Dia desses, lendo o post do Davi, lembrei-me de quanto tempo já passei pesquisando bolsas de estudos no exterior. Durante a graduação, tive a oportunidade de estudar um ano de Jornalismo em Sevilha, na Espanha, e essa experiência aumentou ainda mais minha vontade de correr para fora do País logo após o término do curso. Infelizmente, no ano em que tentei, o Master que eu mais queria havia cortado as bolsas para non-EU students.
Acabei mudando para São Paulo e não tentei mais, no entanto, minha lista de sites visitados segue intacta. Há opções nas melhores universidades da Europa e dos Estados Unidos, todas com foco em Jornalismo e nos seus mais diferentes segmentos. Para vocês, que também têm vontade de estudar fora, mas não têm condições financeiras de bancar a especialização, segue um apanhado bacana de programas de pós-graduação. Bom proveito e boa sorte!
Erasmus Mundus Master’s: Journalism, Media & Globalisation
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Gabriela Forlin, de 23 anos, é formada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali)
Lembrem-se, lembrem-se das normas para dezembro*
Quem se propõe a ser jornalista deve estar pronto(a) a ouvir. Não apenas as fontes de informação, mas as dicas/regras/normatizações vindas de professores, editores, diretores e, no caso destes focas, de jornalistas veteranos que avaliam todos os textos com atenção especial. Faz parte da nossa condição de eternos estudantes.
Nem por isso devemos deixar de refletir sobre o que os (hierarquicamente) superiores impõem. Sempre tive como hobby listar as normas dos mandatários do jornalismo. E, claro, questionar sua validade, pensar em maneiras de subvertê-las. Tentemos:
1. Não usarás “viatura” para designar “carro de polícia”
Um clássico da faculdade que pode nos perseguir no “além-academia”. Os mestres dizem que “viatura” é jargão policial. Sei. Alguém já conversou com alguém, mencionou alguma viatura e o interlocutor não entendeu? Pois é, dos meus primos de segundo grau com menos de 10 anos às minhas avós, ainda não conheci um brasileiro que estranhe a palavra “viatura”. Ela é útil, inclusive, para evitar a repetição de “carro” no texto. O “Houaiss”, um dos dicionários mais respeitados da língua portuguesa, reconhece “viatura” em seu significado primordial (“qualquer veículo, para transporte de coisas ou pessoas”), mas usa mais espaço para explicar o uso do termo no contexto militar. E, convenhamos, a maioria das pessoas sabe do que se trata. Prova final: uma busca com essa palavra-chave no Estadão.com.br.
2. Não começarás reportagens com repetição de homônimos
Esse recurso, considerado clichê fatal, já virou piada interna no Curso Estado de Jornalismo. O lide imaginário e jocoso se inicia com “Seios, tetas, mamas” (afinal, o chulo choca e repreende com eficiência). Mas existem casos em que essa ideia é superválida. Como neste texto do crítico de cinema Miguel Barbieri Jr. para a “Veja São Paulo”:
“Prime, Premier, Platinum, Splendor — não importa o nome, porque o conceito é um só. São as sofisticadas salas vip, instaladas nos cinemas dos shoppings, que, em troca de cardápios diferenciados, pipocas com azeite importado e poltronas megaconfortáveis, chegam a cobrar até mais que 50 reais pelo ingresso.”
A construção foi acertada. Logo de cara, explicou aos leitores a diferença (inexistente) entre a autodenominação de cada cinema vip paulistano e, com fineza, brincou com o fato de essas salas de exibição procurarem se distinguir com rótulos estrangeiros tão pedantes.
3. Não começarás reportagens com declarações de outrem
Simpatizo muito com essa regra. Na mesma medida, porém, me entusiasmo com os textos que se iniciam com aspas de alta precisão. Como exemplo de exceção possível, peço licença para expor um texto meu. “Sensual, aos 99″ foi publicado em agosto deste ano no semanário Meio & Mensagem e tratava do reposicionamento de marca que a Lacta vem empreendendo no segundo semestre de 2011. Veja o lide:
‘É pornográfico.’ Assim a gerente de grupo de produtos da Kraft Foods Brasil, Patrícia Borges, responsável pela marca Lacta, define a forma como uma mulher devora uma porção de chocolates após três dias sem o doce. A constatação surgiu em meio a uma pesquisa com 400 pessoas conduzida pela empresa, com fases quantitativa e qualitativa, para precisar como o brasileiro se relaciona com a iguaria.”
