Existe um cronômetro no Curso Estado de Jornalismo. A duração é de exatos 100 dias. Com quase metade do tempo já ultrapassado, algumas palavras ficaram na mente. Aqui, a nuvem de tags se amplia. Cada palavra assume um contexto. São nas frases que o sentido de cada uma delas assume outra relevância. Nas sentenças a seguir, um pouco dessa trajetória cada vez mais reveladora e fascinante. Que as mensagens explícitas em cada uma delas possam gerar uma certa reflexão nos jornalistas de plantão que acompanham o Em Foca. E como extra: não deixem de conferir o conteúdo adicional via QR Code. Seguimos!
Quando passei para o Curso Estado de Jornalismo, muita gente me disse: “mas o que você quer em um jornal? Ninguém mais lê isso!” Quando se fala no destino do impresso, a polarização é o caminho mais fácil. Os mais radicais apostam que não demora muito a extinção do papel, seja ele suporte para livro, jornal ou revista. Os mais sonhadores abraçam a ideia de eternidade.
Em 2007, o repórter especial do Estadão Lourival Sant’anna defendeu uma tese de mestrado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) que tenta entender qual o futuro do meio de comunicação do qual queremos fazer parte. Baseado no mesmo tipo de comentários que ouvi – e que quase todos nós ouvimos – Lourival se perguntou: “O jornal impresso, tal como o conhecemos, está fadado ao desaparecimento?”
Como os diretores de redação, peças de uma engrenagem cada vez mais profissionalizada e menos familiar, estão fazendo a interface dos valores de crebilidade com rentabilidade, essa “entidade”essencial para sobrevivência nos meios de comunicação?
O livro gira em torno de três fatos estruturais (acirramento da concorrência, mudança nos hábitos de leitura e inovações técnológicas) e como os três jornais mais influentes do país (O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo) estão se posicionando nesse novo cenário.
Longe de ter respostas definitivas (nem a academia nem as redações as têm), Lourival faz uma importante análise de como está se renovando o jornalismo que ele mesmo está acostumado a fazer. A conclusão sobre desaparecimento e eternidade do impresso ainda é uma incógnita, mas ele e todos nós sabemos que “a verdade provavelmente reside em algum ponto
entre os dois extremos”.
Para saber mais: O Destino do Jornal – A Folha de S. Paulo, O Globo e o Estado de S. Paulo na sociedade da informação, de Lourival Sant’anna (Ed. Record).
Talita Duvanel, de 25 anos, é formada em ComunicaçãoSocial, habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Foto: Édouard Boubat
O fotojornalista francês Édouard Boubat (1923-1999) começou suas andanças pelo mundo em 1949. Com sua câmera, registrou tudo o que viu nos cinco continentes. Passou por lugares miseráveis, terras em conflito, mas sempre preferiu fotografar a vida, a natureza. Corpos mutilados produzidos pela guerra nunca foram seu foco.
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O poeta Jacques Prévert (1900-1977), seu conterrâneo, definiu Boubat como o “correspondente da paz”. Pena os jornais de hoje em dia não gostarem tanto de coisas belas. Que o diga o repórter Lourival Sant’anna, este sim, correspondente de guerra.
Lourival trabalha como repórter especial do Estadão desde 1990. Já andou por Colômbia, Venezuela, Iraque, Afeganistão, Líbia… Ao todo, passou por 53 países, em que a língua falada era uma só: a da guerra.
Boubat disse certa vez: “Eu acho que as fotos que gostamos são aquelas em que os fotógrafos souberam desaparecer”. Para Lourival, o segredo está em blindar os sentimentos para fazer uma cobertura justa, imparcial.
Seja na foto, seja no texto, o jornalismo se resume em isenção. O jornalista está onde está para reportar, para ser os olhos e os ouvidos do leitor. Não importa hora nem lugar. Jornalista é jornalista sempre: seja na guerra, seja em tempos de paz.
