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Em Foca

“Tenho uma boa e uma má notícia para vocês.” Foi o que nos disse Carla Miranda, editora do nosso suplemento, após reunião com o editor-chefe do Estadão, Roberto Gazzi, sobre o tema do especial que saiu no dia 11.

A boa notícia era que Gazzi tinha gostado da ideia de falar sobre os subterrâneos da cidade. A má era que, de alguma maneira, teríamos de relacioná-la ao petróleo do pré-sal. De fato, o assunto mais em voga sobre o que há sob a terra hoje em dia é o petróleo. A dificuldade seria relacioná-lo ao que há embaixo da cidade de São Paulo.

Ao receber a notícia, comecei a pensar sobre o petróleo. Assunto não faltava, faltava somente a conexão. Resolvi encarar a pauta.

Sabia da existência de um grupo formado em 2008 pelo governo estadual para analisar os impactos do petróleo em São Paulo. O grupo chama-se Comissão Especial para o Petróleo e Gás de São Paulo (Cespeg). Fui atrás deles. A data que iniciamos o suplemento coincidiu com a publicação do primeiro relatório da Cespeg sobre as potencialidades e dificuldades de São Paulo relacionadas ao assunto. Li o material e enumerei algumas ideias que poderiam render pautas: efeitos na economia, geração de empregos, investimentos e infraestrutura, entre outros.

Continuei pesquisando e conversando com repórteres do Grupo Estado que trabalham com o tema em busca de alguma pauta ainda inexplorada. Foram ao todo 15 entrevistas com especialistas no setor para a matéria.

A ideia final chegou numa manhã em que conversava com Carla sobre o andamento da pesquisa. Tínhamos alguma informação sobre o Plano Diretor de Dutos (PDD) da Petrobrás, que visa a modernizar a rede dutoviária e tirá-la de dentro das cidades por questão de segurança. Apesar de não apostar muito no tema, resolvi ir atrás. E foi o que de fato nos deu o lide da matéria.

Depois de anos correndo atrás de licenças ambientais, o projeto finalmente terá início no começo de 2011. Estas foram informações que consegui com a Petrobrás. O melhor de tudo é que eram novas.

Pesquisei assuntos relacionados ao tema. Encontrei algo em torno de 30 matérias sobre PDD e, enfim, a ideia tomou corpo. Um dos fatos que melhor se adaptou à matéria foi o de que dutos da Petrobrás ameaçaram temporariamente a construção do futuro estádio do Corinthians, em agosto. Ao pesquisar, cheguei à informação de que esse duto será desativado no PDD. Aí estava a matéria: a notícia do início do plano, algumas consequências das mudanças, um pouco de análise e um fato emblemático, como o do estádio. Faltava apenas a voz de um especialista que ajudasse a ver um outro lado além da “modernização”.

Voltei às entrevistas com acadêmicos. Uma opinião que foi consenso nas cinco entrevistas que fiz sobre o PDD foi de ser necessário mudar a malha por causa de uma irresponsabilidade no passado por parte do governo do Estado, que permitiu que fossem feitas construções na superfície dos dutos. E assim organizei a matéria. O fato, as consequências, o porquê demonstrado a partir de um caso emblemático e um outro lado, aquele da “verdade por trás da verdade aparente”, como diria Cláudio Abramo, ou seja, o propósito do PDD não é somente modernizar, mas também corrigir erros.

Eis que, depois de descascado, o abacaxi mostrou-se doce. A matéria deu trabalho mas foi prazerosa. Terminei um pouco antes do prazo, o que me deu a oportunidade de acompanhar o processo de montagem do caderno junto aos outros focas.

Acesse o PDF da matéria Petrobrás vai reordenar dutos em SP

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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Buenos Aires – Dias quentes e noites frescas. Esta é a primavera em Buenos Aires. De manhã, as bancas de jornal estão abertas e não são lojas de conveniência, como no Brasil. Vendem revistas, jornais e produtos relacionados a informação. Nada além.

As tardes estão quentes nesta época do ano. O sol brilha forte no céu e pancadas de chuvas, como as que ocorrem no verão brasileiro, se repetem por aqui.

No fim da tarde, próximo às 18h, trabalhadores do centro deixam suas empresas e se encontram nos cafés, muito comuns na região central da cidade.

***

Esta foi a minha primeira imagem da capital argentina. Na viagem que fez parte do curso, nós, focas, fomos a Buenos Aires e não deixei passar a oportunidade de escrever como uma espécie de “correspondente no estrangeiro” do blog.

