No calendário da música, o tempo raramente corre de acordo com as folhinhas. Aquilo que chamamos de anos 80 não começou quando 1979 acabou. Levaria ainda dois anos para a aurora da nova era eclodir, já que 1980 e 1981 são uma espécie de lapso temporal. Um buraco negro a ser explicado por uma teoria da relatividade musical, pois 70 certamente também não são. Foi no verão de 1982, há exatamente 30 anos, que os 80 chegaram com Você Não Soube Me Amar, o alegre hit da Blitz que tomou conta de um país que acabara de chorar por Elis Regina e ainda derramaria uma Itaipu de lágrimas com a eliminação da seleção canarinho da Copa do Mundo da Espanha.

Escutar o garotão boa-praça Evandro Mesquita e as deliciosas Fernanda Abreu e Marcia Bulcão dialogarem naquele jogo de sedução era um alento de felicidade. Até o mais ranzinza dos tios soltava um risinho depois de ouvir o rapaz imitando o Chacrinha dizer que tava tudo muito bom, tudo muito bem, mas o que ele queria mesmo era ver a garota “nuuaaa”. O refrão que explodia em seguida pegou mais que “nossa, nossa, assim você me mata”. A molecada pirava. Para uma geração, foi a introdução na música adulta. Chega de Arca de Noé, de pato pateta que pata aqui e pata acolá e de coleção Disquinho. Eu preferia é que vocês me dessem um disco da Blitz.
A colorida e despojada trupe de Evandro e sua boa música abriram o caminho para que a indústria fonográfica apostasse numa autêntica renovação artística. Mais que o surgimento de novos nomes, o que aconteceria a partir dali mudaria os rumos da música. Seus efeitos irradiariam na nova canção sertaneja, e nos seus cabelos. Transformariam a música regional, o carnaval e até o samba. Ao contrário da Jovem Guarda, que dez anos depois era apenas doces recordações (ninguém mais a escutava), os 80 mostram um fôlego de um trintão enxuto.
O Estado de S.Paulo – C2 + Música – 18/2/2012
Documentário conta a história de “Você Não Soube me Amar”
Nenê, 50 anos de rock, na TV Estadão
O rock engatinhava no Brasil no finzinho dos anos 50 quando um empresário foi assistir ao ensaio de um dos primeiros conjuntos que se formavam em São Paulo seguindo a onda que tomava o mundo de assalto.
Um guitarrista faltou e, para não perder a oportunidade, os rapazes improvisaram. O baterista assumiu o lugar do guitarrista furão, mas precisavam de alguém para as baquetas. Não tendo outra opção, o irmão caçula do baterista, que sempre ficava assistindo aos ensaios, foi escalado. O improviso deu certo e, por sugestão do empresário, o moleque de 12 anos foi efetivado no grupo. O recém-nascido “The Rebels”, que ainda naquele 1959 gravaria seu primeiro disco compacto, ganhava um novíssimo integrante: Nenê.
50 anos depois, o caçula do Rebels ainda é chamado pelo mesmo apelido. Trocou a bateria pelo contrabaixo, o Rebels pelos Incríveis e a inocência de garotinho por uma carreira de sucesso e polêmica no rock brasileiro. Essa trajetória é lembrada agora pelo músico no livro “Os Incríveis Anos 60, 70… e eu estava lá“, da editora Novo Século.
Com o bom-humor que é uma de suas marcas, Nenê relembra a iniciação precoce de um menino no show business junto com os Rebels e, mais adiante, narra as aventuras de gravações, shows e viagens nacionais e internacionais com os Incríveis, uma das bandas de maior sucesso no rock brasileiro dos anos 60 e início dos 70, com hits como Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e Os Rolling Stones, O Milionário, O Vendedor de Bananas e a polêmica Eu te amo meu Brasil, de autoria de Dom, da dupla Dom e Ravel, pela qual o conjunto seria acusado de colaborar com a ditadura militar.
