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Edmundo Leite

Mal foi publicada, a notícia de que o Irã proibiu os livros de Paulo Coelho no país passou a receber comentários irônicos exaltando a medida.  O primeiro que pode ser lido no Estadão, assinado por Werner Hess, dá a medida do que viria a seguir: “Pelo menos uma coisa o governo do Irã fez certo. Proibiu seus cidadãos de ler lixo.”

Alvo predileto de um elitismo cultural que insiste em debochar grosseiramente e atacar com violência poucas vezes vista contra uma obra e um autor,  Paulo Coelho já está acostumado a esse tipo de crítica. Não que as aceite bem. Nenhum autor aceita.  Mas com o tempo – já são quase 25 anos de sucesso como escritor – Paulo Coelho está escolado na questão.

Assim como já tem experiência em ser atacado e se defender, Paulo Coelho também não é  novato em  questão de censura a sua obra por regimes autoritários.  Se hoje seu problema é com um regime comandado por iatolás, antes tinha que lidar com burocratas a mando de generais brasileiros. Desde o começo de sua incursão musical – ao lado de Raul Seixas – não foram poucas as vezes em que as letras feitas junto com o roqueiro barbudo e outros parceiros do primeiro time da música brasileira sofreram a ação da censura.

Uma das letras censuradas é o sucesso “Óculos Escuro”, que teve que ser retrabalhada várias vezes pela dupla, entre idas e vindas de recursos da gravadora junto ao órgão de censura até a liberação da versão gravada e consagrada em 1974.

O vai-e-vem do processo de liberação da música pode ser visto em detalhes no site Censura Musical, que também tem histórias de outras letras escritas por Paulo Coelho com outros parceiros, entre eles Zé Rodrix, que sofreram com enroscos na censura.

Anos depois, em 2007,  já longe do mundo da música e há muito consagrado como escritor, Paulo Coelho foi uma das únicas vozes do meio cultural a se levantar contra o mais célebre caso de censura vigente contra uma obra literária no Brasil nos últimos anos: o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César Araújo.

Indignado com o acordo feito pela sua então editora, a Planeta, com o cantor para retirar a obra de Paulo César das estantes, Paulo Coelho cobrou num artigo publicado na Folha de S.Paulo a editora e o autor e ainda chamou o cantor de “infantil”:

“… [Roberto Carlos] está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura. Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da “invasão de privacidade” já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs. (…)

(…) gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de “contexto desfavorável”. Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.

E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, “se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor” (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.

Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.”

O obra literária de Paulo Coelho ainda não foi objeto de um estudo sério e isento. As poucas coisas escritas sobre ele e seus livros  ainda estão impregnadas de má vontade, preconceito e rancor contra o sucesso comercial que invalidam qualquer análise. Um chavão dessas análises tortas costuma evocar a fase em que Paulo Coelho foi  compositor de sucesso ao lado de Raul Seixas  para diminuir a sua criação literária.  É pouco. É simplista. E, acima de tudo,  pode ser falso, já que se baseia apenas em gostos pessoais.  A crítica literária brasileira e o meio acadêmico ainda não fizeram a lição de casa quando o assunto é Paulo Coelho.

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Paulo Coelho não esconde a satisfação quando comenta seu mais novo feito: emplacou dois livros na prestigiosa lista dos mais vendidos do jornal New York Times. “Você pode pesquisar o arquivo do New York Times e verá que nenhum estrangeiro teve dois livros ao mesmo tempo na lista.”

Não que o escritor não vendesse nada nos Estados Unidos. Porém, diferente de outros países, sobretudo da Europa, o sucesso demorou bem mais tempo apara chegar. “Demorou 10 anos. Foi basicamente o boca a boca. Na Europa isso aconteceu antes.”

Os responsáveis pela alegria americana do escritor são um livro antigo e outro mais recente: O Alquimista, lançado originalmente em 1988, e A Bruxa de Portobello, de 2007. O primeiro já está na lista há pelo menos dois anos. Mesmo depois que o jornal mudou seu sistema de aferição de vendas, o livro continuou a aparecer na nova categoria em que foi enquadrado. Na lista desta semana, O Alquimista aparece na sexta posição entre os livros de ficção de capa mole (paperback trade fiction), enquanto A Bruxa de Portobello está em 31º. Há um mês os dois estavam juntos entre os top 20, respectivamente em 9º e 16º, respectivamente. A melhor colocação de O Alquimista, no entanto, foi um quinto lugar uma semana após a mudança de critérios da contagem, em setembro do ano passado.

