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Edmundo Leite

04.fevereiro.2012 15:55:50

Edy nos cabarés da vida


“Só você ainda compra revista de música”, me respondem alguns amigos quando pergunto “você viu a matéria sobre fulano na …?”

Não deve ser só eu, já que as duas revistas do tipo que restaram no Brasil estão aí nas bancas há um tempo, aparentemente saudáveis financeiramente e cheias de anúncios. Ambas são franquias de títulos americanos consagrados. A Rolling Stone já conta 64 edições mensais por aqui, enquanto a Billboard comemora dois anos nessa número 26 que circula em dezembro e janeiro.

Mas do meu grupo de convivência, é verdade, não tenho interlocutores para comentar o conteúdo dessas publicações. E como nunca vejo ninguém folheando-as no ônibus, metrô ou mesmo levando embaixo do sovaco na rua perto de alguma banca, tampouco nos barbeiros, cabeleireiros e salas de espera de médicos e dentistas, fico sempre me perguntando: quem será o público dessas revistas?

Desde a segunda morte da Bizz, da Editora Abril, em julho de 2007, especula-se no meio editorial e entre leitores saudosistas se, com a internet, ainda há mercado para esse tipo de publicação. E, desde a primeira morte da Bizz, no início dos anos 2000, várias tentativas de emplacar novos títulos nacionais sobre música naufragaram. Há títulos especializados longevos, restritos a nichos, que, dizem, será o futuro dessas publicações. É mais ou menos a mesma discussão que rola sobre o jornal impresso.

Editorialmente, é preciso dizer que nada de relevante foi produzido pelas duas publicações que permaneceram. Embora tenham uma caprichada edição visual, nenhuma declaração bombástica que importasse de algum artista saiu dali. Nenhum furo jornalístico que mudou o destino de alguma coisa, nenhum novo artista que emplacou nos últimos tempos pode agradecer por ter sido revelado ao público por essas páginas, nenhum ensaio fotográfico que vá entrar para a história foi publicado.

Então vai ver que é isso mesmo: a função dessas publicações seria apenas a de um elaborado clipping de informações musicais para quem não tem tempo ou se perde no turbilhão da web.

Embora parecidas em muitos aspectos (seções com dicas de moda e de consumo de produtos descolados, calendário e resenhas de shows e de lançamentos e reproduções traduzidas de grandes matérias das revistas mães), as versões brasileiras da Rolling Stone e da Billboard têm pontos fundamentais de divergência. O principal é que a Rolling Stone não se define como revista musical, mas de entretenimento. Tanto que dedica capas a nomes do cinema, televisão, moda, literatura e esporte. Considera suas matérias sobre política e outros aspectos da sociedade um diferencial. Se a matriz americana já conseguiu realizar isso com louvor em alguns ocasiões, o material que foi publicado na filial brasileira ainda não passou de valorosos TCCs. Os perfis de artistas são repetitivos, quase sempre começando com o repórter descrevendo o ambiente em que o personagem foi entrevistado e exaltando o privilégio de estar num lugar onde poucos estariam: camarins do Projac, bastidores de estúdios fotográficos e de gravação, casas ou lugares frequentados pela celebridade.

A Billboard iniciou sua trajetória sob a dúvida de que teria condições de dividir espaço com a Rolling Stone por aqui. Depois de estrear com um formato gigante que atrapalhava um pouco aqueles que guardam a revista, foi fazendo ajustes e agora está no mesmo tamanho da concorrente. Além da forma, optou por um conteúdo mais antenado com a preferência popular. A capa da primeira edição foi o Roberto Carlos. Com a tradição de mais de um século de suas tabelas de parada musical, seu radar parece ser mais eficiente que o da rival, embora não descuide de falar sobre artistas desconhecidos.

Comparando os exemplares mais recentes das duas publicações, que remetem de alguma forma às lutas esportivas, a vitória da Billboard é por nocaute. A edição com Marisa Monte na capa é, graficamente, uma das mais belas revistas já impressas no Brasil. Fotos lindíssimas abertas em tamanho gigante em todas as matérias e por quase todas as páginas: Steven Tyler, Justin Bibier, Bon Jovi, Autoramas, Rashid e Xará. A página dupla com uma foto de arquivo do Foo Fighters seria um pôster se não tivesse um pouquinho adiante das páginas centrais, o que facilitaria destacá-las. A cobertura do festival Planeta Terra recorreu a um clichê (formato de histórias em quadrinhos) mas o resultado é incontestavelmente bacana. A matéria de capa com Marisa Monte, assinada pelo experiente Pedro Só, entra fundo na produção do novo disco da cantora e não fica só nela, trazendo boas entrevistas com os parceiros Dadi e Rodrigo Amarante.

Na rival, a reportagem com a bela Carolina Dieckmann é até um pouco interessante, ousa em escolher uma estrela de novela para a capa, entra no assunto indigesto da briga com o Pânico na TV e na rivalidade com Luana Piovanni, mas falta uma pegada de Rolling Stone. Poderia muito bem estar nas ótimas segmentadas Nova, Claudia, Marie Claire, Elle ou Boa Forma. Já havia acontecido a mesma coisa há um tempo com a matéria de capa dedicada a Mariana Ximenes. Depois de começar com uma estranha associação com um famoso e recluso vizinho de bairro – “Carolina Dieckman é anti-João Gilberto” – a reportagem com a atriz se estende com frases do tipo “Não estou aqui para agradar a todo mundo. Nem para agradar a alguém. Estou aqui para cuidar da minha vida”. Não acrescenta muito, mas vale pelas fotos dela em trajes de boxeadora. Das matérias sobre música, o destaque são as reproduções da matriz sobre o Clash e o Arquivo RS do Red Hot Chili Pepppers.

