A mobilização “Eu Escolhi Esperar”, criada na internet para motivar os jovens a manter a virgindade até o casamento, foi a nossa primeira ideia de pauta para o Caderno dos focas. Sugestão aceita, começamos o trabalho de caça às fontes.
Logo de cara, tivemos que contornar alguns obstáculos, como a mudança de foco da matéria, solicitado pela editora, e o corte de alguns bons centímetros de texto final após a entrega. Vida de jornalista é assim mesmo, meu camarada.
Depois que o tema foi expandido para dar espaço a uma abordagem que mostraria o jovem nas diversas religiões, seguimos. Mesmo familiarizados com o assunto (nós dois temos formação evangélica) pudemos aprender e colher novas informações. O centro de treinamento dos mórmons, por exemplo, nos trouxe outra visão sobre uma igreja que ainda é vista com preconceito no Brasil. Descobrimos quais eram as motivações desses jovens brasileiros, americanos, hispânicos, angolanos, moçambicanos: a pregação dos princípios mórmons e o desejo de passar dois anos em campo, uma experiência que pode torná-los mais maduros. A pauta, no entanto, ainda não satisfazia nossa editora.
Foi então que atentamos para uma outra tendência: na enquete realizada pelos focas no Facebook, o quesito “religião” foi o menos votado. A que causas isso se devia? Encontrar a resposta seria a nossa nova missão e, consequentemente, nossa nova matéria. Para chegarmos a uma conclusão tivemos que recorrer a especialistas como o teólogo Frei Betto e o professor de Ciências da Religião da PUC-SP Fernando Altemeyer Júnior. Com o apoio de uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), pudemos apontar que muitos jovens veem a fé como uma questão particular e optam por cultuar Deus “em seu próprio coração” e não necessariamente por meio de instituições. Pronto, aí estava o gancho que o caderno precisava.
Em relação à matéria sobre o Movimento “Eu Escolhi Esperar”, tivemos ainda a chance de “ressuscitá-la”, já no finzinho do segundo tempo, para complementar o nosso conteúdo multimídia. Como já tínhamos apurado material desde o início da produção do Caderno, acabamos tendo mais facilidade para chegar a um novo texto, apesar das opiniões polêmicas que colhemos. Os pontos de vista do teólogo, criador da campanha, e da sexóloga da Unifesp seguiram caminhos opostos.
Enxergamos, nesse aspecto, uma das mais importantes contribuições do jornalismo: informar, sem tomar partido, deixando ao leitor a tarefa de formar uma opinião sobre o fato.
As duas matérias podem ser lidas aqui:
Fé perde adeptos para atores sociais
Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Talita Matias, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)
A primeira ideia nasceu já junto da segunda. Falar de cultura sempre foi uma vontade, assim como a parceria entre as amigas-vizinhas de curso. Decidido o tema, uma pesquisa nos orientou para a pauta: qual seria o impacto da cultura e da arte na vida dos jovens? O contato com a pesquisa da pedagoga Cleidy Nicodemos Silva, do Observatório Jovem, serviu de ponto de partida para entender essa relação, tanto no presente quanto nas consequências futuras. A busca por personagens interessantes seria fundamental.
Encontramos a Angela Gaeta num encontro de maracatu sugerido pela amiga foca Beatriz Bulla: na Escola Estadual Alves Cruz, o Projeto Calo Na Mão desenvolve há quase dez anos um projeto cultural que não só abriu novos horizontes para muitos jovens, como também contribuiu na melhoria do ensino. Com o índio capixaba, descoberto num webdocumentário da Rede Cultura Jovem, foi muito interessante ver como a relação com a escrita e com a música o ajudam a pensar criticamente sobre a situação de seu povo. Além disso, ajudaram a colocá-lo como ator na preservação de uma forma de viver tão rica e importante para a cultura brasileira, em geral.
Tyagkauê, nosso índio escritor e cantor de Aracruz, Espírito Santo, através de sua arte até se reinventou. Misturou seu nome “branco”, Tiago, com sua graça indígena Kauê, renascendo artista. Uma de nós, que além do Estado de origem também tem nome indígena, foi até entrevistada na entrevista. O jovem, da mesma idade, perguntou: “Você tem um nome ”branco” também?” “Não, não, esse é meu nome mesmo”, falávamos por telefone, enquanto ele, debaixo de uma árvore em sua tribo, dividia com a gente, da redação do jornal, o canto dos passarinhos.
