Até meados dos anos 80, as redações eram predominantemente masculinas. Hoje, no mercado paulista, as mulheres já são maioria na profissão. No entanto, ao longo do curso, alguns palestrantes contaram sobre determinadas apurações que não permitiriam uma presença feminina. Então veio a dúvida: ainda existe algum tipo de barreira à mulher jornalista?
A maioria das pessoas na redação acredita que não. Pelo menos não dentro do jornal. Mas pode ser que haja situações, apesar de raras, em que uma mulher encontre, sim, um obstáculo à sua cobertura jornalística.
Este é o caso de locais onde há uma violência específica voltada contra as mulheres. A editora-chefe do Jornal da Tarde, Cláudia Belfort, dá o exemplo dos estupros na Bósnia, que foram usados como estratégia de guerra. “Há casos em que é complicado mesmo enviar uma mulher”, conta. O editor de Internacional do Estadão, Roberto Lameirinhas, concorda. “Evitamos mandar mulheres para alguns países muçulmanos. Não é uma regra, tanto que algumas repórteres já foram. Mas, às vezes, precisamos que alguém passe despercebido e uma mulher sem véu pode chamar muita atenção. Isso pode restringir um pouco o trabalho.”
No entanto, parece unanimidade que estas situações são exceções no cotidiano do jornalista. A editora de Metrópole do Estadão, Luciana Garbin, não conseguiu pensar em nenhuma vez em que um homem tenha sido escolhido no lugar de uma mulher. Perguntou aos seus colegas e nada. Por fim, um deles lembrou de uma cobertura sobre prostituição. Um homem havia sido selecionado para poder se confundir com os clientes do local. Ufa, pensei, isso é realmente incomum.
“Há muitas oportunidades de cobertura. Isso não prejudica a ascensão profissional de uma repórter”, tranquilizou-me Cláudia, do JT.
A experiente jornalista explica não há uma preferência em enviar homens para apurações perigosas. “O perfil de jornalismo independe do gênero. Situações extremas são arriscadas tanto para homens quanto para mulheres”, diz.
O diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor do Estadão, Marcelo Beraba, é de opinião similar. “As regras de segurança são as mesmas para todos. Tudo tem que ser avaliado caso a caso.”
Beraba mostra que a opção por gênero funciona para os dois lados. “Também pode acontecer de uma mulher ir no lugar de um homem. Na verdade, você seleciona o repórter pelo perfil, estilo e sensibilidade que a matéria requer.” As palavras do editor me fizeram pensar no quão valiosa é, para um jornal, a diversidade de seus repórteres. Que continuemos assim.
Marina Estarque, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Não costumo anotar freneticamente tudo que é dito nas aulas ou palestras de grandes e experientes colegas de profissão. Porém, quando algo me chama muito a atenção – como uma frase marcante, que, de fato, mudou um pouco a minha maneira de pensar e executar o jornalismo –, gosto de anotar. Fiz, então, uma seleção de algumas das falas que mais mexeram comigo ao longo destes mais de dois meses de curso, e a forma como as recebi.
“Tentar melhorar o mundo é essencial para o jornalista” – Roberto Gazzi, editor-chefe do Estadão.
Muitos de nós entramos na faculdade com este sonho; cultivamos e saímos dela ainda mais entusiasmados com isso. Porém, em algum ponto, começamos a achar que é uma utopia. Muito bom ver o comandante da produção diária de um dos maiores jornais do Brasil dizendo que manter a meta é não apenas necessário, mas essencial.
“Nunca se compare a um colega, cada um tem o seu momento. Injustiças acontecem” – Marcia Glogowski, hoje diretora da RP1 Comunicação; trabalhou por 30 anos no Estadão.
A frase, bem autoexplicativa, reforça a ideia de que temos de seguir nos esforçando, fazendo a nossa parte, “sem olhar para os lados”. A promoção de um colega que, na sua opinião, mereceria menos que você não pode ser algo que vai afetar seu rendimento. A batalha continua, é diária.
“Trabalhar mais faz você produzir mais e melhor” – Roberto Gazzi, editor-chefe do Estadão.
Já pensava um pouco assim antes mesmo do início do curso, depois de participar do congresso deste ano da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Não é que temos que esquecer completamente de nossas vidas fora do trabalho e nos tornarmos verdadeiros zumbis. Mas percebi que os grandes prêmios, as grandes reportagens, foram conquistadas e feitas justamente por aqueles que não se preocuparam em passar aquelas horinhas a mais no trabalho, pesquisando coisas até mesmo fora da pauta do dia, com o objetivo de conseguirem grandes histórias.
