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Edmundo Leite

A eliminação do Brasil da Copa América sem acertar uma cobrança na decisão por  pênaltis  deixou muita gente indignada. “Como pode um jogador profissional errar desse jeito?” é a pergunta mais comum ouvida por aí nessa segunda-feira de ressaca paraguaia. Pelo que li, o feito do time de Mano Menezes é inédito. Pelo menos em jogos. Em treino não é. Na Copa de 2002, na Coréia e no Japão, os craques de Felipão conseguiram perder oito num treino antes do início da competição.

O Estado de S.Paulo – 30/5/2002

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Nas vésperas da final da Copa do Mundo de 2002, um enorme grupo de jornalistas ficava reunido no saguão do hotel onde a seleção brasileira se hospedava em Yokohama aguardando a saída do time de Felipão. Como acontece sempre nessas situações, as esperas eram longas e acabavam virando bate-papos sobre os assuntos mais diversos em grupos que se espelhavam pelo amplo salão.

Num desses grupos, um repórter francês da revista France Footbal perguntou aos colegas brasileiros porque não havia nenhum jornalista negro do país entre dezenas de profissionais que cobriam a seleção do Brasil, quando boa parte do time que estava prestes a se tornar pentacampeão era formada por negros.

Após alguns segundos daquele silêncio constrangedor, alguém arriscou a começar uma explicação. Falou da desigualdade social, enquanto outro lembrou do passado escravista, das falhas do sistema educacional, da dificuldade que muitos pobres tem para ingressar na universidade e que por isso nas próprias faculdades não havia muitos alunos negros.

Oito anos depois, a seleção brasileira parte para tentar o hexacampeonato num país que durante anos foi marcado por um dos mais violentos regimes de segregação racial. O apartheid que por quatro décadas  restringiu os direitos da população negra no África do Sul terminou em 1990. Desde então, o país tenta diminuir a desigualdade social provocada pelo regime racista.

O Estadão desta terça-feira de convocação para a Copa da África do Sul traz um texto de Marco Antonio Rezende informando que políticas sociais, entre elas um amplo programa de inclusão racial do governo – Black Economic Empowerment (BEE)  – estão criando uma nova classe média negra no país:

“… O programa de maior impacto é o BEE, destinado a inserir a maioria negra na economia capitalista. Bastante polêmico quando foi criado – seus detratores diziam que espantaria investidores e desestimularia o empreendedorismo – hoje é parte da vida cotidiana do país.

Para vender para o governo ou participar de concorrências publicas, as empresas tem que ter o certificado de adequação ao BEE. Para isso, têm que cumprir sete critérios, entre eles cotas de negros na média e alta gestão, fornecer cursos de formação para gerentes e executivos negros e comprar produtos ou serviços apenas de outras empresas igualmente certificadas com as normas do BEE.

As grandes corporações têm que ceder em média 25% do seu controle a acionistas negros. As empresas 100% subsidiárias de empresas estrangeiras estão isentas da obrigação da cota no controle acionário. …”

Aqui no Brasil, onde desde 2003 existe uma Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com status de ministério, estudo recente da Fundação Getúlio Vargas indica que 53% dos negros do país estão na classe média.  E no mês passado o Supremo Tribunal Federal promoveu debates antes de começar a julgar duas ações contra a política de cotas raciais em universidades públicas. O Supremo ainda não definiu a data para julgar as duas ações.

Em 2002, no Japão, a pergunta do jornalista francês sobre a diversidade racial entre seus colegas brasileiros ficou sem uma resposta convincente. Nessa copa de 2010 não é difícil que a situação se repita na África do Sul. A imprensa brasileira, apesar de recorrentemente abordar assuntos sobre diversidade e outras questões raciais em suas páginas, ainda está longe de ser um exemplo no assunto.

Para ficar no exemplo da casa que abriga esse blog, nos três veículos que ocupam duas amplas áreas de redação em único andar é possível contar nos dedos – de uma só mão – o número de negros entre quase 500 jornalistas que dão expediente ao longo do dia nas mais diferentes tarefas e funções de escrever, editar, diagramar e fotografar.

Já em outros setores, como na gráfica ou nos setores de serviços terceirizados que cuidam da limpeza e do transporte a situação é inversa. Não tenho dados para afirmar que os negros são a maioria nessas funções. Mas qualquer um que tiver a oportunidade de fazer uma visita aos diversos setores de uma empresa jornalística no Brasil poderá constatar a situação.