Questionado se havia algum problema com a edição de seus livros no país, o escritor diz que não e atribui o novo sucesso à mudança de mentalidade dos americanos. “Os livros foram lançados adequadamente, acontece que a lista dos mais vendidos era quase que exclusivamente composta de autores americanos. Penso que agora os americanos estão se abrindo para o mundo. Quanto ao público, como você sabe, vai desde a Hillary Clinton até o porteiro do hotel, graças a Deus. Não difere do resto do mundo.”

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Se o nome de Paulo Coelho já estava espiritualmente associado a Santiago de Compostela, a relação agora vai se tornar oficial. A cidade espanhola, destino final do caminho percorrido por milhares de peregrinos católicos – e outros nem tanto – decidiu dar um nome de rua ao escritor brasileiro, que popularizou o Caminho de Santiago pelo mundo depois que narrou a sua viagem pelo roteiro místico no livro O Diário de Um Mago.

O batismo do nome da rua – no dia 23 de junho – faz parte das comemorações de 20 anos, completados no ano passado, do lançamento do primeiro sucesso literário do escritor. “Quando soube da notícia, há seis meses, fiquei muito contente. Acho que é tudo que posso dizer a respeito”, disse o escritor, que a partir desta quarta-feira estará em Cannes acompanhando o festival de cinema da cidade francesa.

Além do nome da rua, Paulo Coelho ganhará outro presente pela efeméride. A grife italiana de canetas de luxo Montegrappa, da qual o escritor é embaixador (título que o mundo corporativo passou a dar às celebridades que fazem propaganda de suas marcas), lançará no mesmo dia uma edição comemorativa em homenagem a ele.

Ao contrário dos livros, lidos por milhões de pessoas, a caneta de Paulo Coelho é para poucos. Serão 1.947 exemplares, mesmo número do ano de seu nascimento: mil canetas tinteiro e 900 do tipo rollerball, em prata e esmeralda; e 47 tinteiro de ouro, com detalhes em esmeralda e diamantes. A caneta número 1 da edição especial será do próprio escritor. A número 2 será entregue à cidade espanhola na cerimônia de inauguração do nome da rua. As restantes chegarão ao mercado ao preço de 1.600 euros (R$ 4.400,00) e 8.700 euros (R$ 24 mil).

As canetas trazem estampadas no corpo o mapa da França e da Espanha com as diferentes trilhas de peregrinação. As pedras de esmeraldas marcam um dos pontos de partida (Saint-Jean-Pied-de-Port) e o de chegada da jornada que atrai milhares de peregrinos. A pena da caneta tem gravada uma borboleta, símbolo que Paulo Coelho leva tatuado no braço esquerdo há quase 30 anos. “É minha ‘aliança de casamento’ com a Chris (a artista plástica Christina Oiticica), que também tem a mesma tatuagem. Foi feita em 1980 no Marrocos e é o símbolo da alquimia – ou seja, um organismo vivo que passa de um estado (lagarta, rastejando) a outro (borboleta, voando) sem deixar de ser quem é”.

 Comemorações

 Após o festival, a agenda de Paulo Coelho está praticamente preenchida até agosto com eventos ligados às comemorações das duas décadas do livro que o projetou. O primeiro deles, acontece no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Asturias, na Espanha. Em Áviles, também na Espanha, acontecerão as principais comemorações, com exposição, palestras e leituras da obra do brasileiro. No mesmo dia da inauguração da rua em Santiago Compostela, Paulo Coelho também estará em Barcelona para receber o prêmio Elle de melhor escritor.

No fim de julho e começo de agosto as festas darão lugar às atividades acadêmicas, com o escritor participando do curso de verão da Universidade Complutense de Madri. O tema será “O escritor, o mercado e os novos suportes para a palavra escrita” e contará com a participação de Fernando Morais, que está finalizando uma biografia de Paulo Coelho. Os sucessivos adiamentos do lançamento do livro de Morais – que sairá pela mesma editora Planeta que edita os livros de Paulo no Brasil – está deixando o biografado um pouco apreensivo. “Acho que vou ficar sabendo mais de mim do que imagino.”