Eu me senti quase obrigado a iniciar a reportagem com a aspa da executiva da Kraft. Observando agora, três meses depois, claro que reconheço que uma ou outra construção do lide poderia ser melhorada, mas só consigo contar essa história da Lacta a partir dessa declaração, tão forte e tão concisa — em especial porque vinda da representante de uma marca que vai completar um século de existência ano que vem. Minha mensagem é simples: focas do mundo, questionai! Acho saudável que procuremos outras possibilidades de subversão, sem deixar de buscar o equilíbrio de palavras e intenções no texto.
*trocadilho do lema de V, protagonista do filme “V de Vingança” (“Lembrem-se, lembrem-se do 5 de Novembro”, alusão à Conspiração da Pólvora), com o prazo dos focas para a entrega de reportagens para nosso caderno especial, que circula no último dia do curso (em 2011, 9 de dezembro)
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Entramos em uma discussão dessas mais infinitas nestes últimos dias: qual o papel do jornal impresso? Difícil cravar se é solução, ou erro, querer ser cada vez mais como aquela que não precisa de papel, a internet. Mais rápido, mais fácil, mais visual, melhor? Mais denso, mais extenso, mais analítico, errado? Esses dias escutei: “Mas quem somos para poder dar dicas de jornalismo?”. Boa pergunta. Eu sou jornalista, recém-formado, com diploma (que não acho que tem que ser obrigatório) e, mesmo com pouca experiência, acredito que a única maneira de desenvolver um bom trabalho é conseguir pensar a frente e imaginar onde aquilo que você faz vai dar. O que não significa ser “pacote pronto”, já saber tudo. Significa ter opinião, sem deixar de estar aberto a mudá-la diante de bons argumentos. Não dá para esperar a sabedoria bater à porta.
Na minha opinião, que não é a do blog, o futuro do impresso está no jornalismo interpretativo. As redações da rádio, tevê, jornal e online recebem o aviso bombástico da notícia praticamente ao mesmo tempo. Enquanto o jornal continuar se perguntando “O que? Quando? Onde? Como? Por quê?”, vai enfrentar três imensos concorrentes. O “quente” já terá sido narrado, apresentado e lido pelo seu leitor, que continuaremos crendo que só lê jornal. E se, quando o fato aparecer na redação, o jornal se perguntar, por exemplo, “no que isso vai dar?”
O hard continuará a existir, em menor espaço, como contexto, e vai ser responsabilidade daqueles que, agora, vão ser seus três grandes parceiros. Nesse cenário, as grandes empresas de mídia levam uma vantagem que, para mim, desperdiçam. Hoje, quantos jornalistas que saem para cobrir uma pauta sabem quem é o colega que vai fazer a matéria para o rádio, o que vai fazer a matéria para a tevê e o que vai fazer a matéria para o online? Há integração nos trabalhos? Ou é apenas colaboração eventual? Enquanto cada mídia trabalhar de forma independente e fizer as mesmas perguntas, vai conseguir respostas idênticas, publicadas em horários desiguais: o “déjà li”.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Ilustração: Mauricio de Sousa Produções
O jornalista é um sujeito. Não deseja apenas ser. Sujeita-se a jargões para ser o que é. Geralmente, diz-se injustiçado, joguete nas mãos dos demais sujeitos. Que, aliás, o julgam como se jazessem em colunas jônicas. Dormem na sarjeta o sujeito e os sujeitos! Todos enjaulados nessa língua jocosa.
O jota é uma letra. Corajoso desbravador de linhas! Seja com a ponta da bengala, seja com o pingo lá em cima. O jota é. Simplesmente. Não sugere, não suplica. Nem julga. É. Por assim ser, e por todos o respeitarem como tal, o jota é. Mais do que qualquer jornalista.
Porque o jornalista não é o que é. O jornalista é um sujeito sujeito à consciência. Dele e à de outros. A subjetividade nos deu esse direito jurássico de sermos o que somos e de pensar o que os outros são, mesmo que eles não sejam. Enfim, todos somos. Enjaulados.
Sujeitos subjetivos jogados na sarjeta. Não há como fugir deste maldito jota. Sem ele, seríamos um bando de sueitinhos. Nem por jeca passaríamos. Jornalistas? Jamais. Na jaula dessa língua jocosa, o jota é juiz, júri e jagunço. Juro que queria ser. Livre.
Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Existe um cronômetro no Curso Estado de Jornalismo. A duração é de exatos 100 dias. Com quase metade do tempo já ultrapassado, algumas palavras ficaram na mente. Aqui, a nuvem de tags se amplia. Cada palavra assume um contexto. São nas frases que o sentido de cada uma delas assume outra relevância. Nas sentenças a seguir, um pouco dessa trajetória cada vez mais reveladora e fascinante. Que as mensagens explícitas em cada uma delas possam gerar uma certa reflexão nos jornalistas de plantão que acompanham o Em Foca. E como extra: não deixem de conferir o conteúdo adicional via QR Code. Seguimos!
Outro dia, um leitor do blog comentou que esperava que contássemos “as primeiras impressões de um profissional recém-formado em início de carreira, de forma natural, como qualquer pessoa que sai da universidade e entra no mercado de trabalho”. De fato, a condição de focas nos põe bem no meio dessa travessia: acabamos de sair da faculdade, estamos colocando o pé no mercado e, nesse tatear, vamos sentindo o que se espera de nós, quais as cobranças, quais as qualidades apreciadas e mesmo os requisitos para se dar bem. Se o jornalista é um eterno aprendiz, nós ainda estamos bem crus e temos que nos aprimorar em vários pontos. Vou colocar aqui cinco questões que me parecem essenciais – são os desafios com os quais eu e meus colegas estamos lidando nesse momento de nossa vida profissional.
1) Manter o consumo diário de informação e cultura. Informação inclui ler os dois maiores jornais diários, as revistas semanais (ou pelo menos saber o que elas estão dando) e dar uma olhada nos portais de notícias. Cultura começa em bons livros e passa por cinema, música, arte e viagens – dentro dos interesses (e possibilidades) de cada um. Aliás, vamos sempre nos aprofundar mais naquilo que nos agrada, mas não dá para não saber o básico de todo o resto, e desconhecer o que está acontecendo na cidade, no País e no mundo. Até porque podemos ser levados, a qualquer momento, a escrever sobre outras coisas que estão fora do nosso mundinho de interesses. O desafio é justamente conseguir encaixar esse consumo de informação em uma rotina de trabalho que já é intensa e pesada.
2) Trabalhar o olhar para encontrar pautas. Nesse começo de carreira, ter ideias não é nada fácil. Forçamos a cabeça e nada sai. O tempo e a experiência vão dando subsídios para que consigamos educar nosso olhar, captar aquilo que interessa, ser criativos e, enfim, bolar pautas. Isso vale tanto para assuntos pouco explorados como para temas já batidos, mas que podem render se forem abordados de uma forma diferente. Ao desafio de encontrar pautas, soma-se o de vendê-las na reunião e emplacá-las diante dos editores. Os riscos de não conseguir bolar pautas? Fazer sempre as pautas impostas pelos outros e, eventualmente, perder espaço para outras pessoas mais espertas e criativas que você.
3) Evoluir na apuração deve ser um esforço constante. Afinal, ela é o coração de uma reportagem. O lance é pegar o touro pelos chifres, atacar a timidez, vencer a preguiça, enfim, superar tudo o que for necessário para inteirar-se do assunto, conseguir reunir mais e melhores fontes e conseguir produzir a matéria ideal: aquela em que você pode se dar o luxo de desprezar boas informações, porque tem material de sobra e pode incluir apenas as melhores. Desafios paralelos: expandir sua rede de contatos, manter uma boa relação com eles e conseguir tê-los organizados e sempre à mão – com alguma ferramenta mais eficiente que os bloquinhos de papel, que se perdem por aí.
4) Texto bom não é diferencial, e sim requisito. E tem que sair rápido. Quer dizer então que você tem um texto maravilhoso? Sinto lhe informar que as pessoas que trabalham nos grandes veículos foram peneiradas por diversos tipos de seleção, então em geral todas elas sabem escrever bem. Esse dom podia ser um diferencial enquanto você estava fora da redação e se comparava com seus amigos, que tinham níveis de desenvoltura variados. Ali dentro, texto bom não é diferencial, e sim requisito. Não espere ganhar uma medalha, porque isso é básico. E não é suficiente: você precisa escrever bem e dentro do prazo imposto, sob a pressão do seu fechamento. Por isso, treine seu ritmo e vá aprendendo a soltar o texto cada vez mais rápido.
