Para fazer o caderno especial de fim de curso, no qual tínhamos pouco espaço para pôr muita informação, um dilema apareceu: como usar as aspas? Eram várias pessoas entrevistadas com histórias e análises interessantes, mas não seria possível colocar todas elas na matéria. Uma das principais dificuldades era, entre tanto material, identificar falas que merecessem estar reproduzidas no texto e se elas eram realmente importantes para aproximar o texto do leitor.
Ainda na primeira metade do curso, ao corrigir uma de minhas matérias, o jornalista Iuri Pitta fez duas observações sobre aspas. Na primeira, ele disse que não as usei para transmitir a opinião contundente de uma fonte, o que poderia trazer-me problemas se alguém entendesse que aquela opinião era do repórter. Já na segunda, Pitta avisou que eu havia dado muito espaço para aspas de quem não tinha muito para dizer, desperdiçando linhas preciosas do texto. Desde então, comecei a ficar intrigado sobre como e quando devemos usar esse recurso.
Segundo o professor Paco Sánchez, um bom texto deve ter poucas aspas. Elas nunca devem ser usadas, por exemplo, para transmitir uma fala do próprio jornalista, mesmo se estiver narrando um episódio do qual ele participou. O motivo é óbvio: assim como Pitta havia advertido, o relato do repórter já é o texto em si. As aspas, então, devem ser usadas quando estritamente necessárias, como para expressar algo mais opinativo.
Para Carla Miranda, existem situações em que um personagem ou outra fonte qualquer pode aparecer na matéria mesmo sem ter alguma fala reproduzida. Durante a correção de outra matéria minha, Carla disse que não fica estranho citarmos o nome de alguém e não transmitirmos, por meio das aspas, exatamente o que ele disse. Isso evita, inclusive, que coloquemos elementos sem importância e que não acrescentem nada na notícia.
Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal
Carla Miranda nos alertou durante a correção de nossas matérias logo nas primeiras semanas de curso: “Jornalistas costumam ‘provar’ qualquer tese quando encontram três personagens que digam ou façam aquilo”. Dando exemplos hilários, Carla disse que deveríamos ter muito cuidado para não apresentar exceções como se fossem regras, evitando mostrar falsas tendências, um problema somente resolvido com uma rigorosa apuração, como a feita por nós para o caderno especial de fim de curso (nas bancas neste sábado, 10), supervisionado por ela mesma, quase três meses depois daquela aula.
Para transformar nossas pautas em matérias dignas de publicação, deveríamos encontrar, sim, pelo menos três personagens bastante interessantes, com histórias curiosas e que justificassem a produção de uma matéria, mas o que eles dissessem teria de encontrar respaldo em pesquisas quantitativas, dados estatísticos ou na opinião de especialistas. Por outro lado, obviamente, de nada adiantaria termos os dados e as análises especializadas se não tivéssemos bons relatos sobre experiências de vida. Somente assim, viria a certeza de não estarmos inventando nada.
A importância dos personagens é aproximar o texto do leitor, gerar empatia e provar que aquele assunto se aplica na vidaprática, não se resumindo a números frios ou estudos sociais e psicológicos. Eles são a prova de que a notícia existe em algumas circunstâncias, mas não são a notícia em si, pois, apesar de fornecerem informações preciosas, talvez não saibam direito em que contexto estão envolvidos
Caso não contrastássemos as informações obtidas junto aos personagens com as dos especialistas ou das pesquisas, a chance de transformarmos algo inusitado em regra seria grande, já que é fácil encontrar pessoas diferentes desempenhando atividades diferentes – e nos basear nas declarações delas. A consequência, então, seria uma das mais graves quando o assunto é Jornalismo: confundir o leitor em vez de informá-lo.
Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado Região do Pantanal
Uma das primeiras lições aprendidas logo no primeiro dia do curso foi da gravidade para um jornalista cometer dois pecados: preconceito e dedução. Apesar de não costumar muito fazer anotações durante a aula, fiz questão de escrever essas duas palavras em meu bloco e grifá-las. Por quê? Ao ouvir tanto “preconceito” quanto “dedução”, lembrei-me de um episódio que presenciei no aeroporto de Guarulhos – e que me deixou particularmente encantado.
Havia acabado de entrar na fila para o terminal de embarque internacional quando, logo atrás de mim, chegou uma família muçulmana. O homem tinha uma densa barba e usava turbante; a mulher, burca. Eles tinham um casal de filhos pequenos, que se vestiam iguais a qualquer outra criança “ocidental”. Não eram brasileiros, mas falavam bem o português.
À minha frente, estava outra família, brasileira, também com um casal de filhos pequenos. Logicamente, não demorou muito para as crianças começarem a brincar. Nenhum dos pais achou ruim aquela situação. A amizade instantânea dos filhos criou motivo para eles também começarem a conversar. E foi justamente a mulher de burca quem iniciou o assunto. Com um tom de voz firme e simpático, comentou, com bom humor, sobre o trabalho que os filhos davam. Em pouco tempo, o assunto evoluiu para as viagens que as duas famílias fariam.
O fato mais curioso foi que, no primeiro momento, apenas a mulher conversava com o casal brasileiro. O marido, nitidamente uma pessoa mais reservada, soltava poucas palavras, apenas complementando os dizeres da esposa. E entre as crianças, a menina muçulmana era justamente a mais expansiva e alegre: gritava e ria de um jeito que todos no terminal podiam ouvir. Exercia até certa liderança na brincadeira com o irmão e os novos amiguinhos.
Naquele dia comecei a aprender a não cometer certos pecados. Quando vi aquele casal se aproximando, não pude deixar de sentir pena da mulher. Antecipadamente, deduzi que ela deveria ser uma pessoa triste, submissa e oprimida. Imaginava todos aqueles panos escondendo uma face sem sorriso e amargurada. Preconceito, felizmente, em pouco tempo desfeito.
Reinaldo Adri, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal
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