
“Só você ainda compra revista de música”, me respondem alguns amigos quando pergunto “você viu a matéria sobre fulano na …?”
Não deve ser só eu, já que as duas revistas do tipo que restaram no Brasil estão aí nas bancas há um tempo, aparentemente saudáveis financeiramente e cheias de anúncios. Ambas são franquias de títulos americanos consagrados. A Rolling Stone já conta 64 edições mensais por aqui, enquanto a Billboard comemora dois anos nessa número 26 que circula em dezembro e janeiro.
Mas do meu grupo de convivência, é verdade, não tenho interlocutores para comentar o conteúdo dessas publicações. E como nunca vejo ninguém folheando-as no ônibus, metrô ou mesmo levando embaixo do sovaco na rua perto de alguma banca, tampouco nos barbeiros, cabeleireiros e salas de espera de médicos e dentistas, fico sempre me perguntando: quem será o público dessas revistas?
Desde a segunda morte da Bizz, da Editora Abril, em julho de 2007, especula-se no meio editorial e entre leitores saudosistas se, com a internet, ainda há mercado para esse tipo de publicação. E, desde a primeira morte da Bizz, no início dos anos 2000, várias tentativas de emplacar novos títulos nacionais sobre música naufragaram. Há títulos especializados longevos, restritos a nichos, que, dizem, será o futuro dessas publicações. É mais ou menos a mesma discussão que rola sobre o jornal impresso.
Editorialmente, é preciso dizer que nada de relevante foi produzido pelas duas publicações que permaneceram. Embora tenham uma caprichada edição visual, nenhuma declaração bombástica que importasse de algum artista saiu dali. Nenhum furo jornalístico que mudou o destino de alguma coisa, nenhum novo artista que emplacou nos últimos tempos pode agradecer por ter sido revelado ao público por essas páginas, nenhum ensaio fotográfico que vá entrar para a história foi publicado.
Então vai ver que é isso mesmo: a função dessas publicações seria apenas a de um elaborado clipping de informações musicais para quem não tem tempo ou se perde no turbilhão da web.
Embora parecidas em muitos aspectos (seções com dicas de moda e de consumo de produtos descolados, calendário e resenhas de shows e de lançamentos e reproduções traduzidas de grandes matérias das revistas mães), as versões brasileiras da Rolling Stone e da Billboard têm pontos fundamentais de divergência. O principal é que a Rolling Stone não se define como revista musical, mas de entretenimento. Tanto que dedica capas a nomes do cinema, televisão, moda, literatura e esporte. Considera suas matérias sobre política e outros aspectos da sociedade um diferencial. Se a matriz americana já conseguiu realizar isso com louvor em alguns ocasiões, o material que foi publicado na filial brasileira ainda não passou de valorosos TCCs. Os perfis de artistas são repetitivos, quase sempre começando com o repórter descrevendo o ambiente em que o personagem foi entrevistado e exaltando o privilégio de estar num lugar onde poucos estariam: camarins do Projac, bastidores de estúdios fotográficos e de gravação, casas ou lugares frequentados pela celebridade.
A Billboard iniciou sua trajetória sob a dúvida de que teria condições de dividir espaço com a Rolling Stone por aqui. Depois de estrear com um formato gigante que atrapalhava um pouco aqueles que guardam a revista, foi fazendo ajustes e agora está no mesmo tamanho da concorrente. Além da forma, optou por um conteúdo mais antenado com a preferência popular. A capa da primeira edição foi o Roberto Carlos. Com a tradição de mais de um século de suas tabelas de parada musical, seu radar parece ser mais eficiente que o da rival, embora não descuide de falar sobre artistas desconhecidos.
Comparando os exemplares mais recentes das duas publicações, que remetem de alguma forma às lutas esportivas, a vitória da Billboard é por nocaute. A edição com Marisa Monte na capa é, graficamente, uma das mais belas revistas já impressas no Brasil. Fotos lindíssimas abertas em tamanho gigante em todas as matérias e por quase todas as páginas: Steven Tyler, Justin Bibier, Bon Jovi, Autoramas, Rashid e Xará. A página dupla com uma foto de arquivo do Foo Fighters seria um pôster se não tivesse um pouquinho adiante das páginas centrais, o que facilitaria destacá-las. A cobertura do festival Planeta Terra recorreu a um clichê (formato de histórias em quadrinhos) mas o resultado é incontestavelmente bacana. A matéria de capa com Marisa Monte, assinada pelo experiente Pedro Só, entra fundo na produção do novo disco da cantora e não fica só nela, trazendo boas entrevistas com os parceiros Dadi e Rodrigo Amarante.