5) Melhorar o networking. Esse ensinamento é repetido por aí como um mantra, e o Curso e a vida vão nos mostrando o quanto ele é importante. Fazer-se conhecer pelos outros é fundamental. Na redação, nos plantões, nas festinhas, nos botecos. Além de render amizades sinceras, que podem durar para a vida toda (ou não), isso pode abrir oportunidades profissionais, dentro do seu veículo e fora dele. Ao mesmo tempo, é preciso saber dosar a mão: ir com calma, ser suave, não forçar a barra. Senão você vira um cara chato, e o tiro sai pela culatra.
Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Não sei qual dimensão de cataclismo poderia viabilizar tamanho drama. Tão pouco consigo definir minha utilidade em um mundo pós-jornalismo. Seria um zumbi de orelhas grandes, talvez. E mancaria. Balzac, escritor francês, certa vez declarou que “se a imprensa não existisse, seria preciso NÃO inventá-la”. Pode chamá-lo de sacana, se quiser; eu o chamarei de desiludido. Ora, imaginar o mundo sem jornalismo é o mesmo que pensar em sociedades estanques, impedidas de evoluir. Um caos mais amplo, portanto.
De acordo com a Associação Nacional de Jornais (ANJ), existem hoje no Brasil cerca de 3.000 títulos, entre diários e semanais. Poderíamos relativizar, sem grande esforço, a qualidade de muitas dessas publicações. Duvidamos, também, da relevância de alguns dos programas noticiosos (vide Sônia Abrão) transmitidos pelas centenas de TVs e rádios espalhadas pelo País. O conteúdo publicado em certos sites e revistas levanta, do mesmo modo, as nossas suspeitas. Concordamos, no entanto, em um ponto: esses veículos são os responsáveis por tirar do sepulcro os mais bizarros casos de corrupção; são a voz de milhares de brasileiros que, todos os dias, arquejam ao fazer uso de um transporte público sucateado; em boa parte do mundo, a imprensa é a segurança de que a democracia, por mais que violada, terá o seu momento de respiro, a sua chance de retorno.
Apocalipse
O assunto é sério, mas vale também uma análise despretensiosa. Se o jornalismo morresse, teríamos que suportar, entre outras bizarrices, o programa de humor do William Bonner – diário. Como perderíamos em crítica, as músicas do Calypso comporiam a playlist de mais pessoas, uma delas, quem sabe, o seu melhor amigo. O sentimento de indignação, tão bem aguçado pelo jornalismo, ficaria adormecido em muitas almas, o que tornaria cada vez mais aceitável a ideia de que cuecas são, sim, excelentes depositários do dinheiro alheio. Marília Gabriela se transformaria na estrela-mor da Globo, e todos teríamos que elogiar a sua desenvoltura como atriz, sob pena de parecermos ressentidos caso não o fizéssemos. Em resumo: uma total baderna.
Redenção?
Se é desesperador pensar na hecatombe acima, agora imagine: Paulo Maluf impune. Exploração de menores como opção de lazer. Seis meses para conseguir uma consulta no SUS. Wall Street desregulando o mercado financeiro. A ocultação dos segredos da ditadura no Brasil. O despotismo dos dirigentes do futebol brasileiro. Por fim, o buraco em frente a sua garagem. Do alto da minha arrogância, grito: ainda somos necessários. Se o jornalismo não existisse, Balzac, nós estaríamos desamparados. Sem esperanças. O exercício proposto é simples – quase superficial – mas assombroso o suficiente. É hora de roer as unhas, caro leitor, porque a possibilidade apresentada nestas linhas não é de todo improvável.
Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
“A Pirâmide Invertida” (1993), do escritório de arquitetura nova-iorquino Pei Cobb Freed & Partners, no Museu do Louvre, em Paris - Foto: Stefan van Bremen / Creative Commons
Se você, internauta, for jornalista, já sabe sobre o que será este post só de ler o título acima. Se você não for jornalista, relaxe. Uma rápida busca por esse termo no Google lhe traz a resposta: a pirâmide invertida é uma técnica de redação de meados do século XIX para jornais impressos hierarquizarem dados. Sob esse sistema, as informações mais importantes sobre um fato (o que aconteceu, quem estava envolvido, onde, quando e como aconteceu) devem ser apresentadas no primeiro parágrafo, o lide. As causas do acontecimento noticiado, seu contexto histórico e personagens secundários aparecem apenas no restante da reportagem. O modelo foi concebido no auge do telégrafo, quando, caso fosse preciso mais espaço numa página, bastava arrancar os últimos parágrafos dos textos, pois as essências das novidades continuariam lá.
Mas a pirâmide invertida funciona no século XXI?
