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Em Foca

* Esta reportagem foi um exercício para o Curso Estado

“Numa quinta-feira de novembro, um grupo de adolescentes com idades entre 15 e 17 anos fez uma festa diferente. Com maquiagem profissional, eles cobriram o rosto de branco, pintaram de preto o nariz e a região dos olhos e desenharam dentes ao redor dos lábios. Pareciam caveiras de filme de terror. No cardápio, havia guacamole, a famosa pasta mexicana à base de abacate. No som, salsa e outros ritmos latinos. A ideia era celebrar o Día de Los Muertos, festividade comum no México e em vários países da América Central. A cena teria sido menos insólita se não tivesse acontecido dentro de uma escola pública de São Paulo – e em horário de aula.

Os alunos do 3.º ano do ensino médio da Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio, em Santana, zona norte, participavam de uma atividade promovida pelo professor de espanhol, Marcelo Carlos Ferraz, que faz o que pode para motivar a turma. “Aqui, você tem de rebolar. Se ficar só na gramática, o aluno não se interessa”, diz. Segundo ele, a rede municipal não entrega material didático para os docentes. Ferraz improvisa tarefas a partir de pesquisas feitas pelos alunos na internet. “Eu e dois colegas lemos textos sobre (o líder venezuelano) Simón Bolívar, escrevemos um roteiro e fizemos um vídeo para a classe”, conta o estudante Ângelo Augusto Crispim Martins, de 17 anos.

O ensino de espanhol nas escolas é uma imposição da lei federal 11.161, de 2005, que entrou em vigor no ano passado. Ela obriga toda a rede pública a oferecer aos alunos a opção de aprender a língua de Cervantes. Em São Paulo, as 8 escolas de ensino médio da rede municipal começaram as aulas no ano passado. O curso é de duas horas por semana, durante os três anos do ensino médio. Embora conste na lei que a matrícula é facultativa, em escolas como a Professor Linneu Prestes (em Santo Amaro, zona sul) e a própria Antônio Sampaio a disciplina foi incorporada à grade regular de todos os alunos. O que não é necessariamente uma vantagem. “O optativo funciona melhor, porque aí só faz o curso aquele aluno realmente interessado”, afirma Ferraz.

Centros de línguas

Já na rede estadual, apenas 795 das 3.867 escolas ensinam espanhol – 120 delas na capital. São duas aulas por semana, no período de um ano, e somente na primeira série do ensino médio. Para os alunos de escolas que não oferecem espanhol, a secretaria da Educação mantém 144 centros de línguas, chamados de CELs. Neles, o curso tem quatro aulas semanais e dura três anos.

Na opinião de Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Associação de Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), os CELs existentes não são suficientes para suprir a demanda. “Eles têm uma área de abrangência limitada e, em 2010, alguns até fecharam. Se tivesse um em cada escola, seria ótimo. Mas poucas diretorias de ensino têm CELs.”

A solução dos centros de língua também é criticada por Graciela Foglia, vice-presidente da Associação dos Professores de Espanhol do Estado de São Paulo (Apeesp). Ela afirma que o ensino de um idioma na escola não tem como única finalidade o mercado de trabalho. “Existe também uma função educacional, ligada à formação do cidadão. Por isso, só faz sentido se houver integração entre a língua estrangeira e as demais disciplinas. O currículo dos CELs não tem essa integração.” Segundo Graciela, como a secretaria estadual aposta todas as fichas nos centros de línguas, nas poucas escolas que incluem espanhol na grade os cursos são “precários”.

Desarticulação

Maria Izabel, da Apeoesp, reclama que a pasta esperou o fim do prazo de cinco anos concedido pela lei para tomar as providências necessárias. “Quando saiu a obrigatoriedade, a secretaria fez corpo mole, não deu importância. Foi uma posição política, ela não se preparou.”

Para agravar a situação, os salários oferecidos não estimulam a vinda de professores de espanhol para a escola pública, diz Mozart Neves Ramos, consultor do movimento Todos Pela Educação. “Muitos preferem a pós-graduação. Uma bolsa de mestrado paga R$ 1,3 mil por mês, enquanto quem dá 40 horas de aula na rede pública ganha apenas R$ 1 mil”, compara.