Gilberto Gil cantou anos atrás, em “Tradição”, um “tempo que preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha”. Felizmente, isso não existe mais. Os próprios clubes sociais quase já não existem mais. Assim como ficou para trás o tempo em que  times de futebol não admitiam negros em seus quadros.

Dia desses esteve por aqui o grupo de samba Revelação. Desconhecido por quase toda a redação, mas sucesso em todo o País, o grupo falou da carreira, do sucesso, do lançamento do CD e do DVD “Ao Vivo no Morro” e também cantou algumas músicas.

Uma rara chance de se ver negros dentro de uma redação no Brasil.

Revelação_1

Revelação_2

Revelação_3

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11.07.2008

Se alguém ainda acredita naquele papo de Olimpíadas como integração dos povos e culturas através do esporte, a decisão do governo chinês de proibir os restaurantes locais de servir pratos com carne de cachorro deu mais uma demonstração de que os ideais do Barão de Coubertin são coisas de um passado distante. Embora cobrar espírito olímpico de um país onde impera o autoritarismo possa até ser burrice, é difícil entender a decisão, adotada para “evitar conflitos”, nas palavras de uma autoridade chinesa. Leia a íntegra

Menu de restaurante na Coréia do Sul, em 2002, oferece  carne de cachorro
Menu de restaurante na Coréia do Sul, em 2002, oferece carne de cachorro

A simpática coreana e as entradas: petiscos de carne canina na vasilha retangular
A simpática coreana e as entradas: petiscos de carne canina na vasilha retangular

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10.fevereiro.2005 19:16:24

Fazer jornalismo na internet

1995-2005

10anos_internet

Fazer jornalismo na internet

por Edmundo Leite

“… A nostalgia, como sempre, havia apagado as lembranças ruins e aperfeiçoado as boas. Ninguém se salvava de seus estragos…” (Gabriel Garcia Márquez, em Viver para Contar)

Fato corriqueiro nos dias de hoje, as primeiras coberturas jornalísticas com enviados especiais voltados exclusivamente para a internet provocavam estranhamento nos colegas repórteres, principalmente de jornais impressos. Em janeiro de 2000, pude ver essa reação ao fazer a cobertura do torneio pré-olímpico, em Londrina, quando a seleção brasileira sub-23 comandada por Wanderley Luxemburgo garantiu vaga para a Olimpíada de Sidney que seria realizada alguns meses depois.

Até então, a Agência Estado já havia contado com enviados exclusivos para a internet na Copa do Mundo de 1998, na França, e na Copa América de 1999, no Paraguai. Ainda assim, era comum a curiosidade, e às vezes a desconfiança. “E se você tiver um furo, vai publicar para todo mundo ficar sabendo e dar também?”, perguntou um repórter de um jornal nos primeiros dias, revelando como muitas vezes nos preocupamos mais com a concorrência do que com o leitor. Um outro comentou que, ao ligar para o seu jornal para fazer um breve relato dos fatos do dia, ouviu como resposta de seu editor que ele já tinha lido as notícias no site da Agência Estado.

A desconfiança, no entanto, não vinha só dos colegas, mas também dos entrevistados: “Vai sair onde?”, perguntavam alguns jogadores e integrantes da comissão técnica para depois se mostrarem surpresos, e algumas vezes até desdenhosos, com a resposta de que a reportagem não estaria em nenhum meio impresso. Alguns mais curiosos até se interessaram em saber que uma notícia poderia ter mais leitores que a de um grande jornal impresso e que leitores de qualquer lugar do mundo poderiam lê-la. Mas no geral, quando não ignoravam totalmente a internet, mostravam-se reticentes.

Se hoje é comum ver jogadores, principalmente da seleção, com seus laptops durante viagens, naqueles primeiros dias de 2000 apenas alguns poucos se arriscavam com a rede. A situação também se estendia à comissão técnica, que todo dia nas primeiras horas da manhã destacava um de seus integrantes para buscar os jornais na banca em frente ao hotel onde a seleção se hospedava. Sondando para saber se acessavam a internet, soube que pouco ou quase nunca faziam.

