“O que você quer ser quando crescer?”. Quando começam a enveredar pelos caminhos do Jornalismo, muitos de nós já têm a resposta na ponta da língua. “Quero ser um comentarista esportivo!” “Quero escrever sobre cultura, é meu caderno favorito no jornal!” No meu caso, o interesse principal sempre foi por viagem e turismo, gastronomia e comportamento. São assuntos sobre os quais já venho escrevendo em meu blog há pelo menos quatro anos – e em blog a gente só escreve sobre aquilo de que realmente gosta. No que dependesse dessa “vocação”, meu caminho natural seria fugir do ‘hard news’ e me aproximar dos suplementos do jornal, ou então me infiltrar em revistas especializadas.
Logo nos primeiros anos de faculdade, porém, os professores já começam a cantar a pedra: talvez vocês acabem não escrevendo sobre aquilo com que hoje sonham. Em vários casos, a vida levará a guinadas profissionais que estão além da imaginação. Por isso, é melhor tratarem de ter o peito aberto e ser mais flexíveis, para topar as oportunidades que forem aparecendo, ou ao menos considerá-las sem preconceito. Vocês pensam que escolhem, mas na verdade é o mercado que escolhe vocês.
O Curso vai fazendo sua parte para ampliar nossos horizontes. Quando chega a hora de percorrer os veículos do Grupo Estado, não é dada aos focas a prerrogativa de escolher as editorias com que têm mais afinidade: todos os 30 alunos passam pelos mesmos cadernos do Estadão, de Economia a Esporte, e também pelo portal, pela agência, pela rádio. (A única variável – e que depende um pouco da sorte de cada um – é justamente a parte dos Suplementos. Alguns focas são chamados para o Caderno 2, outros para Viagem, outros para o Link ou o .Edu, por exemplo.)
Proporcionar uma experiência diversificada ao aluno do Curso é uma forma de colocá-lo em contato com outras possibilidades, e também de capacitá-lo para aceitar o que vier pela frente, já que as escolhas costumam ser feitas de cima para baixo. “Se vocês pensam que vão chegar ao editor de Metrópole e escolher a pauta que irão fazer, estão muito enganados!”, alertou Carla Miranda.
Se existe uma demanda por um conhecimento mais especializado, por pessoas que consigam ir além da superfície e produzir informação mais elaborada, também se espera do jornalista que seja capaz de transitar por vários assuntos, meios e redações. Já tivemos diante de nós uma universitária indecisa, um jornalista que lançara um livro sobre o ex-presidente Lula e uma equipe que alardeava as maravilhas do mundo dos transgênicos. Tivemos que entrar em todos aqueles universos, elaborar perguntas inteligentes e fazer com que aqueles momentos rendessem, em tese, material de qualidade para o leitor. Talvez alguns de nós não tivessem tanto interesse assim em educação, ou em política, ou em ciência, mas ninguém pode se dar o luxo de ficar à margem desses assuntos. Não como jornalista. É preciso ampliar o cardápio.
Nesse sentido, a experiência nas redações do Estadão tem sido reveladora. No bate-papo informal com os jornalistas da casa, vários deles têm relatado histórias parecidas: que não sabiam bem o que queriam, ou até sabiam, mas a vida os levou para outra direção. Em Economia, por exemplo, mais de uma pessoa com quem conversei não tinha um interesse prévio no assunto. Simplesmente rolou. O acaso fez sua parte, e hoje elas dizem que não fariam outra coisa. Quem baixa a
guarda e dá uma chance pode ter uma surpresa, e encontrar realização profissional onde nem imaginava.
Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Do chamado novo jornalismo você já ouviu falar: nasceu na imprensa norte-americana dos anos 60, dando tratamento literário ao texto da reportagem. Hoje está cada vez mais em evidência uma nova e fascinante forma de se fazer trabalho de ponta: o jornalismo de precisão, ou de dados, ou ainda computer-assisted reporting (CAR).