Graciela ressalva que não é possível saber se realmente faltam professores no mercado, porque o governo estadual nunca abriu concursos. “É necessário que se façam concursos para verificar isso. Se houver essa carência, cabe ao governo articular planos emergenciais de formação junto às universidades públicas.”

Para a pedagoga Paula Louzanno, consultora da Fundação Lemann, a língua espanhola foi incluída no currículo escolar de forma desordenada, assim como aconteceu com filosofia, sociologia e várias outras disciplinas que são objeto de emendas à Lei de Diretrizes e Bases que tramitam na Câmara dos Deputados. “Os educadores são peça fundamental nesse debate. Mas a discussão não se deu no âmbito do Ministério da Educação, e sim no Congresso Nacional, por meio de projetos de lei como esse do espanhol.” Paula vê nessa manobra um lobby para garantir trabalho a certas classes profissionais. “Os gestores (as secretarias) não foram chamados a participar, não houve debate para se analisar a viabilidade, a disponibilidade de professores. Aí se joga o problema no colo do gestor, que é obrigado a administrar isso.”

Enquanto a oferta de espanhol na rede estadual permanece estagnada, os alunos das escolas da Prefeitura pegam gosto pelo idioma. Muitos escolheram fazer as questões de espanhol na prova do Enem, em vez de inglês. “Os alunos que fizeram as questões de espanhol no exame foram muito bem”, conta Lucia Helena de Moraes Cabral, professora da escola Linneu Prestes. Em 2012, a rede municipal deve ganhar novos professores, selecionados por meio de concurso feito neste ano, além do material didático, esperado por alunos como Karine Cardoso dos Santos, de 16. “Quando tivermos um livro, poderemos estudar em casa e nos aprofundar muito mais.”

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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11.novembro.2011 20:35:46

O papel do canudo

Vira e mexe, amigos não ligados ao Jornalismo vêm perguntar como eu vejo o fim da obrigatoriedade do diploma. A mensagem subliminar embutida na pergunta é: a faculdade de Jornalismo não teria sido desperdício de tempo e dinheiro, até mesmo por eu já ter um diploma anterior na parede? Hoje em dia, eu tendo a pensar que o impacto da novidade é menor do que se pensa.

Não considero o curso indispensável. Em três anos e meio (descontando a preparação do TCC), ele precisa dar um arcabouço teórico e prático “de jornalismo” e também uma formação humanística, que acaba sendo mínima: borrifadas de cultura geral, respingos de antropologia e sociologia, pílulas de economia e política. O resultado é uma formação mais superficial do que a de quem cursou, por exemplo, Direito ou Ciências Sociais.

No fundo, o que o profissional vai conhecer a fundo são os assuntos sobre os quais terá de escrever no veículo em que estiver trabalhando. É na hora de colocar a mão na massa que ele vai passar a manjar de carros, investimentos ou plantas ornamentais. Da mesma forma, a familiaridade com conceitos e jargões do jornalismo cotidiano virá com a prática. As lacunas na formação serão supridas conforme a necessidade, com livros ou cursos pontuais e dirigidos. Afinal, a busca por informação, formação e atualização deve ser constante – como em qualquer outra profissão.

O que faz um bom jornalista não é o curso. São os jornais, livros e revistas que ele leu, os filmes e peças de teatro que viu, as viagens que fez, as pessoas que conheceu. É a bagagem de vida que ele acumulou e a cultura geral que absorveu – por conta própria, desde cedo, não apenas dentro da faculdade. É esse estofo de conhecimentos, referências e informações que lhe permitirá entender o mundo em que vive, o lugar que ocupa nele e, de quebra, escrever para os outros com propriedade. Isso tudo e mais o dom da boa escrita – uma habilidade que algumas pessoas sem diploma possuem, e outras diplomadas em jornalismo simplesmente não têm.

