(Update, terça, 13/12, 20h38: O texto que aqui se encontrava foi repetido em http://www.estadao.com.br/talentos/index_2012.htm e pode ser lido lá).
Algumas pessoas não precisam passar por isto. Se escolhem jornalismo, chegam ao primeiro ou ao segundo ano de faculdade com o nome escolhido. Não foi o meu caso. No terceiro período do curso, na primeira matéria de jornal experimental, o professor começou toda uma inquietação:
- Já definiram como vão assinar as matérias?
Foi a primeira vez que ouvi essa pergunta. Mas a repetiram muitas vezes depois. O negócio é que nas muitas vezes depois eu já havia definido. Depois de pedir algumas opiniões, escolhi Carvalho, pra ficar simples e não precisar soletrar. Sobrenome do meu pai. É assim, de forma simples, mas também emotiva e racional, que costumamos escolher aquilo que vai ser nossa marca, nossa grife, nossa assinatura.
No entanto, essa coisa de assinar matéria nem sempre foi assim, houve épocas em que a estampa do nome do repórter não saia e ele ficava sob a guarda do veículo em que trabalhava. Só que essa relação de autoria leva a questões mais amplas do que o umbigo do nome de cada um. Situações até trabalhistas. Quando existe alguém por trás da matéria que fere, que erra ou que mente, é contra ele, por exemplo, que muitas vezes vai o processo judicial. Ou, sendo menos drástica, o jornalista atrás daquela marca será o remetente da cobrança. Mas o contrário também vale e a personificação do texto pode dar louros ao autor.
Pensando bem, concordo com a assinatura, pois acredito que somos diferentes, embora possamos trabalhar em um mesmo lugar com uma só linha editorial. Sobretudo, devemos ser responsáveis pelo que escrevemos. Não podemos nos esconder. Mas devemos tomar muito cuidado, afinal, é nossa reputação. Acredito que o melhor a fazer é sempre só assinar o que realmente fizemos, muito mais que no sentido óbvio do “não copiarás”, mas em relação às ideias prontas que compramos de outros por pressão ou simples falta de questionamento. Além disso, só assinar aquilo que temos certeza. “Na dúvida, não publique”, ouvimos sempre por aqui.
Mas por que isso tudo? Devo confessar, dia desses, na sala dos Focas, sugeriram que eu mudasse minha assinatura. “Pianes [sobrenome da minha mãe] é mais forte”, disse o Luís Carrasco, sendo logo seguido pelos meus amigos vizinhos. Surgiu a dúvida, mas fica a reflexão. Como em qualquer tipo de documento, todos sabem, sempre leia antes de assinar – mesmo as letras miúdas do jornal. Um nome em uma matéria errada e é a nossa carreira que está em jogo.
Jacyara Pianes H. Carvalho, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Desconheço a língua portuguesa. Melhor: conheço-a de vista. Já ouvi dizer que poucos sabem lidar com ela, e até por isso preservo em mim o medo de tentar algo além de uma conversa casual. Tratamo-nos sempre com muito respeito, mas longe de sermos amigos chegados. A intimidade entre nós, que não existe, tampouco se esboça num futuro próximo. Ao contrário: por muitas vezes diante dela me constranjo, sem palavras.
Jamais ousaria convidá-la para o que quer que seja. Ela é demasiada livre! Trair-me-ia com o primeiro galanteador que lhe desse em mãos um Rosa. Sem titubear, esconder-se-ia de mim num sertão infinito de significados, para que me arrependesse do dia em que tentei domá-la. Comprasse eu as rosas – dúzias, grosas! –, ela arrebentaria a sintaxe para beijar a boca do poema mais libertino. Desgraçada!
Amo-a, porém, perdidamente. A verdade é que sonho tê-la ao meu ouvido sussurrando em verso e prosa que também me ama. Juntos, seríamos um casal perfeito. Ela me encheria de palavras belas, e eu as poria no discurso que melhor me conviesse. Separados, contudo, valho-me da secura do dicionário para conquistá-la: “Órgão oblongo, achatado, musculoso e móvel, pertencente ou natural de Portugal, aceita acompanhar-me nas colunas do jornal?”
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Ilustração: Mauricio de Sousa Produções
O jornalista é um sujeito. Não deseja apenas ser. Sujeita-se a jargões para ser o que é. Geralmente, diz-se injustiçado, joguete nas mãos dos demais sujeitos. Que, aliás, o julgam como se jazessem em colunas jônicas. Dormem na sarjeta o sujeito e os sujeitos! Todos enjaulados nessa língua jocosa.