A carreira de músico após o fim dos Incríveis também é lembrada, com histórias sobre o disco e a temporada de shows com Elis Regina, em 1979, e a mítica apresentação de Raul Seixas em um garimpo no interior do Pará em 1985. E também a participação como ator na novela Cinderela 77, protagonizada por Ronnie Von e Vanusa, da qual também foi responsável pela trilha sonora, além de um relato sobre os meses em que morou no Alasca.

Nenê, posando de guitarrista, com os Rebels

Nenê, na bateria, com os Rebels

Com os Incríveis, no contrabaixo (centro)
# Nas livrarias:
Arte Pau Brasil | Cultura | Fnac | Martins Fontes | Novo Século | Saraiva | Livraria da Travessa |
# Discografia dos Incríveis (site Jovem Guarda)
Revendo algumas coisas do Arnaud Rodrigues, acabei me deparando com esse dueto da Elis Regina com o Chico Anysio:
Na sede de uma grande empresa em São Paulo, duas colegas conversam enquanto uma delas copia as músicas de um CD para o seu computador:
– Que CD é esse?
– É um CD com músicas feitas pelo Paulo Coelho…
– Paulo Coelho!? Deix’eu ver…
Após alguns segundos de silêncio olhando a relação de músicas na contra-capa, a segunda se surpreende:
– Então quer dizer que eu gosto do Paulo Coelho!?
Além das conhecidas parcerias com Raul Seixas (“Gita”, “Al Capone”, “Há Dez Mil anos Atrás”), o disco “Paulo Coelho – o compositor” (Universal) traz faixas com letras de composições do escritor com artistas dos mais variados estilos, como Rita Lee, Zé Rodrix e Rosana. E também duas das clássicas versões que fez: ”Sou Rebelde” – que estourou no fim dos anos 70 na voz de Lilian – e “Me deixas Louca”, última gravação de Elis Regina, em 1982. Só faltaram as divertidas “Arrombou a Festa I e II”, composições originais com Rita Lee, e “Abaixo a Cueca”, com Zé Rodrix.
Se o disco lançado pela Universal causa pequenos espantos como o descrito no diálogo real acima, um outro lançamento relacionado ao escritor está provocando abalos maiores, especialmente entre fãs mais exaltados do roqueiro baiano. Escrito pela jornalista carioca Hérica Marmo, o livro “A canção do Mago – a trajetória musical de Paulo Coelho“, narra detalhes inéditos do período em que o mago e o “Maluco Beleza” eram “inimigos íntimos”, como ambos definiam a parceria.
Palavras proibidas
Há anos Paulo Coelho vem dizendo que parte de seu sucesso como escritor se deve ao fato de que “aprendeu a escrever de maneira simples e direta fazendo música com Raul Seixas”. Porém, pouca coisa além disso foi dita por ele sobre a dupla que causou barulho nos anos 70 com letras que iam do deboche ao afronte e cheias de odes esotérico-libertárias numa época marcada pela repressão.
O motivo da resistência do fenômeno da literatura em tocar no assunto seria a participação de ambos em entidades esotéricas nada ortodoxas. Algum tempo atrás, o escritor contou que havia escrito um livro sobre esse período, mas que se desfez dos originais após sua mulher receber um sinal de que a história evocava coisas ruins. E se há algo que Paulo Coelho realmente dá importância são a esses tipos de sinais, como mostra o capítulo do livro em que a autora aborda a superstição do mago e como os amigos se divertiam com isso, repetindo “palavras proibidas” perto dele: “bastava ouvir uma palavra perigosa para o ritual começar. Paulo Botava a mão no rosto, fazia careta e pedia, virando a mão em sentido anti-horário: – Desfaz, desfaz… Em seguida batia várias vezes no pedaço de madeira mais próximo, isolando o mau agouro.” Roberto Carlos perde.
