
O gorrinho vermelho deu lugar ao lacinho colorido e iluminado na avenida Paulista. No concorrido passeio para ver as luzes de Natal neste domingo, o adereço brilhava na cabeça de meninas de várias idades ao longo do percurso.
Vendida a oito reais por camelôs espalhados em vários pontos, a tiara com o lacinho luminoso da Minnie deu um ar de alameda da Disneylândia à avenida.
Bastava dar alguns passos para se deparar com garotas orgulhosas do enfeite posando para fotos, no ombro dos pais ou zanzando no meio da multidão.


Os meninos, marrentinhos cada vez mais cedo, não deram muito bola para a opção com chifrinhos vermelhos também encontrada nos improvisados estandes dos camelôs. Alguns preferiam posar de bad boys, fingindo não estarem maravilhados com a decoração de natal, a iluminação dos prédios, o mar de gente e as estátuas vivas das mais variadas.
É mais ou menos a atitude blasé de muita gente boa que mora em São Paulo, principalmente na região da Paulista, e torce o nariz para a festa. Esse pessoal costuma amaldiçoar o trânsito e a multidão que tomam conta da avenida, mas faz a mesma coisa quando estão na Times Square, em Nova York, em Picaddily Circus, em Londres, ou na Champs Elysees, em Paris. Também tiram foto a dar com pau, mas posam de anti-turistas descolados e desdenham desses dias de diversão natalina na mais tradicional via de São Paulo.
Aliás, já faz um tempo em que a Paulista está fervendo, não só no horário comercial, mas também de noite, com uma agitação digna de qualquer um dos lugares citados acima.
A nova gestão municipal que está para começar bem que podia ficar mais atenta a isso e voltar a liberar o comércio de comida de rua e outras atividades ambulantes que, se devidamente fiscalizadas e controladas, podem contribuir para um astral ainda melhor.

Garoto dança ao som de guitarra perto da esquina com a Augusta
Caderno 2 – O Estado de S. Paulo – 8/12/2012
Matéria feita para a edição especial sobre os 100 anos de Luiz Gonzaga com edição do Júlio Maria e belíssima ilustração de Carlinhos.
Caderno 2 – O Estado de S. Paulo – 11/8/2012
# Ouça trechos da entrevista de Julinho da Adelaide a Mario Prata em 1974

Com a atual facilidade para viajar ao exterior, muita gente cospe no prato que comeu. Mas durante os anos 70, 80 e 90 – quando isso era coisa para poucos, a grande área na sisuda Marginal do Tietê na capital paulista era muito mais que um parque de diversões. Além dos brinquedos que não existiam em nenhum outro parquinho por aqui, o Playcenter tinha aura de um lugar mágico, que alimentava os sonhos da molecada e meninada de todo o Brasil.
Parentes e amigos do interior invejavam a proximidade que os daqui desfrutavam, mal sabendo que, apesar de localizado numa área quase central da capital, a ida ao Playcenter não era coisa corriqueira. Era um evento especial. Raramente anual. Não se comprava ingresso ou bilhete, mas adquiria-se um Passaporte da Alegria. O nome do documento oficial de quem precisa viajar ao exterior dá a dimensão do que significava um dia no parque.
Era mesmo um mundo à parte. O Hopi Hari, parque concebido pelo próprio Playcenter no interior próximo da capital, tentou repetir esse conceito em sua promoção, criando um país e uma língua própria, mas definitivamente a estratégia publicitária não pegou. As pessoas dizem que compram ingresso para o Hopi Hari e pronto. Vão lá, se divertem em ótimos brinquedos e levam boas lembranças do passeio. O mesmo vale para o Beto Carrero Word em Santa Catarina.
Assim como muito se orgulham de mostrar no passaporte os vistos de entrada e saída dos países visitados, quem ia ao Playcenter fazia questão de deixar marcado no braço, por quantos dias fosse possível prolongar, a marca do carimbo de tinta indelével que liberava a entrada nos brinquedos.
O anúncio pela escola de que haveria uma excursão ao Playcenter causava frisson, excitação e ansiedade. Boatos de que quem não tivesse notas boas seria vetado causavam pavor. Quem já havia ido contava aos novatos lendas e experiências para lá de exageradas de alguns brinquedos temidos.
Confirmada a data e a lista de quem ia, começavam a se formar informalmente os grupos de amigos que se divertiriam juntos, livre dos pais. Esse arranjo, que podia mudar ao longo do dia, era fundamental para outro tipo de diversão mais mundana. Emplacar a companhia certa para entrar no trem fantasma, subir no teleférico ou na Montanha Encantada era a chance de viabilizar aquele contato mais próximo inviável no dia-a-dia da rotina escolar.
Nesse quesito, um item fundamental eram as longas e demoradas filas para entrar nas atrações mais disputadas. Com esperas que podiam ser de horas, era ali que as coisas começavam a acontecer. A estrutura de grades dispostas em serpentes permitia também uma paquera cíclica, que se dava sempre que dois pontos da fila se encontravam de tempos em tempos.
Desde o anúncio do fechamento do Playcenter, há alguns meses, já foram lembradas as histórias do início do parque, dos brinquedos fixos que marcaram época, das atrações temporárias e especiais. E cada um dos milhões que passaram por esse oásis colorido na cinzenta e poluída Marginal Tietê deve ter várias outras para contar.
É até de se estranhar que não apareceu ninguém histérico pleiteando o tombamento do Playcenter, como aconteceu quando do anúncio do fim do Cine Belas Artes. Bom que seja assim. Mostra uma sabedoria coletiva de aceitar que certas coisas das quais gostamos simplesmente acabam.