Na rival, a reportagem com a bela Carolina Dieckmann é até um pouco interessante, ousa em escolher uma estrela de novela para a capa, entra no assunto indigesto da briga com o Pânico na TV e na rivalidade com Luana Piovanni, mas falta uma pegada de Rolling Stone. Poderia muito bem estar nas ótimas segmentadas Nova, Claudia, Marie Claire, Elle ou Boa Forma. Já havia acontecido a mesma coisa há um tempo com a matéria de capa dedicada a Mariana Ximenes. Depois de começar com uma estranha associação com um famoso e recluso vizinho de bairro – “Carolina Dieckman é anti-João Gilberto” – a reportagem com a atriz se estende com frases do tipo “Não estou aqui para agradar a todo mundo. Nem para agradar a alguém. Estou aqui para cuidar da minha vida”. Não acrescenta muito, mas vale pelas fotos dela em trajes de boxeadora. Das matérias sobre música, o destaque são as reproduções da matriz sobre o Clash e o Arquivo RS do Red Hot Chili Pepppers.
Mas o que mais chama atenção nas últimas edições das duas revistas é uma ausência. Embora a Billbord tenha um editorial intitulado “Ai, se eu te pego” e a Rolling Stone mencione na retrospectiva do ano o fenômeno musical, agora mundial, do momento, ambas tomaram uma rasteira de uma adversária improvável. Coube à semanal Época a sensibilidade de colocar Michel Teló na capa de uma de suas edições mais recentes. Curiosamente, na capa com Teló a Época se inspirou em capa recente da Billboard Brasil com o sambista Thiaguinho, que por sua vez havia se inspirado numa capa da Vogue com a modelo Kate Moss.
Agora é aguardar as próximas edições e torcer para as duas revistas que ainda se dedicam à música no Brasil travarem uma luta combativa em suas páginas. E que (para o bem dos leitores) termine em decisão por pontos.

O Guilherme Werneck, um dos caras mais antenados e ligados no porvir que conheço, me pediu para que escrevesse um texto para a série sobre o futuro do negócio da música que está sendo publicada no blog dele. Difícil, sobretudo para quem está mais acostumado a olhar para o passado. Mas foi divertido imaginar algumas coisas. Principalmente o aparelhinho da Apple que projetará imagens reais de shows, com os artistas quase se materializando na sala de casa ou qualquer outro ambiente. Leia a íntegra e os textos de outros convidados do Guilherme para a série.
2017: Jobs assombra o mundo com projeção realística de show
O Brasil ganhou um lugar de destaque na nova onda em torno do cantor e músico Ray Charles, que morreu no ano passado aos 73 anos. Em meio à expectativa das indicações do filme que conta a sua vida ao Oscar e ao sucesso do tributo Genius Loves Company, foi lançado na Europa e Estados Unidos um DVD com um registro raro da primeira turnê de Ray Charles no Brasil, em 1963. Com um erro de acentuação no título, Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 mostra dois shows que Charles fez no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no dia 19 de setembro daquele ano.
O registro em preto-e-branco da histórica apresentação foi retirado de um videoteipe exibido três dias depois dos shows pela extinta TV Excelsior, responsável pela vinda do cantor ao País. Além de mostrar Charles num dos melhores momentos de sua carreira, às vésperas de completar 33 anos, o DVD tem um atrativo extra para o público brasileiro: o programa, exibido uma única vez, está exatamente como foi transmitido pela Excelsior, inclusive com os comerciais das também extintas Lojas Erontex, patrocinadoras do show. O lançamento do DVD no Brasil, pela Warner Music, que obteve os direitos do acervo de Ray Charles pouco antes de sua morte, está previsto para o fim de fevereiro.
