Anatomia da cabeça cortada transversalmente, gravura do dinamarquês Thomas Bartholin (1616-1680) datada de 1673. Crédito: BrainBlogger / Creative Commons.
Parece que não sou tão louco. Naquele que parecia e pretendia ser meu último post neste blog, perguntei se o melhor para a carreira jornalística era a especialização ou um aprimoramento intelectual mais generalista. A partir daquela dúvida, busquei respostas com dois repórteres de idades, especialidades e experiências muito distintas.
Roberto Godoy, de 60 anos (geração “Baby Boom”), era então Repórter Editor Especial de “O Estado de S. Paulo” — “e avô do João”, conforme fez questão de acrescentar. Essas atribuições, porém, não chegam nem perto de fazer jus ao real status dele. Godoy é o jornalista mais especializado e experiente do País na área bélico-militar. E não, não fez algo como mestrado ou doutorado na área. Não concluiu sequer o ensino superior. Foi só até o quarto semestre de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP). Da faculdade de jornalismo, passou longe. “Em 1979 recebi do então editor chefe do Estado, Miguel Jorge, a incumbência de acompanhar o setor. Dediquei-me a isso aplicadamente. Talvez por causa dessa atitude tenha sido bem sucedido na missão. Nunca fui entusiasta das artes militares, colecionador de miniaturas etc.”, me contou por e-mail, meio que considero mais fácil e menos incômodo para abordar jornalistas veteranos, aparentemente sempre ocupados. As maneiras de enriquecer o próprio repertório intelectual se resumem com hábitos cruciais para qualquer bom repórter, seja dos anos 1970 ou de hoje: “Muita leitura. Estudo da área (na qual se quer se especializar)”, explicou. “Busquei conhecimento de história, estratégia, geopolítica, diplomacia, organização militar, conceituação de Defesa e tecnologia especializada. E, naturalmente é preciso abrir, manter e atualizar um grupo de fontes confiáveis”.
Gabriel Toueg, de 32 anos (geração Y), é Editor de Internacional do Estadão.com.br. Graduou-se em jornalismo pela mesma instituição que eu, a Universidade Metodista de São Paulo, entre 1997 e 2004. O período mais longo no ensino superior — sete anos, em vez dos quatro que costuma se levar na faculdade de Jornalismo — se explica pelo fato de Toueg ter trancado o curso por dois anos. “Resolvi que viajar e trabalhar fazia mais sentido do que seguir estudando”. Foi quando esteve em Israel pela primeira vez, e aproveitou para fazer outras viagens, mais curtas, pela América Latina, pelos EUA e pela Europa. Após se formar, passou mais sete anos em Israel. Só voltou ao Brasil em março deste ano. “Comecei a trabalhar com internacional, de fato, quando estava lá. Fui ‘frila’ (repórter freelancer) de diversas publicações e correspondente por um ano (2008) da então rádio Eldorado (atual rádio Estadão ESPN)”, conta. ” Meu plano original ao chegar em Israel era fazer mestrado em História do Oriente Médio, mas mudei de ideia e de planos ao longo do tempo.” Toueg tinha dificuldades com o hebraico à época, mas agora domina o idioma e estuda árabe. Reflexos da afinidade com a cobertura do cenário internacional? “Foi uma soma de coincidências, mas quando estudava jornalismo não tinha essa ideia definida na cabeça. A escolha veio naturalmente e hoje, sem dúvida, Internacional é a editoria com a qual eu mais me identifico.”
