria é a em que sobram informações”, nos lembrou na manhã de quinta-feira Edison Veiga, repórter do caderno Metrópole. Para as três matérias já realizadas pelos 30 focas neste curso, imagino as histórias ou declarações que meus colegas, a muito custo, tiveram de retirar dos seus textos para cumprir a meta das 30 linhas, Times New Roman, corpo 13, para nosso alívio.
Acabei deixando de fora a história de um migrante da Paraíba, conterrâneo da personagem escolhida para o meu perfil no Parque do Ibirapuera, o Coco. Um senhor simpático e monossilábico que o tempo todo me indicava outras pessoas que ele considerava mais interessantes que ele. Tinha vendido cinco cocos no feriado do Sete de Setembro. E olha que seu Estado estava com moral. “Só compro coco da Paraíba, que é mais doce, se não os fregueses não gostam”, me contou outra ambulante no parque. Ela vende mais de cem nos feriados e fins de semana.
Também não consegui encaixar algumas das declarações polêmicas de um delegado em plantão no domingo. Despreocupado, afirmou que “o melhor período para trabalhar foi a ditadura, mas depois o poder corrompeu”. E tentou me convencer que “você não entrega o seu trabalho para a concorrência”, sobre a integração das polícias civil, militar e a guarda municipal.
À primeira vista, pode parecer frustrante deixar estas informações para trás. Mas o que sobra de uma entrevista nunca é desperdiçado. Ao cortarmos, ganhamos concisão e clareza porque ali só estará o que encontramos de melhor. E o que resta não são sobras, são possibilidades. Aproveite-as em outro momento. Por ora, coloque aquilo que você não usou em sua gaveta de boas ideias.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Todo mundo já quis ser um pouquinho Gay Talese. Entramos na faculdade pensando em um futuro recheado de boas histórias, perfis memoráveis e, quem sabe, até um livro com nosso nome em auto-relevo estampado na capa. (Tive um professor na faculdade que dizia que essa denominação “jornalismo literário” é, na verdade, a busca pela eternidade do livro. Nem nós mesmos acreditamos no nosso trabalho. Mas isso aí é discussão para outro momento). Os períodos vão passando, a vida adulta começa a tomar forma, temos os primeiros contatos com o jornalismo da vida e concluímos: “É, não dá para ser Gay Talese.”
De fato, Gay Talese(s) não se formam aos montes. Muito menos em quatro anos. A gente sabe disso. Só queria ser um pouquinho como ele, Tom Wolfe, Trumam Capote – 0,01% já estava bom. “Mas também não existe espaço para isso nos jornais atuais” – ouvimos isso, repetimos para quem quiser ouvir (e para nós mesmo) e vamos montando nossas pirâmides invertidas diárias.
A conversa com os jornalistas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, ambos do caderno Metrópole, me fez lembrar que ainda existem vozes que pronunciam frases diferentes na mesmice “mas não existe espaço!”. Os dois contaram para os focas que, se você acredita e batalha por uma ideia, existe espaço, sim. É claro que não dá para ficar meses e meses escrevendo um perfil para ser publicado “na edição da primeira quarta-feira de novembro”. Se existe alguma coisa noticiosa para dar gancho à matéria, por que não? É só correr atrás, convencer o editor e compartilhar com o leitor a sua boa ideia.
Talita Duvanel, de 24 anos, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Achar pautas a partir de assuntos batidos não é fácil. Entre os focas, um assunto foi onipresente nesta segunda-feira: como achar uma matéria legal sobre um tema conhecido? O debate me fez lembrar minha curta experiência em jornalismo econômico. “Os assuntos se repetem e o desafio constante é trazer sempre uma nova abordagem, que faça o leitor querer ler algo que já foi escrito”, já diria o editor. Aliás, “sua excelência, o leitor”, nos avisou o coordenador do curso, Chico Ornellas.
A experiência de achar pautas no IML, delegacias de polícia, cemitérios, na Rua Augusta e na 25 de Março é uma amostra disso. Uma realidade com a qual teremos que nos confrontar muitas vezes, em um futuro que pode não estar tão distante assim. Eu mesmo me pego reclamando muitas vezes.
Desistir é sempre uma possibilidade. “Alguém quer?”. Já saímos de nossas zonas de conforto e ninguém disse que ia ser fácil. A solução? Vá para a rua, repórter! E que Deus abençoe a arte de sujar os sapatos.
Leonardo Berns Gorges, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
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