Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a proposta que está em tramitação na Câmara dos Deputados:
“… É livre a divulgação da imagem e de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública ou cuja trajetória pessoal ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade. …”
PROJETO DE LEI N° 3.378, DE 2008.
Leia a Íntegra
Acompanhe a Tramitação
Medidas para evitar enchentes como a desta terça-feira na cidade de São Paulo foram tratadas com superficialidade no plano de governo do então candidato Gilberto Kassab nas eleições do ano passado, quando foi reeleito para o cargo que ocupava desde abril de 2006.
No plano de governo de 112 páginas lançado durante a campanha contra a petista Marta Suplicy, a menção ao combate às enchentes é vaga e superficial e aparece pela primeira vez, timidamente, no tópico “Meio Ambiente” do documento intitulado “Diretrizes 2009/2012 – São Paulo no Rumo Certo“:
“O que vamos fazer
…Continuar o programa de implantação dos Parques Lineares, para combate às enchentes e criação de áreas de lazer, totalizando a criação de 50 deles até 2012…”
Após essa breve menção na página 52, o assunto volta a ser abordado com a mesma superficialidade na página 101, agora no tópico “Subprefeituras”:
O que fizemos
“…Intensificamos a limpeza de bocas de-lobo e criamos um Centro de Controle para Emergências Urbanas e Enchentes.”
O que vamos fazer
“… Continuar e aperfeiçoar a manutenção do sistema de drenagem urbana, com a limpeza de bocas-de-lobo, galerias pluviais e gestão dos piscinões.”
E só. A palavra chuva não aparece uma única vez nas 112 páginas do documento.
No plano de governo da adversária Marta Suplicy, chuvas e enchentes também não mereceram destaque. A única referência ao problema aparece, coincidentemente, no tópico dedicado ao meio ambiente:
“… Regulamentar os artigos do PDE que determinam o reúso de água em edifícios e a conservação temporária da água de chuva em imóveis com grandes áreas impermeabilizadas.”
Leia também:
Os planos de governo dos dois candidatos em 2008:
Num tempo que todos podem ser locutores, com seus próprios programas gravados em podcasts ou em vídeos no Youtube, nada podia ser mais anacrônico que uma voz de veludo, empostada, com a dicção perfeita, narrando como há 50 anos nos antigos programas de rádio. Não no SBT. Tem coisas que só no SBT pode. Uma delas era o Lombardi. Leia a íntegra

Raul Seixas e Marcelo Nova no Olympia clicados por Norma Albano em 1989
Quando velhos sucessos de Raul Seixas começaram a tocar repetidamente nas rádios na tarde daquela segunda-feira, 21 de agosto de 1989, não foram poucos os que se surpreenderam. Com Raul ausente das paradas desde Cowboy Fora da Lei, dois anos antes, escutar antigos hits como Ouro de Tolo, Gita, Metamorfose Ambulante e Maluco Beleza no meio da programação regular – que então ia da revelação Marisa Monte a Chitãozinho e Xororó e Milli Vanilli, passando por Legião Urbana – deveria significar alguma coisa. E a notícia não demorou a chegar.
Se para muitos foi uma surpresa, para os que acompanhavam o artista de perto era mais que esperado. Suas últimas aparições públicas causavam um misto de choque e comoção. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a lenda do rock brasileiro arrastava multidões em seus shows. Apoiado pelo amigo e discípulo Marcelo Nova, acabara de realizar uma extensa e bem-sucedida excursão por todo o País.
A derradeira apresentação foi em Brasília, poucos dias antes de ser encontrado morto no modesto apartamento onde morava sozinho em São Paulo. A semana que se seguiu ao show no Planalto Central seria de descanso e de preparação para as atividades programadas para o lançamento do disco gravado nos intervalos das apresentações pelo Brasil.
A Panela do Diabo, batizado pela dupla por inspiração de evangélicos que distribuíam panfletos comparando Raul ao Belzebu na porta de um show no interior de São Paulo, era o resultado da parceria que uniu os dois irrequietos baianos no momento em que o País vivia uma de suas mais importantes transições.
Panfletagem evangélica
As primeiras apresentações conjuntas de Raul e Marcelo foram na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, a apenas duas semanas da promulgação da Constituição de 1988. Mais que um marco histórico, a nova Carta tinha um efeito prático para o roqueiro. Após quase 20 anos de carreira, pela primeira vez ele estaria legalmente livre para dizer o que quisesse, como pregava a sua constituição, o manifesto da Sociedade Alternativa. Junto com a volta das garantias coletivas e individuais, a Constituição Cidadã – como Ulysses Guimarães a batizara – acabava de vez a censura às obras artísticas, mantida no governo civil de Sarney mesmo após a saída dos militares do poder e que ainda naquele 1988 havia proibido a execução pública de Não Quero Mais Andar na Contramão, do fraco disco A Pedra do Gênesis que antecedeu o encontro de Raul com Marcelo.