“A gente nunca pode achar que já é um repórter formado” – Marcelo Beraba, editor do Estadão.
Logo depois de nos passar e corrigir exercícios sobre apurações que resultaram em grandes reportagens, Beraba deu algumas dicas para crescermos ainda mais na profissão, como evitar a dispersão na hora de escrever uma matéria e o exercício diário da autocrítica. Assim, buscando constantemente se renovar e sabendo que o processo de aprendizado nunca estará completo, um foca sempre será um foca, no melhor sentido da expressão.
Tiago Rogero, de 22 anos, é formado em Jornalismo pelo Centro Universitário Newton Paiva
Depois de mais de um ano de apuração e ameaças de sequestro e morte, o repórter hondureno Óscar Martinez, de 27 anos, realizou uma série de reportagens impressionantes sobre a situação dos imigrantes ilegais que saem da América Central e México rumo aos EUA e acabam sendo sequestrados e mortos no caminho.
Alguns desses textos da série En el camino fizeram parte do exercício sobre apuração passado pelo editor do Estado Marcelo Beraba aos focas. Eu, Amanda Agutuli, Daniela Schmid, Frederico Silva e Paula Bianchi tivemos de analisar os métodos de apuração nas reportagens Os seqüestros que não importam, em que Martínez mostra a fundo o caminho dos migrantes, As invisíveis escravas sul-americanas, sobre a prostituição de adolescentes ilegais na região, e Nós somos os Zetas, sobre um dos grupos clandestinos mais bem armados do México.
Vejam este trecho do começo da matéria Os seqüestros que não importam, que pode ser lida no site do projeto:
El primer muerto fue un hondureño que viajaba con Arturo. Iba en el balcón, y desde el techo le pusieron una pistola sobre su cabeza. Entregó cien pesos a los hombres con pasamontañas, pero uno de ellos desconfió, bajó al balcón y lo revisó. La malicia le costó la vida. Le encontraron dinero en un calcetín. “Listo el hijueputa”, sentenció el que apuntaba antes de atravesar de un tiro la nuca del migrante que, ante lo inminente, se había volteado para cubrirse.
Depois de perder o fôlego com a leitura, todos do grupo concordaram em fazer uma pergunta óbvia a Martínez: Você estava lá? Afinal eram tantos os detalhes para compor alguns momentos de narrativa do texto que nos surpreendemos com a resposta: não, ele não presenciou a série de seqüestros. Para conseguir e confirmar a informação ouviu seis pessoas que contavam a mesma história.
Mesmo que naquele momento o jornalista não estivesse na linha de fogo, a equipe teve de lidar com ameaças constantes, já que muitas vezes se passaram como imigrantes para a apuração.
Outros desafios apareceram durante o trabalho. Como poucos se dispõem a falar dos sequestros, Martínez contou com o tempo – que lhe permitiu elaborar um mapa de fontes – e com a rechecagem de informações, até porque muitas vezes os testemunhos não eram gravados. Outro cuidado era não ficar mais de 25 dias em um só local, já que, em certos lugares, não era possível passar incólume pelos territórios dominado pelos cartéis. É preciso lembrar que o México é, hoje, um dos países mais perigosos para os jornalistas. Segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), 64 jornalistas foram mortos e 11 estão desaparecidos desde 2000, sempre em ações atribuídas ao crime organizado.
A análise nos permitiu também pensar o jornalismo investigativo. Será que ele é realmente “caro, trabalhoso e chato”, como afirma Jesse Eisinger, repórter financeiro da Pro Publica, na matéria de Branca Vianna para a revista piauí? A empresa é voltada para o jornalismo investigativo e fez parte de um movimento que pode ser uma luz para este tipo de material, que é cada vez mais difícil de ser encontrado: o financiamento privado. A série En el camino foi produzida nestes moldes, e depois os textos foram vendidos para jornais como o salvadorenho El faro.
E em épocas de iPad, também é interessante perceber que o material produzido vai além do texto. Além de Martínez, viajaram três fotógrafos e dois documentaristas. E já se prepara um livro com a reunião de todos os textos, alguns inéditos, e um documentário.
Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual
Lourival Sant’Anna é conhecido por suas reportagens internacionais, principalmente sobre guerras, mas foi no Brasil que o repórter especial do Estado realizou um de seus principais trabalhos em 2010. Antes das eleições, Lourival percorreu diferentes Regiões do País para ouvir os mais diversos tipos de personagens e escrever o caderno A Construção do Voto, publicado em 30 de maio.