O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) disse, há cerca de 300 anos — época em que surgiram os jornais impressos como os conhecemos hoje —, que a leitura diária de jornal era “a oração do homem moderno”. No entanto, atualmente os “credos” são muitos e as “orações” também. É possível se informar pela televisão, pelo rádio, pelos portais de notícias, pelo celular etc.
Apresentar aos cidadãos toda manhã um “produto” só com acontecimentos do dia anterior parece desfasado e preguiçoso. As empresas jornalísticas ainda não têm solução definitiva para esse desafio e nunca antes a técnica da pirâmide invertida pareceu tão sem sentido nem tão danosa para se registrar fatos em tinta e papel.
Conforme os textos dos 30 focas são corrigidos por diferentes professores ao longo do Curso Estado de Jornalismo, sentimos que o meio impresso exige um elemento especial: estilos. É imprescindível seguir rigorosamente a norma culta da língua e apurar a maior quantidade de dados possível em qualquer formato midiático. Já na palavra escrita, não tem jeito: o que seduz pra valer são os estilos — assim, no plural, porque o escrever de forma diferente vem do pensar diferente, e pensar de outro modo é algo de que o jornalismo sempre carece.
Eu havia terminado de escrever este post quando fui, com quatro colegas do curso, à palestra “O Texto Jornalístico na Reportagem em Profundidade” nesta terça-feira, 4, parte da 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Lá, o repórter Christian Cruz, do caderno Aliás do Estadão, defendeu que a função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor, que pode se abastecer dos demais dados ao longo da reportagem (se esta estiver bem escrita). Seria uma visão romântica demais, talvez, não estivesse Cruz sentado a menos de um metro de Klester Cavalcanti, editor-chefe do Estadão.com.br, à mesma mesa de exposição. Cavalcanti comanda o portal sem deixar de exercitar a verve narrativa. É autor de “Direto da Selva”, “Viúvas da Terra” (pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti na categoria reportagem e biografia, em 2005) e “O Nome da Morte”. Diante disso, naquele auditório universitário, veio a mim — e, suspeito, também aos meus quatro colegas — a ideia de que a pirâmide até funciona. Por ora. Quanto mais avançam os tempos, porém, mais vale explorar outros sólidos geométricos e outras posições, além da pirâmide e da ponta-cabeça.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Foto: Paulo Liebert/AE
Ontem tivemos um bate-papo com um dos maiores ícones do rádio e do telejornalismo brasileiro: Boris Casoy – que atualmente é âncora do Jornal da Noite, na Bandeirantes. Mais do que uma conversa, para mim os comentários de Casoy incitaram várias reflexões sobre o fazer jornalístico, o futuro da profissão e o ensino nas universidades. Não pretendo discorrer longamente sobre cada tópico que me chamou a atenção. Contudo, acho importante citá-los para que vocês, leitores do Em Foca, também reflitam e discutam a atual situação do Jornalismo no País. Vamos lá?
1 – Casoy comentou que, para ser jornalista, “é preciso batalhar e ter cara-de- pau”
Concordo 100% e confesso que me irrito com quem reclama que o mercado “é difícil”. Se você espera o emprego cair do céu, realmente é. Mas, se você corre atrás de vagas e contatos; manda, pelo menos, uns cinco currículos por dia; sugere pautas em veículos que gosta para tentar um frila; ou mesmo expande os horizontes e aceita trabalhos em editorias que não são as suas favoritas, o mercado não é TÃO ruim assim. Estou errada?
2 – Para ele, “o mundo da tecnologia é muito rápido, mas o que importa mesmo é o conteúdo”
Será? Bem, eu queria MUITO que fosse. Mas, a cada vez que assisto à TV aberta, tenho a péssima sensação de que o conteúdo importa cada vez menos. Basta ver o exemplo de algumas emissoras, que tem a tecnologia digital-super-hiper-mega-blaster-full- HD, mas que exibem os piores conteúdos já vistos em rede nacional – e, pior, tem uma audiência considerável. Será mesmo que a mídia nos oferece o que queremos ver? Ou somos obrigados a consumir porque não há outra opção? O conteúdo ainda é a principal preocupação dos meios de comunicação?