Escreve Philip Meyer, na obra seminal Precision Journalism: “Houve um tempo em que tudo o que se precisava era dedicação à verdade, muita energia e algum talento para escrever. Você ainda precisa dessas coisas, mas elas não são mais suficientes. O mundo ficou tão complicado, o aumento da informação disponível tão explosivo, que o jornalista precisa ser filtro e transmissor, organizador e intérprete, além de coletar e entregar fatos. Além de saber como colocar a informação na página ou no ar, também deve saber colocá-la na cabeça do receptor. Em resumo, um jornalista deve ser administrador de bases de dados, processador de dados e analista de dados.”
Meyer escreveu isso em 1969-70 antes de os criadores do Google terem nascido (eles são de 1973).
“Se até Gay Talese tem o seu próprio banco de dados, por que não nós?”, ouvi certa vez de José Roberto de Toledo, especialista em CAR. Talese, confesso desafeto de computadores, criou um banco de dados material – anotações em papel – com informações sobre seu casamento, que resultaram na obra A Mulher do Próximo.
“Saber trabalhar com planilhas no Excel é cada vez mais importante”, comentou en passant o repórter do caderno Metrópole e ex-foca Vitor Hugo Brandalise, no último dia 15. Seu colega, Edison Veiga, havia compartilhado uma história de apuração. Ele queria saber quais artistas mais tinham participado da Virada Cultural. A Secretaria Municipal de Cultura não tinha tempo de analisar os dados, e os mandou brutos, em arquivos de Excel. O repórter acabou fazendo a contagem à mão, “o que deu muito mais trabalho”. A boa notícia: Carla Miranda, professora deste curso, contou que teremos aulas de Excel com o pessoal da Contas Abertas, renomada ONG watchdog.
Rafael Abraham, de 24 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)
O jornalismo surgiu na minha vida meio por acaso. Foi se lançando como uma ideia vaga, um sonho distante de quem escrevia poemas e achava que fazer jornal era como fazer um pedaço de livro todos os dias. Das aulas de português e literatura e de minhas leituras de Machado de Assis e Erico Verissimo, foi surgindo o desejo de ser escritora. Como caminho para chegar a esse sonho eu tinha duas opções: Letras e Jornalismo.
O primeiro esbarrava no meu medo de enfrentar uma sala de aula; o segundo parecia muito distante para minha realidade. Não me lembro exatamente quando tomei a decisão de que seria mesmo jornalista. Sei que nos últimos oito anos tenho lutado por esse sonho. Mesmo com dúvidas, medos, incertezas e inseguranças. Redação ou assessoria de imprensa? Setor público ou setor privado? Tive que mudar conceitos. Alguns mudaram completamente. O desejo de ser escritora foi acalmando aos poucos. Realizado em parte com o meu livro-reportagem feito como conclusão de curso, mas ainda esperando para desabrochar em algum canto de mim.
Descobri que nem todas as palavras rebuscadas que eu colecionava aqui e acolá em minhas leituras era adequada para os jornais em que eu trabalharia. Descobri também que não dava para ser jornalista e ter fim de semana. Não ia dar para sair às 17 horas em ponto, todos os dias, nem programar feriados. Talvez não fosse possível enriquecer logo após a formatura… Depois de entender tudo isso, que nem passava pela cabeça da adolescente tímida do interior de Minas Gerais, restava saber se a escolha era certa ou não. Confesso que ainda não sei a resposta.
Nas aulas do curso e nas redações do Estadão, entre uma pauta e outra, amplio a minha visão sobre a área e a atuação do profissional de jornalismo. Crio novos sonhos e faço amigos. Na manhã fria em que fiz a prova para o Curso, achei tudo muito difícil. Não me passava pela cabeça conseguir fazer parte deste grupo. Mas veio a resposta da prova, veio o resultado da entrevista. Amigos me incentivaram, a família me apoiou e estou aqui. Dizem que é ruim a gente sempre ter certeza das coisas. Enquanto eu não descubro as respostas que me afligem, invisto nessa profissão que me atrai por que possibilita descobrir e contar histórias, encontrar pessoas interessantes e usar meus textos para noticiar e informar, e desta forma, contribuir (nem que seja um pouquinho) para a construção da história.
