A primeira ideia nasceu já junto da segunda. Falar de cultura sempre foi uma vontade, assim como a parceria entre as amigas-vizinhas de curso. Decidido o tema, uma pesquisa nos orientou para a pauta: qual seria o impacto da cultura e da arte na vida dos jovens? O contato com a pesquisa da pedagoga Cleidy Nicodemos Silva, do Observatório Jovem, serviu de ponto de partida para entender essa relação, tanto no presente quanto nas consequências futuras. A busca por personagens interessantes seria fundamental.
Encontramos a Angela Gaeta num encontro de maracatu sugerido pela amiga foca Beatriz Bulla: na Escola Estadual Alves Cruz, o Projeto Calo Na Mão desenvolve há quase dez anos um projeto cultural que não só abriu novos horizontes para muitos jovens, como também contribuiu na melhoria do ensino. Com o índio capixaba, descoberto num webdocumentário da Rede Cultura Jovem, foi muito interessante ver como a relação com a escrita e com a música o ajudam a pensar criticamente sobre a situação de seu povo. Além disso, ajudaram a colocá-lo como ator na preservação de uma forma de viver tão rica e importante para a cultura brasileira, em geral.
Tyagkauê, nosso índio escritor e cantor de Aracruz, Espírito Santo, através de sua arte até se reinventou. Misturou seu nome “branco”, Tiago, com sua graça indígena Kauê, renascendo artista. Uma de nós, que além do Estado de origem também tem nome indígena, foi até entrevistada na entrevista. O jovem, da mesma idade, perguntou: “Você tem um nome ”branco” também?” “Não, não, esse é meu nome mesmo”, falávamos por telefone, enquanto ele, debaixo de uma árvore em sua tribo, dividia com a gente, da redação do jornal, o canto dos passarinhos.
Já com o Frederico Félix, art designer de apenas 18 anos, além de uma agradável conversa, pudemos inovar na forma. A entrevista foi feita por meio de uma conferência de vídeo. Mesmo com certa distância, pudemos aproveitar da observação da fonte. Uma aposta até de mais um modo de fazer jornalismo daqui por diante. E a conversa com Gustavo Martins, compositor e guitarrista da banda Ecos Falsos, além de diretor do programa Furo MTV, foi o que nos despertou para entendermos também o modo como a produção cultural desses jovens artistas influencia diretamente na vida de outros jovens. No geral, a experiência foi intensa, como tudo que vivemos no Curso Estado de Jornalismo, e deliciosa. Foi quando nos sentimos jornalistas do Estadão e, de quebra, selamos uma amizade em tom de parceria.
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Heloisa Aruth Sturm, de 29 anos, é formada em Direito e em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP)
Jacyara Pianes H. Carvalho, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Jovens sem ensino fundamental completo fazem avaliação final do Projovem Urbano. Foto: Davi Lira
A matéria foi publicada no caderno especial dos focas no dia 10 de dezembro. Foram mais de 250 mil edições impressas juntamente com o Estadão daquele sábado. Essa tiragem era algo que nos impactava bastante. Queríamos aproveitar o potencial de circulação do caderno para produzir um material com um tom nitidamente factual (mesmo num caderno eminentemente de comportamento). O texto deveria ter uma pegada jornalística de denúncia focando no grande tema do suplemento: a juventude. Queríamos, além de tudo, nos testar, e praticar todo o conhecimento adquirido durante os 100 dias de muitas atividades, palestras, workshops e passagens nas redações do Grupo Estado.
Era o nosso momento de nos firmamos enquanto jornalistas profissionais. Não poderíamos falhar em nada. E foi o nosso interesse por educação e política que acabou nos levando, naturalmente, a escolher como pauta um programa de educação do governo voltado para os jovens. Não deu outra, o Projovem Urbano e os seus percalços foi o foco da nossa apuração que durou três longas semanas, sem quaisquer intervalos. Durantes, dias, noites e madrugadas à dentro, inclusive dos fins de semana, nos focamos em uma extensiva análise de dados, informações, notícias, legislação,projetos de governo, documentos de auditoria e cartilhas de acompanhamento do programa pelos órgãos oficiais e ONGs.Sem esquecer das valiosas orientações dos especialistas em educação: Mozart Ramos (Todos pela Educação), Maria Virgínia (Ação Educativa) e da professora Marisa Ribeiro (UFMG).
