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Em Foca

Semanas atrás, Davi postou no Facebook uma dessas piadas sobre sotaques e expressões regionais. Um exemplo destacava-se entre os vários enumerados pelo pequeno texto: “Mineiro não sente agonia, ele sente gastura”. A frase, tão trivial, me pegou sem jeito.

No meu mineirês, gastura e agonia não fazem sentido contrapostas. Sinto gastura com a unha que é roída na minha frente, o sorvete gelado que faz doer até a raiz do cabelo, a cadeira que lamenta em tons agudos o movimento durante as palestras, e o respingo da água que recebe os talheres velozes e sujos do restaurante Puras.

A agonia é mais intensa, vem do aperto no peito sem motivo, da sensação de insegurança permanente, do medo de fazer algo errado. Desde o dia 1º de setembro, quando o Curso começou, as gasturas são corriqueiras e a as agonias
duradouras. Paco Sánchez me perguntou mais de uma vez nos poucos dias que ficou conosco: “Por que sofre tanto?”. Não era sofrimento – respondi – só aflição.

Profundo sentimento, a aflição é usual, comum e natural, especialmente entre focas. Foi o que Roberto Godoy disse há algum tempo, e Alexandre Gonçalves demonstrou com sua experiência diária. Um paradoxo: saber isso foi atormentador, mas um alívio. Lembrei-me de uma definição batida da nossa profissão, que até então subjulgava, e me acalmei. Se a inquietação com o mundo faz o jornalismo melhor, acredito (e espero) que a agitação faça o mesmo pelo jornalista. Ufa.

Juliana Deodoro, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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28.setembro.2011 13:58:42

O caso Neymar

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Em coluna publicada na Folha de S. Paulo, Juca Kfouri conta que em 1980 publicou no editorial da Placar a notícia que Sócrates não renovaria contrato com o Corinthians. A informação, segundo ele, vinha do próprio jogador, que afirmou mais de uma vez por telefone a rescisão com o time alvinegro. Um dia antes da revista sair, no entanto, Sócrates fechou com o Corinthians e Kfouri não pôde fazer nada com todas as edições que já chegavam às bancas. A história, referência (in)direta ao caso de Neymar e à especulação de sua ida para algum time espanhol, mostra como um furo pode virar barrigada.

No dia 3 de setembro, o portal do Estadão publicou com exclusividade o acordo firmado por Neymar com o Barcelona. Exatamente 15 dias depois, o portal publicou, também em primeira mão, que Neymar estaria na verdade fechando acordo com o Real Madrid.

O caso, comentado por Ricardo Gandour com os focas na manhã do dia 22, exemplifica mais um (dos vários) desafios que o jornalista enfrenta todos os dias.

O que fazer “quando a notícia certa está errada apesar de bem apurada em seus mínimos detalhes”? – questiona Kfouri. Gandour, que é diretor de conteúdo do Grupo Estado, disse que o compromisso era dar em primeira mão o rumo que o caso tomou. Segundo ele, o jornal vive do fato do dia e em cada uma das datas o fato era exatamente o que foi
publicado.

Juca Kfouri termina a coluna com a pergunta: “Culpado, eu?”. De fato, não sei se sequer existem culpas neste tipo de caso. Por falta de opinião, transfiro a pergunta a vocês, queridos leitores (e colegas!): É possível evitar este tipo de acontecimento? E mais: o que fazer quando ele ocorre?

Juliana Deodoro, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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09.setembro.2011 17:14:56

Todo mundo já foi foca

Inspirada pela tarde que passamos na companhia de Edmundo Leite, jornalista responsável pelo Arquivo do Grupo Estado, resolvi fazer uma visita à mina de ouro do Estadão, uma pequena sala que guarda em livros encadernados e arquivos digitais os 137 anos da história do jornal.

Depois de pesquisar no índex e folhear cadernos empoeirados – pesquisa dá trabalho, Edmundo já tinha avisado – encontrei provas físicas de que todo mundo já foi foca um dia. É difícil acreditar, mas apresento a vocês o correspondente do Estadão em Mogi das Cruzes, Francisco José Arouche Ornellas.

Esta é a primeira matéria assinada pelo coordenador do Curso Estado de Jornalismo e catalogada pelo Arquivo. Ela foi publicada em 16 de fevereiro de 1969, quando Chico era um foca como todos nós. Vale a pena dar uma olhada não só na matéria sobre o aeroporto de Mogi, mas também na primeira nota da coluna “Do interior”. Ela anuncia a compra de um bafômetro, “um aparelho complicado que se divide em várias partes e varia de côr, dependendo do grau de alcoolização do motorista”.

Quem também não escapou do arquivo foi nosso professor (e grande conhecedor do centro de São Paulo) Luiz Carlos Ramos. Essa pesquisa foi bem mais difícil, já que a informação que eu possuía era de que Luiz Carlos havia entrado no Grupo Estado em 1969. O primeiro registro com o nome dele, no entanto, é de 67, mais especificamente, no Jornal da Tarde do dia 27 de abril. O que chama a atenção aqui, além da matéria ser sobre um jogo do glorioso Clube Atlético Mineiro, é a grafia do time paulista “Coríntians”.

* Agradecimento especial ao bibliotecário Cristiano de Oliveira, que tirou um tempinho para me ajudar a encontrar estes textos.

Juliana Deodoro, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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