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Em Foca

Em nossa reportagem para o suplemento publicado no dia 11, nos vimos diante de uma situação que deve se tornar constante a partir de agora: mudança de planos. No nosso caso, total.

A princípio, falaríamos sobre a importância – que descobrimos ser nula – do Aquífero Guarani para o abastecimento da Grande São Paulo. Acabamos tratando da dependência da região metropolitana de poços de água – 35% deles, clandestinos.

Começamos nossa apuração nos arquivos do Estadão, pautados pelas riquezas subterrâneas de São Paulo. Em uma matéria sobre a crise de abastecimento de água da área metropolitana, o Aquífero Guarani – reservatório que passa por sete Estados do Brasil, além de Argentina, Uruguai e Paraguai – aparecia como uma das soluções, no pé da matéria. Pensamos: “Podemos inverter a pirâmide! (ou seja, a ordem da notícia)”

Tínhamos nossa pauta: a importância do Aquífero Guarani para o abastecimento de São Paulo. Entretanto, conforme mais fontes eram ouvidas, mais o assunto perdia força. Insistimos. De tanto correr em círculos, concluímos o óbvio: o reservatório, apesar de sua importância estratégica, não possui ligação alguma com a capital e seus arredores, foco do nosso caderno.

Voltamos ao ponto de partida. Em uma das entrevistas, ainda sobre o aquífero, o professor da USP Ricardo Hirata falou sobre sua preocupação com poços clandestinos. O assunto nos interessou e fomos apurar. Repetimos, então, nossa vasculha no arquivo do jornal. Conversamos com outras fontes: Gerôncio Rocha, geólogo da Coordenadoria de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, membros da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas) e o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), responsável pela fiscalização das perfurações de São Paulo.

Ouvimos todas as partes potencialmente envolvidas na questão e obtivemos um panorama preocupante: ao mesmo tempo em que são fundamentais para o abastecimento da Grande São Paulo, os poços clandestinos causam sérios riscos ambientais e de saúde pública para a região. Além disso, mesmo os poços legais, imprescindíveis para a metrópole, podem provocar o desmoronamento do sistema hídrico da região se usados descontroladamente. Um problema mais próximo do que o leitor pode suspeitar.

Aquífero Guarani

Mesmo tendo adotado o problema dos poços clandestinos como pauta principal, seguimos pesquisando a respeito do Aquífero Guarani – até por ser a reserva de água subterrânea mais famosa do Brasil. Voltamos nosso foco para a cidade de Ribeirão Preto, cujo abastecimento provém todo do reservatório. Ao fim do processo de apuração, que envolveu entrevistas com especialistas como Luiz Amore, coordenador do Projeto Aquífero Guarani, e com o Daee e o Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp), escrevemos um box mostrando a questão da superexploração do reservatório na cidade.

Acesse o PDF da matéria Região depende de poços de água clandestinos

Gustavo Antonio, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

Gustavo Ferreira, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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05.dezembro.2010 17:56:23

Sorvetes e sexagenários

Viajávamos, eu e meu avô. Chorei, esperneei, lutei até convencê-lo de que nada, nada mais nessa vida era tão importante quanto eu comer um sorvete de chocolate. Não era um simples sorvete. Era lindo. Desses de tevê. Imponentes, mágicos, sedutores, escorrendo pela taça. Fabulosamente intocável. Quase sensual.

Venci. Ganhei meu sorvete. Diante de mim, ele era um adversário. Um amado inimigo enfrentando minha colher em riste. Preparei meu ataque e, lambendo os beiços, desferi punhaladas e punhaladas. Pedaço a pedaço, joguei-o goela adentro, ferozmente. Conforme derretia em minha garganta, o doce acariciava meu coração. Lambuzava-me, sujava-me. Gracioso.

Conforme destruía aquele gigante gelado, uma angústia se abatia sobre minhas costas. Caso fosse uma balança, meus ponteiros marcariam toneladas e toneladas, multiplicando-se cada vez mais rápido, conforme o fundo da taça se tornava mais visível.

Regido por uma orquestra que só eu ouvia, saboreei-o como se, em um estalar de dedos, alguém fosse capaz de decretar a “desinvenção” do sorvete. Somei banquinho, sobremesa, camiseta melecada, avô generoso e gula, chegando a uma enorme festa. Que acabou.

Isso nunca aconteceu. Mas foi assim que digeri esse curso: com a gana merecida de um sorvete imaginário.

E daqui a 40 anos?

Propus a alguns focas uma viagem ao futuro, assim como fiz a esse passado inexistente. Neste vídeo, queridos colegas falam ao Em Foca sobre as delícias pretendidas aos seus 60 e tantos anos. Até breve!