Foi muita apuração e muita análise de dados coletados nos portais de transparência do gasto e de outros órgãos de acompanhamento de políticas públicas: Siga Brasil (números coletados e comparados com os dados fornecidos pelo Contas Abertas) , relatórios de auditoria do TCU, site do FNDES para o acompanhamento da prestação de contas, relatório com Estudo de Caso sobre o Projovem do Fundo de População das Nações Unidas, documento “Indicadores sociais” do IBGE, textos de discussão do Ipea sobre Políticas da Juventude, análise do portal de controle do Ministério do Planejamento, e uma série de artigos científicos recentes da área de avaliação educacional. Todo esse cuidado se justifica pelo impacto que a matéria poderia proporcionar na principal política do Governo Federal para a juventude.
A cada dia, com a análise cuidadosa do material coletado, dávamos de cara com uma série de problemas de gestão e eficiência, nitidamente comprovados e fundamentados por órgãos oficiais e entidades inquestionáveis. Logo, sabíamos de antemão que algo não estava bem estruturado.Lançado em 2005, o Projovem (Programa Nacional de Inclusão de Jovens) passou por uma reformulação e, em 2008, foi dividido em quatro modalidades, entre eles, o mais significativo, o Projovem Urbano, comandado pela Secretaria Geral da Presidência da República. Outros veículos de comunicação já haviam falado de forma isolada sobre algumas deficiências do programa como um todo (especialmente dos desvios do Projovem Trabalhador), à exemplo do Correio Braziliense.
Apenas uma outra matéria do O Globo estava mais consolidada, mas pouco pontual a respeito do Projovem Urbano (essas“descobertas” durante o processo de apuração nos deixou um pouco atordados: “a concorrência já havia dado, e agora?”).
Não deu outra. Optamos por dar enfoque ao Projovem Urbano e conseguimos dados bastante significativos que até então nenhum veículo de comunicação havia tratado: a questão do rendimento — com que nota o aluno entra e com que pontuação ele sai. Essa questão só havia sido tratada, basicamente, com foco na quantidade de alunos formados e na evasão.
Os dados demoraram a chegar. Só recebemos depois de muita insistência junto à Secretaria da Presidência, que centraliza as dados do Projovem Urbano. Informações dos outros Projovens (Adolescente, Trabalhador e Campo), também foram coletados junto aos respectivos ministérios (Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Trabalho e Emprego e Educação, respectivamente). O espaço que tínhamos no caderno, porém, nos obrigou a desprezar os outros Projovens.
Com tantos dados analíticos e planilhas de orçamento, chegamos a nos complicar um pouco para definir o foco. Sabíamos que deveríamos nos distanciar do tal “vamos fazer um balanço”. Mas como o programa vai migrar para o Ministério da Educação em 2012, optamos por um apanhado geral das deficiências de gestão.
DAVI: Algo que, particularmente, sempre me chamava atenção, desde o início, era o ganho em imagem que os políticos obtinham no momento da “formatura” das turmas de um mesmo Estado em um único evento. Acompanhava nos sites oficias de algumas prefeituras, especificamente a do Recife, e recentemente havia lido no jornal O Povo de Fortaleza um artigo da prefeita Luizianne Lins elogiando de forma pomposa o programa, sem criticar a qualidade do ensino. Queriam apenas a foto. Era muita gente se formando ao mesmo tempo. Suspeitei logo da qualidade. Em alguns momentos passava pela cabeça o seguinte: “será que o programa, por mais bem pensado que seja (e é!), não acabou virando um supletivão do ensino fundamental?”. Uma das maiores autoridades sobre ensino básico, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) confirmou essa tese. E o mais importante foi o contato que tive com algumas turmas. Era visível a dificuldade dos alunos que faziam a avaliação final de entender textos simples em bilhetes ou efetuar contas banais de matemática. Mas também era nítido o ganho em autoestima dos participantes e a incrível felicidade de tantos outros de terem a chance de voltar à escola e ganharem um novo círculo social. Mas o ponto central da matéria era nítido: atacar à ineficiência da gestão, não destruir o programa, tão bem concebido.