Se os novos tempos traziam liberdade total de expressão, o que faltava agora a Raul era motivação. Diabético, com uma pancreatite crônica decorrente do alcoolismo e recém-separado da última das cinco mulheres com quem foi casado, estava depressivo e amargurado. O sarcasmo, a ironia e a índole zombeteira e verborrágica que por anos marcaram suas aparições e músicas deram lugar a uma figura calada.
O convite do ex-líder do Camisa de Vênus para os shows – junto a um necessário acompanhamento médico – deu uma injeção de ânimo em Raul. Já na chegada a Salvador para as primeiras apresentações, a dupla chegou zombando de Gilberto Gil, que dava na capital baiana os primeiros passos da carreira política que culminaria anos depois com o cargo de ministro da Cultura no governo Lula. O atual presidente, na época disputando a sua primeira eleição presidencial, também foi alvo da dupla. Com a inédita campanha eleitoral para a escolha do novo presidente a pleno vapor em meados de 1989, o magro barbudo e Marcelo declaravam que não acreditavam em alguém que não ria, referindo-se à sisudez do petista, considerada um dos principais fatores de rejeição a ele.
Bandido casa com mocinho
Apesar do calor da disputa eleitoral enquanto corria a turnê, a sucessão política especificamente não serviu de inspiração para as composições da nova dupla. Mas outros temas que estavam nas páginas de jornais e nos noticiários da TV não passaram despercebidos. Em meio às celebrações ao “rockão antigo” e canções autobiográficas, a panela preparada por Raul e Marcelo misturava Salman Rushdie, Sting e cacique Raoni em Best Seller e ainda davam uma espinafrada em Edir Macedo na divertida Pastor João e a Igreja Invisível : “Pois eu transformo água em vinho, chão em céu, pão em pedra, cuspe em mel/Para mim não existe impossível/pastor João e a Igreja Invisível.” 20 anos depois, com os mesmos personagens ainda protagonizando os noticiários não deixa de ser premonitória a sentença da já citada Best Seller , que dizia que no final bandido casa com o mocinho.
Mas os pontos altos eram mesmo as que olhavam para dentro, para trás, ou para o futuro, como a mistura de balanço de vida com testamento de Banquete de Lixo : “Meu amigo Marceleza/já me disse com certeza/ não sou nenhuma ficção/ e assim torto de verdade/com amor e com maldade/ um abraço e até outra vez.”
Raul não viveria para ver o relativo sucesso do disco. Morreu aos 44 anos no dia em que o LP chegava às lojas. Também não viu o resultado daquelas eleições, a iminente queda do Muro de Berlim, a chegada da MTV, os anos 90, a internet… que talvez poderão ser cantadas por alguém daqui dez mil anos.

# Texto publicado originalmente em 21/8/2009 no Caderno 2 do Estadão
Nem o mais otimista dos fãs poderia esperar tanto. Após as apresentações de Os Panteras tocando o disco “Raulzito e os Panteras” e Leno Azevedo, com o cultuado e fantasma “Vida e Obra de Johnny McCartney”, intercalado pela vigorosa presença dos rockabillys Gaspa e Os Alquimistas, entrou ao palco Edy Star. Todo fã de Raul conhece a figura. Amigo de Raul Seixas desde a juventude em Salvador, Edy é o único remanescente do grupo que o então discreto produtor da CBS reuniu para perpetrar uma de suas primeiras iconoclastias musicais: “Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez”, disco de 1971 que além de Raul ainda contava com Edy, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada.
Claro que ninguém cobraria nada se dali não saísse muita coisa, já que no palco haveria 24 horas de Raul Seixas, com diferentes artistas interpretando todos os seus discos, música por música. Era jogo amistoso com a torcida a favor. Vindo especialmente da Espanha, onde mora e trabalha há vários anos, a sua simples presença era motivo de comemoração. Com sua personalidade festiva (Raul o chamava de Edy Bofélia) não seria difícil deixar uma lembrança simpática e carinhosa.
