Foto: Mosab Omar/Reuters
Thiago Santaella arruinou a primeira aula do Paco Sánchez. Lá se vai um mês e tanto (foi ontem?) desde que o galego entrou na sala de treinamento perguntando: “O que é comunicação?”. Já que as respostas estavam tímidas (como assim, a lenda viva já chegava perguntando?), Santaella, que já tinha assistido a um curso dele, disparou: “Formar comunidade”. Era para a discussão ter evoluído antes que chegássemos a esse ponto, o Paco argumentou. Mas seguimos com a conversa, que, afinal, foi apaixonante.
Na programação do MediaOn, o primeiro debate na quarta-feira era, na verdade, exposição e sabatina de Meg Pickard, diretora de Estratégias para Mídias Sociais no grupo Guardian News & Media. Quer dizer, a responsável por um dos modelos de jornalismo participativo mais bem sucedidos do mundo. Em muitos aspectos, vários tópicos que ela abordou dialogam com o que havíamos aprendido com Paco Sánchez.
Pickard (londrina típica, sorriso fácil, empatia imediata) começou a exposição com o conceito reverso da nossa primeira aula do Paco: “Communities communicate”. Para existir uma comunidade de fato, é preciso que haja interação, comunicação. A grande sacada do Guardian, segundo a Meg, está em “encorajar e premiar essas iniciativas”. A história que ela citou foi fantástica. Em 2009, o Parlamento britânico tornou pública a prestação de contas de cada um de seus membros, em um total de 500 mil páginas em .pdf. Ou seja, o inferno na terra.
A solução encontrada pelo jornal para transformar aquilo em uma análise interessante exigiu dez dias de execução: foi o tempo que o programador precisou para criar uma ferramenta online de pesquisa. E aí o Guardian incentivou os leitores a entrar no site e pesquisar o parlamentar que eles haviam elegido. Além de ser um exercício de cidadania, os (e)leitores podiam classificar as contas do seu parlamentar como Interessantes e merecedoras de investigação, Interessantes mas já conhecidas, ou apenas informar que não havia nada de errado. Dessa forma, em menos de quatro dias, 5 mil .pdf’s foram analisados.
Mas a lição mais importante sobre esse estilo de jornalismo participativo ficou para o final. O caminho da notícia não é mais linear, e esse é o rumo que nós, jornalistas, precisamos entender. Não cabe mais na redação o profissional que bate ponto, que não pensa digitalmente – recebe a pauta, entrevista personagem e especialista, ouve os “dois lados”, publica, vai embora, e no outro dia começa tudo de novo. É imprescindível que o jornalista acompanhe a repercussão de sua matéria, e, mais que isso, se inspire pela interação com as pessoas que leem e comentam os textos.
Ao final, o que se aprende com as sensíveis aulas de texto com Paco Sánchez é magistralmente resumido pela frase apresentada por Pickard: “It’s not about those who speak, but those who act” (algo como “não importa quem fala, mas quem age”). Somos menos importantes do que as histórias que contamos. E menos importantes do que os efeitos que causam essas histórias. Aos apaixonados pelo ofício, não deveria ser necessário o conselho final de Meg, mas vale a inspiração: “Don’t light the fire and walk away” (“Nunca comece um fogo e depois vá embora”).
Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina – e tem muito mais perguntas que respostas
De fato, fizemos mais do que beber e dançar no Sul. Um dos pontos que gerou polêmica entre os focas na volta da viagem foram as condições de vida dos produtores de tabaco em Santa Cruz do Sul. A questão era o ajuste focal. Em maior ou menor grau, o meio rural era uma incógnita para todos os focas. Foi uma experiência ímpar aquele contato efêmero, de não mais de quatro horas de duração, com uma realidade tão diferente da nossa vida cosmopolita, deslumbrada e confortável no coração financeiro do país.
Navarro e a Gabi foram os primeiros a manifestar indignação com a tal ‘falta de perspectiva’ de quem vive de agricultura. O Navarro resumiu: “O fumo movimenta MUITA grana, em especial para o governo, que recolhe um dinheirão em tributos. O absurdo, neste caso, está na falta de bem-estar social promovida pelos gestores estaduais, municipais etc”. A Gabriela justificou e argumentou: “Eles não escolheram aquela vida, é a opção menos pior que eles têm. Os caras [indústria] fabricam 60 milhões de cigarros por dia e quem dá duro de verdade não leva 1/23432 avos disso. Quero ver alguém levar a família pra roça pra fazer um trabalho desses e aguentar mais de um ano”.