Briga por audiência
A façanha da Excelsior de trazer o então cantor de maior sucesso no mundo foi resultado de uma briga de emissoras de TV por audiência. Nos últimos anos, a Record reinava absoluta na preferência do público e havia trazido para apresentações em seu teatro grandes nomes da música internacional, como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Tony Bennet, Dizzy Gisllespie, Pepino de Capri, Rita Pavoni e Charles Aznavour, além de astros do cinema como Tony Curtis, Marlene Dietrich e Jane Russell. As apresentações aconteciam no Teatro Record, que ficava na atual “região dos lustres” na Rua da Consolação. Aos poucos, porém a Record estava perdendo terreno para Excelsior, que arrendara o Cultura Artística, um pouco abaixo, na Nestor Pestana, ao lado da Praça Roosevelt, para servir de auditório de seus programas.
Segundo o produtor musical e crítico Zuza Homem de Mello, a Excelsior não poupava esforços para alcançar a concorrente: “Eles estavam com muito dinheiro”, conta Zuza, que conhecera o artista em 1959 nos Estados Unidos e que não foi aos shows em São Paulo por estar trabalhando na Record no mesmo horário.
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Em meio a essa disputa, a chegada de Ray Charles, era uma grande estocada na emissora concorrente, que pouco antes havia protagonizado um dos maiores micos da história da televisão brasileira: anunciara com pompa, durante dias, uma grande atração internacional surpresa, para no dia 31 de março mostrar um sósia e cover de Frank Sinatra vindo dos Estados Unidos.
A brincadeira, ou trote, da Record frustrou o seu público e rendeu várias críticas nos jornais. Com isso, a presença de Ray Charles na Excelsior foi tratada como um acontecimento épico pela emissora. O título do disco lançado para aproveitar a presença do astro no País, por exemplo, – “Ray Charles entre nós” – ecoava referências divinas. Programados inicialmente para junho, os shows acabaram acontecendo somente em setembro. Os anúncios de página inteira publicados à época pelo O Estado de S. Paulo davam o tom da expectativa, com um exclamativo “Ele veio mesmo” como cabeçalho.

Apesar do status de maior estrela a pisar em palcos brasileiros, Charles não deixaria de ter contratempos em sua estada no País. Um deles justamente por conta da briga entre as emissoras. Num lance parecido com a recente exibição pelo SBT de um filme anunciado pela Globo, a Record e a TV Rio, braço da emissora naquele estado, exibiram um vídeo-tape de uma apresentação de Ray Charles no Newport Jazz Festival de 1959. O golpe da Record rendeu uma polêmica. Um “comunicado ao público” da Ray Charles Corporation, publicado no Estado em 14 de setembro, assinado pelo agente Henry Golddrand, dizia que o vídeo fora exibido sem autorização do artista e que uma ação criminal contra os responsáveis seria movida pela empresa.
Denúncia anônima
O outro contratempo, que segundo relatou o Estado no dia da estréia em São Paulo quase ameaçou a temporada de Charles no Brasil, foi originado por uma denúncia anônima. A Polícia Marítima, então responsável pelo controle de estrangeiros, recebeu uma denúncia de que Charles estava no País com visto de turista, o que o impediria de cumprir qualquer contrato de trabalho em território nacional. Para resolver o impasse Charles deveria voltar ao Estados Unidos, se apresentar a um dos consulados brasileiros e ainda apresentar “atestado médico para provar sua capacidade física para o trabalho”. O problema virou caso diplomático e foi resolvido após intervenção da embaixada americana junto ao Itamarati.
Se havia alguma dúvida de sua capacidade física para o trabalho ela foi tirada com os 10 shows que ele fez durante os sete dias que ficou no Brasil. A temporada começou no Rio, com shows no Teatro Municipal e no Maracanãzinho. A passagem por São Paulo começou com os dois shows feitos na mesma noite de quinta-feira no Cultura Artística e terminou com apresentações no ginásio do Clube Paulistano, no fim de semana.
A estréia de Charles, que trouxe uma trupe de mais de 40 pessoas, entre músicos e um quarteto feminino de vozes, as “Raylets”, agitou o centro de São Paulo. Uma multidão ficou de prontidão durante o dia em frente ao Hotel Jaraguá, bem próximo ao auditório da Excelsior, para conseguir autógrafos do ídolo. Mas Charles só deixou o hotel momentos antes do show. Ao chegar ao Cultura Artística, outra multidão o esperava e, após 15 minutos de autógrafos, “somente logrou ingressar no Teatro contando para tanto com a ajuda de elementos da Guarda Civil e da Força Pública”, noticiou o Estado.