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Enquanto comemora os 20 anos de sucesso como escritor e não lança um novo livro (o último foi a Bruxa de Portobello, no ano passado) Paulo Coelho passa boa parte do seu tempo viajando por diversos países. Parece férias. Mas é trabalho. Com algumas regalias, claro. E Paulo Coelho é um trabalhador disciplinado. Participa de eventos promocionais, fóruns, debates, entrevistas, enquanto administra a carreira de um dos maiores vendedores de livros do mundo e acompanha com a atenção as oscilações do mercado internacional.

Mesmo tendo ganhado com seus livros dinheiro “para viver três encarnações”, Paulo Coelho agradece pelos pagamentos que recebe como um trabalhador assalariado que ganhou uma bonificação que garantirá uma folga no orçamento. No último mês, fechou em Genebra, na Suíça, um contrato com a IWC, “a Rolls Royce dos relógios”, como dizia, orgulhoso, momentos antes de acertar o acordo com a empresa suíça, uma das três escolhidas pelo escritor entre as várias que o assediam. Por dois anos de contrato, receberá cerca de US$ 800 mil. Em troca terá que sempre usar um relógio da marca, além de comparecer em três eventos a cada ano.

Um deles é o Salão Internacional da Alta Relojoaria, realizado anualmente em Genebra, onde a reportagem do Estadao .com.br presenciou as conversas dos representantes da IWC com o escritor e uma assessora para o acerto do contrato. A seguir, trechos da entrevista iniciada em Genebra:

Com quantas empresas possui contrato de publicidade? Esses contratos superam os ganhos com os livros?

 HP (tecnologia), IWC (relógios) e Montegrappa (canetas). Não, nem de longe superam os ganhos com os livros. Propostas existem quase todas as semanas, de condomínios a hotéis, de marcas de bebida a telefones celulares, mas não aceito nenhuma, exceto as três acima. Entretanto, se quiser saber com o que me associaria com muito prazer: camisetas. Até hoje não recebi uma proposta adequada – não se trata de royalties, mas de distribuição. Recentemente aconteceram três meses de conversas com a H&M, mas não foram adiante. Queriam distribuição apenas na Suécia.

Era para ter seu rosto estampado, como o Che Guevara ou o KISS?

Como sabe, continuo recebendo (propostas). Mas nunca para meu rosto, e sim para as frases dos meus livros.

No Brasil, você tem algum tipo de contrato que não seja de livros, no qual cede sua imagem para alguma empresa ou produto?

Não. Já fiz um há tempo, para um banco. Mas desde então nenhuma outra proposta me interessou.

Esse reconhecimento que desfruta na Europa, inclusive no mercado de produtos exclusivos é antagônico à imagem que tem no Brasil, onde é associado ao consumo de massa. Atribui essa diferença a quê?

Nenhuma idéia. Porque também no resto do mundo sou associado a consumo de massa.

Fazer propaganda de produtos de luxo não é contraditório com alguns valores que costuma exaltar em seus escritos ou declarações?

Na verdade, o jornalista precisa definir melhor o que são “alguns valores que costuma exaltar em seus escritos.”

Valores cristãos, por exemplo.

Eu poderia ficar eternamente elaborando a pergunta dos valores, melhor deixar de lado, porque no meu entender ela continua sem fazer sentido.

Por diversas vezes em Genebra você agradeceu por estar sendo bem pago por seu trabalho. Até que ponto o dinheiro ainda é uma preocupação em sua vida? Sei que você é um bom administrador. Além de retorno financeiro, isso te dá prazer?

Desde 1994, quando meus livros começaram a ser vendidos em escala planetária, passei a ter dinheiro para viver três encarnações. Como não posso levar nada para a próxima, isso não é uma preocupação. Entretanto, é fundamental que se diga: gosto de ser bem pago pelo meu trabalho, porque nele coloco o melhor de mim mesmo. Tenho que dar exemplo às pessoas que acham que arte deve ser dada – um artista não é mais importante que um chofer de táxi, e ambos sabem o valor do suor do rosto. Isso dito, acompanhar o mercado financeiro me dá um grande prazer justamente porque não tenho um centavo investido ali. Acho um cassino, e me divirto vendo os analistas dizendo hoje uma coisa, e amanhã outra. Os analistas financeiros são mais esotéricos que Nostradamus com suas profecias.