Talita Matias, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Certa vez me disseram que você só começa a aprender algo quando aquilo passa a fazer sentido para você. Até peguei a ideia, mas só a absorvi de fato durante a minha primeira semana na redação.
Comecei por Economia. Quer se divertir? Dá uma olhada no vídeo da Ciça e veja minha cara de desespero ao saber que essa seria minha primeira editoria. Esse era o caderno que eu sempre deixava por último quando lia o jornal. Como assim escrever sobre o tema do qual eu simplesmente não conseguia entender nada?!
Os colegas tentaram me acalmar, mas só sosseguei quando recebi minha primeira pauta. Ao contrário do que eu imaginava, não me foi pedido nenhuma matéria digna de um especialista em mercado, bolsa ou afins.
Mas minha alegria não foi escapar de uma análise sobre o índice x em alta ou em baixa naquela semana. Durante os dias que passei pela editoria fiz matérias sobre como aqueles tais números, moedas e impostos impactavam a vida de cada pessoa.
De repente, tudo aquilo que eu pensava estar tão distante de mim se mostrou completamente presente no meu cotidiano. Aprendi um pouco sobre como o que sempre evitei interferia na minha vida e de todos ao meu redor. Parece lógico? Para mim, até a semana passada não era. Mas após uma semana imersa, fez sentido.
Romina Cácia, de 25 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Dezenas de jornalistas correm pela mesma notícia. Preparação é o diferencial. Foto: Agência Brasil
Na semana passada, o Comunique-se publicou que “os estudantes de Comunicação Social têm pior desempenho na escrita do que os universitários da área de exatas, como Engenharia, por exemplo. No estudo, os engenheiros obtiveram a melhor avaliação e 87,5% conseguiram passar no teste”, enquanto 65,3% dos alunos de Comunicação foram reprovados.
Como assim essa galera de Exatas escreve melhor que a gente?
Ao longo da matéria, percebe-se que o que é avaliado é gramática, não a escrita em si. Em janeiro deste ano, “dez mil candidatos a vagas de estágio realizaram um ditado de 30 palavras, que permitia até seis erros. Dentre as palavras avaliadas estavam: desajeitado, autorizar, exceção, seiscentos e anexo.”
Acho grave um estudante de Publicidade não saber escrever anexo. E em pior situação está um estudante de RP que desconhece a grafia de autorizar. E é triste ver um jornalista escrever em seu bloquinho que seu entrevistado é uma “excessão”.
Apesar do drama, não acho que isso seja a doença, mas um sintoma.
Os estudantes de Jornalismo, em geral, esperam que a universidade dê o pacote completo. A maioria espera sair expert em redação, anseiam felizes e satisfeitos que seus professores cuspam os leads dos melhores livros, e que isso seja o suficiente para formar toda sua bagagem teórica. Não vão além do arroz e feijão da academia.
É sempre um exercício interessante perguntar para pessoas diferentes, da mesma turma da faculdade, o que cada uma achou do curso. As respostas vão de “péssimo” a “fascinante”. Pergunto: quem está errado? Ninguém.
É o jornalista que faz a faculdade, é o foca que faz o curso. São as suas referências pessoais que determinam a quantidade e a qualidade das informações que você retém das aulas e da redação. Na nossa profissão, tem que ler e estudar, sim e sempre. E na 22ª turma de focas, há 30 cursos em andamento. Cada um aprende o que quer, o que consegue.