Filas vazias no último sábado do Playcenter

Brasil e Alemanha entram em campo em Yokohama
Há exatos 10 anos, a seleção brasileira conquistava a sua quinta Copa do Mundo numa noite memorável no estádio de Yokohama. Como o feito futebolístico já foi lembrado e analisado por gente que entende do riscado, recorro a lembranças mais prosaicas daqueles dias na Ásia. A cobertura de mais de 40 dias, primeiro na Coréia do Sul e depois no Japão, foi um desafio logístico para os repórteres enviados ao primeiro mundial disputado simultaneamente em dois países diferentes. Ao final de cada jogo, além de mandar os textos e fotos, era preciso estar com as malas prontas, fazer check-ins rápidos no hotel e começar viagens de táxi, van, ônibus, metrô, trem-bala e avião para alcançar o time no próximo destino. Como a rotina de quem cobria a seleção era ficar horas de plantão no hotel e nos campos de treino, eram esses deslocamentos por cidades diferentes que permitia conhecer um pouco da vida real dos dois países em pequenas aventuras diárias por causa das diferenças de costumes e da língua.
Por causa do fuso-horário 12 horas adiantado, um repórter de uma rádio abria as transmissões de seus boletins para o Brasil dizendo algo mais ou menos assim: “Direto do futuro, as últimas informações sobre a seleção brasileira na Copa do Mundo”. Brincadeira à parte, ele não estava errado. Naquele 2002, inovações tecnológicas que ainda estavam muitos distantes do Brasil faziam parte da rotina de coreanos e japoneses. Na Coréia do Sul, a velocidade da internet era tão grande que mal dava tempo de perceber a troca de uma página para outra após clicar em algum link. O carregamento era instantâneo, num piscar de olhos. Celulares 3G com conexão ultra-rápida facilitavam a cobertura de onde quer que estivéssemos.
Antero Grecco e Luiz Antonio Prósperi em um dos deslocamentos pelo Japão
No Japão, todos os táxis já tinham GPS. Depois de muitos dias, já estávamos acostumados com as novidades, mas mesmo nas vésperas da final ainda havia espaço para assombros tecnológicos. Num dia em que acompanhava o Antero Grecco, que precisou ficar um pouco mais no hotel da seleção gravar um boletim para a ESPN Brasil, o pessoal da TV colocou à disposição um carro para nos levar de volta ao hotel onde estava a equipe do Estadão, já que não haveria mais trens naquele horário. A motorista brasileira-japonesa perguntou o telefone de nosso hotel. Demos o número imaginando que fosse ligar perguntando o endereço, mas ela rapidamente pôs-se a dirigir enquanto mexia no aparelhinho no painel da van. Perguntamos então se ela não iria ligar para o hotel. Ela então nos contou que já havia digitado o número no GPS e que o aparelho já tinha dado o caminho. “Esse aqui tem toda a lista telefônica da Grande Tóquio na memória”, disse. “Se quiser”, acrescentou, “dá para comprar com a lista telefônica do Japão inteiro. É só digitar o número de telefone e chega-se a qualquer lugar do país”.
GPS em todos os táxis
Uma outra novidade presente em todos os hotéis causava gracejos e piadas entre todos: os vasos sanitários cheios de botõezinhos eletrônicos com diferentes recursos na hora das necessidades mais privadas. Com as instruções nos incompreensíveis ideogramas, era prudente não se arriscar e fazer testes antes de se sentar para evitar surpresas.