A performance daquela noite foi exaltada no dia seguinte no artigo O cantor e seus êxitos: “…foi com a sua grande voz que Ray Charles cantou e conquistou uma platéia, apresentando um repertório que tinha muito de novo e as canções pelo público gratamente relembradas, principalmente “I Can´t Stop Loving You”. Essas apresentações, agora disponíveis em DVD, de certa forma marcaram o fim do investimento das TVs da época em atrações internacionais por causa da alta do dólar, abrindo caminho para a Era dos Festivais. Ray Charles ainda voltaria a São Paulo outras cinco vezes ao longo de sua carreira. Mas já nessa primeira volta, em 1970, a cidade e o seu centro, onde se hospedara e apresentara, já não eram os mesmos. Assim, além da lembrança de um grande artista, o DVD Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 traz como bônus a nostalgia de uma cidade que não existe mais.
Uma noite de boa música na Fundição Progresso
(Publicado originalmente em 22/9/2004 14:25 no grupo de discussões Komuna)
Há quem ache que as canções de Raul Seixas não devam ser interpretadas por outros artistas. No máximo, admitem (não por critérios musicais) que uns poucos escolhidos o façam. Algumas dessas pessoas costumam se recusar até mesmo a ouvir essas versões. E quando isso por acaso acontece não é difícil usarem a palavra heresia para desqualificá-las.
Não eram essas pessoas que estavam na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, em 31 de agosto passado. A maioria dos que lá estiveram parecia adepta de que música, sobretudo as boas, é para ser cantada, seja ela de quem for e por quem for. Esses puderam ver um grande show de música.
Já do lado de fora era possível perceber que se tratava de um público diferente, principalmente daquele que costuma freqüentar eventos ligados a Raul Seixas em São Paulo. O preto predominante nos eventos paulistas dava lugar a um alegre colorido e as pessoas pareciam prontas para uma noite de diversão. Cocotas, patricinhas, surfistas, pittboys, modelos, atrizes, engravatados, descolados, playboys, neo-hippies, semi-clubbers, roqueiros discretos e universitários aos poucos iam enchendo a Fundição.
Poucos com camisetas de Raul Seixas… Ninguém cantando ou gritando suas músicas. Sylvio Passos e Toninho Buda conversavam tranqüilamente perto do palco sem que quase ninguém os reconhecesse. Na área livre, o clima era de descontração, com azaração e paquera. Certa vez Raul Seixas disse que esse tipo público foi o motivo de sua mudança para São Paulo. Sei não…
Talvez o motivo dessa diferença fosse por essas pessoas não estarem lá por causa de Raul Seixas, mas sim pelas vária atrações escaladas. Bastou o show começar para essa hipótese ir abaixo e ver que o dono da festa era mesmo ele. Eram exatamente 22:30 quando Arnaldo Brandão deu os primeiros toques em seu contra-baixo para dar início à Água Viva. Delírio na platéia.
Kika Seixas sai dos bastidores e se mistura anonimamente ao público sem que ninguém perceba. Ela leva as mãos ao rosto e parece bastante emocionada. Fica ali um pouquinho e volta aos bastidores, que – além de artistas e produtores - também estava apinhado de gente com funções indefinidas.
Arnaldo Brandão mal termina Água Viva e já avisa que vai ter que tocar de novo, pois o “Meu Bom” falou que o som não chegava ao caminhão onde estava o equipamento de gravação. Esse tipo de repetição seria uma constante em todo o show. Coisas de TV… Logo depois, ele chama ao palco Rick Ferreira, anunciado como “o guitarrista de todos os discos de Raul”, que canta Clínica Tobias Blues. É a vez então do ator Roberto Bomtempo entrar para dizer alguma coisas e recitar “Prelúdio”. Depois dele vem Toni Garrido, que, ovacionado, canta Gita com forte acompanhamento do público.