Já com o Frederico Félix, art designer de apenas 18 anos, além de uma agradável conversa, pudemos inovar na forma. A entrevista foi feita por meio de uma conferência de vídeo. Mesmo com certa distância, pudemos aproveitar da observação da fonte. Uma aposta até de mais um modo de fazer jornalismo daqui por diante. E a conversa com Gustavo Martins, compositor e guitarrista da banda Ecos Falsos, além de diretor do programa Furo MTV, foi o que nos despertou para entendermos também o modo como a produção cultural desses jovens artistas influencia diretamente na vida de outros jovens. No geral, a experiência foi intensa, como tudo que vivemos no Curso Estado de Jornalismo, e deliciosa. Foi quando nos sentimos jornalistas do Estadão e, de quebra, selamos uma amizade em tom de parceria.
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Heloisa Aruth Sturm, de 29 anos, é formada em Direito e em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP)
Jacyara Pianes H. Carvalho, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Jovens sem ensino fundamental completo fazem avaliação final do Projovem Urbano. Foto: Davi Lira
A matéria foi publicada no caderno especial dos focas no dia 10 de dezembro. Foram mais de 250 mil edições impressas juntamente com o Estadão daquele sábado. Essa tiragem era algo que nos impactava bastante. Queríamos aproveitar o potencial de circulação do caderno para produzir um material com um tom nitidamente factual (mesmo num caderno eminentemente de comportamento). O texto deveria ter uma pegada jornalística de denúncia focando no grande tema do suplemento: a juventude. Queríamos, além de tudo, nos testar, e praticar todo o conhecimento adquirido durante os 100 dias de muitas atividades, palestras, workshops e passagens nas redações do Grupo Estado.
Era o nosso momento de nos firmamos enquanto jornalistas profissionais. Não poderíamos falhar em nada. E foi o nosso interesse por educação e política que acabou nos levando, naturalmente, a escolher como pauta um programa de educação do governo voltado para os jovens. Não deu outra, o Projovem Urbano e os seus percalços foi o foco da nossa apuração que durou três longas semanas, sem quaisquer intervalos. Durantes, dias, noites e madrugadas à dentro, inclusive dos fins de semana, nos focamos em uma extensiva análise de dados, informações, notícias, legislação,projetos de governo, documentos de auditoria e cartilhas de acompanhamento do programa pelos órgãos oficiais e ONGs.Sem esquecer das valiosas orientações dos especialistas em educação: Mozart Ramos (Todos pela Educação), Maria Virgínia (Ação Educativa) e da professora Marisa Ribeiro (UFMG).
Foi muita apuração e muita análise de dados coletados nos portais de transparência do gasto e de outros órgãos de acompanhamento de políticas públicas: Siga Brasil (números coletados e comparados com os dados fornecidos pelo Contas Abertas) , relatórios de auditoria do TCU, site do FNDES para o acompanhamento da prestação de contas, relatório com Estudo de Caso sobre o Projovem do Fundo de População das Nações Unidas, documento “Indicadores sociais” do IBGE, textos de discussão do Ipea sobre Políticas da Juventude, análise do portal de controle do Ministério do Planejamento, e uma série de artigos científicos recentes da área de avaliação educacional. Todo esse cuidado se justifica pelo impacto que a matéria poderia proporcionar na principal política do Governo Federal para a juventude.
A cada dia, com a análise cuidadosa do material coletado, dávamos de cara com uma série de problemas de gestão e eficiência, nitidamente comprovados e fundamentados por órgãos oficiais e entidades inquestionáveis. Logo, sabíamos de antemão que algo não estava bem estruturado.Lançado em 2005, o Projovem (Programa Nacional de Inclusão de Jovens) passou por uma reformulação e, em 2008, foi dividido em quatro modalidades, entre eles, o mais significativo, o Projovem Urbano, comandado pela Secretaria Geral da Presidência da República. Outros veículos de comunicação já haviam falado de forma isolada sobre algumas deficiências do programa como um todo (especialmente dos desvios do Projovem Trabalhador), à exemplo do Correio Braziliense.
Apenas uma outra matéria do O Globo estava mais consolidada, mas pouco pontual a respeito do Projovem Urbano (essas“descobertas” durante o processo de apuração nos deixou um pouco atordados: “a concorrência já havia dado, e agora?”).
Não deu outra. Optamos por dar enfoque ao Projovem Urbano e conseguimos dados bastante significativos que até então nenhum veículo de comunicação havia tratado: a questão do rendimento — com que nota o aluno entra e com que pontuação ele sai. Essa questão só havia sido tratada, basicamente, com foco na quantidade de alunos formados e na evasão.
