Imagine aquele que é considerado o melhor jogador do mundo ter de bater um pênalti decisivo em uma final de Copa do Mundo. Nos pés dele estão a esperança de uma nação e a própria consagração como um nome na História. Mas, por um acaso do destino, justamente aquela cobrança acaba sendo a pior dele na vida e a bola vai longe, muito longe do gol. Roberto Baggio, italiano escolhido pela Fifa o melhor do mundo em 1993, sentiu isso na pele em 1994.
Tamanha volta no tempo e nos assuntos é necessária para fazer lembrar uma placa disposta logo na entrada da sala dos focas. O aviso “seu primeiro erro pode ser o último” já alerta que no jornalismo consertar informações publicadas é tão difícil quanto fazer voltar um pênalti perdido.
O alerta vale para aqueles que estão no início da profissão, com todo aquele gás acumulado e certas vezes, por querer demonstrar serviço e pró-atividade, vão bater o pênalti com muita vontade. Essas cobranças de tiro livre e a apuração guardam semelhanças. O segredo dos grandes especialistas nos dois assuntos é ter calma, jeito e cuidado aos detalhes.
Uma informação errada que é publicada pode deturpar a verdade, induzir o leitor ao erro e até mesmo causar a demissão do jornalista. Portanto, vale o cuidado extremo de checar sempre, e, na dúvida, não escrever. Ao contrário do jogador de futebol, o repórter nem sempre tem outra chance para se redimir.
Ciro Campos, de 23 anos, é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Caro leitor, se você não é familiarizado com os jargões jornalísticos, eis aqui mais um para o seu dicionário: a pauta.
Para o Houaiss, pautar pode ser seis coisas diferentes, sendo o quarto significado “programar (determinado assunto) para uma edição de jornal, revista, programa de rádio ou televisão etc” e “detalhar (o assunto programado), quanto aos aspectos que deverão ser focalizados”.
Sim, a pauta é o “tema” da matéria, se foi isso que você pensou inicialmente. Nas redações, o pauteiro e o chefe de reportagem, normalmente, são os responsáveis por decidir as pautas e distribuir entre os repórteres as pautas da edição a ser produzida. São eles que decidem a sorte do repórter, definindo se ele irá cobrir a movimentação de um festival de jazz num dia de sol no Ibirapuera ou se fará uma cobertura in loco dos pontos de alagamento da zona oeste da cidade, numa tarde de chuva, às 18h.
Nesta dinâmica, como pode, então, um repórter virar dono do seu próprio destino? Trazendo de casa, junto com todo o seu repertório, uma pauta boa, digna, mas acima de tudo, factível.
Se você ainda tem dúvidas sobre essa dinâmica, pode dar uma olhada no site do The Guardian. O jornal inglês The Guardian abriu a pauta do dia para os leitores, [http://www.guardian.co.uk/help/insideguardian/2011/oct/10/guardian-newslist] o que significa que você pode acompanhar os assuntos que estão sendo produzidos para a edição de amanhã, e ver quem está fazendo o quê.
Para nós, focas, a pauta é sinônimo de desespero. Ainda sem os melindres da redação, poucas vezes temos uma ideia pronta para uma matéria, o que resulta numa perspectiva de realidade nada animadora, de coberturas nada agradáveis, das pautas que ninguém quer pode fazer, afinal, estão todos ocupados com as pautas que eles mesmos sugeriram e pré-apuraram.
Os focas estão desesperados, ficamos loucos atrás de pautas e, agora, estamos loucos atrás de fontes, dados, estatísticas, tudo para construí-las. Pais, amigos, namorados, estamos bem, estamos vivos, neste mundo paralelo chamado apuração.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Foto: Paulo Zapella / Creative Commons
Já faz mais ou menos dois anos que frases de espírito libertário (e um tanto inocente demais, talvez) começaram a ser pichadas pelas ruas de São Paulo com apelo bastante direto: “Mais amor por favor” (assim mesmo, sem vírgula) e “O amor é importante. P….”. Tocantes pela dupla marginalidade — a legal, se levada em conta a proibição de intervenções urbanas desse tipo; e a psíquica, vinda do caráter inusitado dessas máximas —, as pichações viraram hits em redes sociais voltadas para o compartilhamento de imagens, como Flickr e Tumblr. No universo jornalístico, porém, os focas temos aprendido que não há tanto espaço para tais licenças poéticas.
