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Um sósia inesquecível

Edmundo Leite

20 junho 2014 | 21:14

Qual a melhor forma de corrigir erros jornalísticos na internet?

O estranho e peculiar caso do encontro do jornalista Mario Sergio Conti com um sósia do técnico de futebol Luiz Felipe Scolari num avião de carreira da ponte aérea Rio-São Paulo em plena Copa do Mundo já entrou para o folclore do jornalismo brasileiro. Publicado quarta-feira nos sites dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, dos quais Conti é colunista, o texto original foi apagado dos sites logo depois ter sido chamado como se ali estivessem declarações do verdadeiro treinador da seleção brasileira de futebol.

Num primeiro momento após apagar o conteúdo de seus sites, os dois jornais publicaram pequenas notas com correções alertando que o técnico estava em Fortaleza, onde a seleção jogara, e não conversou com o jornalista. Ambas sem possibilidade de leitura do texto original, apagado dos endereços e arquivos onde foi publicado.

Mais tarde, quando o caso se tornava um dos mais comentados nas redes sociais, com várias versões sobre o acontecido e outras publicações já entrevistando jornalista e o sósia de Felipão, os próprios jornais protagonistas fizeram reportagens ouvindo Conti e Wladimir Palomo e tentando explicar o que ocorrera entre a conversa dos dois e a sua publicação e edição. Novamente não havia link para a publicação original, mas desta vez o texto apagado foi republicado na nova reportagem.

Procedimento correto e que deveria ser mais corriqueiro e sistematizado em sites jornalísticos, a correção cumpre o papel fundamental de esclarecer os leitores sobre erros ou imprecisões comuns nos noticiários on-line, onde as notícias vão sendo construídas no momento em que o fato noticiado muitas vezes ainda está em andamento. Quanto mais rápida e transparente for a correção, melhor para os leitores, jornalistas e publicações.

A árdua tarefa de informar “em tempo real” é desgastante e estressante. Quem trabalha com isso tem a obrigação de publicar as notícias imediatamente e é cobrado com o mesmo rigor de quem escreve numa publicação impressa, onde os profissionais tem tempo para reler e rechecar o que escreveram e ainda contam com outros profissionais revisando o conteúdo linha por linha antes de a notícia ir para o prelo. A cobrança não é injusta. Faz parte do jogo. A urgência em relatar imposta pelo mundo digital não justifica erros e cabe aos profissionais, veículos e empresas se aprimorarem cada vez mais para oferecer nos meios digitais o mesmo padrão de qualidade de suas publicações impressas.

Todos jornais tem erros memoráveis, alguns engraçados (para quem não é o autor do erro, claro) e outros graves, que afetam a vida das pessoas e instituições.  A Folha de S. Paulo, pioneira com sua seção “Erramos”, até já produziu uma divertida e didática antologia com os melhores “erramos” publicados.

Até o surgimento da internet, muito desses erros acabavam esquecidos e ficariam guardados nas estantes de bibliotecas e arquivos de jornal onde as publicações de papel eram arquivadas, com acesso restrito a poucos que se dispusessem a ir até a esses locais folhear os antigos noticiários.

Com a crescente digitalização de jornais antigos, além da enorme quantidade de informações produzidas originalmente já em formato digital, os leitores agora podem acessar milhões de páginas produzidas desde a invenção da impressa. Aqui no Estadão, por exemplo, são quase 14o anos de jornal disponíveis no site do Acervo Estadão.

Paradoxalmente a essa vasta oferta de conteúdo jamais disponível na história, recentemente ganhou força uma estranha tese de direito ao esquecimento. Tese que já virou um fato concreto depois que a Corte Européia ordenou que o Google retirasse de seus resultados de busca menções a quem não quisesse que seu nome aparecesse, mesmo se tratando de notícias publicadas legalmente ou de documentos públicos.

Esse verdadeiro atentado à história praticado pela Corte Européia equivale a impedir que índices, catálogos e fichários que permitem aos interessados encontrar os conteúdos que procuram em meio a milhões de livros e outras publicações numa biblioteca fossem proibidos de ser manuseados por pesquisadores.

Ao deletar o arquivo original com o texto de Conti de seus sites, os dois jornais devem ter pensado num primeiro momento que talvez estivessem resolvendo um problema. Não estavam. Ainda que tenham acordado a tempo para a inocuidade de apagar o texto e resolvido republicá-lo, talvez não tenham percebido o precedente perigoso que criaram. Apagando o texto original deram a um de seus colaboradores o benefício que negam – com razão – aos que acionam os jornais judicialmente para retirar de seus sites notícias publicadas que os desagradam.

Apagar páginas publicadas de sites jornalísticos, mesmo que contenham algum erro, equivale a rasgar e jogar no lixo antigas páginas de jornal de papel arquivados. Assim como a decisão da justiça européia, é um atentado contra a história. Com a tecnologia já existente é possível preservar o conteúdo original e ainda assim reparar o o erro e avisar ao leitor sobre o equívoco que ali esteja publicado. Essa solução também adulteraria o conteúdo original, dirão alguns. E no caso de erro é melhor mesmo que seja excluído, argumentarão.

Para o bem da história, o melhor é que original com erro e a respectiva correção sejam preservados conjuntamente. Por mais que as vezes desejemos, na vida não existe direito ao esquecimento.

Sósias

Confusões envolvendo sósias  já renderam várias histórias, na maior parte cômicas, como a do sósia brasileiro do ator inglês David Niven que chegou a dançar com diva Ava Gardner, dava autógrafos e foi convidado a participar de um filme no lugar do astro.

Depois do episódio com o sósia de Scolari, o próprio Conti disse n’ O Globo que agora gostaria de ser um sósia de si mesmo e não ter assinado aquele texto sobre o técnico. O amigo Alex Xavier brincou no facebook: “Já pararam para pensar que o Mario Sergio Conti pode ter entrevistado o verdadeiro Felipão e o sósia é aquele comandando o Brasil?”

A situação absurda já foi tema do filme “Estressadíssimo (Grosse Fatigue)”, que conta a história de um famoso ator que resolve sumir do mapa para desfrutar a vida anonimamente, sem os percalços da fama, enquanto um sósia cumpre os seus compromissos profissionais. Fica a dica.