Lidiane Ferreira, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Lourival Sant’Anna é conhecido por suas reportagens internacionais, principalmente sobre guerras, mas foi no Brasil que o repórter especial do Estado realizou um de seus principais trabalhos em 2010. Antes das eleições, Lourival percorreu diferentes Regiões do País para ouvir os mais diversos tipos de personagens e escrever o caderno A Construção do Voto, publicado em 30 de maio.
Por ocasião de um trabalho sobre os princípios da apuração que nos foi proposto pelo editor do Estado Marcelo Beraba, eu e os focas Bernardo Barbosa, Felipe Frazão, Mariana Congo e Rodrigo Rocha tivemos a oportunidade de falar com Lourival a respeito da reportagem.
O caderno pretendia mostrar como os brasileiros escolhem seus candidatos. Contudo, a intenção não era apontar em quem estas pessoas votariam – afinal, esse trabalho já é realizado pelas pesquisas de opinião -, mas sim explicar o raciocínio e os critérios usados pela população na hora de optar por determinado político.
Para tanto, Lourival fez nada mais do que contar boas histórias, atividade básica do jornalismo e essencial para atrair a atenção dos leitores, mas que não é utilizada com a frequência devida (ao menos, em minha humilde opinião).
“Alguns analistas disseram que este caderno tinha uma riqueza maior do que muitas pesquisas qualitativas”, afirma Lourival. E o diferencial do caderno A Construção do Voto é justamente o fato de o jornalista mostrar por meio dos relatos dos entrevistados o que os números de pesquisas informam de um modo frio.
Assim, pelo discurso de um lavrador da Paraíba que melhorou de vida, por exemplo, podemos compreender os motivos da popularidade do presidente Lula. Ou, por outro lado, na fala de um empresário de Brasília, entendemos porque ele reprova o atual governo.
“O que me surpreendeu foi a falta de surpresas. Todos aqueles estereótipos que temos se confirmaram. O interessante é ver os motivos para que isso ocorra. É muito legal ver a sociologia funcionando na prática”, diz o repórter especial do Estado.
Como a foca Érica Saboya havia escrito em um post anterior, ouvir Lourival Sant’Anna falar sobre suas histórias é fascinante e motivador para qualquer iniciante no jornalismo. Principalmente quando ele nos mostra que ainda há espaço para se contar boas histórias e que, geralmente, as melhores e mais profundas reportagens estão baseadas nesse simples recurso.
Gustavo Antonio, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

O repórter especial do Estadão Lourival Santa’Anna / Foto: Lucas Sampaio (foca 21)
O sorriso tímido e o olhar que insiste em procurar o chão confundem o interlocutor prestes a iniciar uma conversa com um jornalista que viajou mais de 40 países em busca de grandes acontecimentos históricos e esteve presente nos mais relevantes conflitos armados dos últimos anos.
No lugar de um discurso heroico e intenso, Lourival Santa’Anna – repórter especial do Estadão há quase dez anos – começa a narrar os bastidores de suas coberturas por meio de gestos comedidos e de um tom de voz quase silencioso.
Imagens da Guerra do Líbano, de 2006, ilustram as primeiras histórias contadas sobre os desafios de uma apuração em meio ao fogo cruzado. Entre o relato de uma noite sob um bombardeio e do longo dia em que cruzou a fronteira para Tskhinvali, na Ossétia do Sul, os gestos se intensificam e apresentam outro Lourival – um sujeito disposto a arriscar a própria vida pela notícia que pode escapar entre um míssil e outro, um jornalista que saltou do carro em movimento para fugir da morte.
Aos poucos, o repórter brasileiro com cara de ossetiano vai deixando escapar a timidez e os pormenores de sua rotina em meio ao caos. A obsessão pelos detalhes dos cenários presenciados e a disposição para viver a realidade de cada país – longe dos “safáris jornalísticos da imprensa internacional” – ajudam a explicar a sensibilidade transmitida em cada matéria assinada por Lourival.
Fotos de brinquedos, óculos, cartazes e outros objetos que sinalizam as vidas vividas antes dos escombros incitam a pergunta inevitável: como não enlouquecer em meio a tanta tristeza?
