Cachorro Quente II (*adendo a Cachorro Quente)
Olá Beer, Galfano e Pinéccio,
Sei de cachorroquentistas que, por increça que parível, parecem ter esquecido que cachorro quente é para ser comido. Desmontam o bicho inteirinho, separam os ingredientes e começam a analisar. Cortam tudo em pedaços tão pequenos que muitas vezes não dá nem para perceber que aquilo era um cachorro quente. Um dos seus passatempos preferidos é tentar saber como foram feitos o pão e a salsicha. E, como qualquer um que se propõe a saber de onde vêm as salsichas, acabam tendo algumas surpresas, nem sempre agradáveis.
Uma vez vi dois caras discutindo porque um deles falou que aquele tipo de salsicha já tinha sido usada num antigo prato que não era mais servido nos dias de hoje. O primeiro estrilou, dizendo que era um absurdo, afirmando que a salsicha só existia por causa do cachorro quente. No meio da discussão, acabaram derrubando o cachorro quente no chão e estão sem se falar até hoje.
Uma outra briga que sempre vejo é por causa de um das lanchonetes que mais vendem cachorro quente, localizada em frente a uma grande escola para adolescentes. Tinha um cachorroquentista que não suportava ver a multidão se esbaldar de cachorro quente e toda vez que passava por lá praguejava contra o dono do estabelecimento. Dizia que ele, assim como outras lanchonetes muito freqüentadas, não podia vender cachorro quente e que seus clientes (na verdade ele disse “aqueles bostinhas”) nem ao menos comer cachorro quente sabiam. Ele quase morria de raiva ao ver os meninos comendo cachorro quente misturado com outras coisas que, para ele, eram gororobas.
Não adiantou o cara da lanchonete explicar que a molecada estava com fome, que gostavam de misturar tudo, e que alguns dos que nunca tinham comido cachorro quente adoraram. Irado, esse cachorroquentista disse ao comerciante (desculpem o termo) que cachorro quente era para poucos e que era preciso entender o valor nutricional, calórico e digestivo do cachorro quente para poder comer. Até abaixo assinado para impedir a lanchonete de vender cachorro quente ele fez. Chegou a conseguir umas assinaturas, mas não deu em nada.
O pior é que esse cachorroquentista às vezes tem que passar um carão, pois muitas vezes a lanchonete é o único lugar por perto que tem cachorro quente. Assim, quando não consegue que o sobrinho compre o cachorro quente para ele, sem opção, vai até lá, compra, mas nem olha para o cara do carrinho.
O que eu ainda continuo sem entender é essa estranha lógica dos cachorroquentistas: querem vetar algumas casas que servem cachorro quente de oferecê-lo, dizendo que elas não são dignas de servi-lo, e ao mesmo tempo gritam “SERVE CACHORRO QUENTE!!!” em todas as outras que não servem.
É verdade que existem umas lanchonetes que têm vários cachorros quentes originais feitos com antigas receitas e poucas vezes servidos, mas os deixam lá no congelador, misturado com um monte de outras coisas igualmente boas. Parece que já encontram uma fórmula para reproduzir a receita e logo vão oferecer novamente cachorro quente original, só que em nova embalagem.
Abraços,
Edmundo
(Publicado originalmente em 24/1/2005 02:03 no grupo de discussões Komuna)
O Brasil ganhou um lugar de destaque na nova onda em torno do cantor e músico Ray Charles, que morreu no ano passado aos 73 anos. Em meio à expectativa das indicações do filme que conta a sua vida ao Oscar e ao sucesso do tributo Genius Loves Company, foi lançado na Europa e Estados Unidos um DVD com um registro raro da primeira turnê de Ray Charles no Brasil, em 1963. Com um erro de acentuação no título, Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 mostra dois shows que Charles fez no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no dia 19 de setembro daquele ano.
O registro em preto-e-branco da histórica apresentação foi retirado de um videoteipe exibido três dias depois dos shows pela extinta TV Excelsior, responsável pela vinda do cantor ao País. Além de mostrar Charles num dos melhores momentos de sua carreira, às vésperas de completar 33 anos, o DVD tem um atrativo extra para o público brasileiro: o programa, exibido uma única vez, está exatamente como foi transmitido pela Excelsior, inclusive com os comerciais das também extintas Lojas Erontex, patrocinadoras do show. O lançamento do DVD no Brasil, pela Warner Music, que obteve os direitos do acervo de Ray Charles pouco antes de sua morte, está previsto para o fim de fevereiro.
Briga por audiência
A façanha da Excelsior de trazer o então cantor de maior sucesso no mundo foi resultado de uma briga de emissoras de TV por audiência. Nos últimos anos, a Record reinava absoluta na preferência do público e havia trazido para apresentações em seu teatro grandes nomes da música internacional, como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Tony Bennet, Dizzy Gisllespie, Pepino de Capri, Rita Pavoni e Charles Aznavour, além de astros do cinema como Tony Curtis, Marlene Dietrich e Jane Russell. As apresentações aconteciam no Teatro Record, que ficava na atual “região dos lustres” na Rua da Consolação. Aos poucos, porém a Record estava perdendo terreno para Excelsior, que arrendara o Cultura Artística, um pouco abaixo, na Nestor Pestana, ao lado da Praça Roosevelt, para servir de auditório de seus programas.
