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Em Foca

09.dezembro.2011 18:00:49

Elas, as aspas

Para fazer o caderno especial de fim de curso, no qual tínhamos pouco espaço para pôr muita informação, um dilema apareceu: como usar as aspas? Eram várias pessoas entrevistadas com histórias e análises interessantes, mas não seria possível colocar todas elas na matéria. Uma das principais dificuldades era, entre tanto material, identificar falas que merecessem estar reproduzidas no texto e se elas eram realmente importantes para aproximar o texto do leitor.

Ainda na primeira metade do curso, ao corrigir uma de minhas matérias, o jornalista Iuri Pitta fez duas observações sobre aspas. Na primeira, ele disse que não as usei para transmitir a opinião contundente de uma fonte, o que poderia trazer-me problemas se alguém entendesse que aquela opinião era do repórter. Já na segunda, Pitta avisou que eu havia dado muito espaço para aspas de quem não tinha muito para dizer, desperdiçando linhas preciosas do texto. Desde então, comecei a ficar intrigado sobre como e quando devemos usar esse recurso.

Segundo o professor Paco Sánchez, um bom texto deve ter poucas aspas. Elas nunca devem ser usadas, por exemplo, para transmitir uma fala do próprio jornalista, mesmo se estiver narrando um episódio do qual ele participou. O motivo é óbvio: assim como Pitta havia advertido, o relato do repórter já é o texto em si. As aspas, então, devem ser usadas quando estritamente necessárias, como para expressar algo mais opinativo.

Para Carla Miranda, existem situações em que um personagem ou outra fonte qualquer pode aparecer na matéria mesmo sem ter alguma fala reproduzida. Durante a correção de outra matéria minha, Carla disse que não fica estranho citarmos o nome de alguém e não transmitirmos, por meio das aspas, exatamente o que ele disse. Isso evita, inclusive, que coloquemos elementos sem importância e que não acrescentem nada na notícia.

Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal

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Carla Miranda nos alertou durante a correção de nossas matérias logo nas primeiras semanas de curso: “Jornalistas costumam ‘provar’ qualquer tese quando encontram três personagens que digam ou façam aquilo”. Dando exemplos hilários, Carla disse que deveríamos ter muito cuidado para não apresentar exceções como se fossem regras, evitando mostrar falsas tendências, um problema somente resolvido com uma rigorosa apuração, como a feita por nós para o caderno especial de fim de curso (nas bancas neste sábado, 10), supervisionado por ela mesma, quase três meses depois daquela aula.

Para transformar nossas pautas em matérias dignas de publicação, deveríamos encontrar, sim, pelo menos três personagens bastante interessantes, com histórias curiosas e que justificassem a produção de uma matéria, mas o que eles dissessem teria de encontrar respaldo em pesquisas quantitativas, dados estatísticos ou na opinião de especialistas. Por outro lado, obviamente, de nada adiantaria termos os dados e as análises especializadas se não tivéssemos bons relatos sobre experiências de vida. Somente assim, viria a certeza de não estarmos inventando nada.

A importância dos personagens é aproximar o texto do leitor, gerar empatia e provar que aquele assunto se aplica na vidaprática, não se resumindo a números frios ou estudos sociais e psicológicos. Eles são a prova de que a notícia existe em algumas circunstâncias, mas não são a notícia em si, pois, apesar de fornecerem informações preciosas, talvez não saibam direito em que contexto estão envolvidos

Caso não contrastássemos as informações obtidas junto aos personagens com as dos especialistas ou das pesquisas, a chance de transformarmos algo inusitado em regra seria grande, já que é fácil encontrar pessoas diferentes desempenhando atividades diferentes – e nos basear nas declarações delas. A consequência, então, seria uma das mais graves quando o assunto é Jornalismo: confundir o leitor em vez de informá-lo.

Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado Região do Pantanal

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27.outubro.2011 22:30:34

A alegria do feedback

O jornalista em início de carreira se acostuma rapidamente a ser avaliado, seja pelos professores, colegas ou pelos chefes. Porém, tantas avaliações não conseguem substituir àquela pela qual eles buscam desde que escolheram a profissão: a do leitor, ouvinte ou telespectador. A situação é angustiante. Sabemos que nossos textos provocam reações em quem os lê, mas raramente temos a oportunidade de receber nosso feedback. Às vezes, nem sabemos direito quem é nosso público realmente.
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Com o perdão do senso comum, a opinião do leitor é o que dita os rumos editoriais de um jornal – e não adianta dizer que não, porque é. Se desagradarmos nosso receptor constantemente, deve-se tomar medidas imediatas e, eventualmente, até drásticas. É claro que essas mudanças podem vir para o bem ou para o mal, no entanto, são inevitáveis.
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Mas como nem todo o conteúdo produzido pelos focas do Curso Estado de Jornalismo pode ser publicado, ficamos distantes de qualquer interatividade, e passarmos apenas uma semana em cada editoria na Redação também exclui as possibilidades de acompanhar de perto a repercussão de alguma notícia por nós produzida. O único parecer que temos sobre nossos textos são dos professores e de alguns jornalistas do Grupo Estado – bastante exigentes, por sinal.
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Temos, então, apenas um veículo que nos permite botar o focinho para fora da toca: este blog. Nossa maneira de nos comunicarmos com o mundo e lembrá-lo de que ainda existimos, mesmo após entrar neste curso e praticamente abdicar de toda a vida fora daqui. Por este meio, buscamos apresentar nossas experiências de maneira a acrescentar algo na vida de quem lê. E aí entra a questão: quem nos lê?
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Todos os focas, quando escrevem seus posts, sabem já há para cada texto 29 leitores em potencial: os outros focas, fora alguns que fizeram o curso em anos anteriores e outros que talvez tenham a intenção de fazê-lo. E como nossos colegas são a parcela conhecida da audiência, muitas vezes caímos no erro de escrever para eles, ainda que inconscientemente. Não lembramos que um blog hospedado no portal Estadão por si só já atrai centenas de internautas todos os dias, independentemente do conteúdo.
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Por isso, quando a turma descobriu que os posts estavam sendo comentados e até bastante criticados por pessoas alheias ao curso e ao jornal, o sentimento, por incrível que pareça, foi de satisfação. Recebemos nosso tão esperado feedback, que está servindo de parâmetro para melhoras. As críticas despertaram a preocupação dos focas e alertaram para a necessidade de mudanças. O repórter do Ponto Edu e administrador do Em Foca, Cedê Silva, se reuniu com todos os alunos do Curso Estado e rediscutiu algumas regras que engessam nossos textos. Agora, é só esperar pelas mudanças e por novas críticas atrás do aperfeiçoamento sem fim.
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Reinaldo Adri, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal

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Foto: Eric Gaba / Wikimedia
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Qual a principal fonte de conhecimento para um ser humano? Livros, jornais e revistas são boas respostas. Aprender com um bom professor também é imprescindível. Convivência e experiência de vida, claro, não podem ficar de fora. Mas se há algo que descobrimos nas aulas com Luiz Felipe Pondé, é que podemos aprender – e muito – com nós mesmos.
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Os assuntos variam: Deus, ciência, costumes, aborto, etc., fora alguns outros que não posso mencionar aqui. Em todos eles, Pondé faz papel de mediador e, mais do que tudo, de provocador. Ele questiona nossos princípios e idéias de uma maneira que nos faz refletir se o que acreditamos é tão certo ou se os outros estão tão errados quanto pensamos.  Para tanto, seu único recurso são as perguntas.
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E, às vezes, somos pegos de surpresa por nossas próprias opiniões e contradições. Postos hipoteticamente em situações nas quais nunca pensamos (algumas extremas, é verdade), aprendemos a complexidade do mundo em que vivemos. Raciocinamos de maneiras novas, abrimos nossas mentes e encontramos razões e sentidos onde nunca imaginamos.
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A habilidade de Pondé em nos provocar é baseada em sua capacidade de questionar fazendo parecer que ele não tem uma opinião definida sobre o determinado assunto, embora saibamos que tenha – uma lição para qualquer jornalista, que deve sempre deve ter como arma o ponto de interrogação no final das frases.
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Reinaldo Adri, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal

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15.setembro.2011 13:49:16

Pecados capitais

Uma das primeiras lições aprendidas logo no primeiro dia do curso foi da gravidade para um jornalista cometer dois pecados: preconceito e dedução. Apesar de não costumar muito fazer anotações durante a aula, fiz questão de escrever essas duas palavras em meu bloco e grifá-las. Por quê? Ao ouvir tanto “preconceito” quanto “dedução”, lembrei-me de um episódio que presenciei no aeroporto de Guarulhos – e que me deixou particularmente encantado.

Havia acabado de entrar na fila para o terminal de embarque internacional quando, logo atrás de mim, chegou uma família muçulmana. O homem tinha uma densa barba e usava turbante; a mulher, burca. Eles tinham um casal de filhos pequenos, que se vestiam iguais a qualquer outra criança “ocidental”. Não eram brasileiros, mas falavam bem o português.

À minha frente, estava outra família, brasileira, também com um casal de filhos pequenos. Logicamente, não demorou muito para as crianças começarem a brincar. Nenhum dos pais achou ruim aquela situação. A amizade instantânea dos filhos criou motivo para eles também começarem a conversar. E foi justamente a mulher de burca quem iniciou o assunto. Com um tom de voz firme e simpático, comentou, com bom humor, sobre o trabalho que os filhos davam. Em pouco tempo, o assunto evoluiu para as viagens que as duas famílias fariam.

O fato mais curioso foi que, no primeiro momento, apenas a mulher conversava com o casal brasileiro. O marido, nitidamente uma pessoa mais reservada, soltava poucas palavras, apenas complementando os dizeres da esposa. E entre as crianças, a menina muçulmana era justamente a mais expansiva e alegre: gritava e ria de um jeito que todos no terminal podiam ouvir. Exercia até certa liderança na brincadeira com o irmão e os novos amiguinhos.

Naquele dia comecei a aprender a não cometer certos pecados. Quando vi aquele casal se aproximando, não pude deixar de sentir pena da mulher. Antecipadamente, deduzi que ela deveria ser uma pessoa triste, submissa e oprimida. Imaginava todos aqueles panos escondendo uma face sem sorriso e amargurada. Preconceito, felizmente, em pouco tempo desfeito.

Reinaldo Adri, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal

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