Esses dois exemplos me influenciam muito por virem, sim, de profissionais que admiro — Godoy foi um dos palestrantes mais queridos da 22ª turma do Curso Estado de Jornalismo, que chegou ao fim na última sexta-feira, 09/12; e Toueg foi um dos melhores editores que tive durante meu rodízio pelas redações do Grupo Estado —, e também porque não excluem a busca por conhecimento por meio da academia. Não a rejeitam, apenas a dispensam (por enquanto…). Ou seja: a sabedoria reconhecida por instituições é importante, mas tanto quanto a sabedoria vinda do trabalho prático, reconhecida pelo mercado. Toueg e Godoy me inspiram a ser um jornalista melhor porque indicam o ofício jornalístico como, em si mesmo, uma fonte de conhecimento. E esse foi, de longe, o motivo maior que me levou a essa escolha profissional. Trabalhar para aprender um pouco mais todos os dias e, melhor ainda, dividir isso com o maior número possível de leitores, internautas, ouvintes, telespectadores etc.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Foto: Kevin Spencer / Creative Commons
Todo ofício tem seus dilemas. O jornalismo vive deles. E agora está na moda questionar a profissão e suas premissas mais ancestrais — eu mesmo já o fiz aqui. Gente que decide virar jornalista por causa da embalagem de Toddynho compõe a cereja no topo. O bolo de falta de estímulo é feito de uma crescente crise de credibilidade, iniciada com a velocidade lúdica da internet e fermentada pelos recentes escândalos da News Corp. Mas há inquietações mais práticas e urgentes para estes focas.
Não há consenso, por exemplo, sobre o que é mais acertado na carreira jornalística:
- buscar especialização num tema (ou grupo restrito de temas), e se tornar referência nessa(s) seara(s), geralmente como repórter especial ou editor setorista;
- ou manter-se aberto, generalista, disposto a cobrir várias áreas e se dedicar a estudar o jornalismo em si, incluindo suas esferas administrativas, para chegar a cargos como o de diretor de redação e gerente de conteúdo.
Claro que há nuances entre esses dois polos, mas, grosso modo, eles se excluem no dia-a-dia profissional. Mais que optar entre uma das alternativas (ou virar um Fausto do jornalismo e tentar empreender ambas ao mesmo tempo), não sabemos o momento de optar. Até quando dá tempo?
Vivo este dilema hoje, conforme minha pós-graduação avança, meu gosto por ela também, assim como meu interesse por economia, cenário internacional e cultura, os três eixos que estruturam o curso. Uma das opções de trabalho de conclusão da pós é a entrega de um pré-projeto de mestrado. Estou deixando essa ideia de lado por enquanto. Vou terminar o curso e procurar aplicar no jornalismo as centenas de horas de leituras e dissertações. Vou viver para contar. Se a instigação, a aspiração intelectual por um mestrado (e todas as responsabilidades que esse tipo de projeto pressupõe) vier, então volto à academia. Até lá, apenas sigo, experimento, descubro, paro, reparo e crio meu caminho.
Nunca provei do bolo da desilusão com o jornalismo. Tive alguns dias ruins, como se tem em qualquer profissão. No mais, posso dizer que fiz uma escolha sóbria, talvez por sorte. E talvez meus 22 anos “ainda” deem margem para sonhos — só saberei daqui a umas décadas. Aí conversaremos de novo.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Lembrem-se, lembrem-se das normas para dezembro*
Quem se propõe a ser jornalista deve estar pronto(a) a ouvir. Não apenas as fontes de informação, mas as dicas/regras/normatizações vindas de professores, editores, diretores e, no caso destes focas, de jornalistas veteranos que avaliam todos os textos com atenção especial. Faz parte da nossa condição de eternos estudantes.
Nem por isso devemos deixar de refletir sobre o que os (hierarquicamente) superiores impõem. Sempre tive como hobby listar as normas dos mandatários do jornalismo. E, claro, questionar sua validade, pensar em maneiras de subvertê-las. Tentemos:
1. Não usarás “viatura” para designar “carro de polícia”
Um clássico da faculdade que pode nos perseguir no “além-academia”. Os mestres dizem que “viatura” é jargão policial. Sei. Alguém já conversou com alguém, mencionou alguma viatura e o interlocutor não entendeu? Pois é, dos meus primos de segundo grau com menos de 10 anos às minhas avós, ainda não conheci um brasileiro que estranhe a palavra “viatura”. Ela é útil, inclusive, para evitar a repetição de “carro” no texto. O “Houaiss”, um dos dicionários mais respeitados da língua portuguesa, reconhece “viatura” em seu significado primordial (“qualquer veículo, para transporte de coisas ou pessoas”), mas usa mais espaço para explicar o uso do termo no contexto militar. E, convenhamos, a maioria das pessoas sabe do que se trata. Prova final: uma busca com essa palavra-chave no Estadão.com.br.