Mas Edy não é homem de se contentar com pouco nem de meios termos, como mostra a sua interessante trajetória. E também como se podia ver antes da apresentação, quando circulava – muitas vezes anonimamente – entre a multidão na Rua Casper Líbero. Durante o show dos Panteras, chegou a retirar uma faixa que um fã barbudo de óculos escuros e bandana pendurou em uma pequena árvore, impedindo que ele visse o show dos conterrâneos enquanto conversava com um homem que destoava dos milhares ao redor por estar de terno. Nessas situações não são poucos os que dariam um passo ao lado para evitar confusão. Mas, mal o sujeito pendurou a faixa, Edy a arrancou prontamente. O cara foi tirar satisfação e Edy encarou. De passagem, não deu para captar o diálogo ríspido que se seguiu, mas de longe dava para ver que a faixa não voltou a atrapalhá-lo.
Encerrado show de Leno, cabia então a ele relembrar não só o homenageado do dia, mas também outros dois talentosos falecidos que faziam parte daquilo que nos dias de hoje seria chamado de coletivo: Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Apesar da complexidade musical do disco de 1971, seu caráter anárquico permitiria que não houvesse tanta preocupação com o suporte musical e seria fácil apostar apenas na reconhecida capacidade cênica de Edy para segurar o show.
Como dito, era jogo ganho. Mas em vez de se contentar com um empate ou vitória por um de diferença, o técnico botou o time para golear. Responsável por reconstituir as 11 faixas inéditas em shows (a Sociedade Kavernista nunca se apresentou, e somente o bolero Sessão das Dez foi posteriormente aproveitado por Raul nos shows de sua fase inicial), o guitarrista Caverna foi meticuloso na reprodução dos arranjos e garantiu, com dupla de backing vocals, percussão e naipe de metais acompanhando a base bateria-baixo-guitarra – uma retaguarda pra lá de sólida para a performance de Edy.
Todas as faixas, começando pela carnavalesca “Êta Vida” e terminando com “Dr. Paxeco”, contavam com troca de figurinos de Edy, lembrando as roupas dos quatro protagonistas na capa do disco: a camisa da seleção brasileira de Sérgio, o hippie estilizado de Raul, a super-mulher de Miriam e o ídolo da juventude de Edy. As debochadas vinhetas que separam as faixas ao longo do disco (“…i rapaz hoje vi meu ídolo da juventude…; …alô, é Jorginho Manero, é verdade que agora você é hippie? Podes crê …” “Eu comprei uma televisão à prestação…”; “Tem um hippie em pé no meu portão…”) foram reproduzidas com fidelidade e participação de Sylvio Passos, fã-símbolo de Raul Seixas.
Mesmo não tendo as letras na ponta da língua (ao contrário do público) e por muitas vezes tendo que recorrer à leitura de colas no chão do palco, Edy não deixou a peteca cair por um minuto. Com a seqüência de bolero, xaxado, forró, marcha, samba, rumba e outros ritmos que o quarteto cantou com suas diferentes vozes no disco original, Edy botou a multidão majoritariamente associada ao rock (principalmente por causa da vestimenta preta) para dançar e rebolar numa incomum celebração musical.
Curiosamente, a catarse se deu em duas músicas que não eram de autoria de Raul Seixas nem por ele interpretadas no disco, mas de Sérgio Sampaio, mostrando o quanto também era genial o cantor e compositor capixaba que, como o homenageado da maratona, também se perdeu em algum ponto de sua vida. Na primeira delas, “Todo Mundo Está Feliz”, Edy colocou todo mundo pra pular com o poderoso refrão que podia ser hit em qualquer trio elétrico e que se alterna com a melodia quase melancólica criada por Sérgio.
Atrás do palco, os ponteiros do relógio da Estação da Luz estavam próximos de se juntarem, quando Edy começou a introdução de “Eu Não Quero Dizer Nada”, criando um involuntário trocadilho cênico com os versos “…já é quase meia noite, no relógio do edifício, onde estou…”. Talvez por ser originalmente cantada pelo próprio Edy no disco, a canção teve uma interpretação arrepiante na noite de sábado, com os batuques que acompanham o refrão “Você é tão legal” levando o público a um transe coletivo no centro da cidade. A goleada estava garantida com dois gols magistrais.
Agora era só correr por abraço com a anti-burocrata “Dr. Paxeco” e gozação de Edy com uma das lendas que cercam o mítico álbum levando ao palco uma arpa egípcia improvisada em tampa de vaso sanitário. Com tudo isso, nem tinha como a quase imperceptível vacilada de sincronização para o encerramento performático ao som original da descarga de privada do disco comprometer. E o bis, claro, não poderia ser mais apropriado: “Todo mundo está Feliz Aqui na Terra, Todo mundo está Feliz Aqui na Terra…”
# Publicado originalmente no Estadão.com
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