A primeira vez que vi @ajudeumreporter no twitter pensei que fosse uma daquelas campanhas de solidariedade a um colega em situação difícil. Talvez vítima de algum infortúnio, como doença grave com tratamento caríssimo. Demissão com calote, ameaça de descontentes com suas reportagens, vítima de censura, opressão, injustiça ou agressão foram outras situações que me vieram à cabeça diante do apelo precedido da arroba que praticamente já virou letra do alfabeto. Seria algum conhecido? E mesmo que não fosse, talvez pudesse ajudar. Ou, verdadeiro motivo, apenas matar a curiosidade. Clique imediato.
Apesar de as situações acima não serem raras, nenhuma delas era o motivo da mobilização na rede social do passarinho. Tampouco era um único repórter que precisava de ajuda. Eram muitos. E todos eles precisavam do mesmo tipo de ajuda: encontrar uma fonte para as suas reportagens. (Para quem não está familiarizado com as entranhas jornalísticas, fonte é, resumidamente, como chamamos as pessoas e instituições que são entrevistadas ou dão informações ao repórter para que este produza as suas reportagens).

Após o espanto inicial com a novidade veio a incredulidade: não havia mais pudor de se escancarar para a concorrência o que estava se planejando publicar em seu veículo? Após a incredulidade, um misto de diversão com outro sentimento ainda difícil de definir. Como num daqueles anúncios em que uma pessoa procura um par amoroso, jornalistas procuram alguém para preencher o vazio, não de seus corações, mas de suas pautas.
Assim como os solitários dos classificados idealizam um amor perfeito ["homem, meia idade, sit. financeira estabilizada, procura mulher 25 a 30 anos, loira, olhos verdes, s/ filhos, + 1,70m, p.relacionamento sério. Prefr.BH. Descarto aventuras"], os repórteres que precisam de ajuda também estão em busca do entrevistado ideal:
“…procura pessoa q deteste Legião Urbana.”
“…procura loja ou fabricante de berrante na cidade de SP.”
“…procura pessoas q acordaram após período em coma.”
“…procura alguém q teve piora no rendimento físico por conta de problema bucal.”
“…procura mulher q coma mto chocolate todos os dias e não tenha problemas de saúde por isso.”
“…procura empresas q ainda não saibam como reter talentos, mas tenham planos p/ 2012.”
O resultado da busca pela fonte ideal, aparentemente, tem sido um sucesso. O serviço foi aprimorado e ampliado. Além do Twitter, está no Facebook, virou blog e um site onde jornalistas e fontes se cadastram em busca do encontro perfeito.
Como não me cadastrei, fico a imaginar como seria o flerte entre o repórter e o entrevistado pretendente. Será que, como costuma acontecer nos sites de relacionamentos e salas de bate-papo – dizem (rs) – , as pessoas também se pintam com tintas mais vistosas, dão um verniz a mais em seus perfis? Um repórter de um modesto jornal de pequena tiragem atrai uma fonte incauta com promessas de milhões de leitores? Ou será que um entrevistado tenta dourar a pílula ao descrever seus atributos? “Especialista na área. Declarações polêmicas e inovadoras. Aspas perfeitas”, quando na real se trata de apenas mais um a repetir velhos chavões. As fontes estariam dispostas a relacionamento duradouro ou a uma pauta apenas?
Procurar por possíveis fontes sugeridas na pauta (o planejamento da matéria, como costumamos chamar as reportagens) nem sempre é uma tarefa fácil. E mesmo antes da internet repórteres sempre recorreram a uma rede de amigos, amigos de amigos, conhecidos, e a listas organizadas de especialistas em determinado assunto para conseguir um entrevistado, uma fonte ou, como se diz no jargão das redações, um personagem.
Mais que um entrevistado, é isso o que o repórter que precisa de ajuda procura: um personagem. A apropriação do termo das obras de ficção não significa que as reportagens sejam ficcionais, teatrais, cinematográficas ou fantasiosas. Reportagens que precisam de personagens não são uma notícia em sua concepção clássica, onde um fato é relatado e alguém é entrevistado por ter participado do ocorrido. É algo mais elaborado. É preciso encontrar alguém cuja história ou situação possa ilustrar uma reportagem sobre um assunto maior. Ao contrário do que alguns possam imaginar, esse tipo de matéria não é menos nobre que outras. E muito bom jornalismo é feito nessa área.
É nesse ponto que começa o problema do Ajude um Repórter. Apesar da boa intenção de criar uma ferramenta que aproxime repórteres de possíveis entrevistados, o serviço tem uma distorção em sua concepção ao oferecer fontes sedentas de notoriedade. Os dizeres da página principal deixam claro a visão que se tem do papel da fonte:
“Sua chance de aparecer na mídia.”