Os dados demoraram a chegar. Só recebemos depois de muita insistência junto à Secretaria da Presidência, que centraliza as dados do Projovem Urbano. Informações dos outros Projovens (Adolescente, Trabalhador e Campo), também foram coletados junto aos respectivos ministérios (Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Trabalho e Emprego e Educação, respectivamente). O espaço que tínhamos no caderno, porém, nos obrigou a desprezar os outros Projovens.
Com tantos dados analíticos e planilhas de orçamento, chegamos a nos complicar um pouco para definir o foco. Sabíamos que deveríamos nos distanciar do tal “vamos fazer um balanço”. Mas como o programa vai migrar para o Ministério da Educação em 2012, optamos por um apanhado geral das deficiências de gestão.
DAVI: Algo que, particularmente, sempre me chamava atenção, desde o início, era o ganho em imagem que os políticos obtinham no momento da “formatura” das turmas de um mesmo Estado em um único evento. Acompanhava nos sites oficias de algumas prefeituras, especificamente a do Recife, e recentemente havia lido no jornal O Povo de Fortaleza um artigo da prefeita Luizianne Lins elogiando de forma pomposa o programa, sem criticar a qualidade do ensino. Queriam apenas a foto. Era muita gente se formando ao mesmo tempo. Suspeitei logo da qualidade. Em alguns momentos passava pela cabeça o seguinte: “será que o programa, por mais bem pensado que seja (e é!), não acabou virando um supletivão do ensino fundamental?”. Uma das maiores autoridades sobre ensino básico, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) confirmou essa tese. E o mais importante foi o contato que tive com algumas turmas. Era visível a dificuldade dos alunos que faziam a avaliação final de entender textos simples em bilhetes ou efetuar contas banais de matemática. Mas também era nítido o ganho em autoestima dos participantes e a incrível felicidade de tantos outros de terem a chance de voltar à escola e ganharem um novo círculo social. Mas o ponto central da matéria era nítido: atacar à ineficiência da gestão, não destruir o programa, tão bem concebido.
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Davi Lira de Melo, de 26 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Débora Álvares, de 23 anos, é formada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)
Chegou às bancas ontem (sábado) o caderno especial da 22ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Estadão. As reportagens completas também estão no ar na internet, clique na imagem:
Esta matéria surgiu do turbilhão de informações que conseguimos ao conversar com diversos especialistas na área. Da entrevista de Nayara Fraga com o PhD em obras subterrâneas André Pacheco de Assis, conseguimos diversas dicas de cidades que estavam usando soluções subterrâneas. A partir disso, fomos atrás de outros especialistas indicados por ele e de informações sobre os lugares apontados.
Alguns documentos que conseguimos em uma recente palestra sobre o assunto nos deram dados. Muitas informações vieram de matérias de outros jornais, especialmente no caso das localidades internacionais.
Um grande desafio foi o contato com pessoas de fora do País, para que conseguíssemos mais informações. Um deles, o prefeito da cidade de Seoul, capital da Coréia do Sul, nos respondeu na tarde do fechamento. E as informações complementavam e deixavam mais clara nossa matéria.
No fim, percebemos que tivemos bem mais entrevistas e dados do que esperávamos no começo. Mas como nos foi ensinado, devemos apurar bem mais que o necessário e usar “10%” de tudo que sabemos.
Planejávamos outro destino para este tópico. Ele seria uma parte das experiências internacionais. Mas como a matéria sobre a Operação Lapa-Brás evoluiu, foi decidido que ela iria na mesma página que esta. Por assumir essa importância, primeiramente foi escrita com todas as informações possíveis, já que não sabíamos qual o espaço seria dedicado a ela. Não foi nenhuma surpresa quando soubemos que teríamos que diminuir as linhas das 120 iniciais para cerca de 40.
Com a ajuda de amigos e muito suor, conseguimos chegar próximo à meta. A edição final não prejudicou a informação inicial, e certamente ficou mais natural e fluído do que o texto original.
Acesse o PDF da matéria Cidades enterram trilhos para mudar entorno e melhorar o transporte
Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual
Marina Estarque, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Mais difícil do que apurar uma pauta obscura e inovadora – daquelas que a gente nem sabe quem procurar primeiro – é escrever sobre um assunto já publicado inúmeras vezes. Esse foi nosso primeiro desafio quando escolhemos o tema das galerias abandonadas embaixo da Avenida Paulista para o suplemento publicado no dia 11. Não dava para deixar de abordar um problema dessa importância em um caderno sobre o subterrâneo de São Paulo. Mas o que trazer de diferente para o leitor?