Infelizmente, para alívio dos colegas e prejuízo dos leitores, não tive grandes furos de reportagem para relatar. Mesmo assim, era gratificante contar os fatos, os bastidores e o clima daquela campanha logo depois do acontecido. Algumas vezes, por conta do horário, com autonomia até para publicar diretamente em nosso site notícias que havia acabado de redigir. Como numa noite de sábado em que a comitiva da seleção tomou para si uma estrada da região ou o chilique protagonizado por Luxemburgo na véspera da decisão.

Dois anos depois, na cobertura da conquista do pentacampeonato mundial pela seleção brasileira na Copa do Mundo na Coréia do Sul e no Japão a realidade era outra. Enviados exclusivos para cobertura pela internet por outros veículos já eram vários.

E mesmo os profissionais que não estavam voltados para o “online” já não viam mais a internet com desconfiança, incorporando-a com uma importante ferramenta para o seu trabalho. O fuso horário de 12 horas também acabou fazendo da internet, no caso brasileiro, o meio com as notícias mais quentes, já que os veículos impressos ficariam com um dia de defasagem.

Apesar dessa realidade, a Fifa ainda não reconhecia a sua dimensão, chegando a restringir o credenciamento de profissionais de veículos que não tivessem um braço impresso.

Além de serem em maior número que antes, os jornalistas voltados para a cobertura pela internet agora contavam com um aparato tecnológico que ia de câmaras de vídeo e gravadores digitais a laptops com conexão sem fio. Recursos que ampliaram as possibilidades da maneira de noticiar os acontecimentos daquela histórica conquista.

Essa evolução tecnológica, no entanto, não mudou a maneira principal de como esses relatos muitas vezes eram enviados à redação para a publicação: um telefonema, seja de um moderno celular ou de um simples telefone público, para contar o fato que ainda estava fresco, como o momento que o capitão Émerson caiu em campo num treino recreativo na véspera da estréia da seleção. Horas depois, ele seria cortado para dar lugar a Ricardinho. Nas três horas que se passaram entre o tombo e o corte, por exemplo, várias notícias mostravam a evolução do caso.


10 anos de jornalismo online

Com o fuso horário de 12 horas inviabilizando a cobertura noticiosa pela edição impressa dos jornais, que tiveram que se adequar a uma nova abordagem que não ficasse restrita ao factual, um meio termo foi adotado pelo Estadão na Copa de 2002. Além do noticiário na internet e da cobertura mais densa da edição impressa, os leitores puderam contar com uma edição extra online. Assim, durante um mês, uma edição especial diária era produzida pela redação do portal em formato eletrônico, mas com uma diagramação do formato papel, trazendo um resumo do que tinha acontecido na madrugada.

Mas esses anos de jornalismo na internet não foram só de grandes eventos e coberturas externas. A cada avanço tecnológico, as possibilidades se expandiam e muitas vezes éramos tomados pela empolgação. Assim foi que, em 1996, nos primeiros dias de implantação do sistema editorial que permitia publicar notícias com rapidez até então desconhecida, nos vimos – eu e o Robson Pereira – cobrindo um jogo de vôlei ponto a ponto, com cada um ficando responsável por noticiar a pontuação de um time. Já no segundo set desistimos da empreitada, nos limitando ao resultado final de cada tempo.

Numa outra ocasião, num apagão nacional que aconteceu em março de 1999, quando a redação ficou com energia graças a um gerador, ficamos publicando notícias que levantávamos por telefone, enquanto alguns riam, dizendo que ninguém podia nos ler por causa do blecaute. O resultado, no entanto, foi compensador. Quando as luzes voltavam gradativamente ao resto do país, já contávamos com um amplo noticiário sobre o apagão, suas causas e repercussão.

Com o crescimento da internet nesses anos, não demorou para que as notícias fossem descobertas na própria rede, já que cada vez mais as pessoas e as empresas passavam a ter também uma existência virtual. Foi assim que, numa madrugada de julho de 1999, pudemos noticiar que o recém inaugurado site oficial da Confederação Brasileira de Futebol era na verdade da Nike, patrocinadora da seleção brasileira, que não escondia na internet o que negava no “mundo real”. O site saiu do ar no dia seguinte, para voltar depois sem a assinatura da empresa.