Cantor
A resistência do mago em falar sobre o assunto que desperta mais curiosidade de fãs foi quebrada pela autora do livro, que dissecou os dez anos em que o escritor trabalhou nos bastidores da indústria da música e traz revelações surpreendentes. Como o dia em que Roberto Menescal, então executivo da gravadora Phonogram (atual Universal), cansado do cada vez maior descontrole de Raul Seixas, vislumbrou a possibilidade de transformar o parceiro descoberto pelo artista baiano em cantor:
“- Você toparia se lançar como cantor? você cantando as suas músicas? Paulo, que não era de fugir de nenhuma novidade, topou na hora. Menescal pegou o violão e começaram a experimentar. Mas não demoraram muito para reconhecer que não daria certo. Fora a voz de pouco alcance, Paulo não tinha o carisma de Raul. Não funcionava como vitrine. Mesmo assim, o diretor artístico não desistiu da idéia de ter o letrista como seu funcionário…”
Maluco Beleza
Mas não é nenhum dos várias fatos narrados – as armações como a do falso encontro com John Lennon para se promover na imprensa, a prisão do letrista pelo Dops, o envolvimento com drogas estimulado por Paulo, a revelação de que algumas letras foram inteiramente escritas por Paulo Coelho e a aparente inversão de personaldidades de ambos – que mais está causando um gosto indigesto entre os fãs de Raul.
É do prefácio escrito por Menescal, que saiu a frase mais polêmica do livro até agora. “Aos poucos fui entendendo o jogo e vi que o maluco beleza era Paulo. E Raul, cada dia mais ‘maluco’ que ‘beleza’”, escreveu o autor do clássico da bossa nova “O Barquinho” no início do texto sobre o amigo. E para não deixar dúvidas do que era isso mesmo que estava dizendo, reforçou no final: “Agora sei um pouco mais do que vivi naquela época que foi umas das melhores fases da história da MPB e de um dos seus mais importantes representantes, nosso querido, e o verdadeiro ‘maluco beleza’, Paulo Coelho”, finaliza. (Para os não iniciados na vida e obra de Raul Seixas: a canção com cujo título o cantor é mais comumente designado é uma parceria com Claudio Roberto, justamente após o primeiro rompimento do mago e do magro).
Rap de bandido
Mas o livro não se restringe a narrar as peripécias da parceria com Raul Seixas. Estão lá, entre outras aventuras, a paixão por Rita Lee durante a breve parceria, a facilidade com que fazia letras e versões para quem quer que fosse – de Sidney Magal a Vanusa, de Fábio Júnior a Rosana – a frustrada temporada de alguns meses em Londres na tentativa se tornar escritor. E até a composição anônima de um inusitado e pioneiro rap de bandido, a “Melô do Mão Branca”, de 1980, sobre um justiceiro que atuava na Baixada Fluminense e era sucesso nas capas dos jornais populares da época:
Ratatapá papá
Zin cat pum
São coisas que você tem que se acostumar
Essa é a música
Que toca a orquestra do Mão Branca
Botando os bandidos para dançar
Com essa e outras histórias, a autora vai mostrando que Paulo Coelho era pop – e sucesso – muito antes de se tornar escritor. E termina com a sucessão de sinais – entre eles a morte de Elis Regina – que o levaram a abandonar a música para seguir o caminho que o levaria ao sucesso mundial. Mas o livro é sobre música e, focada, a autora encerra sua história por aí. Os fãs do mago que querem mais detalhes sobre esse caminhos posteriores terão que esperar a aguardada biografia que está sendo finalizada pelo escritor Fernando Morais, a sair pela Editora Planeta nesse fim de ano. E os do Maluco Beleza, pela merecida – e demorada – biografia que está por vir.
# Publicado originalmente no Estadão com o título “Livro e CD resgatam Paulo Coelho compositor“
Ouça a cantora Lilian cantando “Sou Rebelde“
Ouça Sonia Santos cantando “Porque“
Ouça Elis Regina cantando “Me Deixas Louca“
Ouça Chitãozinho & Xororó cantando “Medo da Chuva“
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