Durante nossa conversa em Genebra você se declarou um romântico, no sentido de querer combater e mudar certas coisas, como aquela questão de colocar os seus livros na internet. Qual a sua intenção com esses atos românticos? Além da briga pelos livros virtuais há alguma outra causa em que esteja engajado atualmente?

Colocar os livros grátis na rede, por exemplo, foi uma atitude importante no que se refere à democratização da informação. Quando, em um fórum digital em Munique, em janeiro deste ano, comentei que desde 2005 eu pirateava meus próprios livros não podia imaginar a repercussão que teria – foi notícia em quase todos os meios, desde a CNN até a Newsweek. Mas tenho acompanhado as páginas especializadas, e vejo, com alegria, que criei um paradigma.   Tenho o Instituto Paulo Coelho, que usa grande parte do meu dinheiro para projetos com terceira idade, hospitais, sustento de famílias necessitadas e o Solar Meninos de Luz, na favela Pavão Pavãozinho, ao lado da minha casa – que se ocupa de 430 crianças e adolescentes. Como Mensageiro da Paz das Nações Unidas, tenho participado de seminários no mundo inteiro, procurando discutir alternativas para os conflitos atuais.

Já leu a sua biografia que o Fernando Morais escreveu? O que achou?

Não li nem uma só linha. Estou esperando esta biografia desde maio do ano passado, que era a data marcada para a entrega. Espero que saia antes das próximas eleições americanas, mas talvez esteja sendo otimista.

Porque resolveu se mudar da cidadezinha onde morava e ir morar em Paris?

Não moro em Paris, mas no Rio de Janeiro. Tenho um apartamento ali e isso me facilita a vida quando se trata de passar mais tempo na Europa. Quanto à casa nos Pirineus, estou aqui neste momento, indo para o Festival de Cannes.

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Na sede de uma grande empresa em São Paulo, duas colegas conversam enquanto uma delas copia as músicas de um CD para o seu computador:

– Que CD é esse?

– É um CD com músicas feitas pelo Paulo Coelho…

– Paulo Coelho!? Deix’eu ver…

Após alguns segundos de silêncio olhando a relação de músicas na contra-capa, a segunda se surpreende:

– Então quer dizer que eu gosto do Paulo Coelho!?

Além das conhecidas parcerias com Raul Seixas (“Gita”, “Al Capone”, “Há Dez Mil anos Atrás”), o disco “Paulo Coelho – o compositor” (Universal) traz faixas com letras de composições do escritor com artistas dos mais variados estilos, como Rita Lee, Zé Rodrix e Rosana. E também duas das clássicas  versões que fez:  ”Sou Rebelde” – que estourou no fim dos anos 70 na voz de Lilian – e “Me deixas Louca”, última gravação de Elis Regina, em 1982. Só faltaram as divertidas “Arrombou a Festa I e II”,  composições originais com Rita Lee, e “Abaixo a Cueca”, com Zé Rodrix.

Se o disco lançado pela Universal causa pequenos espantos como o descrito no diálogo real acima, um outro lançamento relacionado ao escritor está provocando abalos maiores, especialmente entre fãs mais exaltados do roqueiro baiano. Escrito pela jornalista carioca Hérica Marmo, o livro “A canção do Mago – a trajetória musical de Paulo Coelho“, narra detalhes inéditos do período em que o mago e o “Maluco Beleza” eram “inimigos íntimos”, como ambos definiam a parceria.

Palavras proibidas

Há anos Paulo Coelho vem dizendo que parte de seu sucesso como escritor se deve ao fato de que “aprendeu a escrever de maneira simples e direta fazendo música com Raul Seixas”. Porém, pouca coisa além disso foi dita por ele sobre a dupla que causou barulho nos anos 70 com letras que iam do deboche ao afronte e cheias de odes esotérico-libertárias numa época marcada pela repressão.

O motivo da resistência do fenômeno da literatura em tocar no assunto seria a participação de ambos em entidades esotéricas nada ortodoxas. Algum tempo atrás, o escritor contou que havia escrito um livro sobre esse período, mas que se desfez dos originais após sua mulher receber um sinal de que a história evocava coisas ruins. E se há algo que Paulo Coelho realmente dá importância são a esses tipos de sinais, como mostra o capítulo do livro em que a autora aborda a superstição do mago e como os amigos se divertiam com isso, repetindo “palavras proibidas” perto dele: “bastava ouvir uma palavra perigosa para o ritual começar. Paulo Botava a mão no rosto, fazia careta e pedia, virando a mão em sentido anti-horário: – Desfaz, desfaz… Em seguida batia várias vezes no pedaço de madeira mais próximo, isolando o mau agouro.” Roberto Carlos perde.