Chegamos à capital argentina no domingo e ficamos até ontem. No primeiro dia, conhecemos as gráficas dos jornais El Clarín e La Nación, além da redação do El Clarín, jornal com maior tiragem do país. Na terça-feira, fomos até algumas obras da Odebrecht, patrocinadora do curso, e fizemos um city tour na quarta-feira.

***

Buenos Aires respira política. A morte do ex-presidente Nestor Kirchner deixou marcas profundas na sociedade. É fácil ver pichações nas paredes e muros se referindo a isso.

“Nestor con Peron. El pueblo con Cristina”, dizia uma, em frente à Casa Rosada, residência oficial da presidente. “No es posible apagar tanto fuego”, dizia outra, que servia de legenda para uma foto do líder morto.

Apesar do atual movimento, nem todos estão com o casal Kirchner. Bruno Rezende, vendedor de uma loja de doces no centro, culpa a falta de oposição pela atual adoração ao ex-casal.

“Não temos opção. Desde o começo da década, faltaram líderes que conseguissem mobilizar a nação e fazer algo de fato. Nestor e Cristina podem ser corruptos e autoritários, mas tiraram a Argentina da crise e ajudaram aos pobres”, afirmou.

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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16.novembro.2010 19:00:39

Ainda não, mas quase

Focas convivem com um dilema. Ainda não estamos de fato numa redação, mas quase. E esta sensação de “quase lá” leva boa parte de nós ao limite da força para chegar “lá”, à redação.

Não é raro ouvir histórias de focas que ficam no prédio do Estadão até as 23h, 23h30. O último fretado para a Barra Funda sai às 23h45. Logo, até lá, o tempo pode ser útil. Trabalho, para nós, não falta.

Outra característica é o constante estado de alerta. Apesar da dedicação, do ânimo, é preciso saber o que está ocorrendo ao seu lado.

Lendo o livro Inverno da Guerra, de Joel Silveira, que narra seus tempos de correspondente na Segunda Guerra Mundial pelos Diários Associados, encontrei o relato dele sobre sua relação com Egydio Squeff, correspondente de O Globo.

“Squeff era frágil, ardiloso: nos últimos dois meses de guerra, que foram os mais intensos, eu procurava de toda maneira não me desgrudar dele, jamais perdê-lo de vista. E ele fazia o mesmo.” Nessa passagem, ele descreve a relação de amizade/competição entre os dois.

Entre os focas, não ocorre o mesmo, mas quase. Todos querem ter boas ideias (e elas de fato fluem em abundância por aqui). Todos querem reconhecer as boas ideias. Todos em alerta, todos buscando seu lugar “lá”, na redação.

Ao mesmo tempo em que o tempo é de alerta, é também de exploração. Nas tardes e fins de semana passados no jornal, o contato direto com o trabalho de cada editoria nos ajuda a saber o que de fato gostamos. A que parte do jornalismo queremos nos dedicar.

Pois além de lidar com o “ainda não, mas quase”, ficamos em constante estado de alerta. E, mesmo sem definições, vem a atividade de exploração. Explorar o que queremos dentro da profissão que escolhemos. Ainda não estamos lá, mas quase.

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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03.novembro.2010 16:00:16

Vitória dos focas

Os focas acompanharam em tempo real a cobertura da vitória da candidata de Lula. O segundo turno das eleições foi uma excelente oportunidade para atuar em um grande evento. “Foi legal porque a gente ajudou no trabalho. Acompanhamos as eleições nos outros Estados e sugerimos pauta para fazer a repercussão”, afirma o foca Guilherme Waltenberg.

Alguns focas já haviam participado de outras eleições. É o caso da gaúcha Bruna Maia, que ajudou na cobertura da votação para prefeito de Porto Alegre. A foca achou o trabalho na rede RBS, na qual era trainee, bem mais tenso e corrido, pois precisava organizar entradas ao vivo a todo momento. “A cobertura do jornal é mais organizada e, por isso, o pessoal trabalha com mais tranquilidade.”

Eu fui para a rádio Eldorado no período noturno. Juntamente com o foca Gustavo Aleixo, passamos a noite “ralando” para colaborar com a equipe fixa. Não tivemos grandes problemas e acredito que demos uma boa contribuição. Além da experiência de trabalho, foi uma boa oportunidade  para estabelecer contatos com assessores e outros políticos.