2. Não começarás reportagens com repetição de homônimos
Esse recurso, considerado clichê fatal, já virou piada interna no Curso Estado de Jornalismo. O lide imaginário e jocoso se inicia com “Seios, tetas, mamas” (afinal, o chulo choca e repreende com eficiência). Mas existem casos em que essa ideia é superválida. Como neste texto do crítico de cinema Miguel Barbieri Jr. para a “Veja São Paulo”:
“Prime, Premier, Platinum, Splendor — não importa o nome, porque o conceito é um só. São as sofisticadas salas vip, instaladas nos cinemas dos shoppings, que, em troca de cardápios diferenciados, pipocas com azeite importado e poltronas megaconfortáveis, chegam a cobrar até mais que 50 reais pelo ingresso.”
A construção foi acertada. Logo de cara, explicou aos leitores a diferença (inexistente) entre a autodenominação de cada cinema vip paulistano e, com fineza, brincou com o fato de essas salas de exibição procurarem se distinguir com rótulos estrangeiros tão pedantes.
3. Não começarás reportagens com declarações de outrem
Simpatizo muito com essa regra. Na mesma medida, porém, me entusiasmo com os textos que se iniciam com aspas de alta precisão. Como exemplo de exceção possível, peço licença para expor um texto meu. “Sensual, aos 99″ foi publicado em agosto deste ano no semanário Meio & Mensagem e tratava do reposicionamento de marca que a Lacta vem empreendendo no segundo semestre de 2011. Veja o lide:
‘É pornográfico.’ Assim a gerente de grupo de produtos da Kraft Foods Brasil, Patrícia Borges, responsável pela marca Lacta, define a forma como uma mulher devora uma porção de chocolates após três dias sem o doce. A constatação surgiu em meio a uma pesquisa com 400 pessoas conduzida pela empresa, com fases quantitativa e qualitativa, para precisar como o brasileiro se relaciona com a iguaria.”
Eu me senti quase obrigado a iniciar a reportagem com a aspa da executiva da Kraft. Observando agora, três meses depois, claro que reconheço que uma ou outra construção do lide poderia ser melhorada, mas só consigo contar essa história da Lacta a partir dessa declaração, tão forte e tão concisa — em especial porque vinda da representante de uma marca que vai completar um século de existência ano que vem. Minha mensagem é simples: focas do mundo, questionai! Acho saudável que procuremos outras possibilidades de subversão, sem deixar de buscar o equilíbrio de palavras e intenções no texto.
*trocadilho do lema de V, protagonista do filme “V de Vingança” (“Lembrem-se, lembrem-se do 5 de Novembro”, alusão à Conspiração da Pólvora), com o prazo dos focas para a entrega de reportagens para nosso caderno especial, que circula no último dia do curso (em 2011, 9 de dezembro)
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
A Nau dos Insensatos, de Hieronymus Bosch (1450-1516)
SANTA CRUZ DO SUL (RS) — Noite de festa. Em meio a palestras, visitas de campo, deadlines para reportagens e para posts deste Em Foca, eu e meus novos 29 grandes amigos ganhamos um jantar especial ontem. Por isto, este texto não se compromete com a habitual seriedade do autor. Hoje é dia de haikai, bebê leitor(a).
Nossa passagem para a segunda metade do Curso Estado de Jornalismo — que nesta quinta-feira, 20, chega a seu quinquagésimo dia de um total de 100 — traz uma lição improvável, incidental em meio a todo rigor que nos é cobrado: não é preciso álcool para ficar ébrio. Embriagar-se de amizade é o melhor presente que podemos nos dar nos justos momentos de celebração.
