Primeiro relato publicado no portal Estadão sobre os atentados
Os atentados terroristas de 10 anos atrás em Nova York e Washington representam para a internet o mesmo que a chegada do homem à lua significou para a televisão no fim dos anos 60. Nos dois casos, as tecnologias – de transmissão ao vivo por satélite e de compartilhamento online e digital – já estavam disseminadas há algum tempo. Mas passaram a ser protagonistas da história ao permitir que uma massa planetária de pessoas, mais do que ser informada do fato histórico em seu exato momento, experimentasse as possibilidades da comunicação de uma maneira jamais vista.
Mesmo com a TV ainda mantendo a ponta ao transmitir ao vivo o choque dos aviões, o desabamento das torres e o sofrimento das vítimas, a internet mostrou a que veio com todas as suas possibilidades a partir daquela manhã de setembro. Pouco depois do atentado, um conteúdo sem igual passou a ser publicado na rede, não só pelos tradicionais responsáveis por informar, mas pelas próprias pessoas em vários lugares do mundo. Com o passar dos dias, esse conteúdo cresceu ainda mais e ia desde fotos e vídeos exclusivos dos atentados a teorias conspiratórias e brincadeiras. A mais famosa, a do Tourist Guy, um turista que teria sido fotografado no topo de uma das torres momentos antes do choque do avião.
A maior parte desse conteúdo se perdeu. Uma ou outra coisa ainda pode ser encontrada como originalmente publicada. Passados alguns anos, todo aquele gigantesco conteúdo se dispersou no ar como a poeira que no primeiro momento cobriu Nova York. A despeito de seu desenvolvimento tecnológico, a internet ainda não resolveu como irá preservar a sua memória. Paradoxalmente, é mais fácil encontrar uma informação publicada por um jornal em papel há um século do que achar o que foi publicado exclusivamente no formato digital naquele 11 de setembro.
Publicações exclusivamente digitais que deixaram de existir, como o memorável NoMínimo, não contam com bibliotecas ou arquivos digitais para guardar seus conteúdos para a eternidade como acontece até com obscuras edições que circularam precariamente em papel. E mesmo publicações que continuam existindo digitalmente ainda não se preocupam em preservar seu conteúdo digital com os mesmos parâmetros adotados para o papel. Aqui no Estadão, por exemplo, apesar de ser possível encontrar parte dos textos da cobertura digital de 11 de setembro de 2001, perdeu-se todo o esforço multimídia originalmente realizado naqueles dias.
Já existem algumas iniciativas no sentido de mudar esse cenário , como o Archive.org, de onde foram garimpados os arquivos desse post, e instituições pensando no assunto, como a Biblioteca do Congresso Americano, que criou um programa de Preservação Digital. Mas enquanto não surge uma solução, a internet vai se virando como aquele personagem principal do filme Amnésia, que fotograva com Polaroid, escrevia bilhetes e tatuava o próprio corpo para relembrar de fatos recentes do qual se esquecia rapidamente.
Nesse aniversário de 10 anos dos atentados, mais um turbilhão de informações sobre o assunto volta ser publicado na web, grande parte relembrando coisas que poderiam estar à mão em um clique. No mundo digital, não é preciso um ataque de aviões para derrubar edifícios sólidos.
Terça-feira, 11 de setembro de 2001 - 10h25

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Fragmentos da seção especial criada naquele dia e alimentada
por um longo período ainda podem ser vistas no Archive.org
# Veja quais eram as notícias publicadas pelo Estadão pouco antes dos atentados
# Em memória de um outro crime, de João Moreira Salles (NoMínimo)
Já faz tempo que a reciclagem de latinhas de alumínios virou uma marca brasileira. No dia a dia das cidades é comum ver gente à procura das embalagens metálicas descartadas para garantir alguma renda extra ou então a única renda possível. Em grandes eventos, quando a venda de bebidas atrai um grande número de vendedores ambulantes, aumenta também o exército dos que vão atrás das latinhas de cerveja e refrigerantes. A coisa está tão estruturada que na Virada Cultural, em São Paulo, recicladores montaram um posto móvel no coração do evento para a compra de latinhas.