O preço absurdo dos estacionamentos na região nos trouxe a resposta. A Paulista é um dos endereços mais caros da cidade, e a falta de espaço o torna ainda mais valorizado. Então, quanto valeriam as tais 22 galerias caso fossem postas em uso? Para fazer uma estimativa, cruzamos o preço do metro quadrado de cada trecho da avenida – fornecido por uma consultoria imobiliária – com as áreas de cada uma delas, calculadas com base em uma planta da Emurb. Chegamos à cifra de R$ 62 milhões. Pronto. A pauta começava a ganhar rosto. Agora precisávamos descobrir por que ninguém, em 37 anos, se apropriou de áreas tão valiosas.
Batendo de porta em porta, descobrimos que os espaços – resultado de desapropriações feitas na década de 1970 – pertencem à Prefeitura e que a sociedade civil já propôs discussões sobre o assunto que nunca foram concluídas. Entrevistamos urbanistas, ONGs, empresários que têm negócios na Paulista e a diretora da SP Urbanismo para entender os interesses envolvidos no suposto negócio. Descobrimos um grande abacaxi.
Segundo consta, as galerias estavam bastante deterioradas e só com um bom investimento estariam aptas a serem ocupadas. Para alguns entrevistados, existem meios de tirá-las do abandono; para outros, seria uma grande perda de tempo e de dinheiro. A assessoria de imprensa da Prefeitura (principal personagem de uma eventual solução) não quis falar sobre o assunto. Aí estava nossa matéria: a falta de consenso e de empenho para dar algum destino a valiosos 13 mil metros quadrados de patrimônio público.
Só nos faltava descer em uma das galerias para constatar com nossos próprios olhos as condições em que se encontrava e, claro, fotografá-la. Mais uma vez, houve resistência na Prefeitura em nos atender. Precisávamos de uma autorização para entrar com o Corpo de Bombeiros. Mas qual seria o departamento responsável por essa permissão? Ninguém soube responder. Depois de quase um mês de um jogo de empurra, ganhamos apoio de brigadistas particulares e descemos na galeria que fica em frente ao Conjunto Nacional – exatamente no último dia que nos restava de apuração. Abandono confirmado. Fotos lindas. Ganhamos a capa do caderno!
Acesse o PDF da matéria R$ 62 milhões esquecidos na Paulista
Érica Saboya, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na PUC-SP
Felipe Tau, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)
Fazer um caderno sobre os subterrâneos da cidade nos permitiria levar ao leitor uma série de coisas que ninguém vê ou talvez tenha apenas ouvido falar. Isso ocorreu até mesmo com a gente. No nosso caso – Felipe Frazão, Gustavo Coltri e Daniela Schmid – havíamos escutado histórias de que pessoas moravam sob a terra em São Paulo. Nosso objetivo foi achá-las e contar suas histórias.
Saímos em busca de indícios e lugares onde poderíamos encontrar esses moradores. Foram cerca de duas semanas de buscas, sempre à tarde e à noite (nesses horários, as pessoas costumam vagar pela rua e, durante o dia, havia outros compromissos do curso). Fizemos contato por telefone e visitamos entidades civis e religiosas de auxílio a moradores em situação de rua. Entramos em buracos sob viadutos, ficamos de plantão em cemitérios, distribuímos cobertores sob chuva fina com os irmãos da Toca de Assis, frequentamos a macarronada da Sé, descemos em galerias pluviais.
Tivemos sucesso em quatro investidas, que optamos por dividir em reportagens independentes com traços comuns: apego a Deus, isolamento da família, falas rápidas – às vezes desconexas, com informações inconsistentes –, temor em revelar nome e local de moradia (o que, num dos casos, foi exigido para conseguirmos a entrevista), proximidade com drogas, medo de bandidos e da Polícia.
Por opção da edição, as histórias foram condensadas, preservando ao máximo a parte mais pertinente de cada. Também tivemos de cortar a matéria sobre os jovens retirantes Jonatan, de Alagoas, e Enoque, do norte de Minas.
Leia algumas curiosidades e trechos inéditos.
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No centro, conseguimos nossa primeira entrevista. Fomos ao encontro de Jonatan, de 28 anos, e Enoque, de 23. Os rapazes dividem um mocó (como chamam o buraco sob um viaduto da região) com mais sete pessoas. Foi também nosso primeiro choque. Eles vestiam roupas limpas, contrariando o estereótipo do morador de rua em situação de mendicância, completamente sujo, com vestes rasgadas, cabelos e barba por fazer.
