Edmundo Leite

Brasil e Alemanha entram em campo em Yokohama

Há exatos 10 anos, a seleção brasileira conquistava a sua quinta Copa do Mundo numa noite memorável no estádio de Yokohama. Como o feito futebolístico já foi lembrado e analisado por gente que entende do riscado, recorro a lembranças mais prosaicas daqueles dias na Ásia.  A cobertura de mais de 40 dias, primeiro na Coréia do Sul e depois no Japão, foi um desafio logístico para os repórteres enviados ao primeiro mundial disputado simultaneamente em dois países diferentes. Ao final de cada jogo, além de mandar os textos e fotos, era preciso estar com as malas prontas, fazer check-ins rápidos no hotel e começar viagens de táxi, van, ônibus, metrô, trem-bala e avião para alcançar o time no próximo destino. Como a rotina de quem cobria a seleção era ficar horas de plantão no hotel e nos campos de treino, eram esses deslocamentos por cidades diferentes que permitia  conhecer um pouco da vida real dos dois países em pequenas aventuras diárias por causa das diferenças de costumes e da língua.

Por causa do fuso-horário 12 horas adiantado, um repórter de uma rádio abria as transmissões de seus boletins para o Brasil dizendo algo mais ou menos assim: “Direto do futuro, as últimas informações sobre a seleção brasileira na Copa do Mundo”. Brincadeira à parte, ele não estava errado. Naquele 2002, inovações tecnológicas que ainda estavam muitos distantes do Brasil faziam parte da rotina de coreanos e japoneses. Na Coréia do Sul, a velocidade da internet era tão grande que  mal dava tempo de perceber a troca de uma página para outra após clicar em algum link. O carregamento era instantâneo, num piscar de olhos. Celulares 3G com conexão ultra-rápida facilitavam a cobertura de onde quer que estivéssemos.

 

Antero Grecco e Luiz Antonio Prósperi em um dos deslocamentos pelo Japão

No Japão, todos os táxis já tinham GPS. Depois de muitos dias, já estávamos acostumados com as novidades, mas mesmo nas vésperas da final ainda havia espaço para assombros tecnológicos. Num dia em que acompanhava o Antero Grecco, que  precisou ficar um pouco mais no hotel da seleção gravar um boletim para a ESPN Brasil, o pessoal da TV colocou à disposição um carro para nos levar de volta ao hotel onde estava a equipe do Estadão, já que não haveria mais trens naquele horário. A motorista brasileira-japonesa perguntou o telefone de nosso hotel. Demos o número imaginando que fosse ligar perguntando o endereço, mas ela rapidamente pôs-se a dirigir enquanto mexia no aparelhinho no painel da van. Perguntamos então se ela não iria ligar para o hotel. Ela então nos contou que já havia digitado o número no GPS e que o aparelho já tinha dado o caminho. “Esse aqui tem toda a lista telefônica da Grande Tóquio na memória”, disse. “Se quiser”, acrescentou, “dá para comprar com a lista telefônica do Japão inteiro. É só digitar o número de telefone e chega-se a qualquer lugar do país”.

GPS em todos os táxis

Uma outra novidade presente em todos os hotéis causava gracejos e piadas entre todos: os vasos sanitários cheios de botõezinhos eletrônicos com diferentes recursos na hora das necessidades mais privadas. Com as instruções nos incompreensíveis ideogramas, era prudente não se arriscar e fazer testes antes de se sentar para evitar surpresas.

Privada tecnológica

Além das novidades tecnológicas, os costumes também causavam impacto. Numa corrida passagem pela gigantesca estação ferroviária central de Tóquio, um pequeno salão de cabeleireiro chamou a atenção. O preço do serviço  era pelo tempo gasto no corte: mil yens por cada dez minutos.

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Não lembro a quanto era o valor em real ou dólar na época. Mas depois ficávamos a imaginar se o absurdo corte de cabelo de Ronaldo antes da semifinal com a Turquia não teria acontecido num desses salões. Se num improvável passeio pela cidade o craque, sem dinheiro no bolso e não reconhecido pelo barbeiro, teve que sair do salão sem completar o corte.