“Ganhe exposição na imprensa sem custo.”
“Compartilhe o seu conhecimento. Construa a sua marca.”
Outros textos publicados no blog vão além:
“Não é preciso ter estrutura de comunicação profissional quando você tem o conteúdo que o jornalista quer e sabe exatamente como fazer contato. Hoje, qualquer pessoa pode participar de matérias em pequenos ou grandes veículos de comunicação espalhados por todo o Brasil…”
“Já imaginou sua startup aparecendo na capa de algum jornal? Pode ser um grande impulso para novas oportunidades e sem nenhum custo, afinal.”
Aparecer na mídia é o conceito repetido à exaustão nos textos que explicam ou promovem o serviço, criado por um jovem e bem intecionado RP (relações públicas) que captou recursos pela internet para expandir a ferramenta. O fato de a ferramenta ter sido criada por um profissional que tem entre suas funções promover a imagem de seus clientes ajuda a entender um pouco o porquê desse viés.
Curiosamente, o texto de onde saiu o trecho acima começa falando que a missão do serviço é “democratizar o relacionamento com a imprensa”. A frase pode até lembrar aquelas bravatas de militantes que enxergam a imprensa como um inimigo a ser combatido, mas o Ajude um Repórter está bem longe disso. E até se vale do nome de grandes veículos de comunicação como chamariz (“mídias que usam”) para atrair mais usuários. Com sua vocação empreendedora e colaborativa, de certa forma até ingênua, parece pretender ajudar os “sem-imprensa”, o que poderia ser até um aspecto louvável. Traria novos nomes para o círculo de notícias e debates ao mesmo tempo que possibilitaria aos repórteres ter acesso a nomes que nem saberiam da existência se não fosse a ferramenta.
Pelo lado das redações, pensando num coitado que está atolado num prazo impraticável e em outras pautas diferentes, não há como negar que o site possa resolver uma questão imediata. E é preciso deixar de lado aquela ladainha saudosista e antitecnológica de que “antigamente tinha que ralar e sair na rua para ser repórter de verdade.” Já passou da hora de se reconhecer que também é possível fazer bom jornalismo tirando proveito das inovações tecnológicas.
Mas, diante da obviedade e excentricidade do tipo de fontes e situações procuradas nessa espécie de “disk-fonte”, é inevitável questionar se não há algo de errado do outro lado também. Ao conceber fontes imaginárias na pauta e exigir que se materializem, mesmo com a possibilidade de algumas delas não existirem, não estarão os veículos e os repórteres invertendo o fluxo da reportagem?
Os repórteres estão mesmo precisando de ajuda.
A resistência à interatividade impulsiva, insana e imoderada é uma questão deste blog antes mesmo dele existir. Questão que estava adormecida, mas despertou recentemente.
Igualmente adormecida, uma antiga proposta de princípios de interação passa a vigorar por aqui:
Além do Código de Conduta do Estadão, a interação neste blog segue estes princípios
Além do Código de Conduta do Estadão, a interação neste blog segue estes princípios:
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Primeiro relato publicado no portal Estadão sobre os atentados
Os atentados terroristas de 10 anos atrás em Nova York e Washington representam para a internet o mesmo que a chegada do homem à lua significou para a televisão no fim dos anos 60. Nos dois casos, as tecnologias – de transmissão ao vivo por satélite e de compartilhamento online e digital – já estavam disseminadas há algum tempo. Mas passaram a ser protagonistas da história ao permitir que uma massa planetária de pessoas, mais do que ser informada do fato histórico em seu exato momento, experimentasse as possibilidades da comunicação de uma maneira jamais vista.
Mesmo com a TV ainda mantendo a ponta ao transmitir ao vivo o choque dos aviões, o desabamento das torres e o sofrimento das vítimas, a internet mostrou a que veio com todas as suas possibilidades a partir daquela manhã de setembro. Pouco depois do atentado, um conteúdo sem igual passou a ser publicado na rede, não só pelos tradicionais responsáveis por informar, mas pelas próprias pessoas em vários lugares do mundo. Com o passar dos dias, esse conteúdo cresceu ainda mais e ia desde fotos e vídeos exclusivos dos atentados a teorias conspiratórias e brincadeiras. A mais famosa, a do Tourist Guy, um turista que teria sido fotografado no topo de uma das torres momentos antes do choque do avião.
A maior parte desse conteúdo se perdeu. Uma ou outra coisa ainda pode ser encontrada como originalmente publicada. Passados alguns anos, todo aquele gigantesco conteúdo se dispersou no ar como a poeira que no primeiro momento cobriu Nova York. A despeito de seu desenvolvimento tecnológico, a internet ainda não resolveu como irá preservar a sua memória. Paradoxalmente, é mais fácil encontrar uma informação publicada por um jornal em papel há um século do que achar o que foi publicado exclusivamente no formato digital naquele 11 de setembro.