Ouvimos e dançamos todos os tipos de música, entre tantas cores e corpos. Talvez parecesse ridículo se visto de fora. Mas, para nós, foi um instante belo de comunhão. E como não acreditar na beleza quando nossa alma fica com menos de 20 anos? Que comemoremos a vitória de metade do percurso! Não há ressaca quando só transbordamos bons sentimentos.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
“A Pirâmide Invertida” (1993), do escritório de arquitetura nova-iorquino Pei Cobb Freed & Partners, no Museu do Louvre, em Paris - Foto: Stefan van Bremen / Creative Commons
Se você, internauta, for jornalista, já sabe sobre o que será este post só de ler o título acima. Se você não for jornalista, relaxe. Uma rápida busca por esse termo no Google lhe traz a resposta: a pirâmide invertida é uma técnica de redação de meados do século XIX para jornais impressos hierarquizarem dados. Sob esse sistema, as informações mais importantes sobre um fato (o que aconteceu, quem estava envolvido, onde, quando e como aconteceu) devem ser apresentadas no primeiro parágrafo, o lide. As causas do acontecimento noticiado, seu contexto histórico e personagens secundários aparecem apenas no restante da reportagem. O modelo foi concebido no auge do telégrafo, quando, caso fosse preciso mais espaço numa página, bastava arrancar os últimos parágrafos dos textos, pois as essências das novidades continuariam lá.
Mas a pirâmide invertida funciona no século XXI?
O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) disse, há cerca de 300 anos — época em que surgiram os jornais impressos como os conhecemos hoje —, que a leitura diária de jornal era “a oração do homem moderno”. No entanto, atualmente os “credos” são muitos e as “orações” também. É possível se informar pela televisão, pelo rádio, pelos portais de notícias, pelo celular etc.
Apresentar aos cidadãos toda manhã um “produto” só com acontecimentos do dia anterior parece desfasado e preguiçoso. As empresas jornalísticas ainda não têm solução definitiva para esse desafio e nunca antes a técnica da pirâmide invertida pareceu tão sem sentido nem tão danosa para se registrar fatos em tinta e papel.
Conforme os textos dos 30 focas são corrigidos por diferentes professores ao longo do Curso Estado de Jornalismo, sentimos que o meio impresso exige um elemento especial: estilos. É imprescindível seguir rigorosamente a norma culta da língua e apurar a maior quantidade de dados possível em qualquer formato midiático. Já na palavra escrita, não tem jeito: o que seduz pra valer são os estilos — assim, no plural, porque o escrever de forma diferente vem do pensar diferente, e pensar de outro modo é algo de que o jornalismo sempre carece.
Eu havia terminado de escrever este post quando fui, com quatro colegas do curso, à palestra “O Texto Jornalístico na Reportagem em Profundidade” nesta terça-feira, 4, parte da 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Lá, o repórter Christian Cruz, do caderno Aliás do Estadão, defendeu que a função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor, que pode se abastecer dos demais dados ao longo da reportagem (se esta estiver bem escrita). Seria uma visão romântica demais, talvez, não estivesse Cruz sentado a menos de um metro de Klester Cavalcanti, editor-chefe do Estadão.com.br, à mesma mesa de exposição. Cavalcanti comanda o portal sem deixar de exercitar a verve narrativa. É autor de “Direto da Selva”, “Viúvas da Terra” (pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti na categoria reportagem e biografia, em 2005) e “O Nome da Morte”. Diante disso, naquele auditório universitário, veio a mim — e, suspeito, também aos meus quatro colegas — a ideia de que a pirâmide até funciona. Por ora. Quanto mais avançam os tempos, porém, mais vale explorar outros sólidos geométricos e outras posições, além da pirâmide e da ponta-cabeça.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Foto: Paulo Zapella / Creative Commons
Já faz mais ou menos dois anos que frases de espírito libertário (e um tanto inocente demais, talvez) começaram a ser pichadas pelas ruas de São Paulo com apelo bastante direto: “Mais amor por favor” (assim mesmo, sem vírgula) e “O amor é importante. P….”. Tocantes pela dupla marginalidade — a legal, se levada em conta a proibição de intervenções urbanas desse tipo; e a psíquica, vinda do caráter inusitado dessas máximas —, as pichações viraram hits em redes sociais voltadas para o compartilhamento de imagens, como Flickr e Tumblr. No universo jornalístico, porém, os focas temos aprendido que não há tanto espaço para tais licenças poéticas.
