Não entendo de publicidade. Mesmo assim, arrisco dizer que a imagem do prefeito paulistano Gilberto Kassab no intervalo comercial do horário nobre da TV agora de noite para justificar as enchentes em São Paulo pode entrar para a história da propaganda. Só estou na dúvida se será um case - para usar um jargão do ramo – de sucesso ou de fracasso.
Para quem não viu (e como o vídeo ainda não foi parar no YouTube), aqui vai uma breve descrição :
Fantasiado Vestido com uma capa de chuva amarela e tentando dar um tom informal à justificativa, o prefeito relata ações da prefeitura contras as enchentes enquanto as imagens mostram piscinões, bonitos córregos canalizados e limpeza de bueiros.
A coisa vai indo nessa toada até que em determinado momento o prefeito chama as tempestades de dilúvio e diz que, mesmo com tudo o que foi feito, não há cidade que aguente tamanha quantidade de água.
Além de destacar essa força descomunal da natureza, a propaganda mostra imagens de entulhos sendo retirados pelos caminhões – no final aparece um sofá – para reforçar a mensagem de que a culpa pelas enchentes não é da prefeitura.
Se a mensagem surtir efeito, será um case publicitário de sucesso e os marqueteiros da prefeitura poderão comemorar. Mas como disse, estou na dúvida: será que conseguiram passar a mensagem pretendida?
Provavelmente o prefeito não esteja errado ao dizer que a força dessas chuvas recentes seja atípica. Mas será que as pessoas que não manjam de publicidade e seus meandros, como eu, podem não entender direito a mensagem e ficarem um pouquinho indignadas?
Não haverá o risco de – tomados pela emoção das lembranças de não poderem chegar ao trabalho, da casa alagada ou de um parente levado por uma enxurrada ou deslizamento - os telespectadores acharem que soa como escárnio o prefeito ir à televisão dizer o que foi dito da maneira que foi dito, e ainda com dinheiro pago pelos contribuintes?
Será preciso muitas horas de pesquisa qualitativa para se chegar a uma conclusão sobre o resultado da peça publicitária, mas de minha parte posso dizer o que ficou na minha cabeça: o Kassab de capa de chuva amarela.
Me lembrei do famoso desenho do Pica-Pau nas cataratas de Niagara. Aquele em que os turistas de capa amarela erguem os braços e urram toda vez que o guarda atormentado pelo Pica-Pau despenca pelas cataratas num barril de madeira.
Nesse caso, os marqueteiros poderiam até comemorar, pois a propaganda do prefeito me fez ter uma boa lembrança, através da associação da capa amarela.
Mas a imagem das forças das águas de Niagara também me fizeram voltar à realidade: se no desenho o pobre guarda sobrevive às inúmeras descidas de barril na gigantesca queda, aqui as pessoas morrem afogadas em pequenos córregos esquecidos pela prefeitura, galerias sem tampas no meio da rua e outros buracos para onde são tragadas sem chance de se salvar.
Na época em que tinha tempo para esses e outros passatempos, tinha um vizinho que alternava um deslumbramento de não piscar os olhos quando assistia TV com uma crueldade sem igual nos comentários realistas na conversa da molecada sobre desenhos, filmes e comerciais: “isso não é de verdade. Que farsa!”, dizia. Parece que tinha razão.
Kassab ignorou enchentes na campanha eleitoral
Limpeza de córregos é nula em 13 subprefeituras de SP
Kassab gastará 5 vezes mais com publicidade do que com área de risco
Revendo algumas coisas do Arnaud Rodrigues, acabei me deparando com esse dueto da Elis Regina com o Chico Anysio:
Por conta da notícia de que o famoso estúdio Abbey Road foi colocado à venda pela gravadora EMI, reciclo uma postagem do ano passado, ainda na versão anterior do blog.
Apenas uma boa desculpa para voltar à mítica faixa de pedestres londrina, ainda que pelo Google Street View (os estúdios ficam pouco adiante da faixa de pedestres, no muro branco de grades baixas à esquerda):
Refaça os passos dos Beatles em Abbey Road no Google
07/08/2009
Li por aí que neste sábado, 08 de agosto, faz quarenta anos que os Beatles fizeram a famosa foto atravessando a faixa de pedestres da Abbey Road, em Londres. A imagem na capa do disco elevou o lugar a ícone planetário. Milhares de turistas que vão a Londres incluem a rua onde ficam os estúdios em que o conjunto gravava como passagem obrigatória, principalmente para tirar fotos refazendo a cena.