O contraponto, no caso, foi feito pelo Davi. (Aliás, o saudável de ter o Davi na turma é ele ser aquela pessoa disposta a dar opiniões controversas, mesmo que seja só pra alimentar a discussão). “[A gente tem a] prepotência de achar que as coisas funcionam na nossa lógica. [Dizemos que] eles são “pobres coitados”, são “desassistidos”… Acho que são formas diferenciadas de se encarar a vida. Tento muito afastar de mim essa visão romântica do campo. Mas no fundo queria muito mesmo pode me bastar naquela imensidão verde, estando perto de pessoas que valham a pena estar. No final das contas, a gente só quer amar e ser amado, capisce? Eles sabem amar da forma deles. Repeitemo-la”.
Considero a resposta do Gabriel um primor: “É menos importante saber escrever que saber respeitar. Eu respeito, acho. Mas acho inocente demais achar que viver bem é viver a vida que escolheram para você. Em especial quando governo e iniciativa privada parecem fazer questão de continuar escolhendo”.
Do alto do meu existencialismo neurótico e nicotínico, acredito que as pessoas precisam ter opções. Por um lado, considero preocupante que as pessoas que conhecemos estejam há, sei lá, 50, 60 anos vendo todos os dias a mesma paisagem. Me angustia a sensação de que elas ‘acham’ que levam uma vida boa só porque não conhecem outra coisa – e que haja tanta gente trabalhando para que as coisas continuem exatamente assim.
Mas, por outro, tenho uma dolorida consciência de que ter acesso a várias opções abre espaço para insatisfação – que pode se tornar crônico e te fazer morrer infeliz. Fatalista, pois é. Uma sensação recorrente e clichê em São Paulo é constatar que somos uma multidão de solitários. Os laços são efêmeros. Nós mesmos, focas, temos a garantia de estar juntos por apenas 100 dias. Caminhamos no fio da navalha todos os dias, jornalistas sem rotina e sem seguranças – por escolha própria, frise-se.
Somos, todos, feitos de sociedade, complexidades, contextos e economia (que cada vez mais domina todas as esferas da nossa vida) . Mas também somos carne, osso, sangue e o amor que sentimos pelos outros.
E aí, o que os leitores acham: tem como esse não ser um dilema?
Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)
(Crônicas paulistanas – Pequenas verdades jornalísticas)
Seu Verdi caminha pela Avenida Paulista à noite, vendendo revistas e implicando com os fumantes. Não gosta que o chamem de mendigo, e tem boas indicações de cinema para oferecer. Um rapaz entregando panfletos, abordado por ele, resmunga: “Em gente que nem você eu taco fogo”. Seu Verdi não se abala, e ainda é capaz dos abraços mais sinceros, com os olhos brilhando de gratidão, para quem compra suas revistas. Mesmo que sejam fumantes.
Victor mora num quarto sem janelas, e seca a roupa no ventilador. Parou de fumar e agora lota a geladeira (que divide com outros quatro) de verduras e legumes. Tropeça nos chinelos toda vez que sobe e desce as escadas, muitas escadas, que o levam até a luz do sol. Do quarto ao lado, dá pra escutar até arrotinhos, por isso ouve reggae em volume alto. Na madrugada, sem sono, Victor escapa pro quarto da frente. O que faz com a Viviane, tem de fazer bem quietinho. Victor sempre acorda sorrindo.
Mariana e Gabriela não têm muito tempo pra namorar. A primeira mora com a irmã em São Paulo, “fugida” de casa porque os pais não aceitaram bem a outra. Gabriela ainda mora em Jundiaí com a mãe, que fez uma cirurgia. Precisam se encontrar às escondidas, como fazem há quase um ano. Mas estavam abraçadas embaixo de uma árvore no Parque do Ibirapuera, na tarde ensolarada de quarta-feira. Elas ficaram sorrindo quase uma hora, ensinando amor para uma jornalista, em troca de uma flor amarela.
Aparecida perdeu alguém querido. Entrou no Instituto Médico-Legal esfregando uma mão na outra, o olhar abstrato. O desespero naquele gesto era indizível. Eu estava lá para uma reportagem, precisava entrevistar alguém – deadline para a mesma noite. Era a última chance. Aparecida nem olhava para os lados. Seu andar decidido era o das pessoas para quem o local de destino já não importa. A garganta trancou e os olhos se encheram de lágrimas. Amor, em São Paulo, pode ser sacrificar uma matéria. Minha perda é pouca.
Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)
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