Foto: Juliana Tourrucôo
A Juliana, que fez a foto, foi quem chamou a atenção para a caminhonete com três sacos gigantes cheios de latinhas amassadas ali na Conselheiro Nébias, pertinho da famosa esquina da Ipiranga com a São João. Numa caminhonete menor ao lado, dois rapazes tinham uma pequena estrutura com balança eletrônica montada para pesar o material e calcular quanto pagar para o catador. Um outro saco gigante já estava quase cheio. E só tinha passado pouco mais de seis das 24 horas de Virada. Belo exemplo de empreendedorismo.

Pelo segundo ano consecutivo, São Paulo escolheu o seu melhor pastel de feira. A vencedora desse ano foi a barraca da Agena, que desbancou a campeã do ano passado, a Maria, que até abriu uma loja em Pinheiros depois da consagração no primeiro concurso.
Se hoje é impossível imaginar uma feira sem barraca de pastel, a ponto de o quitute ser reconhecido oficialmente como um símbolo da cidade – com a prefeitura organizando o concurso e o próprio prefeito entregando pessoalmente o prêmio – os pasteleiros nem sempre contaram com a simpatia do poder público. Ao longo dos anos tiveram que lutar contra várias administrações desde que os primeiras cuias de óleo quente apareceram nas feiras livres da cidade.
Como a maioria do comércio informal, não se sabe com precisão quando começou o comércio de pastéis nas feiras. Alguns registros dizem que foram imigrantes japoneses da ilha de Okinawa – movidos pelo aperto econômico – que deram início à tradição.
A primeira regulamentação da categoria data de 1966. Mas isso não foi garantia de tranqüilidade para os pasteleiros. Nos anos 70 e 80 foram várias ações oficiais para coibir a venda de pastéis nas feiras. Enquanto algumas apertavam a fiscalização em torno de alvarás e condições sanitárias, outras pretendiam banir completamente os pastéis das feiras.
Era o que pretendia o prefeito Olavo Setubal, que em 1978 baixou um decreto proibindo o comércio de pastéis nas feiras da capital. Os pasteleiros reagiram com pedido de mandado de segurança, protestos e pressão do sindicato junto aos vereadores.
# Jornal da Tarde – 06/4/1978

A realidade dos pasteleiros não era muito diferente de seus colegas feirantes. Estudo recente apresentado num curso de especialização na Escola de Comunicação e Artes da USP mostra que as próprias feiras estiveram no alvo de várias administrações e que seu fim chegou a ser anunciado várias vezes.
Em 1978, a pressão contra o decreto de Setubal deu certo e os pasteleiros continuaram nas feiras. Mas de tempos em tempos tiveram que enfrentar novas investidas de diferentes gestões da prefeitura.

Mais que o apoio de suas associações e de alguns políticos, os pasteleiros contavam com um aliado poderoso que garantiria a sua permanência nas ruas: os consumidores.
Todos os dias, em diferentes pontos da cidade, milhares de pessoas que há muito deixaram de comprar frutas e hortaliças nas barracas de madeira cobertas com lona ou plástico vão às feiras em busca de um pedaço de massa recheado com os mais variados ingredientes. Aos pioneiros carne, queijo e palmito se juntaram uma infinidade de sabores, de preferência devorados acompanhados de um gelado caldo de cana. Uma guerra que valeu a pena.
# Jornal da Tarde – 04/08/1976

# 1974 / 1977 / 1978
Objeto de especulações de historiadores, arqueólogos, astrólogos, bichos grilos, crentes em vidas extraterrestres e toda espécie de palpiteiros, o círculo de pedras de Stonehenge voltou aos noticiários com o anúncio da descoberta de um novo círculo enterrado nas proximidades. Em vez de pedras, o novo achado é formado por postes de madeiras, segundo anúncio feito por arqueólogos.
Um dos monumentos mais intrigantes da humanidade, Stonehenge é uma das atrações turísticas de maior sucesso na Inglaterra. Além do fluxo normal de turistas, anualmente milhares de pessoas vão ao local para festejar o solstício de verão no hemisfério norte. Mesmo quem não veja significado superior algum no lugar reconhece o encanto do agrupamento de pedras num curioso mosaico.