Menos amor, por favor, na hora de redigir notas, notícias, reportagens, matérias especiais.
O jornalista deve tentar descobrir o maior número possível de informações sobre o tema a que está se dedicando. Uma premiada repórter da área de saúde me disse, certa vez, que o ideal para a boa reportagem é apurar uma quantidade de dados que, se impressos, seriam capazes de encher uma sacola daquelas grandes das lojas de departamento.
Mas, na hora de escrever, o foco muda. Mais que apurar, deve-se depurar. Ou seja, selecionar as informações que realmente importam no dia (para o caso de jornais diários) ou no momento (para rádios, portais, agências de notícias etc.) em que se veicular a notícia, e hierarquizá-las.
Não se pode contar com a devoção espontânea do leitor/ouvinte/internauta/cliente. Ele raramente se sentirá tão interessado quanto o repórter em saber os pormenores caricatos do processo de investigação jornalística. Por isso — e pude constatar tal consenso nas falas de vários dos profissionais veteranos que já lecionaram na 22ª edição do Curso Estado de Jornalismo —, respeitemos o espaço destinado a cada notícia. Discutamos com os editores quando julgarmos que um assunto ganhou mais relevância para o público (por quaisquer motivos) e, portanto, merece aprofundamento. Mas, no geral, melhor não cultivar tanto afeto pelos nossos próprios textos. Tenhamos paixão pelo ofício jornalístico sem obrigar o restante da sociedade a “adorar” nossos processos de apuração. Por favor: menos amor.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Na última quinta-feira, os jornalistas do Estadão Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise falaram de um tema que desperta a atenção de muitos de nós, focas. A insegurança na hora de apurar, iniciar uma conversa na rua e entrevistar personagens é uma situação comum entre todos os jornalistas – como bem descreveu o foca Thiago Lasco no post Medo da Rua.
Vitor Hugo também mencionou que, apesar do temor inicial, a insegurança da entrevista e da abordagem passa logo na segunda pergunta. Quando o entrevistado começa a falar de sua vida, e a mostrar uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, a insegurança dá lugar a uma sensação curiosa que mistura orgulho e sensibilidade. “Muitas vezes saio das entrevistas pensando: ‘Que privilégio conhecer esta história’”, disse.
Não é por arrogância ou por achar que o jornalista é um espectador privilegiado dos fatos. Pelo contrário, é até uma demonstração de humildade reconhecer as tantas outras histórias de vida, movimentos e situações inusitadas, atitudes e pensamentos importantes que não imaginávamos existirem e que passamos a descobrir no exercício da profissão.
Nesta curta trajetória de foca, já pude vivenciar tal sensação. Na pauta trabalhada na última semana, sobre cemitérios da capital, conheci Marina Ribeiro, uma senhora de 63 anos que trabalha de domingo a domingo em Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. Viúva, ela começou a atividade de jardineira há 13 anos. Realizando a manutenção de 30 jazigos e túmulos do cemitério. Por três anos, esta foi sua única fonte de renda, até conseguir receber a pensão do marido, também jardineiro. Em uma curta conversa ela dividiu, com sabedoria e sensibilidade, sua impressionante história de vida – da vida de retirante do interior do Ceará, do tempo em que passou fome e dificuldades em São Paulo, até a conquista de sua casa própria e as dificuldades para mantê-la.
Sem dúvida, foi um privilégio ouvi-la naquele momento, para questionar aquilo que eu, recém-chegado a São Paulo, poderia chamar de dúvida, dificuldade e insegurança. A oportunidade de conhecer boas histórias em personagens simples é a melhor forma de incentivo para vencer as resistências iniciais à apuração, às entrevistas e ao trabalho de campo. Às vezes, jornalisticamente, uma entrevista não nos rende o esperado. Mas há sempre um ganho ali, nem que seja para ampliar a visão que temos (e que incorporamos às matérias) sobre a realidade à nossa volta.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
“A melhor matéria é a em que sobram informações”, nos lembrou na manhã de quinta-feira Edison Veiga, repórter do caderno Metrópole. Para as três matérias já realizadas pelos 30 focas neste curso, imagino as histórias ou declarações que meus colegas, a muito custo, tiveram de retirar dos seus textos para cumprir a meta das 30 linhas, Times New Roman, corpo 13, para nosso alívio.