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A dependente de crack Sônia mora com mais três pessoas na barraca improvisada na galeria pluvial da Avenida Inajar de Souza. Por conveniência, apelidou-os de Tia, Grandão e Barba. Não sabe o nome verdadeiro deles. Mesmo assim, disse entre uma baforada e outra no cachimbo com a droga: “Esses são meus amigos de verdade, estão sempre comigo.”
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Cleonice vive solitária no cemitério, mas, às vezes, visita a filha em Guaianases, zona leste de São Paulo. A pernambucana, idosa, chegou a São Paulo ainda jovem, para ser empregada doméstica em casa de família. Dos tempos em que tinha emprego formal, resta apenas um cartão do INPS.
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Zé, o morador da Praça da Sé que abre a reportagem publicada no suplemento, está escrevendo dois livros, nos quais conta sua vida nas ruas. Ele estudou até o ensino médio, tem vocabulário amplo e freqüenta lan houses da região. Religioso, dorme nas escadarias da catedral e sonhava em ser padre. Depois de perder a casa num incêndio, pediu a Deus para não ter mais nada de material. “Meu sacerdócio é nas ruas.”
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Acesse o PDF da matéria Histórias de quem conhece a vida embaixo da terra
Felipe Frazão, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e cursa Ciência Política na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)
Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Muito antes dos trilhos do Metrô, a cidade de São Paulo já possuía caminhos por baixo da terra. A curiosidade de encontrá-los foi o que motivou a matéria Entre fantasmas e divas, publicada no nosso suplemento de fim de curso que saiu no dia 11. A ideia era mostrar a história da cidade que permanecia escondida sob suas ruas e avenidas.
Entretanto, encontrar esses caminhos não foi tarefa fácil. Pesquisas acadêmicas voltadas para os túneis subterrâneos históricos são inexistentes e, mesmo entre arqueólogos e historiadores, não conseguimos informações objetivas. Surgiram diversas pistas desencontradas após algumas ligações telefônicas e leituras de blogs sobre curiosidades de São Paulo.
Buscando a confirmação das pistas, como em um trabalho de detetive, fui para a rua fazer a apuração. Visitei o caminho sob o quartel das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e ouvi histórias sobre o passado do local. Mas faltaram as informações dos locais por onde o túnel passava, dados que se perderam no tempo.
Também conheci o caminho subterrâneo do Hospital das Clínicas e conversei com dois personagens encantadores. O atendente de enfermagem Sebastião Donizetti caminhou comigo pelo túnel falando pelos cotovelos. Disse que gostava de deixar as pessoas bem à vontade para não sentirem medo, afinal o local é usado para o transporte de mortos e rende histórias sobre assombrações. Depois eu me encontrei com o coordenador de engenharia de manutenção do HC, Manuel Fabiano. O senhor de 82 anos havia passado o fim de semana anotando diversas histórias em uma folha de papel, para poder me ajudar da melhor forma. Só as histórias de Fabiano já davam uma matéria, mas eu ainda não tinha achado o foco.
Nas ruas do centro, procurei os túneis subterrâneos que fariam a ligação entre os prédios religiosos. Mas a história não passava de lenda, como me contaram os responsáveis por algumas igrejas e pelo Mosteiro de São Bento. No Teatro Municipal, mais curiosidades que não possuíam confirmação.
Após colocar toda a apuração no papel, pude perceber qual era o elo entre as histórias. Cada uma delas possuía uma lenda diferente, ou um trecho da história que permanece em branco, por não ter sido preservado. Ao decidir procurar os túneis subterrâneos do passado, que um dia foram construídos para despistar quem caminha sobre a terra, eu não contava que depois de tantos anos eles pudessem continuar cumprindo seu objetivo: esconder-se dos nossos olhos.
Acesse o PDF da matéria Entre fantasmas e divas
Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Oi, pessoal!
Confiram neste vídeo os bastidores da minha reportagem no suplemento dos focas publicado no dia 11. Minha matéria foi uma “sub” – no jornalismo, uma matéria complementar a uma mais importante, chamada de “abre” – desta: Petrobrás vai reordenar dutos em SP. As duas falam sobre os impactos da exploração do petróleo no pré-sal em São Paulo.
Acesse o PDF da matéria Estado pode ser maior beneficiado com a exploração
Frederico “Cedê” Silva, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas)
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