Quem já foi diz que é inesquecível. Quem não tiver oportunidade de ir, ou se quiser relembrar, pode andar pelo coração do círculo de pedras através da ferramenta Street View (Vista da Rua) do Google Mapas.
O interior do monumento foi fotografado pela equipe do site com um triciclo equipado com câmeras semelhantes às usadas para fotografar as ruas das cidades com carros. Basta o mouse ou as setas do teclado para caminhar por dentro do círculo como um visitante que foi ao local. Bom passeio.
Em azul, as rotas de caminhada em Stonehenge no Street View:
Veja como foram feitas as imagens:
Andar pelas ruas de Buenos Aires – atividade cada vez mais comum na rotina de brasileiros que aproveitam o câmbio favorável para fazer turismo na capital argentina – pode render várias surpresas. Uma delas é descobrir que levar a sério aquela rivalidade futebolística cada vez mais incentivada – inclusive por gente que nunca conheceu um argentino pessoalmente – é uma grande bobagem.
Outra poderá acontecer numa banca de jornal e revistas. Como acontece em quase todo o mundo, os títulos nas bancas argentinas são os mais diversos, passando por jornais de várias formatos e tendências, revistas noticiosas semanais, de esportes, celebridades, música, cinema, pornografia e entretenimentos diversos.
Apesar dessa diversidade, não tem como não chamar atenção dos forasteiros um título que está em várias bancas da capital acompanhado de um conhecido símbolo de uma folha com sete pontas: a THC. E para não deixar dúvidas do que trata a publicação, abaixo do título vai a apresentação da linha editorial: “A revista da cultura cannábica”.
O nome da revista é a sigla do nome científico da substância psicoativa encontrada na maconha, o tetraidrocanabinol. Com um fôlego surpreendente, a revista argentina sobre maconha está em sua 28ª edição. Tem edição e impressão caprichadas e distribuição nacional na Argentina e no Uruguai.
A última edição aproveitou a Copa do Mundo para abordar o tema do doping no esporte. Faz um histórico do doping de maconha nas competições e traz especialistas defendendo que o chamado doping com drogas sociais – como a maconha – não deveria ser punido como uso de substâncias para a melhora de rendimento.
Ainda no tema principal da edição, a THC fez uma entrevista com o ex-jogador Fernando “el Rifle” Pandolfi, campeão pelo Vélez e Boca Juniors e hoje líder da banda de rock “Mil Hormigas”, que admite que dava uns tapas – com moderação - quando era atleta: “Nunca fui um fumador compulsivo porque era esportista e levava isso a sério.” Outro personagem do mundo esportivo entrevistado é o ex-goleiro do Boca Sandro Guzmán, que se converteu ao rastafari, o movimento jamaicano que crê em propriedades religiosas da maconha.
O bloco sobre futebol continua com um artigo saudando Maradona por ter convocado para a seleção que disputou a Copa do Mundo o jogador Ariel Garcé, que já cumpriu suspensão por doping de cocaína, e uma reportagem sobre os tipos de maconha cultividados na África do Sul. Na última página, um texto relembra o drama do doping de Maradona na Copa de 1994, nos Estados Unidos.
Mas as 68 páginas da edição de junho não se restringem a futebol. Tem reportagens sobre técnicas de cultivo, controle de pragas, estudos científicos, tipos de plantas e até uma página de culinária, com a receita de um fondue preparado com maconha.
Interativa, a THC publica duas páginas com fotos de leitores com suas plantações de maconha para consumo próprio, o que é permitido no país desde 2009.
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Nessa semana que passou, a descriminalização do consumo de maconha voltou a ser discutida aqui no Brasil depois que um grupo de renomados neurocientistas publicou uma carta aberta defendendo o plantio de pequenas quantidades para consumo próprio.
A motivação do manifesto dos cientistas foi a prisão do músico Pedro Caetano, da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, que cultivava dez pés da planta em sua casa. Não consegui levantar informações, mas parece que Pedro Caetano já foi liberado.
