Entramos em uma discussão dessas mais infinitas nestes últimos dias: qual o papel do jornal impresso? Difícil cravar se é solução, ou erro, querer ser cada vez mais como aquela que não precisa de papel, a internet. Mais rápido, mais fácil, mais visual, melhor? Mais denso, mais extenso, mais analítico, errado? Esses dias escutei: “Mas quem somos para poder dar dicas de jornalismo?”. Boa pergunta. Eu sou jornalista, recém-formado, com diploma (que não acho que tem que ser obrigatório) e, mesmo com pouca experiência, acredito que a única maneira de desenvolver um bom trabalho é conseguir pensar a frente e imaginar onde aquilo que você faz vai dar. O que não significa ser “pacote pronto”, já saber tudo. Significa ter opinião, sem deixar de estar aberto a mudá-la diante de bons argumentos. Não dá para esperar a sabedoria bater à porta.
Na minha opinião, que não é a do blog, o futuro do impresso está no jornalismo interpretativo. As redações da rádio, tevê, jornal e online recebem o aviso bombástico da notícia praticamente ao mesmo tempo. Enquanto o jornal continuar se perguntando “O que? Quando? Onde? Como? Por quê?”, vai enfrentar três imensos concorrentes. O “quente” já terá sido narrado, apresentado e lido pelo seu leitor, que continuaremos crendo que só lê jornal. E se, quando o fato aparecer na redação, o jornal se perguntar, por exemplo, “no que isso vai dar?”
O hard continuará a existir, em menor espaço, como contexto, e vai ser responsabilidade daqueles que, agora, vão ser seus três grandes parceiros. Nesse cenário, as grandes empresas de mídia levam uma vantagem que, para mim, desperdiçam. Hoje, quantos jornalistas que saem para cobrir uma pauta sabem quem é o colega que vai fazer a matéria para o rádio, o que vai fazer a matéria para a tevê e o que vai fazer a matéria para o online? Há integração nos trabalhos? Ou é apenas colaboração eventual? Enquanto cada mídia trabalhar de forma independente e fizer as mesmas perguntas, vai conseguir respostas idênticas, publicadas em horários desiguais: o “déjà li”.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Agora, criei vergonha na cara, e na segunda recomendação, li. “Há uns anos, quando me perguntavam quais qualidades deveria possuir um estudante de jornalismo, um bom jornalista ou qualquer comunicador, costumava responder – com a ênfase excessiva de quem pensa que descobriu o Mediterrâneo – algo assim: ‘Um bom comunicador não é aquele que domina umas técnicas ou habilidades mais ou menos mecânicas, e, sim, aquele que é capaz de: saber olhar, saber escutar, saber pensar e saber expressar aquilo que viu, escutou e pensou’.”
Um mês após as aulas que tive com Paco em La Corunha, fiz um mochilão pela Europa, para aproveitar o tempo que restava até a volta ao Brasil. Em Paris, após uma noite absurdamente frustrada em um hostel no Quartier Latin, fui para outro, mais afastado, mas bem melhor frequentado (e ainda era mais barato). Lá, conheci outros mochileiros, com histórias muito parecidas com a minha: universidade, ia formar muito cedo, experiência internacional, blá, blá, blá. Conheci também três carecas. Infelizmente, não lembro seus nomes. Lembro apenas dos rostos, do tipo físico e da história deles.
Os três eram brasileiros, do interior de seus respectivos Estados (que não recordo quais eram). Ligavam todos os dias para suas famílias. Aquela coisa básica: “Tudo bem por aí? Está frio? Como está o mano(a)?”. Eu não ligava quase nunca para casa.
O maior deles lembrava o Adriano, agora um jogador fora de forma no Corinthians, dos tempos de seu auge na Inter de Milão. Os outros dois, mais baixos que eu, tinham cerca de 1,70 metro, mas uns 20 centímetros a mais em ombros. Estavam treinando há três meses na França para servir na Legião Estrangeira.
Fiquei, com meus preconceitos, um tanto boquiaberto. Eram soldados treinados que falavam pilhas de palavrões e queriam festas todos os dias, até mesmo um certo tipo de divertimento pago por hora. À parte isto, e talvez por isso, eram figuras extremamente agradáveis. Empolgados e contagiantes, em especial o grandalhão.
No meu último dia em Paris, o Adriano da Legião Estrangeira, com seus colegas, se juntou ao nosso grupo de mochileiros à mesa do bar do hostel. E começou a descer jarra atrás de jarra de cerveja. Perdi a conta e a memória de quantas foram. Todo mundo se divertiu absurdos.
No dia seguinte fui embora. Os três também partiam nesse mesmo dia, mas não nos vimos na saída do hostel nem da cidade. Escutei toda a história em janeiro 2009, e a ficha só caiu em 2011. Aqueles dias em que estavam em Paris eram suas férias do treinamento, que tinham acabado de completar. Três dias de descanso, antes de irem lutar no Afeganistão.
A esbórnia era o escape de tudo que não puderam aproveitar durante o treinamento e a vida (só passaram a receber um salário decente quando saíram do Brasil e se alistaram na França). Viveram ali, naqueles três dias, o que talvez não vivessem nunca mais, sem a certeza de que retornariam da guerra. Agora, queria lembrar seus nomes, ter algum contato, para ouvir o final da história que ainda não estava feita. Não lembro, não tenho e não posso, nem ao menos sei se eles ainda estão por aqui.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
“A melhor matéria é a em que sobram informações”, nos lembrou na manhã de quinta-feira Edison Veiga, repórter do caderno Metrópole. Para as três matérias já realizadas pelos 30 focas neste curso, imagino as histórias ou declarações que meus colegas, a muito custo, tiveram de retirar dos seus textos para cumprir a meta das 30 linhas, Times New Roman, corpo 13, para nosso alívio.
Acabei deixando de fora a história de um migrante da Paraíba, conterrâneo da personagem escolhida para o meu perfil no Parque do Ibirapuera, o Coco. Um senhor simpático e monossilábico que o tempo todo me indicava outras pessoas que ele considerava mais interessantes que ele. Tinha vendido cinco cocos no feriado do Sete de Setembro. E olha que seu Estado estava com moral. “Só compro coco da Paraíba, que é mais doce, se não os fregueses não gostam”, me contou outra ambulante no parque. Ela vende mais de cem nos feriados e fins de semana.
Também não consegui encaixar algumas das declarações polêmicas de um delegado em plantão no domingo. Despreocupado, afirmou que “o melhor período para trabalhar foi a ditadura, mas depois o poder corrompeu”. E tentou me convencer que “você não entrega o seu trabalho para a concorrência”, sobre a integração das polícias civil, militar e a guarda municipal.
À primeira vista, pode parecer frustrante deixar estas informações para trás. Mas o que sobra de uma entrevista nunca é desperdiçado. Ao cortarmos, ganhamos concisão e clareza porque ali só estará o que encontramos de melhor. E o que resta não são sobras, são possibilidades. Aproveite-as em outro momento. Por ora, coloque aquilo que você não usou em sua gaveta de boas ideias.
Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
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