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Em Foca

Fazer um caderno sobre os subterrâneos da cidade nos permitiria levar ao leitor uma série de coisas que ninguém vê ou talvez tenha apenas ouvido falar. Isso ocorreu até mesmo com a gente. No nosso caso – Felipe Frazão, Gustavo Coltri e Daniela Schmid – havíamos escutado histórias de que pessoas moravam sob a terra em São Paulo. Nosso objetivo foi achá-las e contar suas histórias.

Saímos em busca de indícios e lugares onde poderíamos encontrar esses moradores. Foram cerca de duas semanas de buscas, sempre à tarde e à noite (nesses horários, as pessoas costumam vagar pela rua e, durante o dia, havia outros compromissos do curso). Fizemos contato por telefone e visitamos entidades civis e religiosas de auxílio a moradores em situação de rua. Entramos em buracos sob viadutos, ficamos de plantão em cemitérios, distribuímos cobertores sob chuva fina com os irmãos da Toca de Assis, frequentamos a macarronada da Sé, descemos em galerias pluviais.

Tivemos sucesso em quatro investidas, que optamos por dividir em reportagens independentes com traços comuns: apego a Deus, isolamento da família, falas rápidas – às vezes desconexas, com informações inconsistentes –, temor em revelar nome e local de moradia (o que, num dos casos, foi exigido para conseguirmos a entrevista), proximidade com drogas, medo de bandidos e da Polícia.

Por opção da edição, as histórias foram condensadas, preservando ao máximo a parte mais pertinente de cada. Também tivemos de cortar a matéria sobre os jovens retirantes Jonatan, de Alagoas, e Enoque, do norte de Minas.

Leia algumas curiosidades e trechos inéditos.

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No centro, conseguimos nossa primeira entrevista. Fomos ao encontro de Jonatan, de 28 anos, e Enoque, de 23. Os rapazes dividem um mocó (como chamam o buraco sob um viaduto da região) com mais sete pessoas. Foi também nosso primeiro choque. Eles vestiam roupas limpas, contrariando o estereótipo do morador de rua em situação de mendicância, completamente sujo, com vestes rasgadas, cabelos e barba por fazer. 

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A dependente de crack Sônia mora com mais três pessoas na barraca improvisada na galeria pluvial da Avenida Inajar de Souza. Por conveniência, apelidou-os de Tia, Grandão e Barba. Não sabe o nome verdadeiro deles. Mesmo assim, disse entre uma baforada e outra no cachimbo com a droga: “Esses são meus amigos de verdade, estão sempre comigo.”

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Cleonice vive solitária no cemitério, mas, às vezes, visita a filha em Guaianases, zona leste de São Paulo. A pernambucana, idosa, chegou a São Paulo ainda jovem, para ser empregada doméstica em casa de família. Dos tempos em que tinha emprego formal, resta apenas um cartão do INPS.

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Zé, o morador da Praça da Sé que abre a reportagem publicada no suplemento, está escrevendo dois livros, nos quais conta sua vida nas ruas. Ele estudou até o ensino médio, tem vocabulário amplo e freqüenta lan houses da região. Religioso, dorme nas escadarias da catedral e sonhava em ser padre. Depois de perder a casa num incêndio, pediu a Deus para não ter mais nada de material. “Meu sacerdócio é nas ruas.”

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Acesse o PDF da matéria Histórias de quem conhece a vida embaixo da terra

Felipe Frazão, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e cursa Ciência Política na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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Uma das matérias que fiz durante o curso fala sobre pessoas excluídas da sociedade e do exercício da cidadania. Junto com os focas Felipe Frazão e Gustavo Coltri, percorri as ruas de São Paulo em busca destas histórias. Mesmo que a procura das fontes tenha sido um desafio, a redação foi a parte mais difícil. Tivemos medo de empobrecer as experiências de vida dos personagens e preferimos dar ênfase ao seu sofrimento. A correção da nossa editora, Carla Miranda, apontou para uma questão pertinente: as histórias já tinham carga dramática elevada por si só, não precisavam de mais drama no texto. Um estilo descritivo e sem exageros era a melhor opção. Diante do toque da editora, reavaliamos nossas palavras.

No último fim de semana, ao parar em frente a uma banca de jornal, lembrei desse aprendizado. Vi diversas capas de revistas sobre a lamentável situação de violência no Rio de Janeiro. Sou natural do Estado do Rio, e as notícias sobre lá me comovem. Mas comovem também aos meus amigos focas de outras Regiões. As notícias sobre a violência no Rio, assim como as histórias dos personagens do suplemento, são dramáticas por si só.