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Davi Lira de Melo, de 26 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Débora Álvares, de 23 anos, é formada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)
Notei que o jovem que sai da Bahia, do Espírito Santo, do Maranhão, de Manaus, de Minas, do Rio Grande do Sul ou de Brasília é antes de tudo um aventureiro. Jovens em início de carreira que esquecem da sua qualidade de vida e partem para um futuro incerto. Muitos cortam as relações de dependência financeira dos país e acabam até tendo que passar por maus bocados. Outros, enxergam nessa independência um valor inestimável, e lidam numa boa com a falta de colchões, televisões e fogão. Sempre com muito bom humor!
Mas a rotina dessas pessoas é mais que pesada. E o olhar que eles têm da cidade, me ajudaram a sedimentar um pouco da minha visão de São Paulo. Já conhecia a cidade, em viagens anteriores, mas somente em seus feriados e finais de semana.
Da vida real, com o convívio com essa massa de trabalhadores da nova geração, só agora. Quase todos apontam a diversidade de gente, a oferta cultura e de serviços, como o que de melhor a cidade oferece. Mas o certo é que fiquei ressabiado com a resposta de uma dessas figuras que encontrei nesses dias em Sampa: “São Paulo é para usar e abusar”. Ela citava que a oferta de cursos de qualificação, vagas de emprego e formação acadêmica na cidade é inquestionavelmente sem igual.
Mesmo achando um pouco agressiva a frase resolvir apostar nela. Para os que pensam em vir para São Paulo, pensem que não faltam aventureiros em condições as mais adversas possíveis. Cada um com sua devida ambição, mas todos com a esperança de um melhoria futura. “A hora de arriscar é agora”, nunca esse clichê fez tanto sentido. E mais, incrível foi perceber que essas figuras certamente darão certo num futuro não tão longo assim. Grande Sampa: lugar de encontros e crescimento!
Anatomia da cabeça cortada transversalmente, gravura do dinamarquês Thomas Bartholin (1616-1680) datada de 1673. Crédito: BrainBlogger / Creative Commons.
Parece que não sou tão louco. Naquele que parecia e pretendia ser meu último post neste blog, perguntei se o melhor para a carreira jornalística era a especialização ou um aprimoramento intelectual mais generalista. A partir daquela dúvida, busquei respostas com dois repórteres de idades, especialidades e experiências muito distintas.
Roberto Godoy, de 60 anos (geração “Baby Boom”), era então Repórter Editor Especial de “O Estado de S. Paulo” — “e avô do João”, conforme fez questão de acrescentar. Essas atribuições, porém, não chegam nem perto de fazer jus ao real status dele. Godoy é o jornalista mais especializado e experiente do País na área bélico-militar. E não, não fez algo como mestrado ou doutorado na área. Não concluiu sequer o ensino superior. Foi só até o quarto semestre de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP). Da faculdade de jornalismo, passou longe. “Em 1979 recebi do então editor chefe do Estado, Miguel Jorge, a incumbência de acompanhar o setor. Dediquei-me a isso aplicadamente. Talvez por causa dessa atitude tenha sido bem sucedido na missão. Nunca fui entusiasta das artes militares, colecionador de miniaturas etc.”, me contou por e-mail, meio que considero mais fácil e menos incômodo para abordar jornalistas veteranos, aparentemente sempre ocupados. As maneiras de enriquecer o próprio repertório intelectual se resumem com hábitos cruciais para qualquer bom repórter, seja dos anos 1970 ou de hoje: “Muita leitura. Estudo da área (na qual se quer se especializar)”, explicou. “Busquei conhecimento de história, estratégia, geopolítica, diplomacia, organização militar, conceituação de Defesa e tecnologia especializada. E, naturalmente é preciso abrir, manter e atualizar um grupo de fontes confiáveis”.
