Na reta final do curso, os focas se despediram da temporada na Redação do jornal na última sexta-feira. Ou melhor, no último domingo – afinal, para fechar a jornada com chave de ouro nada melhor que um plantão. Durante as últimas dez semanas, passamos por diferentes editorias d’O Estado de S. Paulo, e também pela Rádio Estadão ESPN, pelo portal Estadão.com.br e pela Agência Estado.
Para muitos de nós, foi uma oportunidade de conhecer pela primeira vez como funciona a redação do jornal. Para outros, foi uma chance de ampliar o propalado networking, conhecer pessoas e formar bons laços profissionais. Muitos participaram de coberturas especiais, como o Enem e a morte de Steve Jobs. Alguns publicaram boas matérias, até mesmo a capa de um caderno.
As experiências são diferentes para cada um, a partir do direcionamento dado para sua passagem pela redação e pelo curso. Nas redações, conversar com os editores e tutores que nos recebiam foi uma boa forma de conhecer melhor os desafios de cada editoria, e como eles vêm o trabalho na área e a profissão. Foi também (e principalmente) uma oportunidade para entender o que esperam de nós, focas, agora que deixaremos o conforto do curso para assumir posições efetivas no mercado.
A necessidade de autonomia e agilidade pelos jovens repórteres são unanimidade entre os editores. Saber lidar com situações atípicas com independência e rapidez é fundamental para desempenhar um bom trabalho e conseguir a confiança dos editores. Mas mais do que isso, o conteúdo segue firme como diferencial, e aliado à iniciativa e criatividade pode garantir o enfoque diferenciado em uma pauta comum.
“É importante ter a capacidade de apresentar mais do que o pedido pela pauta ou pelo editor. Se o repórter só traz o ipsis litteris da pauta ou do fato, não consegue espaço. No início, é compreensível. Mas é um processo rápido, ele deve aprender a trazer sempre mais”, opina Sérgio Pompeu, editor do Estadão.Edu.
A posição é compartilhada pelo editor do Caderno 2, Ubiratan Brasil. Para ele, nas editorias de cultura e áreas mais especializadas, o repórter deve reunir boa bagagem e informações diversificadas. “Conhecimento profundo em cultura, numa área especifica ou em mais de uma, é fundamental nessa cobertura. Escrever sobre um tema, e não sobre só o fato que gerou a pauta, requer um conhecimento sobre o que cerca o fato. Sem isso, a cobertura fica rasa e é disse que fugimos.”
Antonio Pita, de 25 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
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Todos procuram, mas poucos o encontram. O furo jornalístico está na essência da nossa profissão, mas sair na frente da concorrência é uma missão que requer boas fontes, apuração impecável e muita bagagem de informação contextualizada. Se já é difícil encontrá-lo no jornalismo hardnews, o problema pode ser ainda maior na cobertura cultural. Afinal, se todos os jornais têm acesso à mesma agenda de lançamentos e ações culturais, é possível dizer que existe furo no jornalismo cultural?
A pergunta que suscitou dúvidas entre os Focas foi levada à redação do Caderno 2. Para o editor Ubiratan Brasil, a dinâmica da cobertura de cultura é diferente, e o fato puro e simples não é suficiente para uma reportagem. “A cobertura tenta fugir da agenda encontrando algo que possa ser aprofundado, como entrevistas exclusivas e informações diferenciadas, para entregar um pacote recheado com aspectos criativos”. Segundo ele, o acesso a estas informações depende da relação com a fonte. “Após publicar matérias bem feitas, o repórter ganha confiança para receber informações exclusivas”.
Foi o que aconteceu com o ex-foca (2007) Lucas Nóbile, repórter de música do Estadão. Nóbile conseguiu antecipar o lançamento do último CD do rapper Criolo, Nó na Orelha, após uma entrevista com seu produtor, Daniel Ganjaman. Durante a apuração, Ganjaman lhe contou sobre um bom CD em fase de produção. “Pedi que ele me avisasse sobre o lançamento e como Ganjaman gostou da reportagem publicada, acabou me passando o disco antes da assessoria. Fiquei muito feliz por ter feito essa matéria e ter antecipado um dos melhores CDs do ano”.
Outro furo de Lucas aconteceu recentemente na cobertura do Rock In Rio. O repórter conseguiu driblar a segurança e assistir à passagem de som do cantor Steve Wonder. Assim, ele divulgou na TV Estadão que o repertório do cantor incluía a canção Garota de Ipanema, e o vídeo teve recorde de acesso. “Eu era o único jornalista que teve acesso à informação. Se o repórter do caderno Metrópole tem que estar na rua para encontrar a matéria, o repórter de cultura também. Não adianta ficar sentado na redação esperando pela. Tem que circular, conhecer os lugares”.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
O clima amistoso e descontraído que têm marcado as aulas deu um lugar a um silêncio tenso na última quarta-feira, dia 28. Era chegada a temida a hora da correção do primeiro exercício proposto por Carla Miranda, aquele que fez os focas irem à rua em busca de pautas sobre diferentes temas.
A tensão era justificada. Carla, a editora do nosso caderno especial, não nega a fama que circula entre os focas sobre seu perfil crítico. Ela iria destrinchar nossos erros, indicar as falhas da apuração e, eventualmente, acertos de cada pauta. Detalhe: os textos seriam exibidos no telão para todos os colegas, com a indicação em vermelho de suas correções.
Muitos estavam apreensivos com este detalhe, mas a verdade é que, como jornalistas, escreveremos textos que serão lidos por milhares de pessoas que, diariamente, compram e acessam os jornais. Não havia, portanto, razão para receios e vergonhas.