O jota é uma letra. Corajoso desbravador de linhas! Seja com a ponta da bengala, seja com o pingo lá em cima. O jota é. Simplesmente. Não sugere, não suplica. Nem julga. É. Por assim ser, e por todos o respeitarem como tal, o jota é. Mais do que qualquer jornalista.
Porque o jornalista não é o que é. O jornalista é um sujeito sujeito à consciência. Dele e à de outros. A subjetividade nos deu esse direito jurássico de sermos o que somos e de pensar o que os outros são, mesmo que eles não sejam. Enfim, todos somos. Enjaulados.
Sujeitos subjetivos jogados na sarjeta. Não há como fugir deste maldito jota. Sem ele, seríamos um bando de sueitinhos. Nem por jeca passaríamos. Jornalistas? Jamais. Na jaula dessa língua jocosa, o jota é juiz, júri e jagunço. Juro que queria ser. Livre.
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Nunca entendi por que coco não usa chapéu. E digo mais: nunca entendi por que coco não usa chapéu-coco. Ficaria lindo, no primeiro “co” do coco, um chapéu-coco. Um sinal gráfico de aba estreita, copa pequena e arredondada. Algo discreto, mas imponente. Algo que suscitasse o respeito de todos pelo coco, fosse ele gelado ou Chanel.
Quando menino, fazia questão de adornar meus cocos com um chapéu triangular, horroroso, de palha entrelaçada. O tal do circunflexo. E o coco jamais fora tão ridículo. E era tão mais repugnante quando, na dúvida, metia-lhe o chapéu no segundo “co”. Meus cocos careciam de elegância. Faltava-lhes o chapéu-coco.
Por mais que me inundassem o cérebro com regras gramaticais de acentuação, não aceitava a ideia (e até hoje não a aceito) de que cocô tem um chapéu e coco, não. Coco é muito mais forte, sonoro. É, sim, digno de um chapéu! Muito mais do que o cocô. E coco merece um adereço de qualidade. Nada de circunflexos de palha.
O chapéu-coco, portanto, surgiria para suprir essa falta de estilo de algumas palavras da língua portuguesa. Obviamente, receberia um nome técnico, para que as gramáticas não ficassem por demais obscenas e esculhambadas. Lânguido, acento lânguido. Este seria um bom nome para o chapéu, pois que é, ao mesmo tempo, brando e voluptuoso.
O acento lânguido poderia ser usado, por exemplo, em melancia. Ah, como adorava, quando criança, lambuzar meus labirintos com a melódica “melância”. Era errado, mas nunca feio. O que a estragava era o circunflexo de palha. O chapéu-coco, todavia, daria um charme e uma suculência ímpares à palavra-fruta, que degusto até hoje em meus ouvidos.
* Texto dedicado a todos os professores do Brasil, que lutam para que não confundamos coco com cocô.
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Foto: Blog Hilda Buracão
Impossível ensinar jornalismo. Aprende-se, não sei como. E digo isso com a convicção de quem não conhece muita coisa. Convicção típica dos jornalistas. Deixe-me inteirá-lo da situação. É meu trabalho.
Esta redação, por exemplo. Começou com o primeiro parágrafo, o lead, que vem do inglês to lead, que significa liderar. Me ensinaram assim. Me ensinaram até que eu posso escrever “me ensinaram” no começo de frase. Me ensinaram o conceito de lead, mas jamais pude liderar nada. E essas coisas a gente aprende nas redações.
Escrever rápido é importante. Não opinar, nunca. Talvez depois de anos e anos de experiência. Antes disso, favor não se atrever. Se quiser crescer na profissão, a proatividade é requisito básico – fazer um bom café também ajuda. E é claro que somos gratos, amigo leitor. Afinal, nós focas estamos aprendendo.
Além de todas essas exigências para conseguir ser jornalista, devemos ser dinâmicos, infalíveis, éticos. O salário é pouco, o trabalho é muito. Quer desistir? Ainda não. Em breve, encontrarei na rua o meu grande furo. Só espero não cair dentro dele.
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago (1922-2010) escreveu em seu blog: “Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado”.
Saramago, Prêmio Nobel do Esporro! E o pior é que o português tem razão. Reclamamos dos jogadores de futebol. “Não, é… Graças a Deus… Criamos-as-oportunidades-e-conseguimos-os-três-pontos-pra-essa-torcida-maravilhosa-que-sempre-
nos-apoia”. E os jornalistas, que sempre perguntam as mesmíssimas coisas?
E não é só em jogo de futebol que os clichês se repetem. Nos arquivos do Estadão, reportagens quase idênticas se multiplicam – o que muda é a data de publicação e o nome do autor. Além de requentado, o caldo é grosso. Cabe aos focas entorná-lo!
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
2012
2011
2010