Acabei deixando de fora a história de um migrante da Paraíba, conterrâneo da personagem escolhida para o meu perfil no Parque do Ibirapuera, o Coco. Um senhor simpático e monossilábico que o tempo todo me indicava outras pessoas que ele considerava mais interessantes que ele. Tinha vendido cinco cocos no feriado do Sete de Setembro. E olha que seu Estado estava com moral. “Só compro coco da Paraíba, que é mais doce, se não os fregueses não gostam”, me contou outra ambulante no parque. Ela vende mais de cem nos feriados e fins de semana.
Também não consegui encaixar algumas das declarações polêmicas de um delegado em plantão no domingo. Despreocupado, afirmou que “o melhor período para trabalhar foi a ditadura, mas depois o poder corrompeu”. E tentou me convencer que “você não entrega o seu trabalho para a concorrência”, sobre a integração das polícias civil, militar e a guarda municipal.
À primeira vista, pode parecer frustrante deixar estas informações para trás. Mas o que sobra de uma entrevista nunca é desperdiçado. Ao cortarmos, ganhamos concisão e clareza porque ali só estará o que encontramos de melhor. E o que resta não são sobras, são possibilidades. Aproveite-as em outro momento. Por ora, coloque aquilo que você não usou em sua gaveta de boas ideias.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Todo mundo já quis ser um pouquinho Gay Talese. Entramos na faculdade pensando em um futuro recheado de boas histórias, perfis memoráveis e, quem sabe, até um livro com nosso nome em auto-relevo estampado na capa. (Tive um professor na faculdade que dizia que essa denominação “jornalismo literário” é, na verdade, a busca pela eternidade do livro. Nem nós mesmos acreditamos no nosso trabalho. Mas isso aí é discussão para outro momento). Os períodos vão passando, a vida adulta começa a tomar forma, temos os primeiros contatos com o jornalismo da vida e concluímos: “É, não dá para ser Gay Talese.”
De fato, Gay Talese(s) não se formam aos montes. Muito menos em quatro anos. A gente sabe disso. Só queria ser um pouquinho como ele, Tom Wolfe, Trumam Capote – 0,01% já estava bom. “Mas também não existe espaço para isso nos jornais atuais” – ouvimos isso, repetimos para quem quiser ouvir (e para nós mesmo) e vamos montando nossas pirâmides invertidas diárias.
A conversa com os jornalistas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, ambos do caderno Metrópole, me fez lembrar que ainda existem vozes que pronunciam frases diferentes na mesmice “mas não existe espaço!”. Os dois contaram para os focas que, se você acredita e batalha por uma ideia, existe espaço, sim. É claro que não dá para ficar meses e meses escrevendo um perfil para ser publicado “na edição da primeira quarta-feira de novembro”. Se existe alguma coisa noticiosa para dar gancho à matéria, por que não? É só correr atrás, convencer o editor e compartilhar com o leitor a sua boa ideia.
Talita Duvanel, de 24 anos, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Hoje aproveitei nossa última tarde livre para exibir aos colegas focas o filme que produzi como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo: um documentário sobre mulheres de presidiários. Enquanto a classe assistia ao material, eu lembrava das dificuldades enfrentadas por mim e meus colegas de faculdade no decorrer do processo, especialmente durante o trabalho de campo e apuração. Os piores momentos foram as primeiras visitas à calçada do centro de detenção, onde nossas futuras personagens acampavam antes de ver os maridos.
Era um ambiente totalmente estranho, a anos-luz da nossa zona de conforto. Chegávamos com as mãos enterradas nos bolsos, roxos de vergonha. Tínhamos de nos aproximar daquelas pessoas que nos olhavam desconfiadas, interagir com elas, conquistar a amizade e a confiança delas, para então termos acesso às suas histórias e transformá-las nas estrelas do nosso filme.
Custamos para quebrar o gelo, depois fomos progredindo e no fim deu tudo certo. A experiência me ensinou várias coisas, mas não a vencer o medo da rua. É um dos obstáculos que espero que o curso me ajude a superar. Em nossos primeiros exercícios aqui, voltei a sentir na pele o peso da timidez. Uma das missões era conseguir um bom personagem no Parque do Ibirapuera e escrever seu perfil – ou seja, era preciso se aproximar de um completo desconhecido e fazê-lo se sentir à vontade o suficiente para abrir toda a sua vida para mim.
Em outra situação, tive que bolar uma pauta dentro de uma delegacia, e enfrentar o problema da falta de cooperação da fonte. O delegado só falaria comigo por meio da assessoria de imprensa, e mesmo o investigador relutou antes de topar a entrevista.
