Brasília completa 50 anos hoje. O delírio de Juscelino, Niemeyer e Lúcio Costa concretizado no Planalto Central está sendo lembrado em cadernos especiais dos jornais, programas de TV, exposições e vários outros eventos. Todos certamente mencionarão as belezas arquitetônicas, relembrarão a dureza da construção, a modernidade dos projetos e planos e também os desvios e problemas que a capital acumulou ao longo das cinco décadas apesar de todo o planejamento.
Uma das melhores descrições de Brasília é outro delírio. Escrita anos antes, chegou ao conhecimento do público em 1987 em forma de canção. Em vez de exaltação, trazia um relato cru da saga de um personagem imigrante pelos lugares menos nobres da capital federal: as cidades satélites.
Com seus mais de nove minutos de duração, “Faroeste Caboclo” foi uns dos maiores sucessos daquele ano. Gente que nunca botou o pé em Brasília e tinha como única referência da cidade os palácios e ministérios que aparecem na TV de repente tinha na ponta da língua os lugares mais improváveis da cidade.
No mapa abaixo é possível conhecer os lugares citados na música do Legião Urbana.
Clique no mapa para ver a localização e a descrição dos lugares
Faroeste Caboclo (clique para ouvir) , do disco Que País é Este (1987)
(Renato Russo)
- Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.
Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: – Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.
E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga
Na sexta-feira ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar.
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.
Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom ai!
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock, pra se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar.
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter.
O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta do João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão.
E é melhor senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.
Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já tá em tempo de a gente se casar.
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez.
Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor
Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão
No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só para assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.
E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui.
E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester-22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
- Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não.
Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão.
E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
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Legião por Daniel Schutze (clique para ver onde a foto foi feita)
O Legião Urbana – banda que virou símbolo do rock de Brasília - cantou a cidade em outras canções, como em “Eduardo e Mônica” (“…voltaram pra Brasília…”) e “Tédio” (…moramos na cidade, também o presidente…”). Em nenhuma, porém, com tantos detalhes como em “Faroeste Caboclo”.
Para ouvir essas e outras músicas, acesse o site da banda, que é bastante interativo, com muitos itens postados pelos fãs, como esse ingresso do problemático show no estádio Mané Garrincha de Brasília em junho de 1988.
Vários livros já abordaram a história de Renato Russo, do Legião Urbana e do Rock de Brasília. Eu recomendo esses três:
# Diário da Turma 1976-1986: a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti
# Renato Russo (Perfis do Rio), de Arthur Dapieve
Seguindo a série iniciada sobre o álbum da Copa do Mundo de 1958, aqui vão mais três figurinhas da primeira seleção brasileira campeã do mundo. Para arriscar os nomes dos jogadores é só enviar o palpite.


As três anteriores eram do são-paulino De Sordi, do goleiro corintiano Gilmar e do Vascaíno Belini.
O leitor Claudio Fabri atendeu ao pedido do blog e enviou por e-mail uma pequena relíquia: um cartão de um candidato a deputado federal saudando os jogadores bicampeões do mundo na Copa seguinte, em 1962, no Chile.