O diferencial do bom jornalista é ele perceber que para ser um bom profissional, ele dever ser, no mínimo, um ser humano interessante. Tem que ter a pegada com informação, tem que ir além do preto-no-branco. Jornalista bom não pode acreditar em tudo, muito menos de primeira. É preciso investigar, debulhar dados, ser insatisfeito, ser “humilde sem ser subserviente”, como se diz aqui no Curso. Jornalista bom segue o ditado que o repórter especial Lourival Sant’Anna ensinou para os focas: “A sua mãe diz que te ama? Cheque”.
Natália Peixoto Rodrigues, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela PUC-SP
Em conversa dia desses com o colega Davi Lira de Melo, ele me fez a pergunta: você não está sentindo falta de trabalhar em redação? Àquela altura, os focas estavam começando a se espalhar pelas editorias dos veículos do Grupo Estado após duas semanas e meia de aulas e palestras. Minha resposta foi sim, a adrenalina da redação me empolgava.
O simples fato de estar nesse ambiente faz com que você fique mais ligado. Estar na redação é sinônimo de sentidos à flor da pele. A passagem pelo Estadão.edu foi interessante nesse sentido, me fez voltar a sentir a “pegada da redação”, de ter que correr atrás da informação enquanto ela está acontecendo.
“O filé mignon do jornalismo é a reportagem”. A frase é do jornalista Roberto Godoy, repórter especial do Estadão. Concordo completamente. O momento da apuração é sem igual – seja no buraco, em uma tragédia ou na greve dos bancários.
Em outro papo, com outra colega, veio a dúvida: e até quando dá para aguentar esse pique? O ideal seria para sempre, mas há outras questões em jogo (dinheiro, família). Enquanto der, quero seguir nessa vida. Alguns chamam de masoquismo, mas prefiro pensar que todo bom jornalista tem de ter um pouco disso. Minha escolha já foi feita.
Leonardo Gorges, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Já havíamos atravessado o corredor que liga o prédio onde fica a sala do curso ao da redação algumas vezes. Na semana passada, porém, era a primeira que fizemos o percurso com destino à redação, e não mais à lanchonete. Estamos na segunda semana do rodízio pelas redações do grupo Estado e a cada editoria que visitamos as dúvidas colocadas no último post da Cristiane permanecem. Não sabemos se vamos causar boa impressão, se vamos conseguir escrever matérias, se as escreveremos a tempo…
Quando chegamos, normalmente andamos em grupos de três e todos sabem quem somos. Parece que na testa de cada um está escrito “FOCA”. O olhar perdido, tentando achar o editor que ficará responsável por nós durante a semana, denuncia.
Logo no início fiquei na editoria de Esportes, tema sobre o qual tenho muito pouco domínio. Achei que isso seria um problema, mas com um pouco de pesquisa, eu, Luiz e Luiza – “Dá para fazer uma dupla sertaneja”, brincaram repórteres e editores – conseguimos dar conta de notinhas do Jogo Rápido e até de matérias em algumas das edições.
O mais interessante foi poder acompanhar o andamento da editoria. A reunião de pauta por volta das 15h45 parece mais uma conversa entre amigos sobre o que está acontecendo no universo esportivo, principalmente no futebol. Há também a dificuldade em encontrar espaço para mais matérias na hora de desenhar as páginas. Faltando algumas horas para o primeiro fechamento, a entrada de um anúncio desfaz esse planejamento e demandou do editor e do repórter o máximo de concisão para contar em uma coluna o que havia escrito em seis.
Nesta semana, estou vivendo um pouco do outro lado. É claro que anúncios são sempre bons para o jornal, mas, enquanto em Esportes um anúncio fez todo mundo quebrar a cabeça para fazer o texto caber, nos Classificados uma das intenções principais da matéria é atrair o leitor para o caderno onde está a maioria das ofertas dos anunciantes. Nessa hora, valem as dicas dos ex-focas, que estão espalhados por diversas editorias do jornal.
Mariana Niederauer, de 21 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)
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