A discussão é daquelas boas, que dá para render debates interminávais entre os vários pontos de vista. Se for discutido com seriedade nos fóruns apropriados (Câmara, Senado e Judiciário) será um avanço, seja qual for o resultado. Com a eleição por perto, o debate já deu sinais que pode esquentar. Se ficar só na guerra eleitoral, será uma oportunidade perdida.
Além de provocar o debate sobre o tema, o caso Pedro Caetano traz à memória dois casos famosos envolvendo artistas e maconha. Em 1976, num período de pouco mais de um mês de diferença, Gilberto Gil e Rita Lee foram presos por serem flagrados com pequenas quantidades da droga. Os dois acabariam condenados – Gil a tratamento de recuperação e Rita, grávida, a prisão domiciliar após amargar um período num presídio feminino.
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Jornal da Tarde – 25/8/1976
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Jornal da Tarde – 08/7/1976
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Velhos conhecidos desde os tempos da Tropicália, Gil e Rita tinham muito mais em comum que uma prisão por porte de droga. Na turnê dos Doces Barbáros, com Caetano, Gal e Bethânia, Gil cantava a música “Rita Lee”. Os dois exorcizariam as más lembranças de suas prisões no ano seguinte com o show “Refestança”, que renderia um ótimo disco ao vivo.
No repertório, entre sucessos dos dois artistas, como “Domingo no Parque” e “Ovelha Negra” (clique na capa do disco abaixo para ouvir todas as faixas), os dois cantaram o velho hit de Roberto e Erasmo: “…não adianta o aviso olhar, pois a brasa aqui agora eu vou mandar. Nem bombeiro pode apagar… É proibido fumar…“
Brasília completa 50 anos hoje. O delírio de Juscelino, Niemeyer e Lúcio Costa concretizado no Planalto Central está sendo lembrado em cadernos especiais dos jornais, programas de TV, exposições e vários outros eventos. Todos certamente mencionarão as belezas arquitetônicas, relembrarão a dureza da construção, a modernidade dos projetos e planos e também os desvios e problemas que a capital acumulou ao longo das cinco décadas apesar de todo o planejamento.
Uma das melhores descrições de Brasília é outro delírio. Escrita anos antes, chegou ao conhecimento do público em 1987 em forma de canção. Em vez de exaltação, trazia um relato cru da saga de um personagem imigrante pelos lugares menos nobres da capital federal: as cidades satélites.
Com seus mais de nove minutos de duração, “Faroeste Caboclo” foi uns dos maiores sucessos daquele ano. Gente que nunca botou o pé em Brasília e tinha como única referência da cidade os palácios e ministérios que aparecem na TV de repente tinha na ponta da língua os lugares mais improváveis da cidade.
No mapa abaixo é possível conhecer os lugares citados na música do Legião Urbana.
Clique no mapa para ver a localização e a descrição dos lugares
Faroeste Caboclo (clique para ouvir) , do disco Que País é Este (1987)
(Renato Russo)
- Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.
Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: – Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.
E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga
Na sexta-feira ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar.
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.
Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom ai!
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock, pra se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar.
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter.
O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta do João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão.
E é melhor senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.
Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já tá em tempo de a gente se casar.
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez.
Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor
Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão
No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só para assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.
E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui.
E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester-22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
- Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não.
Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão.
E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
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Legião por Daniel Schutze (clique para ver onde a foto foi feita)
O Legião Urbana – banda que virou símbolo do rock de Brasília - cantou a cidade em outras canções, como em “Eduardo e Mônica” (“…voltaram pra Brasília…”) e “Tédio” (…moramos na cidade, também o presidente…”). Em nenhuma, porém, com tantos detalhes como em “Faroeste Caboclo”.
Para ouvir essas e outras músicas, acesse o site da banda, que é bastante interativo, com muitos itens postados pelos fãs, como esse ingresso do problemático show no estádio Mané Garrincha de Brasília em junho de 1988.
Vários livros já abordaram a história de Renato Russo, do Legião Urbana e do Rock de Brasília. Eu recomendo esses três:
# Diário da Turma 1976-1986: a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti
# Renato Russo (Perfis do Rio), de Arthur Dapieve
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