Aproveitando o cartão enviado pelo Claudio, uma boa leitura para quem quiser saber mais sobre a associação entre política e futebol e outras aspectos da influência do esporte na vida do País é o livro “O Futebol explica o Brasil – Uma história da maior expressão popular do Brasil”, do jornalista e historiador Marcos Guterman, que também tem blog por aqui.
O Futebol explica o Brasil nas livrarias:
Contexto | Arte PauBrasil | Cia dos Livros | Cultura | Estante Virtual | Fnac | Martins Fontes | Saraiva | Travessa |
Veja a entrevista do autor na TV Estadão:
Dia do Índio na época dos primeiros anos escolares era daquelas datas cívicas anuais que sempre rendiam algum evento diferente, quase sempre com cara pintada de tinta guache e um cocar mambembe feito de cartolina e pena comprada em bazar. Como outras datas cívicas e religiosas, ninguém entendia direito o que estava sendo celebrado, mas valia pela quebra da monotomia.
Imagino que hoje ainda deve continuar o ritual com a molecada mais nova nas escolas.
A questão indígena é um assunto que de tempos em tempos volta a esquentar – hoje mesmo a justiça voltou a cancelar o leilão da usina de Belo Monte – e no dia 19 de abril é comum ouvir aquilo que escutamos há anos e que provavalente vamos continuar a ouvir sempre: que os índios eram os donos da terra, que precisam ser olhados e protegidos, que foram dizimados e que sua cultura precisa ser preservada. O presidente Lula, ao demarcar uma nova reserva, disse que “precisamos fazer mais pelos índios”
Em 1981 o Jorge Ben transformou esse discurso que está na boca do povo há anos na música “Curumim chama cunhatã que eu vou contar (Todo dia era dia de índio)“.
Se a questão indígena não avança um milímetro a cada 19 de abril, a data pelo menos é uma boa chance para escutar essa obra-prima. Já tinha usado o vídeo abaixo em outro post recentemente, mas nunca é demais reouvir Jorge Ben, ainda mais bem acompanhado, nesse caso de Baby Consuelo, quantas vezes for.
“Curumim chama cunhatã que eu vou contar (Todo dia era dia de índio)” faz parte do sensacional disco “Bem-vinda amizade”.
O disco de 1981 está na caixa com 13 álbuns lançada no fim do ano passado, disponível nas principais lojas virtuais:
| Americanas | Cultura | Saraiva | Submarino |
Sozinho, só na Amazon, que anuncia um solitário exemplar.
No fim do ano passado, a revista Trip publicou uma grande entrevista com Jorge Ben feita pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches. A íntegra pode ser lida no blog do Pedro Alexandre. Aproveite para ler outro texto dele em que ele diz que Roberto Carlos, que nasceu num 19 de abril, é um índio.
Posts relacionados:
# Memórias do bunker: Glauco e Henfil
Como acontece em todo ano de Copa do Mundo, começou a febre das figurinhas e do álbum com os jogadores das seleções que disputarão o Mundial na África do Sul.
A mania é antiga e imagino que já na primeira Copa do Mundo, no Uruguai, em 1930, deveria ter uns fanáticos tentando completar o álbum.
Além da diversão, naquela época os álbuns e as figurinhas eram uma das poucas maneiras de ver uma imagem dos ídolos, para muitos figuras imaginárias vindas das ondas dos rádios.
As figurinhas e o álbum abaixo são da Copa de 1958. Pertenciam ao meu avô materno, que naquela primeira conquista brasileira já era homem feito, pai de três filhos. Como acontece até hoje, isso não era impedimento para curtir a paixão pelo futebol, pela seleção brasileira e pela coleção.
Ia colocar o álbum completo do meu avô aqui nesse post, mas para entrar no clima dos álbuns irei publicando aos poucos para completar às vésperas da Copa da África.
Aqui vão as três primeiras das 24 figurinhas. Deixei sem os nomes dos jogadores para quem quiser arriscar a dar palpite, enviando o nome pelos comentários. Se quiserem, podem arriscar a posição e o time em que jogavam também.
Se alguém tiver álbuns e figurinhas antigas e quiser enviar as imagens por e-mail (edmundo.leite@grupoestado.com.br), publicarei as melhores aqui no blog também.




Para saber mais sobre álbuns de figurinhas da Copa do Mundo na internet:
# Copa do Mundo em 3×4 (twitter)
# Figurinhas das Copas (Mercado Livre)
Nenê, 50 anos de rock, na TV Estadão
O rock engatinhava no Brasil no finzinho dos anos 50 quando um empresário foi assistir ao ensaio de um dos primeiros conjuntos que se formavam em São Paulo seguindo a onda que tomava o mundo de assalto.
Um guitarrista faltou e, para não perder a oportunidade, os rapazes improvisaram. O baterista assumiu o lugar do guitarrista furão, mas precisavam de alguém para as baquetas. Não tendo outra opção, o irmão caçula do baterista, que sempre ficava assistindo aos ensaios, foi escalado. O improviso deu certo e, por sugestão do empresário, o moleque de 12 anos foi efetivado no grupo. O recém-nascido “The Rebels”, que ainda naquele 1959 gravaria seu primeiro disco compacto, ganhava um novíssimo integrante: Nenê.
50 anos depois, o caçula do Rebels ainda é chamado pelo mesmo apelido. Trocou a bateria pelo contrabaixo, o Rebels pelos Incríveis e a inocência de garotinho por uma carreira de sucesso e polêmica no rock brasileiro. Essa trajetória é lembrada agora pelo músico no livro “Os Incríveis Anos 60, 70… e eu estava lá“, da editora Novo Século.
Com o bom-humor que é uma de suas marcas, Nenê relembra a iniciação precoce de um menino no show business junto com os Rebels e, mais adiante, narra as aventuras de gravações, shows e viagens nacionais e internacionais com os Incríveis, uma das bandas de maior sucesso no rock brasileiro dos anos 60 e início dos 70, com hits como Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e Os Rolling Stones, O Milionário, O Vendedor de Bananas e a polêmica Eu te amo meu Brasil, de autoria de Dom, da dupla Dom e Ravel, pela qual o conjunto seria acusado de colaborar com a ditadura militar.
A carreira de músico após o fim dos Incríveis também é lembrada, com histórias sobre o disco e a temporada de shows com Elis Regina, em 1979, e a mítica apresentação de Raul Seixas em um garimpo no interior do Pará em 1985. E também a participação como ator na novela Cinderela 77, protagonizada por Ronnie Von e Vanusa, da qual também foi responsável pela trilha sonora, além de um relato sobre os meses em que morou no Alasca.

Nenê, posando de guitarrista, com os Rebels

Nenê, na bateria, com os Rebels

Com os Incríveis, no contrabaixo (centro)
# Nas livrarias:
Arte Pau Brasil | Cultura | Fnac | Martins Fontes | Novo Século | Saraiva | Livraria da Travessa |
# Discografia dos Incríveis (site Jovem Guarda)
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