Gabriel Toueg, de 32 anos (geração Y), é Editor de Internacional do Estadão.com.br. Graduou-se em jornalismo pela mesma instituição que eu, a Universidade Metodista de São Paulo, entre 1997 e 2004. O período mais longo no ensino superior — sete anos, em vez dos quatro que costuma se levar na faculdade de Jornalismo — se explica pelo fato de Toueg ter trancado o curso por dois anos. “Resolvi que viajar e trabalhar fazia mais sentido do que seguir estudando”. Foi quando esteve em Israel pela primeira vez, e aproveitou para fazer outras viagens, mais curtas, pela América Latina, pelos EUA e pela Europa. Após se formar, passou mais sete anos em Israel. Só voltou ao Brasil em março deste ano. “Comecei a trabalhar com internacional, de fato, quando estava lá. Fui ‘frila’ (repórter freelancer) de diversas publicações e correspondente por um ano (2008) da então rádio Eldorado (atual rádio Estadão ESPN)”, conta. ” Meu plano original ao chegar em Israel era fazer mestrado em História do Oriente Médio, mas mudei de ideia e de planos ao longo do tempo.” Toueg tinha dificuldades com o hebraico à época, mas agora domina o idioma e estuda árabe. Reflexos da afinidade com a cobertura do cenário internacional? “Foi uma soma de coincidências, mas quando estudava jornalismo não tinha essa ideia definida na cabeça. A escolha veio naturalmente e hoje, sem dúvida, Internacional é a editoria com a qual eu mais me identifico.”
Esses dois exemplos me influenciam muito por virem, sim, de profissionais que admiro — Godoy foi um dos palestrantes mais queridos da 22ª turma do Curso Estado de Jornalismo, que chegou ao fim na última sexta-feira, 09/12; e Toueg foi um dos melhores editores que tive durante meu rodízio pelas redações do Grupo Estado —, e também porque não excluem a busca por conhecimento por meio da academia. Não a rejeitam, apenas a dispensam (por enquanto…). Ou seja: a sabedoria reconhecida por instituições é importante, mas tanto quanto a sabedoria vinda do trabalho prático, reconhecida pelo mercado. Toueg e Godoy me inspiram a ser um jornalista melhor porque indicam o ofício jornalístico como, em si mesmo, uma fonte de conhecimento. E esse foi, de longe, o motivo maior que me levou a essa escolha profissional. Trabalhar para aprender um pouco mais todos os dias e, melhor ainda, dividir isso com o maior número possível de leitores, internautas, ouvintes, telespectadores etc.
José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
* Esta reportagem foi um exercício para o Curso Estado
“Numa quinta-feira de novembro, um grupo de adolescentes com idades entre 15 e 17 anos fez uma festa diferente. Com maquiagem profissional, eles cobriram o rosto de branco, pintaram de preto o nariz e a região dos olhos e desenharam dentes ao redor dos lábios. Pareciam caveiras de filme de terror. No cardápio, havia guacamole, a famosa pasta mexicana à base de abacate. No som, salsa e outros ritmos latinos. A ideia era celebrar o Día de Los Muertos, festividade comum no México e em vários países da América Central. A cena teria sido menos insólita se não tivesse acontecido dentro de uma escola pública de São Paulo – e em horário de aula.
Os alunos do 3.º ano do ensino médio da Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio, em Santana, zona norte, participavam de uma atividade promovida pelo professor de espanhol, Marcelo Carlos Ferraz, que faz o que pode para motivar a turma. “Aqui, você tem de rebolar. Se ficar só na gramática, o aluno não se interessa”, diz. Segundo ele, a rede municipal não entrega material didático para os docentes. Ferraz improvisa tarefas a partir de pesquisas feitas pelos alunos na internet. “Eu e dois colegas lemos textos sobre (o líder venezuelano) Simón Bolívar, escrevemos um roteiro e fizemos um vídeo para a classe”, conta o estudante Ângelo Augusto Crispim Martins, de 17 anos.