Gustavo Ferreira, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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24.novembro.2010 18:17:39

Matéria a várias mãos

Se em um dia dois repórteres conseguem produzir uma matéria de 3 mil caracteres cada um, dificilmente se pode esperar que em dupla consigam fazer uma de 6 mil. Não é a simples soma dos esforços; há mais coisa envolvida.

Para o suplemento dos focas, muitas matérias estão sendo feitas em dupla ou trios. Em parte, porque há 30 repórteres para menos de oito páginas, e não há como fazer 30 pautas diferentes. Por outro lado, a matéria em dupla tem uma apuração mais cuidadosa, adequada para um suplemento, que tem um caráter mais analítico e reflexivo. “A apuração é mais ampla. Você consegue falar com mais fontes e, principalmente, ver os fatos por diferentes pontos de vista”, diz o foca Guilherme Waltenberg.

Além da apuração, o texto fica diferente, como diz o foca Gustavo Ferreira. “É difícil escrever a quatro mãos. Talvez seja mais demorado, mas como os repórteres têm de entrar em consenso, o texto fica mais ponderado.” Como não há hierarquia entre os repórteres, ninguém tem autoridade sobre o texto do outro. É preciso muito tato para criticar e, como diz a foca Paula Bianchi, humildade para aceitar críticas. “É um exercício de humildade, todo o processo de entrar em consenso desfaz no jornalista a sensação de que sua visão sempre é a mais certa.”

Confiar no trabalho do outro também é essencial. Apesar da apuração conjunta, muitas vezes os repórteres acabam fazendo uma matéria cada, com uma abordagem distinta. O foca “Cedê” Silva ressalta outra vantagem. “A dupla de repórteres pode trocar os textos, e como o repórter que o lerá está mais bem informado sobre o tema, as críticas ficam melhores.”

Ricardo Santos, de 22 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP)

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13.novembro.2010 17:41:57

Saber (o que) fazer

Estaremos no banco de talentos do Estadão no dia 11 de dezembro, onde seremos expostos durante um ano. A um mês do fim do curso, preenchemos um formulário com nosso perfil profissional. Por meu nome ter vindo pronto quando nasci, foi fácil responder. Não vi problemas, também, em colocar minha formação e a experiência adquirida nos últimos dos 24 anos datados em meu RG. Agora, no item “predileções”… Uma interrogação tão pesada quanto meus mais de 90 quilos!

Foi um parto escolher uma profissão quando saí da escola. Sempre quis Jornalismo. Sempre, mas sem descartar o Direito. Rejeitei a advocacia e retornei ao sonho de ser jornalista. Relutante, cogitei Psicologia, Desenho Industrial e mais alguma possibilidade hoje esquecida. Passei em Filosofia e não fiz a matrícula. Voltei ao cursinho preparatório, cravando “Jornalismo” no cabeçalho do vestibular.

Faculdade, estágio, diploma, queda do diploma, trabalho e cá estou: certo de ter tomado a melhor decisão. E agora? Como seguir? Talvez, daqui a muito tempo, abrace alguma das opções antes preteridas, também. Ou não. Será? Novos partos.

Creio dividir essa angustia com colegas atuais e futuros. Gosto de política, música, televisão e futebol. De acompanhar o funcionamento dos motorzinhos da sociedade. Suas causas e consequências. Fiz Jornalismo por adorar ler e, principalmente, escrever sobre um monte de coisas. E sobre quais delas falarei nos próximos anos?

Entrei aqui no curso cheio de perguntas e sairei com outras várias. Várias e boas. Estendi meu leque de opções. Além das áreas preenchidas para daqui a 30 dias, percebi outras, imprescindíveis para os próximos 30 anos serem bastante divertidos. Mas como “saber fazer” tendo no meio um “o que”?  Fazendo bem feito. Tentando, pelo menos. Buscando ser feliz nisso tudo, sem vergonha do clichê. Deixando o “o que” nos escolher. Eu acho. Ou não. Será?

Gustavo Ferreira, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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26.outubro.2010 19:30:11

‘Não tem sacanagem’

Desde o primeiro dia de aula, Francisco Ornellas, coordenador do curso, repete exaustivamente: “Não tem sacanagem”. Resume, nesta frase, a ideia de que toda atitude tem suas consequências, cabendo a nós alcançar as melhores. Assim tem sido há 21 anos.

Francisco Ornellas e Bruna Maia, uma das 30 focas de 2010 (Foto: Lucas Sampaio)

Chico falou ao Em Foca sobre sua experiência à frente do programa. O jornalista dá dicas àqueles que se preparam para fazer parte da 22ª turma.