Privada tecnológica
Além das novidades tecnológicas, os costumes também causavam impacto. Numa corrida passagem pela gigantesca estação ferroviária central de Tóquio, um pequeno salão de cabeleireiro chamou a atenção. O preço do serviço era pelo tempo gasto no corte: mil yens por cada dez minutos.

Não lembro a quanto era o valor em real ou dólar na época. Mas depois ficávamos a imaginar se o absurdo corte de cabelo de Ronaldo antes da semifinal com a Turquia não teria acontecido num desses salões. Se num improvável passeio pela cidade o craque, sem dinheiro no bolso e não reconhecido pelo barbeiro, teve que sair do salão sem completar o corte.
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# Batedor da seleção é fã do Brasil
A estreia do Acervo Estadão, que colocou 137 anos de história do Brasil e do mundo à disposição dos leitores, provocou uma série de reações afetivas nas pessoas que acessavam o site pela primeira vez.
Após as primeiras pesquisas, foram comuns as manifestações de deslumbramento e felicidade ao encontrar textos memoráveis de autores consagrados lidos uma vez e nunca mais relidos, a menção ao próprio nome ou de alguém querido numa reportagem, a satisfação em saber o que era notícia no dia do seu nascimento e o encantamento em saber como era o mundo em que certas facilidades de hoje ainda não existiam.
“Acervo do Estadão no Ar. Aviso que vou sumir por uma semana”, escreveu um empolgado @Antonio Felipe no Twitter. “Status: in love com o acervo digital do Estadão”, tuitou @Vitor Dirami. Mensagens no mesmo tom continuam a chegar por todos os lados.


Passada a euforia inicial, uma nova percepção sobre o significado de ter um acervo como esse acessível já começa a tomar forma. Apesar de não se tratar de um material inédito, nunca tantas pessoas tiveram a oportunidade de, por exemplo, ler a íntegra da cobertura de Euclides de Cunha sobre o conflito de Canudos, em 1897. A obra-prima, que no passado exigiu várias edições do jornal e, depois, foi compilada em livro, está agora acessível de qualquer lugar com conexão de internet.
Cientistas que nunca estiveram perto de uma coleção completa do jornal já recolhem reportagens que jamais leriam. Acadêmicos que passaram anos em busca de informações começam a encontrar o dado que não aparecia, mesmo depois de abnegada leitura e de horas sobre antigos exemplares ou em soníferas máquinas de leitura de microfilme.
Será possível reescrever a história em muitos aspectos. Uma informação importante que ficou adormecida num pé de página, lida praticamente uma única vez, poderá mudar o entendimento sobre acontecimentos que ao longo dos anos passaram a ser contados sem aquele dado fundamental. Não vai demorar a surgir um fato novo saído das antigas páginas. É o jornal ganhando uma nova vida.
Totem com reprodução da primeira capa e tela para o Acervo Estadão
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