(Texto originalmente publicado em 2005 no Estadão.com.br)

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(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 24 de junho de 2002)


Edmundo Leite


Saitama, Japão - Ronaldinho Gaúcho está garantido na final da Copa do Mundo, se o Brasil conseguir passar pela Turquia na partida desta quarta-feira pela semifinal da competição. O meia brasileiro foi julgado neste domingo pela Comitê Disciplinar da Fifa e cumprirá apenas um jogo de suspensão pela expulsão na vitória contra a Inglaterra. Ronaldinho poderia pegar mais um jogo como punição, mas foi apenas multado em 3.500 francos suícos, cerca de US$ 2.300.


A punição financeira foi comemorada pelo jogador, um dos destaques do Brasil na vitória sobre os ingleses ao lado de Rivaldo e que havia considerado injusta a sua expulsão, depois de cometer falta no lateral inglês Mills. “A minha expectativa era de que ficasse em um jogo mesmo, pois não tive intenção de machucar o adversário”, disse o atleta do Paris Saint-Germain, que na véspera declarou que a falta era apenas para cartão amarelo. “Mas também esperava que viesse alguma punição financeira, como havia acontecido com o Rivaldo na primeira fase”.


A multa de Gaúcho, no entanto, não chegou nem à metade da imposta a Rivaldo, punido pelo Comitê de Arbitragem por ter simulado que havia tomado uma bola na cara no jogo contra a Turquia, quando tinha sido atingido na perna. Pela encenação, Rivaldo teve de pagar 11.500 francos suíços.


Feliz pela posssibilidade de disputar o jogo decisivo da Copa do Mundo, Ronaldinho lamenta apenas o fato de poder ajudar o time apenas do banco, nessa partida decisiva contra a Turquia. Mas garante que incentivará bastante os companheiros e quem entrar em seu lugar para que o Brasil consiga a classificação.


No jogo contra a Inglaterra, Ronaldinho Gaúcho marcou o gol da virada no início do segundo tempo e ainda havia feito o passe para Rivaldo empatar o jogo nos acréscimos do primeiro. Agora, para tentar repetir o bom desempenho, Gaúcho terá de esperar que os colegas não o decepcionem.

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(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 23 de junho de 2002)

Edmundo Leite

Saitama, Japão - Os dias seguintes aos jogos da seleção brasileira são de viagem e mudança de casa. Se no último trecho a equipe havia optado pelo trem bala, o deslocamento dessa vez – entre Hamamatsu (Shizuoka) e Saitama – foi de ônibus. E viagem significa acordar cedo. Por volta das nove da manhã deste sábado, a delegação já estava em dois ônibus para enfrentar quatro horas de estrada. Mais demorado, mas compensador pela tranqüilidade de não tumultuar uma estação de trem, um local importante na rotina dos japoneses, que contam com uma vasta rede ferroviária que corta praticamente todo o país.

Essa foi a nona viagem da seleção desde que o time saiu de São Paulo, dia 12 de maio, para Barcelona. Depois do amistoso com a Catalunha, o time de Felipão foi para Malásia, com uma escala de abastecimento em Riad, na Arábia Saudita. De Kuala Lumpur, o time viajou para Ulsan, na Coréia do Sul, onde ficou até o terceiro jogo na Copa. Nesse período, o time ainda fez uma viagem de avião para a Ilha de Jeju, onde enfrentou a China, e depois seguiu para Seul, para a disputa do jogo contra a Costa Rica, na vizinha de cidade de Suwon.

Com a confirmação do primeiro lugar do grupo, o time se despediu da Coréia e embarcou para Kobe, onde enfrentou a Bélgica e de onde partiu de trem para Hamamatsu. Agora, restam apenas duas viagens, apenas uma delas com destino certo: a da volta para o Brasil. A primeira pode ser para Yokohama, local da final do Mundial, ou para Daegu, na Coréia do Sul, destino das seleções que perderem as semefinais e irão disputar o terceiro lugar. A confirmação do bilhete só depende do desempenho do time.

Sem treino – Pela primeira vez desde a chegada na Coréia, a comissão técnica optou por não fazer um treinamento com os reservas no dia seguinte ao jogo. Neste sábado, todos foram para a piscina. Antes de cair na água, os reservas tiveram que fazer uma corrida na pista dentro do hotel.

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