O ensino de espanhol nas escolas é uma imposição da lei federal 11.161, de 2005, que entrou em vigor no ano passado. Ela obriga toda a rede pública a oferecer aos alunos a opção de aprender a língua de Cervantes. Em São Paulo, as 8 escolas de ensino médio da rede municipal começaram as aulas no ano passado. O curso é de duas horas por semana, durante os três anos do ensino médio. Embora conste na lei que a matrícula é facultativa, em escolas como a Professor Linneu Prestes (em Santo Amaro, zona sul) e a própria Antônio Sampaio a disciplina foi incorporada à grade regular de todos os alunos. O que não é necessariamente uma vantagem. “O optativo funciona melhor, porque aí só faz o curso aquele aluno realmente interessado”, afirma Ferraz.
Centros de línguas
Já na rede estadual, apenas 795 das 3.867 escolas ensinam espanhol – 120 delas na capital. São duas aulas por semana, no período de um ano, e somente na primeira série do ensino médio. Para os alunos de escolas que não oferecem espanhol, a secretaria da Educação mantém 144 centros de línguas, chamados de CELs. Neles, o curso tem quatro aulas semanais e dura três anos.
Na opinião de Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Associação de Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), os CELs existentes não são suficientes para suprir a demanda. “Eles têm uma área de abrangência limitada e, em 2010, alguns até fecharam. Se tivesse um em cada escola, seria ótimo. Mas poucas diretorias de ensino têm CELs.”
A solução dos centros de língua também é criticada por Graciela Foglia, vice-presidente da Associação dos Professores de Espanhol do Estado de São Paulo (Apeesp). Ela afirma que o ensino de um idioma na escola não tem como única finalidade o mercado de trabalho. “Existe também uma função educacional, ligada à formação do cidadão. Por isso, só faz sentido se houver integração entre a língua estrangeira e as demais disciplinas. O currículo dos CELs não tem essa integração.” Segundo Graciela, como a secretaria estadual aposta todas as fichas nos centros de línguas, nas poucas escolas que incluem espanhol na grade os cursos são “precários”.
Desarticulação
Maria Izabel, da Apeoesp, reclama que a pasta esperou o fim do prazo de cinco anos concedido pela lei para tomar as providências necessárias. “Quando saiu a obrigatoriedade, a secretaria fez corpo mole, não deu importância. Foi uma posição política, ela não se preparou.”
Para agravar a situação, os salários oferecidos não estimulam a vinda de professores de espanhol para a escola pública, diz Mozart Neves Ramos, consultor do movimento Todos Pela Educação. “Muitos preferem a pós-graduação. Uma bolsa de mestrado paga R$ 1,3 mil por mês, enquanto quem dá 40 horas de aula na rede pública ganha apenas R$ 1 mil”, compara.
Graciela ressalva que não é possível saber se realmente faltam professores no mercado, porque o governo estadual nunca abriu concursos. “É necessário que se façam concursos para verificar isso. Se houver essa carência, cabe ao governo articular planos emergenciais de formação junto às universidades públicas.”
Para a pedagoga Paula Louzanno, consultora da Fundação Lemann, a língua espanhola foi incluída no currículo escolar de forma desordenada, assim como aconteceu com filosofia, sociologia e várias outras disciplinas que são objeto de emendas à Lei de Diretrizes e Bases que tramitam na Câmara dos Deputados. “Os educadores são peça fundamental nesse debate. Mas a discussão não se deu no âmbito do Ministério da Educação, e sim no Congresso Nacional, por meio de projetos de lei como esse do espanhol.” Paula vê nessa manobra um lobby para garantir trabalho a certas classes profissionais. “Os gestores (as secretarias) não foram chamados a participar, não houve debate para se analisar a viabilidade, a disponibilidade de professores. Aí se joga o problema no colo do gestor, que é obrigado a administrar isso.”
Enquanto a oferta de espanhol na rede estadual permanece estagnada, os alunos das escolas da Prefeitura pegam gosto pelo idioma. Muitos escolheram fazer as questões de espanhol na prova do Enem, em vez de inglês. “Os alunos que fizeram as questões de espanhol no exame foram muito bem”, conta Lucia Helena de Moraes Cabral, professora da escola Linneu Prestes. Em 2012, a rede municipal deve ganhar novos professores, selecionados por meio de concurso feito neste ano, além do material didático, esperado por alunos como Karine Cardoso dos Santos, de 16. “Quando tivermos um livro, poderemos estudar em casa e nos aprofundar muito mais.”
Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
Chegou às bancas ontem (sábado) o caderno especial da 22ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Estadão. As reportagens completas também estão no ar na internet, clique na imagem:
Para fazer o caderno especial de fim de curso, no qual tínhamos pouco espaço para pôr muita informação, um dilema apareceu: como usar as aspas? Eram várias pessoas entrevistadas com histórias e análises interessantes, mas não seria possível colocar todas elas na matéria. Uma das principais dificuldades era, entre tanto material, identificar falas que merecessem estar reproduzidas no texto e se elas eram realmente importantes para aproximar o texto do leitor.
Ainda na primeira metade do curso, ao corrigir uma de minhas matérias, o jornalista Iuri Pitta fez duas observações sobre aspas. Na primeira, ele disse que não as usei para transmitir a opinião contundente de uma fonte, o que poderia trazer-me problemas se alguém entendesse que aquela opinião era do repórter. Já na segunda, Pitta avisou que eu havia dado muito espaço para aspas de quem não tinha muito para dizer, desperdiçando linhas preciosas do texto. Desde então, comecei a ficar intrigado sobre como e quando devemos usar esse recurso.
Segundo o professor Paco Sánchez, um bom texto deve ter poucas aspas. Elas nunca devem ser usadas, por exemplo, para transmitir uma fala do próprio jornalista, mesmo se estiver narrando um episódio do qual ele participou. O motivo é óbvio: assim como Pitta havia advertido, o relato do repórter já é o texto em si. As aspas, então, devem ser usadas quando estritamente necessárias, como para expressar algo mais opinativo.
Para Carla Miranda, existem situações em que um personagem ou outra fonte qualquer pode aparecer na matéria mesmo sem ter alguma fala reproduzida. Durante a correção de outra matéria minha, Carla disse que não fica estranho citarmos o nome de alguém e não transmitirmos, por meio das aspas, exatamente o que ele disse. Isso evita, inclusive, que coloquemos elementos sem importância e que não acrescentem nada na notícia.
Reinaldo Adri, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal
Os focas de 2010. Foto: Robson Fernandes/AE
Depois de cem dias tomados por aulas, palestras, viagens, exercícios e passagens pelas editorias do Grupo Estado, o desafio que surge no horizonte dos focas recém-graduados no 22° Curso Intensivo de Jornalismo agora é outro: a entrada no disputado mercado de trabalho jornalístico.
Para encará-lo, muitos contam com a visibilidade dos currículos cadastrados no banco de talentos do Estadão e a possibilidade de ingressar no “Foco nos Focas”, programa que seleciona os melhores colocados no ranking do Curso para estagiar por um ano em alguma das editorias da empresa.
“A maioria dos participantes tem interesse no impresso e, mais especificamente, no Estadão”, comenta Denise de Almeida, gerente de Recursos Humanos do Grupo Estado. Segundo ela, a quantidade de vagas abertas anualmente varia de acordo com a verba disponível para o programa – em 2011, por exemplo, houve quatro vagas. “O índice de efetivação dos estagiários é muito alto e os veículos que mais contratam são o Jornal da Tarde, o Portal e, no Estado de S.Paulo, o caderno Metrópole e o guia Divirta-se”, conclui.
Helen Miyahira, consultora de RH do Grupo Estado, adianta que no próximo ano o Foco nos Focas deve começar no primeiro trimestre e manter provavelmente o número de quatro participantes. Enquanto a convocação não chega, vale conferir a trajetória dos focas do 21º Curso Intensivo de Jornalismo neste ano que chega ao fim. E que venham os novos focas.
Amanda Agutuli, 26 anos – Colocou em dia a leitura atrasada e fez aulas de Cool Hunting e Business English enquanto procurava emprego. Depois de alguns trabalhos como freelancer até julho, tornou-se repórter do núcleo de Gastronomia, Arte, Decoração e Mulher da CasaDois Editora.
Amon Borges, 24 anos – Resolveu viajar e descansar um pouco após os cem dias do Curso Focas. Em meados de janeiro, começou a fazer freelances por alguns meses até ser chamado pela Folha de S.Paulo, em maio, para trabalhar no Guia Folha, no qual escreve atualmente.