Por outro lado, tampouco acho que o curso seja inútil. A formação básica pode ser rasa, mas é apenas a porta de entrada para que cada um, seguindo seus interesses e curiosidades, escolha em que seara irá se aprofundar. Faculdade nenhuma é suficiente. Acima de tudo, o que considero fundamental no curso é a oportunidade de reflexão. De pensar o jornalismo de forma crítica, ver o que existe por trás da notícia, descobrir as implicações e limites éticos da profissão – aprender, enfim, que a atividade profissional do jornalista é imbuída de responsabilidade social, e tem conseqüências. O aluno leva isso consigo em todas as suas escolhas futuras. Quem não foi aluno e tem facilidade para escrever pode abrir um blog, produzir textos redondos e até preencher algumas vagas com competência, mas não terá vivido, refletido e crescido com essas discussões, que só acontecem dentro da faculdade.

Mas a razão da minha indiferença é outra. Acredito que a própria competitividade do mercado se encarregará de neutralizar o impacto da novidade. A oferta de mão-de-obra sempre foi abundante, e os grandes veículos lançam mão de diversos filtros para escolher seus profissionais entre milhares de interessados. Isso significa que o nível de exigência é alto e só os melhores passam pelo funil. O fim da exigência pode até aumentar o número de pessoas que tentam seu lugar ao sol, mas quantas delas, sem diploma, terão condições de chegar lá? Só aquelas que souberem se preparar para a disputa de outras maneiras, correndo por fora. Serão essas pessoas em número suficiente para que os jornalistas diplomados se sintam ameaçados?

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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15.outubro.2011 23:59:22

Os 5 desafios

Outro dia, um leitor do blog comentou que esperava que contássemos “as primeiras impressões de um profissional recém-formado em início de carreira, de forma natural, como qualquer pessoa que sai da universidade e entra no mercado de trabalho”. De fato, a condição de focas nos põe bem no meio dessa travessia: acabamos de sair da faculdade, estamos colocando o pé no mercado e, nesse tatear, vamos sentindo o que se espera de nós, quais as cobranças, quais as qualidades apreciadas e mesmo os requisitos para se dar bem. Se o jornalista é um eterno aprendiz, nós ainda estamos bem crus e temos que nos aprimorar em vários pontos. Vou colocar aqui cinco questões que me parecem essenciais – são os desafios com os quais eu e meus colegas estamos lidando nesse momento de nossa vida profissional.

1) Manter o consumo diário de informação e cultura. Informação inclui ler os dois maiores jornais diários, as revistas semanais (ou pelo menos saber o que elas estão dando) e dar uma olhada nos portais de notícias. Cultura começa em bons livros e passa por cinema, música, arte e viagens – dentro dos interesses (e possibilidades) de cada um. Aliás, vamos sempre nos aprofundar mais naquilo que nos agrada, mas não dá para não saber o básico de todo o resto, e desconhecer o que está acontecendo na cidade, no País e no mundo. Até porque podemos ser levados, a qualquer momento, a escrever sobre outras coisas que estão fora do nosso mundinho de interesses. O desafio é justamente conseguir encaixar esse consumo de informação em uma rotina de trabalho que já é intensa e pesada.

2) Trabalhar o olhar para encontrar pautas. Nesse começo de carreira, ter ideias não é nada fácil. Forçamos a cabeça e nada sai. O tempo e a experiência vão dando subsídios para que consigamos educar nosso olhar, captar aquilo que interessa, ser criativos e, enfim, bolar pautas. Isso vale tanto para assuntos pouco explorados como para temas já batidos, mas que podem render se forem abordados de uma forma diferente. Ao desafio de encontrar pautas, soma-se o de vendê-las na reunião e emplacá-las diante dos editores. Os riscos de não conseguir bolar pautas? Fazer sempre as pautas impostas pelos outros e, eventualmente, perder espaço para outras pessoas mais espertas e criativas que você.