“Me desligo emocionalmente. Quando estive no Haiti, após o terremoto, cheguei a evitar uma música clássica no rádio para não me humanizar. Só começo a sentir quando eu volto.”
Já quase à vontade diante de interlocutores embevecidos com suas histórias, Lourival confessa que sente, sim, medo de morrer nos conflitos. Em 2010, ele completa duas décadas no Estadão, onde desfruta de prestígio e de um histórico nos cargos mais importantes do jornal, mas sabe muito bem o que o motiva a sair de sua zona de conforto e retornar aos campos de batalha.
“O dia a dia nos anestesia e a gente acaba esquecendo as coisas que realmente importam. Eu gosto de ver a natureza humana em seu extremo para nunca me afastar dessas questões.”
Érica Saboya, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na PUC-SP
Experimentar. Aguar os sentidos. Transpor fragmentos da vida para o papel. Esse acaba sendo o trabalho do jornalista: dar um recorte da realidade para o leitor. Quando o profissional ainda tem a oportunidade de sair do seu nicho, sua cidade, seu cotidiano para viajar por outras realidades, entendemos o quão encantador pode ser essa profissão e o motivo de muitos se apaixonarem por ela.
Histórias como a do repórter Lourival Sant’Anna, que viajou por 47 países a trabalho, nos inspiram como jovens jornalistas. Afinal, assistir a história ao vivo é um privilégio. Entre as experiências de Lourival estão a entrevista com Yasser Arafat, na Palestina, os dias que passou com membros do Taleban no Afeganistão, a cobertura da guerra na ex-Iugoslávia. A propósito, quem quiser conhecer melhor suas reportagens pode acessar o site de Lourival.
Porm, as viagens de Lourival e de outros repórteres como Patrícia Campos Mello, que cobriu a saída dos mineiros no Chile, são cada dia mais raras no jornal. Seja pelos custos, seja pela invasão das agências noticiosas. Por isso, hoje o mais comum são as viagens a convite de empresas.
Mas isso não significa a perda da independência de um jornal. Até porque nenhuma empresa obriga o jornalista a fazer uma matéria sobre o que ela quer. Entendo as viagens a convite mais como uma tentativa sofisticada da assessoria de emplacar o seu cliente e tentar pautar a mdia. O que muitas vezes dá certo, porque o jornal dificilmente libera um repórter para uma viagem se ele não for produzir algo.
Não critico as viagens a convite, até porque, nesses casos, o leitor é comunicado. Em casos de cadernos de consumo como Viagem e o de Autos, raras são as viagens não patrocinadas.
O que o repórter precisa é ter claro que, em viagens pagas por empresas, o tempo de apuração e da programação da assessoria de imprensa, não a dele. Aliás, difícil apurar além do proposto pela programação oficial, que geralmente apressada e movimentada. Sentimos isso na pele durante a expedição a Santa Cruz do Sul (RS), onde pudemos conhecer o processo produtivo da fumageira Philip Morris.
Com atividades nos três turnos, a empresa nos mostrou o que tinha de melhor e os benefcios que trazia para a região. De vez em quando, algumas situações pareciam artificiais, como a visita que fizemos a uma família produtora de tabaco. Entendi a visita como as que fazemos casa de um parente: ele sempre quer mostrar o que há de melhor em sua casa, por isso, ele vai arrumar a bagunça antes de você entrar e vai servir o melhor lanche.
Muitos colegas voltaram frustrados da viagem. Acho que esperavam aventuras como as de Lourival Santanna e Patrícia Campos Mello. Para mim, fica o aprendizado que a postura de uma viagem a convite difere de outra custeada pelo jornal. Não entendam como uma postura passiva frente a uma empresa anfitriã, mas que, de um convite, de uma tentativa de pautar a imprensa, é possível extrair muito aprendizado e possibilidades de pautas mais criativas do que se tivéssemos ficados sentados dentro de um prédio na redação.
Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)
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