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Dó-ré-mi do golpe de 1964

Edmundo Leite

terça-feira 01/04/14

A essa altura do campeonato, com a folhinha do calendário já trocada de 31 de março para primeiro de abril, tudo o que tinha para ser dito sobre os 50 anos do golpe militar de 1964 já foi publicado. Análises, retrospectivas, cronologias, entrevistas, reportagens com revelações e documentos inéditos jogaram nova luz aos acontecimentos ocorridos [...]

A essa altura do campeonato, com a folhinha do calendário já trocada de 31 de março para primeiro de abril, tudo o que tinha para ser dito sobre os 50 anos do golpe militar de 1964 já foi publicado.
Análises, retrospectivas, cronologias, entrevistas, reportagens com revelações e documentos inéditos jogaram nova luz aos acontecimentos ocorridos há cinco décadas. Dizer que o golpe contra o presidente João Goulart nos afeta até hoje é chover no molhado, embora nunca seja demais lembrar as tristes conseqüências para que nunca mais tenhamos que passar por uma ditadura novamente.

Para uma geração que viveu a infância nos anos 70 e 80 alheia aos terrores que se institucionalizaram após o golpe, o regime ditatorial se manifestava no dia a dia de uma maneira bem prosaica, com o hasteamento da bandeira nacional nas escolas e obrigação de cantar o hino nacional periodicamente antes das aulas. Nas datas cívicas, a principal delas o Sete de Setembro, os desfiles militares eram até sinônimo de diversão, principalmente para os meninos, que se deslumbravam com os jipes, tanques, uniformes e armamentos de guerra mostrados em clima de festa nas avenidas.

Nas salas de aula, o regime militar dava as caras com uma disciplina chamada “Educação Moral e Cívica”, que nos brindava com pérolas como essa abaixo:

” Dó… um lindo dia

Ré… foi da revolução

Mi… contaram para mim

Fá, …………..

Sol… bilhava um lindo sol

Lá… se foi o comunismo

Si… não fossem os defensores…

O Brasil não era livre “

Aprendi essa versão surreal da canção do filme “A Noviça Rebelde” uns 15 anos após o golpe, em 1980 ou 1981, quando estava na terceira ou quarta série do ensino primário de um colégio de freiras e o país já vivia a fase de abertura pós-anistia. A lembrança da letra, com algum ou outro erro e omissão, como os versos do Fá, que não recordo de jeito nenhum, me veio do nada em meio ao tsunami de informações sobre o golpe.

Claro que na época não fazia a menor idéia do que dizia a letra. Assim como todas as outras músicas que aprendíamos na escola, bastava chegar “a hora do recreio” para qualquer canção ensinada ganhar uma letra sacana e safada, cantada às gargalhadas nas rodinhas que se formavam pelo páteo do colégio e que se espalhavam com uma rapidez que professor nenhum jamais vai conseguir com suas canções de fim didáticos. É bem provável que nem a jovem professora, que chamávos de ‘tia’, tivesse noção do que estava fazendo quando nos ensinou a música.

Passados todos esses anos, a torcida agora é para que todas as aquelas crianças do colégio só tenham assimilado a impublicável letra cantada no páteo e esquecido o dó-ré-mi da ditadura que alguns ainda insistem em cantarolar.