3) Evoluir na apuração deve ser um esforço constante. Afinal, ela é o coração de uma reportagem. O lance é pegar o touro pelos chifres, atacar a timidez, vencer a preguiça, enfim, superar tudo o que for necessário para inteirar-se do assunto, conseguir reunir mais e melhores fontes e conseguir produzir a matéria ideal: aquela em que você pode se dar o luxo de desprezar boas informações, porque tem material de sobra e pode incluir apenas as melhores. Desafios paralelos: expandir sua rede de contatos, manter uma boa relação com eles e conseguir tê-los organizados e sempre à mão – com alguma ferramenta mais eficiente que os bloquinhos de papel, que se perdem por aí.

4) Texto bom não é diferencial, e sim requisito. E tem que sair rápido. Quer dizer então que você tem um texto maravilhoso? Sinto lhe informar que as pessoas que trabalham nos grandes veículos foram peneiradas por diversos tipos de seleção, então em geral todas elas sabem escrever bem. Esse dom podia ser um diferencial enquanto você estava fora da redação e se comparava com seus amigos, que tinham níveis de desenvoltura variados. Ali dentro, texto bom não é diferencial, e sim requisito. Não espere ganhar uma medalha, porque isso é básico. E não é suficiente: você precisa escrever bem e dentro do prazo imposto, sob a pressão do seu fechamento. Por isso, treine seu ritmo e vá aprendendo a soltar o texto cada vez mais rápido.

5) Melhorar o networking. Esse ensinamento é repetido por aí como um mantra, e o Curso e a vida vão nos mostrando o quanto ele é importante. Fazer-se conhecer pelos outros é fundamental. Na redação, nos plantões, nas festinhas, nos botecos. Além de render amizades sinceras, que podem durar para a vida toda (ou não), isso pode abrir oportunidades profissionais, dentro do seu veículo e fora dele. Ao mesmo tempo, é preciso saber dosar a mão: ir com calma, ser suave, não forçar a barra. Senão você vira um cara chato, e o tiro sai pela culatra.

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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30.setembro.2011 06:00:37

Ampliando o cardápio

“O que você quer ser quando crescer?”. Quando começam a enveredar pelos caminhos do Jornalismo, muitos de nós já têm a resposta na ponta da língua. “Quero ser um comentarista esportivo!” “Quero escrever sobre cultura, é meu caderno favorito no jornal!” No meu caso, o interesse principal sempre foi por viagem e turismo, gastronomia e comportamento. São assuntos sobre os quais já venho escrevendo em meu blog há pelo menos quatro anos – e em blog a gente só escreve sobre aquilo de que realmente gosta. No que dependesse dessa “vocação”, meu caminho natural seria fugir do ‘hard news’ e me aproximar dos suplementos do jornal, ou então me infiltrar em revistas especializadas.

Logo nos primeiros anos de faculdade, porém, os professores já começam a cantar a pedra: talvez vocês acabem não escrevendo sobre aquilo com que hoje sonham. Em vários casos, a vida levará a guinadas profissionais que estão além da imaginação. Por isso, é melhor tratarem de ter o peito aberto e ser mais flexíveis, para topar as oportunidades que forem aparecendo, ou ao menos considerá-las sem preconceito. Vocês pensam que escolhem, mas na verdade é o mercado que escolhe vocês.

O Curso vai fazendo sua parte para ampliar nossos horizontes. Quando chega a hora de percorrer os veículos do Grupo Estado, não é dada aos focas a prerrogativa de escolher as editorias com que têm mais afinidade: todos os 30 alunos passam pelos mesmos cadernos do Estadão, de Economia a Esporte, e também pelo portal, pela agência, pela rádio. (A única variável – e que depende um pouco da sorte de cada um – é justamente a parte dos Suplementos. Alguns focas são chamados para o Caderno 2, outros para Viagem, outros para o Link ou o .Edu, por exemplo.)

Proporcionar uma experiência diversificada ao aluno do Curso é uma forma de colocá-lo em contato com outras possibilidades, e também de capacitá-lo para aceitar o que vier pela frente, já que as escolhas costumam ser feitas de cima para baixo. “Se vocês pensam que vão chegar ao editor de Metrópole e escolher a pauta que irão fazer, estão muito enganados!”, alertou Carla Miranda.