Em Foca: Como o futuro jornalista deve se preparar para a prova de seleção do curso?

Francisco Ornellas: Saem melhor na prova aqueles que, ao longo da vida, cultivaram o hábito de leitura. Não há receita para “se preparar”, tem de “estar preparado” no momento da inscrição. Isso significa praticar diariamente o culto à informação; com olhar de jornalista, não unicamente de leitor.

EF: O que é exigido dos participantes do curso?

FO: Dedicação. Esta é a palavra que melhor explica o que se espera do “foca”.

EF: O que mais aprendeu com as 21 turmas que coordenou?

FO: Fica muito claro, depois de 20 anos e durante este 21º ano de convivência com o jovem profissional, que aqueles que se dedicam sem limites ao programa têm um início de carreira mais rápido e de ascensão crescente. Ao inverso, os que imaginam transformar o programa em apenas uma extensão da graduação enfrentam dificuldades maiores. Além disso, está provado que o programa complementa a formação do jovem, mas não consegue provê-la por completo. Daí a decisão de seguir exigindo a graduação específica em Jornalismo.

Gustavo Ferreira, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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14.outubro.2010 01:23:20

Reaprender

Não precisamos necessariamente de chicotes – como os presenteados a Chico Ornellas – para aprendermos certos coisas. Mas é realmente muito bom ter esse tempo de reflexão, esse reaprendizado de tudo o que achávamos saber. Aquela do filósofo, “só sei que nada sei”, sempre foi um dos motivos para alguns se aventurarem por esta profissão, que todo dia te dá algo novo sobre o que pensar, sobre o que aprender. Um dos meus motivos, pelo menos.

E como reaprendemos nos últimos dias! Não há como esquecer a já maior tag do blog, Paco Sánchez, hablando en pacunhol que a promoção do amor é a grande função do jornalista. Fica na memória também a conversa com o californiano-brasileiro Matthew Shirts, editor da National Geographic no Brasil, mostrando em Portuguese a força do fotojornalismo. A última palestra foi com o editor do Estado Marcelo Beraba, que discutiu o valor da apuração. Aprendemos até mesmo a como nos comportar em um jantar servido à francesa com a consultora de imagem Renata Mello. Copos e talheres não são mais um problema.

Com os colegas de curso, constatamos, mais uma vez, que este País é grande e diverso. Neste caso, biscoitos e bolachas não são bons parâmetros, como escreveu um dos Gustavos. Eu, por exemplo, nasci comendo bolachas; hoje, compro biscoitos. É nos confrontos de experiências que as diferenças se sobressaem. Formamos um time tão cosmopolita e variado ideologicamente que é difícil prever aonde a próxima conversa vai chegar. Possivelmente em piadas. Certamente inteligentes.

Grande parte da transpiração que a profissão exige está neste aprendizado constante, sem fim. Para isso, mais do que refletir, precisamos mergulhar nos fundamentos básicos da profissão, sem nos esquecer dos valores humanos. Afinal, durante o curso, falamos com médicos e lixeiros, ministros e mendigos. E é o que estamos fazendo nos últimos dias: mergulhando em jornalismo.

Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual

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13.outubro.2010 12:14:49

Bolachas e biscoitos

53% da turma de focas do Estadão come bolachas. E vocês se perguntam: “E daí?” Explico: os outros 47% comem biscoitos. Sim, todos nós gostamos – suponho – dessas guloseimas recheadas. Porém, do mesmo modo como uns preferem as de chocolate e outros as de morango, há quem compre bolachas, não biscoitos.

As diferenças entre nós são gritantes, e vão além. Estão nas distintas cadências, volumes e tons de voz. Nas mesmas expressões de vários significados e nos inúmeros termos de definição comum. Nos 30 representantes de 19 cidades, natais ou escolhidas para viver e estudar. Estão somente nas nossas cabeças, vindas de quatro Regiões do País. As diferenças não existem: bolachas e biscoitos são iguais.

Claro, não pedirei na padaria, por exemplo, um “cacetinho” no lugar de um “pão francês”. Tampouco invocarei a padroeira do Brasil com a interjeição diminutiva “Nó!” (ou, em casos de maior espanto, “Nú!”). Nem trocarei “s” por “x” ou abdicarei de meu “r” característico. Isso, não. Somos iguais, mas nem tanto. Nestes 43 dias de curso, toda igualdade se manteve acima das expressões antes atípicas. Está nos olhares que, fora condenarem minha predileção paulistana por bolachas, traduzem a cidade que eu já não lia.

Gustavo Ferreira, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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