Cantor

A resistência do mago em falar sobre o assunto que desperta mais curiosidade de fãs foi quebrada pela autora do livro, que dissecou os dez anos em que o escritor trabalhou nos bastidores da indústria da música e traz revelações surpreendentes. Como o dia em que Roberto Menescal, então executivo da gravadora Phonogram (atual Universal), cansado do cada vez maior descontrole de Raul Seixas, vislumbrou a possibilidade de transformar o parceiro descoberto pelo artista baiano em cantor:

“- Você toparia se lançar como cantor? você cantando as suas músicas? Paulo, que não era de fugir de nenhuma novidade, topou na hora. Menescal pegou o violão e começaram a experimentar. Mas não demoraram muito para reconhecer que não daria certo. Fora a voz de pouco alcance, Paulo não tinha o carisma de Raul. Não funcionava como vitrine. Mesmo assim, o diretor artístico não desistiu da idéia de ter o letrista como seu funcionário…”

Maluco Beleza

 Mas não é nenhum dos várias fatos narrados – as armações como a do falso encontro com John Lennon para se promover na imprensa, a prisão do letrista pelo Dops, o envolvimento com drogas estimulado por Paulo, a revelação de que algumas letras foram inteiramente escritas por Paulo Coelho e a aparente inversão de personaldidades de ambos – que mais está causando um gosto indigesto entre os fãs de Raul.

É do prefácio escrito por Menescal, que saiu a frase mais polêmica do livro até agora. “Aos poucos fui entendendo o jogo e vi que o maluco beleza era Paulo. E Raul, cada dia mais ‘maluco’ que ‘beleza’”, escreveu o autor do clássico da bossa nova “O Barquinho” no início do texto sobre o amigo. E para não deixar dúvidas do que era isso mesmo que estava dizendo, reforçou no final: “Agora sei um pouco mais do que vivi naquela época que foi umas das melhores fases da história da MPB e de um dos seus mais importantes representantes, nosso querido, e o verdadeiro ‘maluco beleza’, Paulo Coelho”, finaliza. (Para os não iniciados na vida e obra de Raul Seixas: a canção com cujo título o cantor é mais comumente designado é uma parceria com Claudio Roberto, justamente após o primeiro rompimento do mago e do magro).

 Rap de bandido

 Mas o livro não se restringe a narrar as peripécias da parceria com Raul Seixas. Estão lá, entre outras aventuras, a paixão por Rita Lee durante a breve parceria, a facilidade com que fazia letras e versões para quem quer que fosse – de Sidney Magal a Vanusa, de Fábio Júnior a Rosana – a frustrada temporada de alguns meses em Londres na tentativa se tornar escritor. E até a composição anônima de um inusitado e pioneiro rap de bandido, a “Melô do Mão Branca”, de 1980, sobre um justiceiro que atuava na Baixada Fluminense e era sucesso nas capas dos jornais populares da época:

Ratatapá papá

Zin cat pum

São coisas que você tem que se acostumar

Essa é a música

Que toca a orquestra do Mão Branca

Botando os bandidos para dançar

Com essa e outras histórias, a autora vai mostrando que Paulo Coelho era pop – e sucesso – muito antes de se tornar escritor. E termina com a sucessão de sinais – entre eles a morte de Elis Regina – que o levaram a abandonar a música para seguir o caminho que o levaria ao sucesso mundial. Mas o livro é sobre música e, focada, a autora encerra sua história por aí. Os fãs do mago que querem mais detalhes sobre esse caminhos posteriores terão que esperar a aguardada biografia que está sendo finalizada pelo escritor Fernando Morais, a sair pela Editora  Planeta nesse fim de ano. E os do Maluco Beleza,  pela merecida – e demorada – biografia que está por vir.

# Publicado originalmente no Estadão com o título “Livro e CD resgatam Paulo Coelho compositor

Ouça a cantora Lilian cantando “Sou Rebelde

Ouça Sonia Santos cantando “Porque

Ouça Elis Regina cantando “Me Deixas Louca

Ouça Chitãozinho & Xororó cantando “Medo da Chuva

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28.junho.2003 01:18:44

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Raul Seixas
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