Por ocasião de um trabalho sobre os princípios da apuração que nos foi proposto pelo editor do Estado Marcelo Beraba, eu e os focas Bernardo Barbosa, Felipe Frazão, Mariana Congo e Rodrigo Rocha tivemos a oportunidade de falar com Lourival a respeito da reportagem.
O caderno pretendia mostrar como os brasileiros escolhem seus candidatos. Contudo, a intenção não era apontar em quem estas pessoas votariam – afinal, esse trabalho já é realizado pelas pesquisas de opinião -, mas sim explicar o raciocínio e os critérios usados pela população na hora de optar por determinado político.
Para tanto, Lourival fez nada mais do que contar boas histórias, atividade básica do jornalismo e essencial para atrair a atenção dos leitores, mas que não é utilizada com a frequência devida (ao menos, em minha humilde opinião).
“Alguns analistas disseram que este caderno tinha uma riqueza maior do que muitas pesquisas qualitativas”, afirma Lourival. E o diferencial do caderno A Construção do Voto é justamente o fato de o jornalista mostrar por meio dos relatos dos entrevistados o que os números de pesquisas informam de um modo frio.
Assim, pelo discurso de um lavrador da Paraíba que melhorou de vida, por exemplo, podemos compreender os motivos da popularidade do presidente Lula. Ou, por outro lado, na fala de um empresário de Brasília, entendemos porque ele reprova o atual governo.
“O que me surpreendeu foi a falta de surpresas. Todos aqueles estereótipos que temos se confirmaram. O interessante é ver os motivos para que isso ocorra. É muito legal ver a sociologia funcionando na prática”, diz o repórter especial do Estado.
Como a foca Érica Saboya havia escrito em um post anterior, ouvir Lourival Sant’Anna falar sobre suas histórias é fascinante e motivador para qualquer iniciante no jornalismo. Principalmente quando ele nos mostra que ainda há espaço para se contar boas histórias e que, geralmente, as melhores e mais profundas reportagens estão baseadas nesse simples recurso.
Gustavo Antonio, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
No fim de semana, foi realizado mais um Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que teve cerca de 4,6 milhões de inscritos em 1,8 mil municípios brasileiros.
Maior processo seletivo do País, a prova é utilizada para a concessão de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) e selecionar ingressantes para universidades e institutos federais.
Por coincidência, o exame ocorreu em meio a um exercício que os focas estão fazendo a pedido do editor do Estado Marcelo Beraba, sobre os fundamentos da apuração. Meu grupo, formado por mais quatro focas, ficou encarregado de analisar justamente a reportagem que resultou no cancelamento do Enem do ano passado.
A matéria Prova do Enem vaza e ministério anuncia o cancelamento do exame foi publicada no dia 1º de outubro de 2009 no Estado e causou a suspensão do exame a dois dias de sua realização. Os responsáveis pelo furo foram os jornalistas Renata Cafardo (então chefe de reportagem da editoria Vida) e Sergio Pompeu, editor do Estadão.edu.
O trabalho rendeu a eles o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo na categoria jornal, em setembro, além de uma vaga entre os três finalistas do Prêmio Esso de Reportagem, cujo vencedor será anunciado no dia 19.
Eu, Gustavo Aleixo, Bruna Maia, Marina Estarque e Tiago Rogero entrevistamos os jornalistas na última quinta e sexta-feira para saber quais foram os caminhos percorridos pela dupla e como se fizeram presentes os cinco princípios básicos da apuração elencados por Beraba: observação, rechecagem, documentação, pesquisa e entrevista. Segue abaixo a maneira como esses princípios foram aplicados pelos jornalistas, uma aula valiosa para quem está começando a carreira:
Observação
Renata Cafardo, em encontro com os dois homens que queriam vender a suposta prova vazada, pediu para dar uma olhada rápida no exame e, nos poucos minutos que teve, esforçou-se para memorizar itens do enunciado das questões (uma tira da Mafalda, um desenho do Garfield, o poema Canção do Exílio, etc). “Eu já fui com o plano de decorar as questões. Só assim conseguiria a matéria”, explicou Renata.
Checagem/Rechecagem
Decoradas partes das questões, foi enviado um e-mail com seu conteúdo para o ministro da Educação, Fernando Haddad, a fim de comprovar se estavam, de fato, presentes na prova. “Falei mais de 15 vezes com o ministro até confirmar”, disse ela.