Como Foca 01, fui a primeira vítima. Carla já havia alertado: o primeiro texto a ser corrigido é sempre o mais prejudicado. Dito e feito, todos os erros possíveis e imagináveis foram apontados e, ao fim, o texto projetado na tela parecia um grande mar vermelho. Dicas de estilo, termos adotados no Manual de Redação, erros de português, falhas de apuração. Tudo estava discriminadinho na tela, aos olhos dos colegas como exemplo para futuros exercícios.
Todos passaram pelo martírio e, terminada a sessão de tortura, a sala jazia em silêncio, algo atordoada com o feedback recebido. “Mas ninguém chorou desta vez”, lembrou a Carla, em tom de brincadeira, lembrando seu tempo de foca. Com a experiência de quem viveu todas as etapas deste processo, e vive ainda buscando o melhor do jornalismo, Carla nos lembrou que a proposta era dar um choque de realidade aos focas, e mostrar o caminho de pedras que é desenvolver uma pauta, apurar corretamente e emplacar uma boa matéria.
O caminho é penoso mesmo, e nós voltaremos a ele, à rua, em busca de resultados melhores no telão – e, futuramente, nas páginas do jornal.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Na última quinta-feira, os jornalistas do Estadão Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise falaram de um tema que desperta a atenção de muitos de nós, focas. A insegurança na hora de apurar, iniciar uma conversa na rua e entrevistar personagens é uma situação comum entre todos os jornalistas – como bem descreveu o foca Thiago Lasco no post Medo da Rua.
Vitor Hugo também mencionou que, apesar do temor inicial, a insegurança da entrevista e da abordagem passa logo na segunda pergunta. Quando o entrevistado começa a falar de sua vida, e a mostrar uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, a insegurança dá lugar a uma sensação curiosa que mistura orgulho e sensibilidade. “Muitas vezes saio das entrevistas pensando: ‘Que privilégio conhecer esta história’”, disse.
Não é por arrogância ou por achar que o jornalista é um espectador privilegiado dos fatos. Pelo contrário, é até uma demonstração de humildade reconhecer as tantas outras histórias de vida, movimentos e situações inusitadas, atitudes e pensamentos importantes que não imaginávamos existirem e que passamos a descobrir no exercício da profissão.
Nesta curta trajetória de foca, já pude vivenciar tal sensação. Na pauta trabalhada na última semana, sobre cemitérios da capital, conheci Marina Ribeiro, uma senhora de 63 anos que trabalha de domingo a domingo em Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. Viúva, ela começou a atividade de jardineira há 13 anos. Realizando a manutenção de 30 jazigos e túmulos do cemitério. Por três anos, esta foi sua única fonte de renda, até conseguir receber a pensão do marido, também jardineiro. Em uma curta conversa ela dividiu, com sabedoria e sensibilidade, sua impressionante história de vida – da vida de retirante do interior do Ceará, do tempo em que passou fome e dificuldades em São Paulo, até a conquista de sua casa própria e as dificuldades para mantê-la.
Sem dúvida, foi um privilégio ouvi-la naquele momento, para questionar aquilo que eu, recém-chegado a São Paulo, poderia chamar de dúvida, dificuldade e insegurança. A oportunidade de conhecer boas histórias em personagens simples é a melhor forma de incentivo para vencer as resistências iniciais à apuração, às entrevistas e ao trabalho de campo. Às vezes, jornalisticamente, uma entrevista não nos rende o esperado. Mas há sempre um ganho ali, nem que seja para ampliar a visão que temos (e que incorporamos às matérias) sobre a realidade à nossa volta.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Passada a prova de seleção, a entrevista e a chegada tumultuada a São Paulo, tudo o que os novos focas não esperam ouvir é “não misturem trabalho e paixão”. As palavras de Francisco Ornellas, coordenador do curso, podem pegar de surpresa muitos dos jovens jornalistas que chegaram ao curso, justamente, movidos pela paixão.
Afinal, o que mais levaria tantos e tão diferentes profissionais a sair de suas zonas de conforto e enfrentar, durante três meses, uma rotina intensa de avaliações, pautas, aulas e treinamentos? “A paixão pela profissão é uma coisa, já a paixão pelos temas abordados no exercício dela é outra completamente diferente. O jornalista não pode nunca abandonar sua convicção pelo que faz”, esclarece Chico. Não ter abandonado esta convicção, mesmo com tantas provações pelo caminho, é o que nos traz aqui.
Todos que nos vêem passar pelos corredores, em grupos e barulhentos, reconhecem de longe: os novos focas chegaram. Reconhecem não somente pelo tumulto que causamos, mas principalmente pela excitação e ansiedade com as aulas, temas e pautas que trabalharemos. Pela expectativa, pela dedicação com que encaramos cada tarefa. Pela apreensão com as avaliações, com as falhas iniciais e com o caderno especial a editar.
Com tantos sinais, seria mesmo impossível não nos reconhecer. Estamos em estado pleno de paixão por esta profissão. Mas se ela é fundamental, não é o único ingrediente para garantir o êxito e a realização profissional. Ela nos trouxe até aqui, mas para seguir adiante é preciso aprender técnicas, aprimorar a postura, desenvolver estratégias e aprofundar conhecimentos. Para isso, estamos aqui. Para aprender as melhores formas de vivenciar este sentimento, equilibrando-o com responsabilidade e comprometimento. Bem vindos ao curso, Focas. E vamos ao trabalho.
Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
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