Kika Seixas está novamente misturada ao público sem que ninguém ao seu lado se dê conta. Transparece a satisfação por um trabalho realizado. Em seguida entra o Baia cantando Ouro de Tolo. Segundo consta, é um promissor artista. Parece que tem bons serviços prestados na divulgação de Raul Seixas, mas passou meio batido. Até porque o seu sucessor no palco foi o “B. Negão”, um dos pontos altos da noite cantando “É fim do mês”, com o público marcando palmas como num terreiro de umbanda. Ele teve de repetir a música, fez num outro andamento, mas que não se igualou à primeira versão. Tomara que consigam colocar a primeira versão no DVD…
Terminada a sua performance, ele disse alguma coisa em homenagem ao De Falla (um grupo gaúcho) e chamou o Marcelo D2, que teve que esperar um tempão para começar a cantar por causa de novos problemas técnicos.
Na platéia, bem perto do palco, duas moças que estavam ao lado da bela Helena Rinaldi (aquela das raquetadas) e diziam trabalhar em produções desse tipo comentaram que os responsáveis pelo show estavam meio perdidos. Enquanto isso, nos bastidores, Marcelo Nova e Pitty, toda de preto e com ombros à mostra, batiam papo e Lobão chegava com sua trancinhas de índia peruana e um blusão azul da seleção da Holanda. O D2 cantou alguma coisa que não recordo o que era, mas lembro que não ficou muito bom.
Já passavam 45 minutos de show quando começa na platéia o primeiro coro de “Raul, Raul, Raul”. O estopim foi Marcelo Nova, que havia acabado de entrar para detonar com “Pastor João e a Igreja Invisível”, acompanhado de Arnaldo Brandão e Rick Ferreira, já integrados à banda de apoio permanente. Marcelo Nova ainda mandou “Não fosse o Cabral” com outro arranjo e saudou o Rick como “um dos mais experientes guitarristas do País”. Rick então repete Clínica Tobias que ele já havia cantado no começo.
Às 23:30, outro grande momento, com a elegante Zélia Duncan cantando “Metamorfose Ambulante” elegantemente. Ele anuncia então uma outra atração feminina: Pitty. Ela entrou falando “Toca Raul” e mandou bem com “Eu sou Egoísta”. Depois dela, entrou o Lobão, que fez uma versão pesada do Rock do Diabo enquanto brincava imitando trejeitos de Raul Seixas com as mãos e as pernas. Não lembro se ele teve de repetir a performance, mas em algum momento no meio da música ele soltou um “…todos, invariavelmente, vão tomar no cu”…, depois de ter feito algum comentário. Segundo li depois num jornal, o xingamento já estava combinado ou algo assim. Acabada a performance ele chamou o “brother” Arnaldo Brandão, que tocou Água Viva de novo.
O ápice do show estava próximo. Quando Caetano Veloso entrou foi ovacionado pelo público. Com Rick Ferreira na Steel guitar (aquela que parece uma pequena mesinha e que o cara toca sentado), ele cantou Maluco Beleza acompanhado pelo público, que pediu o único bis da noite. Na verdade, o público ficou tão empolgado que mal dava para ouvir a voz de Caetano, problema que provavelmente será corrigido no DVD. Fora o bis, ele ainda teve de cantar uma terceira vez para que pudessem captar melhor a sua voz. Na saída para o seu camarim, ao contrário dos outros artistas, ele teve de parar vária vezes para autógrafos e atender aos vários pedidos de fotos.
Depois de Caetano, ficou difícil para Gabriel, o Pensador conseguir acender o público cantando Rockixe. Essa tarefa ficou para o Nasi, do Ira, que entoou Sociedade Alternativa e, vestido com uma capa do Raul, desenrolou um papel para recitar A Lei. Nos bastidores, o cara do Raimundos vibrava com a toada hardcore que o Nasi deu para a música. Pensando bem, qualquer um que cantasse Maluco Beleza e Sociedade Alternativa estavam destinados a se dar bem. Super conhecidas e com refrões fortes, são praticamente hinos… Assim como Tente Outra Vez, puxada por Sandra Sá em seguida,com a vantagem adicional de a música estar em rede nacional nas propagandas de auto-estima.
Já passa da meia noite e meia e Roberto Bomtempo volta ao palco e entoa Paranóia II. Começam a passar nos telões uns clipes do Raul Seixas (Abre-te Sézamo, Judas e o Dia em que a Terra Parou) o que era um sinal de que ara um intervalo enquanto ajustavam algumas coisas no palco e nos bastidores.