Se existe uma demanda por um conhecimento mais especializado, por pessoas que consigam ir além da superfície e produzir informação mais elaborada, também se espera do jornalista que seja capaz de transitar por vários assuntos, meios e redações. Já tivemos diante de nós uma universitária indecisa, um jornalista que lançara um livro sobre o ex-presidente Lula e uma equipe que alardeava as maravilhas do mundo dos transgênicos. Tivemos que entrar em todos aqueles universos, elaborar perguntas inteligentes e fazer com que aqueles momentos rendessem, em tese, material de qualidade para o leitor. Talvez alguns de nós não tivessem tanto interesse assim em educação, ou em política, ou em ciência, mas ninguém pode se dar o luxo de ficar à margem desses assuntos. Não como jornalista. É preciso ampliar o cardápio.

Nesse sentido, a experiência nas redações do Estadão tem sido reveladora. No bate-papo informal com os jornalistas da casa, vários deles têm relatado histórias parecidas: que não sabiam bem o que queriam, ou até sabiam, mas a vida os levou para outra direção. Em Economia, por exemplo, mais de uma pessoa com quem conversei não tinha um interesse prévio no assunto. Simplesmente rolou. O acaso fez sua parte, e hoje elas dizem que não fariam outra coisa. Quem baixa a
guarda e dá uma chance pode ter uma surpresa, e encontrar realização profissional onde nem imaginava.

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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16.setembro.2011 20:16:51

Medo da rua

Hoje aproveitei nossa última tarde livre para exibir aos colegas focas o filme que produzi como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo: um documentário sobre mulheres de presidiários. Enquanto a classe assistia ao material, eu lembrava das dificuldades enfrentadas por mim e meus colegas de faculdade no decorrer do processo, especialmente durante o trabalho de campo e apuração. Os piores momentos foram as primeiras visitas à calçada do centro de detenção, onde nossas futuras personagens acampavam antes de ver os maridos.

Era um ambiente totalmente estranho, a anos-luz da nossa zona de conforto. Chegávamos com as mãos enterradas nos bolsos, roxos de vergonha. Tínhamos de nos aproximar daquelas pessoas que nos olhavam desconfiadas, interagir com elas, conquistar a amizade e a confiança delas, para então termos acesso às suas histórias e transformá-las nas estrelas do nosso filme.

Custamos para quebrar o gelo, depois fomos progredindo e no fim deu tudo certo. A experiência me ensinou várias coisas, mas não a vencer o medo da rua. É um dos obstáculos que espero que o curso me ajude a superar. Em nossos primeiros exercícios aqui, voltei a sentir na pele o peso da timidez. Uma das missões era conseguir um bom personagem no Parque do Ibirapuera e escrever seu perfil – ou seja, era preciso se aproximar de um completo desconhecido e fazê-lo se sentir à vontade o suficiente para abrir toda a sua vida para mim.

Em outra situação, tive que bolar uma pauta dentro de uma delegacia, e enfrentar o problema da falta de cooperação da fonte. O delegado só falaria comigo por meio da assessoria de imprensa, e mesmo o investigador relutou antes de topar a entrevista.

É claro que essas dificuldades são bem menores do que aquelas que encontraremos quando estivermos escrevendo no caderno de Cidades. Por enquanto, é “apenas” um curso, o resultado não vai ser publicado: não é “para valer”, e sim “para aprender”. Que bom que estamos tendo a chance de enfrentar nossos medos, de arriscar o trapézio antes que removam nossa rede de proteção. Espero aproveitar ao máximo essas oportunidades, pois sei que o bom jornalismo só se faz com uma boa apuração – sujando os sapatos, olhando no olho, usando o telefone o mínimo necessário. E, para isso, preciso perder o embaraço.

O que me consola é saber que não estou sozinho. Na conversa que tivemos ontem com os ex-focas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, eles contaram que até hoje passam por um desconforto parecido em algumas situações, mas aprenderam a driblar a inibição. Isso me encorajou a seguir em frente. Tornar-se jornalista é aprender a vestir a camisa como tal.

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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