Bernardo Barbosa, 23 anos – De volta à cidade natal, o carioca teve uma curta passagem como freelancer pelo periódico Expresso antes de começar, no meio de fevereiro, a trabalhar na editoria de mídias sociais do jornal O Globo, onde permanece até hoje.
Bruna Maia, 25 anos – O início do ano foi agitado: após recarregar as energias no fim de dezembro, ela foi freelancer nas revistas Superinteressante e Playboy antes de ser chamada, ainda em janeiro, pela revista Capital Aberto para o cargo de repórter, o qual ocupa desde então.
Carolina Almeida, 23 anos – Após esperar o Foco nos Focas na cidade natal, a pernambucana retornou a São Paulo em março para uma pós-graduação em Política e Relações Internacionais na FESP-SP. Desde então, trabalhou um semestre no Portal Terra e agora é freela fixa no site da Veja.
Daniela Schmid, 24 anos – Logo em janeiro, entrou como repórter na filial do SBT em Petrópolis (RJ), sua cidade natal. Em setembro, soube por meio do foca Bernardo de uma vaga na agência de notícias espanhola Efe, onde trabalha desde setembro como editora do serviço em português.
Érica Saboya, 26 anos – Depois da formatura dos focas, aproveitou o fim do ano para terminar o seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Em julho, retornou ao Portal R7, no qual estagiara na editoria de política antes do curso do Estadão, para ser repórter de cidades.
Fábio Pupo, 22 anos – Com o final do Curso, retornou a Curitiba para ser freelancer na editoria de economia da Gazeta do Povo, onde permaneceu por um mês e meio. Em maio, retornou à capital paulista e, desde então, é repórter de infraestrutura do Valor Econômico.
Felipe Frazão, 24 anos – Após quatro anos sem férias, aproveitou o fim de ano para descansar: viajou a Belo Horizonte e ao Rio de Janeiro, onde reviu a família e cobriu o carnaval de rua pelo O Globo. Chamado pelo Foco nos Focas, voltou a São Paulo e atualmente está no caderno Metrópole, do Estadão.
Felipe Tau, 24 anos – A espera pela convocação para o programa “Foco nos Focas” terminou no dia 4 de abril para este paulistano da zona norte, que foi chamado pelo Grupo Estado para integrar a editoria geral do Jornal da Tarde, na qual é repórter desde então.
Flávia Maia, 25 anos – Voltou para Brasília e atualmente é repórter na editoria de cidades do Correio Braziliense.
Frederico “Cedê” Silva, 25 anos – Entrou em janeiro no site do Estado de Minas como repórter de Nacional e Internacional, cargo que ocupou até junho. Após uma semana de férias, retornou a São Paulo para trabalhar na editoria Planeta e atualmente escreve sobre educação no .Edu.
Guilherme Waltenberg, 27 anos – Foi repórter de economia na revista Executivos Financeiros entre março e maio, quando foi chamado pelo Grupo Estado para entrar na equipe do Jornal do Carro, suplemento publicado às quartas-feiras com o JT, da qual faz parte atualmente.
Gustavo Coltri, 26 anos – No mês de abril, foi contratado como produtor de pesquisa do programa “E aí, Doutor”, da TV Record. Em maio, porém, aceitou a vaga oferecida pelo Grupo Estado de repórter nos Classificados do Estadão, onde está atualmente.
Gustavo Antonio, 23 anos – Conciliando o cursinho com a redação de esportes do Portal Terra desde abril, o vestibulando decidiu em outubro se dedicar inteiramente aos estudos para ingressar na faculdade de Direito, a qual pretende conciliar com o Jornalismo em 2012.
Gustavo Aleixo, 25 anos – No fim de janeiro, o mineiro de Belo Horizonte foi aprovado nos testes de admissão da rádio Estadão/ESPN, na qual está trabalhando como editor e fechador do programa “Estadão no Ar”, transmitido diariamente das 6h às 10h.