3 – Casoy comentou que “a passagem pelo impresso proporciona força, disciplina e uma bagagem incrível”, deixando os jornalistas muito mais preparados para outros veículos
Confesso que fiquei feliz ao ouvir esse comentário, pois sempre senti certa rejeição das pessoas quando dizia que tinha preferência por trabalhar em jornal. Sabe aquela cara de “alou, a internet taí, o jornal vai morrer e o que dá dinheiro é TV!”? Então… Costumo me justificar dizendo que não conheço nenhum jornalista de TV que se destacou no impresso, mas que posso citar inúmeros exemplos de repórteres de jornal que hoje são excelências do telejornalismo. Pois é, o comentário dele foi um incentivo a continuar querendo trabalhar com o querido papel. Resta saber até quando…
4 (e último) – Ainda sobre o tema jornal impresso, Casoy citou a deficiência das universidades em realizar atividades práticas: “Os alunos se gabam por fechar um jornal em um mês, é absurdo. Falta a prática diária…”
Vocês também sentiram falta da adrenalina da redação e do desespero do deadline na universidade? Comentem, repassem, respondam e discutam. Mais do que contar nossas aventuras, também adoramos obter o retorno de vocês!
Gabriela Forlin, de 23 anos, é formada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali)
“O que você quer ser quando crescer?”. Quando começam a enveredar pelos caminhos do Jornalismo, muitos de nós já têm a resposta na ponta da língua. “Quero ser um comentarista esportivo!” “Quero escrever sobre cultura, é meu caderno favorito no jornal!” No meu caso, o interesse principal sempre foi por viagem e turismo, gastronomia e comportamento. São assuntos sobre os quais já venho escrevendo em meu blog há pelo menos quatro anos – e em blog a gente só escreve sobre aquilo de que realmente gosta. No que dependesse dessa “vocação”, meu caminho natural seria fugir do ‘hard news’ e me aproximar dos suplementos do jornal, ou então me infiltrar em revistas especializadas.
Logo nos primeiros anos de faculdade, porém, os professores já começam a cantar a pedra: talvez vocês acabem não escrevendo sobre aquilo com que hoje sonham. Em vários casos, a vida levará a guinadas profissionais que estão além da imaginação. Por isso, é melhor tratarem de ter o peito aberto e ser mais flexíveis, para topar as oportunidades que forem aparecendo, ou ao menos considerá-las sem preconceito. Vocês pensam que escolhem, mas na verdade é o mercado que escolhe vocês.
O Curso vai fazendo sua parte para ampliar nossos horizontes. Quando chega a hora de percorrer os veículos do Grupo Estado, não é dada aos focas a prerrogativa de escolher as editorias com que têm mais afinidade: todos os 30 alunos passam pelos mesmos cadernos do Estadão, de Economia a Esporte, e também pelo portal, pela agência, pela rádio. (A única variável – e que depende um pouco da sorte de cada um – é justamente a parte dos Suplementos. Alguns focas são chamados para o Caderno 2, outros para Viagem, outros para o Link ou o .Edu, por exemplo.)
Proporcionar uma experiência diversificada ao aluno do Curso é uma forma de colocá-lo em contato com outras possibilidades, e também de capacitá-lo para aceitar o que vier pela frente, já que as escolhas costumam ser feitas de cima para baixo. “Se vocês pensam que vão chegar ao editor de Metrópole e escolher a pauta que irão fazer, estão muito enganados!”, alertou Carla Miranda.
Se existe uma demanda por um conhecimento mais especializado, por pessoas que consigam ir além da superfície e produzir informação mais elaborada, também se espera do jornalista que seja capaz de transitar por vários assuntos, meios e redações. Já tivemos diante de nós uma universitária indecisa, um jornalista que lançara um livro sobre o ex-presidente Lula e uma equipe que alardeava as maravilhas do mundo dos transgênicos. Tivemos que entrar em todos aqueles universos, elaborar perguntas inteligentes e fazer com que aqueles momentos rendessem, em tese, material de qualidade para o leitor. Talvez alguns de nós não tivessem tanto interesse assim em educação, ou em política, ou em ciência, mas ninguém pode se dar o luxo de ficar à margem desses assuntos. Não como jornalista. É preciso ampliar o cardápio.
Nesse sentido, a experiência nas redações do Estadão tem sido reveladora. No bate-papo informal com os jornalistas da casa, vários deles têm relatado histórias parecidas: que não sabiam bem o que queriam, ou até sabiam, mas a vida os levou para outra direção. Em Economia, por exemplo, mais de uma pessoa com quem conversei não tinha um interesse prévio no assunto. Simplesmente rolou. O acaso fez sua parte, e hoje elas dizem que não fariam outra coisa. Quem baixa a
guarda e dá uma chance pode ter uma surpresa, e encontrar realização profissional onde nem imaginava.
Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
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