Entretanto, o que se vê na banca de jornal é um drama sobre o drama. Capas com fotos que parecem pertencer a um filme de guerra e até uma montagem do Cristo Redentor com balas e colete do Bope. E se o Cristo não estivesse de braços abertos, é provável que ele estaria também pegando em armas. As manchetes falam sempre de uma luta do bem contra o mal, como se a realidade tivesse o maniqueísmo de um conto de fadas.

O fundamental para o jornalismo em um momento desses é informar. Contar uma situação dramática da forma como ela é, sem pintá-la com cores ainda mais fortes. Informar de forma fiel, sem gerar sensacionalismo com os fatos, é sinal de compromisso com o leitor e respeito ao objeto retratado.

Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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Depois de quatro dias na Argentina, estamos de volta ao Brasil. Na mala, trouxemos algumas boas lembranças, como as visitas aos jornais Clarín e La Nación. E voltando para casa também iniciamos nossa temporada de despedidas.

Essa foi nossa última viagem. Antes, fomos ao interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Ótimas oportunidades para conhecermos mais sobre algumas indústrias polêmicas. E uma chance para nos divertirmos fora da rotina no Estadão.

Além disso, teremos concluído nosso suplemento em poucos dias. Motivo de alívio e de orgulho. Tem sido um trabalho realmente grande lidar com o prazo apertado para produzir as matérias. Só espero que gostem do resultado no dia 11.

A última semana também se aproxima. É tempo de refletir sobre os últimos três meses e, entre uma aula e outra, de preparar estratégias para o pós-curso. Tarefa tão complicada quanto assustadora.

Por mais dolorido que pareça seguir em frente, sinto estar dando um passo necessário. Ou, como diriam os especialistas em administração de carreiras Vicky Bloch e Luiz Carlos Cabrera, fechando um ciclo. Aliás, o maior e mais intenso dos últimos tempos.

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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23.novembro.2010 18:31:30

Texto ou foto?

Não só de jornalistas com experiência em texto é feito o Curso Estado de Jornalismo. Apesar de ser um programa de treinamento voltado para a formação de repórteres, muitos da 21ª turma traçaram outros caminhos que não o da reportagem escrita antes de chegar aqui.

O Tiago Rogero, foca 29 deste ano, trabalhava há dois em uma rádio de notícias de Belo Horizonte antes de ser selecionado para o curso. Como muitos outros, pediu demissão com a certeza de que o curso o tornaria um repórter melhor. O traço inconfundível faz de Tiago o caricaturista oficial do grupo.

Com experiência em televisão, o foca 15, Gustavo Coltri, deixou o frila em um canal a cabo em Porto Alegre para se mudar para São Paulo. A possibilidade de trabalhar em um grande jornal e a perspectiva de crescimento profissional fizeram com que o primeiro dos quatro Gustavos deixasse o emprego e a família
no Sul para voltar à sua cidade natal.

Comigo não foi diferente. Durante a entrevista de seleção para o curso, ao descobrir meu emprego em Florianópolis, o coordenador Chico Ornellas foi incisivo:

- Tá, mas texto ou foto?

Sabia que seria inevitável. Formado desde dezembro do ano passado, há 10 meses eu trabalhava como repórter fotográfico em um jornal de Santa Catarina. Toda a minha graduação tinha sido direcionada – inclusive meu trabalho de conclusão de curso – para juntar minhas duas maiores paixões: o jornalismo e a fotografia.

Titubeei. Mesmo tendo me preparado para a pergunta, disse, sem convicção, que queria ser repórter. Chico repetiu a pergunta:

- Texto ou foto?

Texto. Tinha certeza de que a chance de fazer o curso, mesmo que a fotografia tivesse de ficar de lado por três meses ou talvez a vida inteira, era imperdível. Seria um jornalista melhor.

No fim, deu tudo certo. Entre as atividades diárias do curso e a correria da apuração das pautas e do infográfico para o suplemento, tenho conseguido fotografar nosso dia a dia e, de vez em quando, fazer dupla com os colegas em uma pauta ou outra do caderno.

Também aproveitei as poucas folgas do curso para fotografar para o jornal em que trabalho as partidas do Avaí e do Figueirense contra equipes da capital paulista.