Não lembro se foi antes ou depois disso que Vivian Seixas tocaria, como DJ, uma versão remixada de “Como Vovó Já Dizia”, com a voz de Raul cantando uma versão inédita e censurada da canção. Nos bastidores, ela e uma amiga loira que a acompanharia pareciam bem tranqüilas, ao contrário de Kika, que além da tensão natural de mãe nessas horas talvez pressentisse o risco que a filha corria. Com os primeiros “scratchs” já deu pra notar que o temor não era gratuito. A letra inédita era impossível de ouvir.
Na platéia, alguns comentários chavões do tipo “Raul deve estar se revirando no túmulo”. Apesar disso e dos assovios, o público até que respeitou. Mas não aplaudiu. Seguraram as vaias para o DJ Marlboro, que não foi poupado com sua versão para Rock das Aranha. Pela primeira vez, imagino, o badalado DJ deve ter escutado vaias em sua carreira. De minha parte, não deu nem para saber se a versão ficou boa ou ruim. Kika Seixas então subiu ao palco e falou alguma coisa, que também não consegui ouvir.
A essa altura já estava desfeita a banda com Rick e Arnaldo. As atrações seguintes tocariam com seu próprio equipamento, o que significava intervalo maior entre as apresentações. Para piorar, os caras do Raimundos não encontravam um de seus integrantes e atrasaram ainda mais a sua entrada. Achado o perdido, mandaram ver com versões hard-core de Aluga-se e Não Pare na Pista. Essa segunda ficou muito boa e até o vocalista se surpreendeu com a sua performance, já que nem conhecia direita a música, como admitiu logo após deixar o palco.
Falando nisso, uma pequena curiosidade: todos os artistas tinham a sua disposição no palco o teleprompter (aquele aparelho de vídeo que passa a letra da música). Taí uma coisa que seria muito útil para o próprio Raul Seixas…
Encerrado o Raimundos, entra mais um clipe de Raul: A Maçã, que tem cenas de um casamento “missa negra” com ele e a Glória Vaquer. Lembra o Bebê de Rosemary. Nos bastidores, os produtores preocupados em não estourar o horário, já que ainda havia um monte de gente que ainda tem para se apresentar. Nasi e D2 trocavam idéias e num banco ali fora, acabada a bateria da máquina fotográfica digital e também da Renata, Sylvio Passos, como bom marido, serve de travesseiro para que ela durma em meio a tudo isso. Mais um pouco, iriam embora. Assim deixaram de ver Érika e os Autoramas, com uma moça simpática e bonita cantando Let Me Sing. Divertido. Depois vieram, separados por grandes intervalos, os Detonautas, CPM 22, que foram bem, e Pedro Luís e a Parede, nem tanto. A impressão é que não conheciam direito a música (As aventuras…) e que não tinham ensaiado muito. Tentaram misturar um Luiz Gonzaga no meio, mas não foram felizes. Apesar dos intervalos, o público resistia.
Faltava apenas o Afro-Reggae quando alguém tem uma idéia infeliz e, pior, convenceu a Pitty de que era uma boa idéia. Enquanto arrumavam o palco para os moços dos tambores, colocaram a roqueira baiana sozinha no palco para cantar a Maçã, sem acompanhamento algum, só na voz, com a luz em cima dela no palco escuro. Ao que parece, ela devia conhecer a música mais ou menos, deram para ela escutar nos camarins e convenceram-na a cantar de improviso só com a ajuda do teleprompter. Ela encarou o desafio, mas deu dó. Desafinou, ficou nervosa, mas foi até o fim, apesar dos assovios e vaias. Os fortes abraços de solidariedade que recebeu dos amigos ao sair do palco davam a dimensão da enrascada em que tinha se metido. Apesar disso, não se abalou e ficou mais um tempo por ali batendo papo.
Já eram quase 3 da manhã quando o Afro-Reggae encerrou a noite, com Mosca na Sopa. Durante a desmontagem dos equipamentos, o Baia tomou posse do palco e com sua guitarra ficou tocando músicas do Raul Seixas enquanto os operários trabalhavam. Kika Seixas e Arnaldo Brandão pegavam suas coisas para ir embora. Do lado de fora, com os Arcos ao fundo e o circo ao lado, uma festa de cachorro quente, milho verde e churros ao som de funk carioca. Uma noite divertida. (Edmundo Leite)
(Publicado originalmente em 22/9/2004 14:25 no grupo de discussões Komuna)
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