Para os fãs dos Beatles quem não podem ir até lá, a ferramenta Street View (Vista da Rua) do Google Maps permite ter um pouquinho da sensação do lugar, inclusive com o mesmo campo de visão que Paul, John, George e Ringo tiveram quando deram aqueles passos – pequenos para o homem, grandes para humanidade, pode se dizer.
clique na imagem para andar pela rua
Em 1998 fiquei 20 dias em Londres e acabei não indo a Abbey Road. Comprei até poster, longe dali, mais no centro, mas não fui. O pior é que descobri depois que estava morando bem pertinho dali. Estive lá de novo no ano passado, e novamente não fui.
Maravilha esse Google Street View. Nos leva a novos caminhos e relembra velhos caminhos percorridos.
Ontem teve apuração do carnaval de São Paulo e logo mais acontecerá a do Rio. Mesmo quem não curte o desfile das escolas de samba costuma parar para ver. Tem gente até que acha mais emocionante que os próprios desfiles. Outros, tão chato quanto.
Aquilo que deveria ser apenas um procedimento burocrático para verificar qual foi a melhor escola virou um ícone tão marcante da festa quanto o mestre-salas e a porta-bandeira. A leitura das notas, sobretudo a da máxima, está tão incorporada à coreografia do carnaval que é difícil imaginar que alguém tenha inventado algo que hoje parece tão natural.
Mas nem sempre foi assim. O bordão “Dez! Nota Dez”! anunciado com entonação grandiloquente surgiu no carnaval de 1984, junto com a inauguração do sambódromo carioca.
Seu criador foi o polêmico e controvertido Carlos Imperial, na época vereador no Rio e designado pelo governo de Leonel Brizola para comandar a Comissão de Carnaval dos primeiros desfiles no local idealizado por Oscar Niemeyer.
O biógrafo Denilson Monteiro descreve como foi em seu livro, não por acaso entitulado “Dez! Nota Dez! Eu Sou Carlos Imperial”:
“… Na Quarta-feira de Cinzas, por volta das 17h, Imperial, guiado pelo leal Russão, se dirigiu ao Maracanãzinho, onde seria realizada a apuração do Carnaval de 1984. As notas seriam lidas por ele, que pontualmente às 18 horas deu início ao trabalho. O ginásio Gilberto Cardoso ficava bem próximo do morro da Mangueira. Por isso, os torcedores da Estação Primeira se encontravam em número muito maior que as demais. A escola já iniciou o primeiro quesito com nota máxima, o que fez com que Imperial optasse por improvisar uma mudança na forma como estava conduzindo a apuração. Decidido a mexer com a platéia, anunciou com sua garganta privilegiada:
- Estação Primeira de Mangueira: dez! Nota dez!
Os mangueirenses entraram em êxtase. Percebendo que a maneira diferente de anunciar o resultado havia agradado, Imperial repetiu a fórmula com as notas máximas das demais agremiações. Simultaneamente, por toda a cidade o que se ouvia naquele cair de tarde era um novo bordão que se alastrava como um vírus. Em todos os lugares as pessoas procuravam imitar a voz radiofônica de Carlos Imperial:
- Dez! Nota dez!
A apuração terminou com a Portela de Imperial e seu enredo “Conto de Areia” campeã do desfile de domingo e Mangueira como a campeã de segunda. O Gordo deixou o Maracanâzinho como coadjuvante que por alguns minutos roubou a cena, algo que sempre o agradava bastante. Na rua, as pessoas o reconheciam e gritavam:
- Lá vai o “Dez! Nota Dez”. …”
O bordão foi um dos últimos legados de Imperial, um cara que tem no currículo várias outras criações marcantes da cultura brasileira ao longo dos anos e que morreria no fim de 1992.
Amado e odiado com a mesma intensidade, Imperial foi – além de autointitulado “Rei da Pilantragem” – pioneiro na propagação do rock no Brasil, descobridor e mentor de Roberto Carlos e outros artistas como Erasmo e Wilson Simonal, compositor de vários sucessos (“Vem Quente que eu estou fervendo” e A Praça”) e um grande fanfarrão daqueles que rareiam nos dias de hoje. No carnaval, por vários anos participava do tradicional desfiles de fantasias luxuosas cujo símbolo era Clovis Bornay só para debochar dos concorrentes.
Imperial também tem outras obras – e atitudes – menos nobres no currículo. Mas aí só lendo a biografia escrita por Denilson Monteiro (agora debruçado sobre Ronaldo Bôscoli) para saber.
O livro nas livrarias virtuais
Também é possível achar em sebos o livro “Memórias de um Cafajeste”, do próprio Imperial:
Memórias de um Cafajeste” na Estante Virtual
Sergio Vaz escreveu belo texto sobre o amigo Pedro França.
“… Olha lá: estão tirando um Pedro França para poder botar outro…”
Número feito para o Fantástico em 1978. Wanderlea linda como sempre e Raul, sem barba, fazendo chacota de algo que já não é sério. Cinco anos depois fariam uma nova parceria divertida.
2013
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006
2005
2004
2003
2002
1999