Gustavo Ferreira, 25 anos – No último dia do Curso, foi chamado como fechador freelancer na editoria de opinião do Estadão, na qual esteve por três meses. Pouco depois, entrou numa vaga recém-aberta de repórter na coluna do Celso Ming, no caderno de Economia, onde está atualmente.
Henrique Bolgue, 29 anos – O paulista voltou a Brasília, onde mora há quinze anos, para finalizar seu trabalho de conclusão do curso de Audiovisual. Desde março, escreve para o portal da UnB, no qual faz matérias diárias e contribui para a revista científica Darcy.
Ivan Martínez, 22 anos – Passou pela revista Capital Aberto antes de entrar na Record, onde foi produtor do programa “E aí, Doutor?” e, desde outubro, é redator de um talk show com estreia prevista para dezembro. Paralelamente, atua na comunicação interna do Colégio Dante Alighieri.
Lucas Sampaio, 26 anos – Pediu demissão do antigo emprego em Santa Catarina e passou alguns meses em Taubaté, a sua cidade natal, até ser aprovado no Programa de Treinamento da Folha de S.Paulo, em março, empresa na qual trabalha desde então.
Mariana Congo, 24 anos – Novamente em Belo Horizonte, fez alguns freelas na cidade antes de retornar a São Paulo, em março, onde está trabalhando como repórter na revista Consumidor Moderno. Nesse meio tempo, continuou fazendo freelas em revistas e sites.
Marina Estarque, 24 anos – Morou alguns meses em Nova York como voluntária na Rádio da ONU em português antes de voltar ao Estadão, onde trabalhou como freelancer entre junho e outubro. No momento, faz mestrado em edição jornalística na Espanha.
Nayara Fraga, 25 anos – Trabalhou como freelancer em revistas de arquitetura, decoração e mercado de capitais antes de entrar na editoria de economia & negócios do site do Estadão, na qual cobre tecnologia, escreve para o blog Radar Tecnológico e faz matérias especiais.
Paula Bianca Bianchi, 24 anos – A gaúcha voltou ao Rio de Janeiro, onde trabalhava antes do curso Focas, para ser freelancer no jornal Extra. Nele escreveu sobre delegacias e morros até junho, quando entrou na sucursal carioca da Folha de S.Paulo, da qual é atualmente freela fixa.
Ramon Vitral, 25 anos – Após o fim de ano em Juiz de Fora (MG), sua cidade natal, voltou a São Paulo e fez uns freelas no site Scream & Yell até ser chamado pelo Estadão, em março, para trabalhar no guia Divirta-se, suplemento semanal publicado às sextas no qual escreve atualmente.
Ricardo Santos, 23 anos – O paulistano esperou a resposta do Foco nos Focas até o fim do prazo estimado para a convocação, no fim de janeiro. Como não recebeu o contato, saiu em busca de emprego e arrumou uma vaga de redator no Portal Terra, onde está desde fevereiro.
Rodrigo Rocha, 25 anos – Foram meses enviando currículos até ser avisado pelo ex- foca Gustavo Antonio de uma vaga aberta na editoria de esportes do Portal Terra, na qual entrou em maio. Em setembro, mudou-se para o portal F5 como freelancer fixo, cargo que ocupa até hoje.
Tiago Rogero, 23 anos – No fim de dezembro, voltou à Band News FM de Belo Horizonte, onde já estivera como repórter antes do Curso Focas. Em março, contudo, aceitou um convite do Estadão para trabalhar na sucursal do Rio de Janeiro, onde mora e trabalha desde então.
Vanessa Corrêa, 27 anos – Começou a procurar trabalho em janeiro, após as férias de fim de ano. Ela teve uma passagem de um mês pela Rede TV antes de ingressar na equipe do jornal Folha de S.Paulo, onde trabalhou como repórter na editoria de Turismo de abril a novembro.
Obs: Até o momento não foi possível falar com a ex-foca Andréa Carneiro (Foca 03), que não retornou os contatos do blog ao longo desta semana.
Luiz Betti, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e cursa Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP)
(Update, terça, 13/12, 20h38: O texto que aqui se encontrava foi repetido em http://www.estadao.com.br/talentos/index_2012.htm e pode ser lido lá).
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