Publicações exclusivamente digitais que deixaram de existir, como o memorável NoMínimo, não contam com bibliotecas ou arquivos digitais para guardar seus conteúdos para a eternidade como acontece até com obscuras edições que circularam precariamente em papel. E mesmo publicações que continuam existindo digitalmente ainda não se preocupam em preservar seu conteúdo digital com os mesmos parâmetros adotados para o papel. Aqui no Estadão, por exemplo, apesar de ser possível encontrar parte dos textos da cobertura digital de 11 de setembro de 2001, perdeu-se todo o esforço multimídia originalmente realizado naqueles dias.
Já existem algumas iniciativas no sentido de mudar esse cenário , como o Archive.org, de onde foram garimpados os arquivos desse post, e instituições pensando no assunto, como a Biblioteca do Congresso Americano, que criou um programa de Preservação Digital. Mas enquanto não surge uma solução, a internet vai se virando como aquele personagem principal do filme Amnésia, que fotograva com Polaroid, escrevia bilhetes e tatuava o próprio corpo para relembrar de fatos recentes do qual se esquecia rapidamente.
Nesse aniversário de 10 anos dos atentados, mais um turbilhão de informações sobre o assunto volta ser publicado na web, grande parte relembrando coisas que poderiam estar à mão em um clique. No mundo digital, não é preciso um ataque de aviões para derrubar edifícios sólidos.
Terça-feira, 11 de setembro de 2001 - 10h25

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Fragmentos da seção especial criada naquele dia e alimentada
por um longo período ainda podem ser vistas no Archive.org
# Veja quais eram as notícias publicadas pelo Estadão pouco antes dos atentados
# Em memória de um outro crime, de João Moreira Salles (NoMínimo)
Houve um tempo – e não faz muito tempo – que a internet era uma novidade. Mas já naquela época (estamos falando da segunda metade dos anos 90) o número de informações disponíveis era gigantesco. Garimpar coisas legais e relevantes em meio a tanta coisa – assim como hoje – era tarefa difícil.
Não para um jovem jornalista da Agência Estado de faro apurado, que se embrenhava nas entranhas da rede e fóruns de discussão para levar os assuntos mais variados aos leitores do extinto domínio agestado.com.br com uma pegada que só um escritor de mão cheia que é podia ter. A seção de ciência e tecnologia que ele tocava junto com outros nomes era blog antes mesmo de blogs existirem.
Não demorou para o estilo, salpicado de pitadas de ironia, conquistar cada vez mais leitores e admiradores, além de provocar algumas polêmicas de vez em quando. Mais adiante, virou uma seção própria que perdurou por anos e acabou não sei bem por qual motivo.
Além das ciências classudas e pop, a paixão pela ficção científica, literatura, cinema volta e meia davam a cara nos textos, que impressionavam pela qualidade e pela rapidez com que eram produzidos, apesar de uma curiosa datilografia de um dedo só.
Vasculhando os arquivos para esse post, encontrei um texto daquele ano pioneiro que viria a se repetir 14 anos depois, mas dessa vez com o próprio jornalista como protagonista: a viagem a Antártida.
Poderia estender esse post relembrando coberturas, textos e histórias, mas não é preciso tudo isso quando basta dizer que Carlos Orsi é um dos profissionais mais brilhantes com quem já trabalhei. Vai fazer falta por aqui, mas seu novo blog e livros devem pintar logo por aí.
# Carlos Orsi Martinho no Mundo Virtual (Agência Estado – 2000)
# Carlos Orsi Martinho na Wikipédia
# Livro de Carlos Orsi disponível para download gratuito

Clay Scholz e Edmundo Leite
Navegar pela ferramenta Google Earth, que permite visualizar localidades de todo o mundo através de fotos de satélite, pode resultar em algumas surpresas. Uma delas é a da imagem acima, que mostra um dirigível entre dois dos mais famosos edifícios do centro de São Paulo: o Copan e o antigo Hilton Hotel, ambos na avenida Ipiranga.
Na foto do satélite, a forma ogival do dirigível - que sobrevoa a cidade fazendo propaganda da marca de pneus Goodyear e gera algumas imagens para transmissões de TVs - aparece exatamente sobre a avenida, compondo um quadro de formas geométricas com o sinuoso edifício projetado por Oscar Niemeyer e a torre cilíndrica que já foi sede de um dos mais importantes hotéis da cidade, atualmente vazio.
Na imagem abaixo, captada pelo fotógrafo do Estado Renato Luiz Ferreira, é possível ver por outro ângulo o mesmo dirigível se aproximando dos edifícios.
(texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 06/8/2006)
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