Mas demorei quase dois meses para recomeçar a fotografar com frequência. Tem sido um prazer imenso escrever. Enxergar o mundo – e tentar traduzi-lo ao leitor – através de um bloquinho e uma caneta tem sido tão prazeroso quanto era com uma máquina fotográfica.

Lucas Sampaio, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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16.novembro.2010 20:00:12

Um pouco mais de tempo

Um pensamento melancólico tem me acompanhado com alguma frequência nos últimos dias. “Poxa, não falta muito para acabar!” Pode parecer um tanto quanto dramático dizer algo do tipo a 23 dias do fim do curso. E, para ser bem sincero, realmente é um pouco exagerado.

Sei que o momento não é ideal para sentimentalidades. Temos um suplemento inteiro pra produzir, e o tempo não tem sido um grande aliado – o que, por si só, é motivo para alguns sobressaltos. Talvez por isso esse lamento seja um pouco egoísta. Desculpe, não posso evitar.

Agora, se tanta coisa acontece em apenas um dia e uma semana chega a parecer uma verdadeira eternidade, por que raios esses últimos 23 dias têm dado sinais de ser tão escassos? Ainda há muito a aproveitar!

Muita coisa deve mudar depois de 10 de dezembro. Alguns de nós voltarão para casa. Outros arriscarão as economias em empreitadas profissionais pela Pauliceia. Não teremos mais esse convívio intenso – marcado por conversas inflamadas sobre política, divagações sobre o futuro jornalístico e até por piadas sobre as coisas menos importantes do mundo. Por acaso é demais ter saudades antecipadas?

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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26.outubro.2010 14:25:40

Um trinta avos

Como você já deve saber, todos os anos os focas são ordenados por algarismos. Eu sou o número 15 da turma de 2010. E, no ano que vem, um novo jornalista vai ocupar o lugar que hoje sinto ser meu. Simples assim. Impessoal? Nem tanto.

Se há um mês e meio os números organizavam um grupo de desconhecidos, hoje eles mostram que nós, focas, formamos um conjunto. Não represento muito no bolo – apenas a fração de um trinta avos –, mas me sinto privilegiado em fazer parte de tudo isso. Afinal, compartilhar a experiência é um dos aspectos mais legais do curso.

Convivemos todos os dias úteis em período integral. Dividimos o tempo e algumas tarefas (como é o caso da atualização desse blog). Nos momentos de descanso, buscamos juntos opções de lazer – e, curiosamente, nos divertimos como amigos de longa data.

O suplemento do curso no Estadão será feito em conjunto, claro. E marcaremos como turma nossa passagem pelo jornal. Depois, bem… que venham outros 30.

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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12.outubro.2010 18:55:18

Uma massagem, por favor!

Quase me acostumei. No último mês, com frequência sinto algumas dores na cervical. Às vezes, o corpo reclama logo cedo, ao acordar. Sem surpresas, o incômodo tem causa puramente emocional. É tensão. Não me sinto totalmente preparado para tudo isso, sabe? Mas, se estivesse, a experiência não teria a mesma graça…

No início das aulas, o coordenador do curso, Chico Ornellas, já avisava. O programa de treinamento exige 24 horas por dia de dedicação. Exagero? Talvez. Mas posso garantir que ele errou por pouco. Chegamos cedo ao Estadão e não saímos de lá antes do fim do dia. São dois períodos em classe, além do apoio às editorias dos veículos do Grupo Estado e das eventuais atividades aos sábados e domingos. O prazo de entrega das matérias, normalmente marcado para as 23h59, representa outro desafio – e, por isso, cheguei a passar o início de algumas madrugadas no jornal. Ruim? Nem pensar. Não esperava por outra coisa quando deixei emprego e família no Rio Grande do Sul.

Ao todo, dedico umas 13 horas por dia ao jornal, às vezes mais do que isso. E não estou contando os happy hours, ok? Em regra, fico envolvido com alguma função do curso. Nos momentos de tranquilidade, porém, permaneço no jornal simplesmente porque gosto de estar lá. O objetivo, simples, baseia-se em aproveitar cada minuto antes que essa se torne apenas mais uma boa história para contar. Dos colegas – porque minha vida social em São Paulo se resume a eles –, tiro novas amizades. Dos professores, a lição de que há ainda um longo caminho a percorrer na profissão.

As dores refletem esse turbilhão, um misto de medo, ansiedade e alegria. O que está previsto para amanhã? Prefiro nem pensar… A cervical agradece.

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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