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A eliminação do Brasil da Copa América sem acertar uma cobrança na decisão por  pênaltis  deixou muita gente indignada. “Como pode um jogador profissional errar desse jeito?” é a pergunta mais comum ouvida por aí nessa segunda-feira de ressaca paraguaia. Pelo que li, o feito do time de Mano Menezes é inédito. Pelo menos em jogos. Em treino não é. Na Copa de 2002, na Coréia e no Japão, os craques de Felipão conseguiram perder oito num treino antes do início da competição.

O Estado de S.Paulo – 30/5/2002

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Ronaldo começou a brilhar muito no futebol em 1993.  Aos longos desses anos pude noticiar vários fatos de sua carreira: o contrato vitalício com a Nike, a atuação inesquecível pelo Barcelona nos gramados espanhóis, a eleição como melhor do mundo, a grande atuação na Copa de 98 ofuscada pelo dramático e polêmico mal-estar na véspera da final perdida, as contusões, as confusões, os títulos ganhos e os perdidos, as transferências, os contratos milionários… Com o fim da carreira nos gramados, as notícias serão outras. Assim como Pelé  até hoje é notícia, Ronaldo ainda vai estar por muitos anos presente nos noticiários mesmo sem jogar.

Na Copa de 2002, tive o privilégio de acompanhar de perto a sua magistral atuação ao lado de Rivaldo na conquista da Copa na Coréia e no Japão. Nas entrevistas, ficava nítido que Ronaldo, além de superior aos companheiros em campo, era também fora dele. Craque de primeira grandeza e carisma ofuscante. Vi Beckham ser ignorado  por jornalistas ingleses enquanto aguardavam pela presença do brasileiro. Vi jogadores de primeiro escalão da seleção brasileira parecendo meninos deslumbrados ao seu lado.

Mas a imagem que mais me marcou na trajetória de Ronaldo foi a de fãs coreanos o aguardando no aeroporto de Bulsan na chegada da seleção brasileira ao país asiático. Um deles  parecia fazer questão de se parecer com o ídolo, apesar das intransponíveis diferenças de traços orientais e ocidentais.

Alguns chatos dirão que os garotos eram apenas manipulados pela maciça propaganda do patrocinador. Besteira. Carisma é algo que nem o mais milionário dos investimentos pode forjar.

# Clique para ver outras posts sobre Ronaldo

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O emocionante resgate dos 33 homens soterrados numa mina no Chile mostrou que os chilenos são mesmo bons de hino. Assistindo à saída do último mineiro, quando todos começaram a cantar o hino nacional do país após o cara sair da cápsula, veio à memória o sensacional Zamorano na Copa do Mundo de 1998, na França. Deu até medo antes do jogo contra o Brasil. Se dependesse do hino, seríamos trucidados por Zamorano, quase que possuído entoando a canção de seu país.

Para nossa sorte, hino não ganha jogo e o Brasil passou fácil pelos chilenos, ganhando por 4 a 1. Mas no quesito hino Zamorano naquele dia foi imbatível.

Procurei no YouTube, mas não encontrei o vídeo dos chilenos cantando o hino contra o Brasil.   Mas achei esse contra outro adversário – creio que Camarões –  que dá para ter uma idéia.

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Nas vésperas da final da Copa do Mundo de 2002, um enorme grupo de jornalistas ficava reunido no saguão do hotel onde a seleção brasileira se hospedava em Yokohama aguardando a saída do time de Felipão. Como acontece sempre nessas situações, as esperas eram longas e acabavam virando bate-papos sobre os assuntos mais diversos em grupos que se espelhavam pelo amplo salão.

Num desses grupos, um repórter francês da revista France Footbal perguntou aos colegas brasileiros porque não havia nenhum jornalista negro do país entre dezenas de profissionais que cobriam a seleção do Brasil, quando boa parte do time que estava prestes a se tornar pentacampeão era formada por negros.

Após alguns segundos daquele silêncio constrangedor, alguém arriscou a começar uma explicação. Falou da desigualdade social, enquanto outro lembrou do passado escravista, das falhas do sistema educacional, da dificuldade que muitos pobres tem para ingressar na universidade e que por isso nas próprias faculdades não havia muitos alunos negros.