Documentação
O e-mail enviado a Haddad serviria como registro formal de que a prova tinha vazado, de que o Estado a tinha visto e de que o MEC confirmava o ocorrido. Isso daria segurança aos repórteres para publicar a matéria. Fotos dos informantes registradas por um fotógrafo estrategicamente posicionado também renderam documentos comprobatórios.
Pesquisa
A identidade dos informantes foi descoberta por meio de uma varredura cuidadosa em redes de relacionamento, feita por especialistas em mídias sociais do próprio jornal. “É possível achar muita coisa com esse recurso”, diz Sergio Pompeu, para quem os jornalistas deveriam dominar essas ferramentas.
Entrevistas
Sergio Pompeu e o jornalista Fausto Macedo entrevistaram o responsável por informar ao jornal que a prova tinha vazado. Por meio dele, foi descoberto o nome de um dos informantes do encontro e dados que permitiram localizá-lo depois na internet.
Graças a esses recursos, 4,1 milhões de candidatos deixaram de realizar a prova em vão.
Felipe Tau, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Depois de aprendermos com Paco Sánchez a importância de “mirar, escuchar, pensar y saber contar”, o editor do Estado Marcelo Beraba deu uma aula sobre um dos pontos cruciais na vida de um jornalista: a apuração – que, se bem feita, ajuda a manter a credibilidade, considerada um patrimônio do profissional da imprensa.
Com o intuito de ilustrar a técnica, Beraba destacou cinco fundamentos para uma boa apuração: observação, pesquisa (conhecimento), entrevista, documentação e rechecagem. Ele evidenciou, por exemplo, a importância de se preparar para fazer uma entrevista – sempre que possível formular perguntas de antemão e, dessa forma, ter um roteiro para seguir. Tudo isso baseado em uma eficiente pesquisa, é claro.
Tais dicas e conselhos ajudam a evitar apurações deficientes, as quais podem gerar erros graves que afetam a credibilidade de um veículo ou profissional. Foi o que aconteceu no episódio citado por Beraba. Em agosto de 2000, o Correio Braziliense deu como manchete O Correio errou. Essa foi a maneira encontrada pelo jornal para corrigir a falha causada por uma apuração incompleta – no dia anterior, havia sido publicada uma reportagem – intitulada O grande negócio de Jorge – com falsas denúncias de corrupção que envolviam o ex-secretário do Palácio do Planalto Eduardo Jorge.
O exemplo apresentado por Beraba, sem dúvida, ajuda a perceber o grande transtorno causado por uma apuração deficiente, mostrando que esforço e empenho são requisitos essenciais para o jornalista.
Amon Borges, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e estuda Filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
Não precisamos necessariamente de chicotes – como os presenteados a Chico Ornellas – para aprendermos certos coisas. Mas é realmente muito bom ter esse tempo de reflexão, esse reaprendizado de tudo o que achávamos saber. Aquela do filósofo, “só sei que nada sei”, sempre foi um dos motivos para alguns se aventurarem por esta profissão, que todo dia te dá algo novo sobre o que pensar, sobre o que aprender. Um dos meus motivos, pelo menos.
E como reaprendemos nos últimos dias! Não há como esquecer a já maior tag do blog, Paco Sánchez, hablando en pacunhol que a promoção do amor é a grande função do jornalista. Fica na memória também a conversa com o californiano-brasileiro Matthew Shirts, editor da National Geographic no Brasil, mostrando em Portuguese a força do fotojornalismo. A última palestra foi com o editor do Estado Marcelo Beraba, que discutiu o valor da apuração. Aprendemos até mesmo a como nos comportar em um jantar servido à francesa com a consultora de imagem Renata Mello. Copos e talheres não são mais um problema.
Com os colegas de curso, constatamos, mais uma vez, que este País é grande e diverso. Neste caso, biscoitos e bolachas não são bons parâmetros, como escreveu um dos Gustavos. Eu, por exemplo, nasci comendo bolachas; hoje, compro biscoitos. É nos confrontos de experiências que as diferenças se sobressaem. Formamos um time tão cosmopolita e variado ideologicamente que é difícil prever aonde a próxima conversa vai chegar. Possivelmente em piadas. Certamente inteligentes.
Grande parte da transpiração que a profissão exige está neste aprendizado constante, sem fim. Para isso, mais do que refletir, precisamos mergulhar nos fundamentos básicos da profissão, sem nos esquecer dos valores humanos. Afinal, durante o curso, falamos com médicos e lixeiros, ministros e mendigos. E é o que estamos fazendo nos últimos dias: mergulhando em jornalismo.
Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual
2012
2011
2010