Menos amor, por favor, na hora de redigir notas, notícias, reportagens, matérias especiais.
O jornalista deve tentar descobrir o maior número possível de informações sobre o tema a que está se dedicando. Uma premiada repórter da área de saúde me disse, certa vez, que o ideal para a boa reportagem é apurar uma quantidade de dados que, se impressos, seriam capazes de encher uma sacola daquelas grandes das lojas de departamento.
Mas, na hora de escrever, o foco muda. Mais que apurar, deve-se depurar. Ou seja, selecionar as informações que realmente importam no dia (para o caso de jornais diários) ou no momento (para rádios, portais, agências de notícias etc.) em que se veicular a notícia, e hierarquizá-las.
Não se pode contar com a devoção espontânea do leitor/ouvinte/internauta/cliente. Ele raramente se sentirá tão interessado quanto o repórter em saber os pormenores caricatos do processo de investigação jornalística. Por isso — e pude constatar tal consenso nas falas de vários dos profissionais veteranos que já lecionaram na 22ª edição do Curso Estado de Jornalismo —, respeitemos o espaço destinado a cada notícia. Discutamos com os editores quando julgarmos que um assunto ganhou mais relevância para o público (por quaisquer motivos) e, portanto, merece aprofundamento. Mas, no geral, melhor não cultivar tanto afeto pelos nossos próprios textos. Tenhamos paixão pelo ofício jornalístico sem obrigar o restante da sociedade a “adorar” nossos processos de apuração. Por favor: menos amor.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Cartum: Frits Ahlefeldt / Creative Commons
“Raramente a verdade é pura, e nunca é simples.” O aforismo é de um escritor pouco comprometido com a realidade objetiva – o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) -, mas explica de forma simples um paradoxo da vida real: os fatos não falam por si, tampouco se explicam. Para organizar o caos de informações, dizem, existem os jornalistas.
No entanto, numa das primeiras conversas que nós tivemos com Chico Ornellas, coordenador do curso, ficou claro que a maioria dos jornalistas (sobretudo os jovens) tem mais a aprender do que a dizer sobre as cifras do mercado do qual fazem parte. Até existe uma percepção geral sobre o setor, mas não é incomum que sejamos fisgados por boatos e boas propostas de trabalho sem atentarmos para um cenário mais amplo e contextualizado da indústria jornalística.
Veja alguns dados importantes, em especial sobre o jornalismo impresso:
- Segundo o Projeto Inter-Meios (levantamento feito pelo jornal Meio & Mensagem com a consultoria PriceWaterhouseCoopers), o faturamento publicitário dos veículos de comunicação cresceu 5% de janeiro a maio deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. Alcançou-se a marca dos R$ 10,4 bilhões. Mas o desempenho dos jornais foi negativo: o faturamento dessas publicações vindo de espaço para anúncios foi 1,9% menor, ficou em R$ 1,3 bilhão.
- Para efeito de comparação, em 1978, dizia-se durante o 3º Congresso Brasileiro de Propaganda que o mercado publicitário brasileiro como um todo movimentava 1 bilhão de dólares.
- Hoje, a boa notícia para os jornais impressos brasileiros é que a circulação cresceu 4,2% no primeiro semestre de 2011, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC). A média diária de circulação chegou a 4.439.212 exemplares, um recorde histórico no País.
- Resultados como esse fazem do Brasil um dos poucos países em que o mercado editorial impresso vê oportunidades para crescer, enquanto economias tradicionais como EUA e Europa, a despeito da crise, digitalizam suas formas de acessar informações por meio de tablets, por exemplo.
- Mas, entre os Brics (grupo de emergentes que engloba Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), são os indianos que levam a melhor. Apenas o Times of India, campeão de vendas daquele país, consegue tiragens próximas dos 4 milhões de exemplares. Isso não se deve só ao fato de a Índia ter mais de 1,2 bilhão de habitantes, e, sim, a razões culturais: lá, os jornais são os meios de comunicação mais importantes, têm audiência superior até à da televisão e à do rádio.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
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