Amon Borges, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e estuda Filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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Certa vez li num desses e-mails de corrente uma definição para jornalista: alguém com opiniões sobre os mais variados assuntos. Pouco a pouco, percebi que esse retrato era fiel à realidade. No entanto, qual a consequência disso?

Ao fazer uma entrevista com candidato a um cargo político, devo mostrar para ele minha inclinação a votar no seu concorrente? Ou será que, se ele for acusado de corrupção, eu devo ser mais agressivo nas perguntas?

Recentemente, nós fomos a Santa Cruz do Sul (RS) conhecer o processo fabricação do cigarro. Junto ao itinerário montado, que incluía visitas desde as plantações de tabaco até a fabricação do cigarro, tivemos palestras com executivos da indústria e produtores de fumo. Muitos de nós já tinham uma opinião sobre o assunto e, boa ou ruim, influenciou as perguntas.

Se um repórter considera a empresa de tabaco como uma produtora indireta de câncer de pulmão, terá perguntas com um tom agressivo. Se o repórter a legitima pela quantidade de empregos que gera (aproximadamente 2,5 milhões), buscará defendê-la.

No entanto, onde ficam aqueles pequenos detalhes que vão além desses dois pontos de vista, como a agricultura familiar, a invasão dos cigarros paraguaios (sem controle de qualidade), ou os 2% de todas as exportações brasileiras representadas por esta indústria?

Pois bem. É neste ponto que a definição do e-mail encontra um obstáculo. Toda opinião pré-concebida limita a visão e, consequentemente, a curiosidade. Por isso que é fundamental nos esvaziarmos de nossas opiniões, ao menos na hora de fazer uma cobertura.

“Vocês não podem chegar numa entrevista com uma tese formada e tentar achar argumentos para comprová-la”, adverte Chico Ornellas, coordenador do curso.

“Mirar, escuchar, pensar y contar”, sugere Paco Sánchez. Inverter o processo, colocando o “pensar” antes do “mirar y escuchar” pode ser como colocar a carroça na frente dos bois ao escrever uma matéria.

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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Professores de origens diferentes são um dos diferenciais do curso. A bagagem que eles trazem amplia a visão de mercado dos 30 focas, o que facilita na hora de escolher em que área atuar dentro de um meio de comunicação.

As primeiras aulas foram dadas por Francisco Ornellas, coordenador do curso. Ele já foi chefe de reportagem no Estadão e hoje se dedica à formação de novos jornalistas. Suas aulas abordaram temas como a estrutura e a história do Grupo Estado, o mercado jornalístico e características profissionais importantes. De maneira informal, ele expôs suas ideias como se fossem dicas.

O jornalista Luiz Carlos Ramos, que atuou em diversos meios de comunicação, inclusive como editor de Esportes do Estado, foi o segundo professor. Suas aulas visam a aprimorar a escolha de pautas, apuração e escrita. Muito amável, Ramos não expõe os textos dos alunos. O que tem para dizer, fala em privado.

Carla Miranda, editora do caderno Viagem do Estadão, é uma das professoras. Ex-foca, ela também edita o suplemento produzido ao fim do curso pelos alunos. Suas aulas explicam o dia a dia da redação e propõem exercícios de escrita. Diferente de Luiz Carlos Ramos, ela corrige os textos usando um datashow.

Por mais constrangedor que possa parecer, esse método permite comparações para aprender com os erros (e acertos!) dos outros.

Entre o fim da semana passada e início desta, tivemos aula com Paco Sánchez, diretor de qualidade de conteúdo do jornal La Voz de Galicia, na Espanha. Suas aulas focaram desde a formação do jornalista até a qualidade de texto e apuração, passando por ideias de pautas e análise textual.

Muito carismático, Paco ensinou uma “fórmula” do bom jornalismo (apesar de ele mesmo não gostar da ideia de “fórmulas”). Escutar, olhar, pensar e contar são a chave da produção de um bom texto e, consequentemente, de um bom jornalista.

A mescla desses contatos ajuda a perceber que rumo podemos – e queremos – tomar. Somado aos professores, tivemos diversos bate-papos e palestras, o que amplia ainda mais a noção de como está o mercado atual de jornalismo. Com a bagagem trazida e os exercícios desenvolvidos, a possibilidade de escolha profissional aumenta junto à qualidade do produto final que entregamos.

Guilherme Waltenberg, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

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