É claro que essas dificuldades são bem menores do que aquelas que encontraremos quando estivermos escrevendo no caderno de Cidades. Por enquanto, é “apenas” um curso, o resultado não vai ser publicado: não é “para valer”, e sim “para aprender”. Que bom que estamos tendo a chance de enfrentar nossos medos, de arriscar o trapézio antes que removam nossa rede de proteção. Espero aproveitar ao máximo essas oportunidades, pois sei que o bom jornalismo só se faz com uma boa apuração – sujando os sapatos, olhando no olho, usando o telefone o mínimo necessário. E, para isso, preciso perder o embaraço.
O que me consola é saber que não estou sozinho. Na conversa que tivemos ontem com os ex-focas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, eles contaram que até hoje passam por um desconforto parecido em algumas situações, mas aprenderam a driblar a inibição. Isso me encorajou a seguir em frente. Tornar-se jornalista é aprender a vestir a camisa como tal.
Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

Antes de passar o exercício, Carla Miranda, uma das professoras do curso, avisou: estava sugerindo apenas assuntos. A pauta, éramos nós que precisávamos encontrar. Aí estava a grande dificuldade. Foram sorteados cinco temas e fiquei com a missão de ir ao Instituto Médico-Legal (IML). Escolhi visitar o da zona sul, mas no domingo nada de diferente aconteceu e não era possível contatar a Secretaria de Segurança Pública, órgão que centraliza as informações sobre todas as unidades do instituto em São Paulo. Neste dia, os outros focas que tentaram entrar no IML também não obtiveram sucesso.
Como os funcionários não estavam autorizados a nos passar nenhuma informação, a única coisa que me chamou a atenção foi um cartaz pendurado numa das paredes, sobre o Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi). Deixei a carta na manga, ou melhor, anotada no caderno.
Na segunda-feira, foi impossível conseguir qualquer posição da secretaria. Os pedidos da imprensa precisam ser analisados e dificilmente são atendidos no mesmo dia. Eu procurava dados sobre o público que busca atendimento nas cinco principais unidades do IML na capital – nas zonas norte, sul, leste, oeste e centro.
Às 17h, depois de passar novamente pelo IML da zona sul e de uma tentativa frustrada de conseguir algo que rendesse matéria no da zona oeste, eu não tinha sequer uma pauta. Desde as 11h estava tentando falar com o pessoal do Cravi pelo telefone, mas ninguém atendia. Voltando de trem para o IML da zona sul, onde pelo menos havia pessoas fazendo exame de corpo de delito, consegui falar com uma assistente social, que confirmou que as unidades do instituto são um ponto de divulgação do trabalho do Cravi.
De volta à zona sul, entrevistei mais uma pessoa. Às 17h30 eu tinha uma pauta. Uma hora e meia, depois estava em casa e com mais 30 minutos escrevi um primeiro rascunho do texto. Gastei mais algum tempo para revisar, e a apenas dez minutos do deadline estabelecido enviei a matéria. Todos nós tínhamos um mundo de possibilidades, mas um prazo curto para apurar. Vivenciamos a lição do Chico: os prazos precisam ser cumpridos, pois o importante é que o jornal chegue cedo à casa do leitor.
Mariana Niederauer, de 21 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)
Achar pautas a partir de assuntos batidos não é fácil. Entre os focas, um assunto foi onipresente nesta segunda-feira: como achar uma matéria legal sobre um tema conhecido? O debate me fez lembrar minha curta experiência em jornalismo econômico. “Os assuntos se repetem e o desafio constante é trazer sempre uma nova abordagem, que faça o leitor querer ler algo que já foi escrito”, já diria o editor. Aliás, “sua excelência, o leitor”, nos avisou o coordenador do curso, Chico Ornellas.
A experiência de achar pautas no IML, delegacias de polícia, cemitérios, na Rua Augusta e na 25 de Março é uma amostra disso. Uma realidade com a qual teremos que nos confrontar muitas vezes, em um futuro que pode não estar tão distante assim. Eu mesmo me pego reclamando muitas vezes.
Desistir é sempre uma possibilidade. “Alguém quer?”. Já saímos de nossas zonas de conforto e ninguém disse que ia ser fácil. A solução? Vá para a rua, repórter! E que Deus abençoe a arte de sujar os sapatos.
Leonardo Berns Gorges, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
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