Mas o que mais chama atenção nas últimas edições das duas revistas é uma ausência. Embora a Billbord tenha um editorial intitulado “Ai, se eu te pego” e a Rolling Stone mencione na retrospectiva do ano o fenômeno musical, agora mundial, do momento, ambas tomaram uma rasteira de uma adversária improvável. Coube à semanal Época a sensibilidade de colocar Michel Teló na capa de uma de suas edições mais recentes. Curiosamente, na capa com Teló a Época se inspirou em capa recente da Billboard Brasil com o sambista Thiaguinho, que por sua vez havia se inspirado numa capa da Vogue com a modelo Kate Moss.

Agora é aguardar as próximas edições e torcer para as duas revistas que ainda se dedicam à música no Brasil travarem uma luta combativa em suas páginas. E que (para o bem dos leitores) termine em decisão por pontos.

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Mal foi publicada, a notícia de que o Irã proibiu os livros de Paulo Coelho no país passou a receber comentários irônicos exaltando a medida.  O primeiro que pode ser lido no Estadão, assinado por Werner Hess, dá a medida do que viria a seguir: “Pelo menos uma coisa o governo do Irã fez certo. Proibiu seus cidadãos de ler lixo.”

Alvo predileto de um elitismo cultural que insiste em debochar grosseiramente e atacar com violência poucas vezes vista contra uma obra e um autor,  Paulo Coelho já está acostumado a esse tipo de crítica. Não que as aceite bem. Nenhum autor aceita.  Mas com o tempo – já são quase 25 anos de sucesso como escritor – Paulo Coelho está escolado na questão.

Assim como já tem experiência em ser atacado e se defender, Paulo Coelho também não é  novato em  questão de censura a sua obra por regimes autoritários.  Se hoje seu problema é com um regime comandado por iatolás, antes tinha que lidar com burocratas a mando de generais brasileiros. Desde o começo de sua incursão musical – ao lado de Raul Seixas – não foram poucas as vezes em que as letras feitas junto com o roqueiro barbudo e outros parceiros do primeiro time da música brasileira sofreram a ação da censura.

Uma das letras censuradas é o sucesso “Óculos Escuro”, que teve que ser retrabalhada várias vezes pela dupla, entre idas e vindas de recursos da gravadora junto ao órgão de censura até a liberação da versão gravada e consagrada em 1974.

O vai-e-vem do processo de liberação da música pode ser visto em detalhes no site Censura Musical, que também tem histórias de outras letras escritas por Paulo Coelho com outros parceiros, entre eles Zé Rodrix, que sofreram com enroscos na censura.

Anos depois, em 2007,  já longe do mundo da música e há muito consagrado como escritor, Paulo Coelho foi uma das únicas vozes do meio cultural a se levantar contra o mais célebre caso de censura vigente contra uma obra literária no Brasil nos últimos anos: o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César Araújo.

Indignado com o acordo feito pela sua então editora, a Planeta, com o cantor para retirar a obra de Paulo César das estantes, Paulo Coelho cobrou num artigo publicado na Folha de S.Paulo a editora e o autor e ainda chamou o cantor de “infantil”:

“… [Roberto Carlos] está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura. Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da “invasão de privacidade” já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs. (…)

(…) gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de “contexto desfavorável”. Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.

E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, “se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor” (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.

Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.”

O obra literária de Paulo Coelho ainda não foi objeto de um estudo sério e isento. As poucas coisas escritas sobre ele e seus livros  ainda estão impregnadas de má vontade, preconceito e rancor contra o sucesso comercial que invalidam qualquer análise. Um chavão dessas análises tortas costuma evocar a fase em que Paulo Coelho foi  compositor de sucesso ao lado de Raul Seixas  para diminuir a sua criação literária.  É pouco. É simplista. E, acima de tudo,  pode ser falso, já que se baseia apenas em gostos pessoais.  A crítica literária brasileira e o meio acadêmico ainda não fizeram a lição de casa quando o assunto é Paulo Coelho.

Leia também:

# Censura Musical

# A Canção do Mago, de Hérica Marmo

# O Mago, de Fernando Morais

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(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 20 de junho de 2002)

Edmundo Leite

Hamamatsu, Shizuoka (Japão) - O resultado surpreendeu até Roberto Carlos. Quando foi informado que tinha sido escolhido para a seleção de todas as copas, o lateral não entendeu direito do que se tratava. Só depois de consultar familiares, ficou sabendo que seu nome figurava no Dream Team da história das Copas, ao lado de lendas como Franz Beckenbauer, o francês Michel Platini, o argentino Diego Maradona, o holandês Johan Cruyff e o brasileiro Pelé.

A votação foi promovida pela Fifa no site oficial da Copa do Mundo e elegeu ainda para a seleção dos mundiais o brasileiro Romário, os italianos Paolo Maldini e Roberto Baggio, o francês Zinedine Zidane e o soviético Lev Yashin.

O fato de ter se surpreendido não significa que o jogador do Real Madrid pense que não merecesse estar na lista. Pelo contrário. Dizendo-se muito feliz, Roberto Carlos considera que a votação é uma dupla vitória: uma profisssional e outra pessoal. “É um rconhecimento à minha carreira, aos meus títulos no Palmeiras e no Real Madrid”.

No lado pessoal, ele, cuja fama de mascarado o perseguiu por muito tempo, diz que a escolha mostra que as pessoas gostam de seu jeito, por estar sempre sorrindo e conversando.

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