Oito anos depois, a seleção brasileira parte para tentar o hexacampeonato num país que durante anos foi marcado por um dos mais violentos regimes de segregação racial. O apartheid que por quatro décadas  restringiu os direitos da população negra no África do Sul terminou em 1990. Desde então, o país tenta diminuir a desigualdade social provocada pelo regime racista.

O Estadão desta terça-feira de convocação para a Copa da África do Sul traz um texto de Marco Antonio Rezende informando que políticas sociais, entre elas um amplo programa de inclusão racial do governo – Black Economic Empowerment (BEE)  – estão criando uma nova classe média negra no país:

“… O programa de maior impacto é o BEE, destinado a inserir a maioria negra na economia capitalista. Bastante polêmico quando foi criado – seus detratores diziam que espantaria investidores e desestimularia o empreendedorismo – hoje é parte da vida cotidiana do país.

Para vender para o governo ou participar de concorrências publicas, as empresas tem que ter o certificado de adequação ao BEE. Para isso, têm que cumprir sete critérios, entre eles cotas de negros na média e alta gestão, fornecer cursos de formação para gerentes e executivos negros e comprar produtos ou serviços apenas de outras empresas igualmente certificadas com as normas do BEE.

As grandes corporações têm que ceder em média 25% do seu controle a acionistas negros. As empresas 100% subsidiárias de empresas estrangeiras estão isentas da obrigação da cota no controle acionário. …”

Aqui no Brasil, onde desde 2003 existe uma Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com status de ministério, estudo recente da Fundação Getúlio Vargas indica que 53% dos negros do país estão na classe média.  E no mês passado o Supremo Tribunal Federal promoveu debates antes de começar a julgar duas ações contra a política de cotas raciais em universidades públicas. O Supremo ainda não definiu a data para julgar as duas ações.

Em 2002, no Japão, a pergunta do jornalista francês sobre a diversidade racial entre seus colegas brasileiros ficou sem uma resposta convincente. Nessa copa de 2010 não é difícil que a situação se repita na África do Sul. A imprensa brasileira, apesar de recorrentemente abordar assuntos sobre diversidade e outras questões raciais em suas páginas, ainda está longe de ser um exemplo no assunto.

Para ficar no exemplo da casa que abriga esse blog, nos três veículos que ocupam duas amplas áreas de redação em único andar é possível contar nos dedos – de uma só mão – o número de negros entre quase 500 jornalistas que dão expediente ao longo do dia nas mais diferentes tarefas e funções de escrever, editar, diagramar e fotografar.

Já em outros setores, como na gráfica ou nos setores de serviços terceirizados que cuidam da limpeza e do transporte a situação é inversa. Não tenho dados para afirmar que os negros são a maioria nessas funções. Mas qualquer um que tiver a oportunidade de fazer uma visita aos diversos setores de uma empresa jornalística no Brasil poderá constatar a situação.

Gilberto Gil cantou anos atrás, em “Tradição”, um “tempo que preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha”. Felizmente, isso não existe mais. Os próprios clubes sociais quase já não existem mais. Assim como ficou para trás o tempo em que  times de futebol não admitiam negros em seus quadros.

Dia desses esteve por aqui o grupo de samba Revelação. Desconhecido por quase toda a redação, mas sucesso em todo o País, o grupo falou da carreira, do sucesso, do lançamento do CD e do DVD “Ao Vivo no Morro” e também cantou algumas músicas.

Uma rara chance de se ver negros dentro de uma redação no Brasil.

Revelação_1

Revelação_2

Revelação_3

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Nesse dia de convocação para a Copa do Mundo, mais três figurinhas da seleção brasileira campeã em 1958, na Copa do Mundo da Suécia.

As três do post anterior eram do santista Zito, do vascaíno Orlando e do botafoguense Nilton Santos, como disseram o José Antonio e a Vanessa Gonçalez.

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Se tiver lembranças de outras copas, envie a imagem por e-mail (edmundo.leite@grupoestado.com.br) para ser publicada aqui no blog.

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