Segundo o produtor musical e crítico Zuza Homem de Mello, a Excelsior não poupava esforços para alcançar a concorrente: “Eles estavam com muito dinheiro”, conta Zuza, que conhecera o artista em 1959 nos Estados Unidos e que não foi aos shows em São Paulo por estar trabalhando na Record no mesmo horário.
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Em meio a essa disputa, a chegada de Ray Charles, era uma grande estocada na emissora concorrente, que pouco antes havia protagonizado um dos maiores micos da história da televisão brasileira: anunciara com pompa, durante dias, uma grande atração internacional surpresa, para no dia 31 de março mostrar um sósia e cover de Frank Sinatra vindo dos Estados Unidos.
A brincadeira, ou trote, da Record frustrou o seu público e rendeu várias críticas nos jornais. Com isso, a presença de Ray Charles na Excelsior foi tratada como um acontecimento épico pela emissora. O título do disco lançado para aproveitar a presença do astro no País, por exemplo, – “Ray Charles entre nós” – ecoava referências divinas. Programados inicialmente para junho, os shows acabaram acontecendo somente em setembro. Os anúncios de página inteira publicados à época pelo O Estado de S. Paulo davam o tom da expectativa, com um exclamativo “Ele veio mesmo” como cabeçalho.

Apesar do status de maior estrela a pisar em palcos brasileiros, Charles não deixaria de ter contratempos em sua estada no País. Um deles justamente por conta da briga entre as emissoras. Num lance parecido com a recente exibição pelo SBT de um filme anunciado pela Globo, a Record e a TV Rio, braço da emissora naquele estado, exibiram um vídeo-tape de uma apresentação de Ray Charles no Newport Jazz Festival de 1959. O golpe da Record rendeu uma polêmica. Um “comunicado ao público” da Ray Charles Corporation, publicado no Estado em 14 de setembro, assinado pelo agente Henry Golddrand, dizia que o vídeo fora exibido sem autorização do artista e que uma ação criminal contra os responsáveis seria movida pela empresa.
Denúncia anônima
O outro contratempo, que segundo relatou o Estado no dia da estréia em São Paulo quase ameaçou a temporada de Charles no Brasil, foi originado por uma denúncia anônima. A Polícia Marítima, então responsável pelo controle de estrangeiros, recebeu uma denúncia de que Charles estava no País com visto de turista, o que o impediria de cumprir qualquer contrato de trabalho em território nacional. Para resolver o impasse Charles deveria voltar ao Estados Unidos, se apresentar a um dos consulados brasileiros e ainda apresentar “atestado médico para provar sua capacidade física para o trabalho”. O problema virou caso diplomático e foi resolvido após intervenção da embaixada americana junto ao Itamarati.
Se havia alguma dúvida de sua capacidade física para o trabalho ela foi tirada com os 10 shows que ele fez durante os sete dias que ficou no Brasil. A temporada começou no Rio, com shows no Teatro Municipal e no Maracanãzinho. A passagem por São Paulo começou com os dois shows feitos na mesma noite de quinta-feira no Cultura Artística e terminou com apresentações no ginásio do Clube Paulistano, no fim de semana.
A estréia de Charles, que trouxe uma trupe de mais de 40 pessoas, entre músicos e um quarteto feminino de vozes, as “Raylets”, agitou o centro de São Paulo. Uma multidão ficou de prontidão durante o dia em frente ao Hotel Jaraguá, bem próximo ao auditório da Excelsior, para conseguir autógrafos do ídolo. Mas Charles só deixou o hotel momentos antes do show. Ao chegar ao Cultura Artística, outra multidão o esperava e, após 15 minutos de autógrafos, “somente logrou ingressar no Teatro contando para tanto com a ajuda de elementos da Guarda Civil e da Força Pública”, noticiou o Estado.
A performance daquela noite foi exaltada no dia seguinte no artigo O cantor e seus êxitos: “…foi com a sua grande voz que Ray Charles cantou e conquistou uma platéia, apresentando um repertório que tinha muito de novo e as canções pelo público gratamente relembradas, principalmente “I Can´t Stop Loving You”. Essas apresentações, agora disponíveis em DVD, de certa forma marcaram o fim do investimento das TVs da época em atrações internacionais por causa da alta do dólar, abrindo caminho para a Era dos Festivais. Ray Charles ainda voltaria a São Paulo outras cinco vezes ao longo de sua carreira. Mas já nessa primeira volta, em 1970, a cidade e o seu centro, onde se hospedara e apresentara, já não eram os mesmos. Assim, além da lembrança de um grande artista, o DVD Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 traz como bônus a nostalgia de uma cidade que não existe mais.
Edmundo Leite
São Paulo – Um estudo histórico sobre as favelas cariocas encomendado pelo jornal O Estado de S. Paulo na década de 60 está servindo como base para a prefeitura do Rio de Janeiro discutir o problema da violência nos morros da cidade. Publicado originalmente nas páginas do Estado em 13 e 15 abril de 1960, “Aspectos Humanos da Favela Carioca”, teve um de seus capítulos, intitulado “Delinqüência”, reproduzido na edição de quarta-feira do Diário Oficial do Município, no suplemento “Rio-Estudos”.
Sob o título “Favelas: Uma pesquisa para pensar”, o texto introdutório ao capítulo na publicação oficial do município diz que
“trata-se de uma pesquisa de campo com centenas de entrevistas, que nos permite ver a reprodução de uma série de situações que, em menor ou maior medida, se mantém até hoje: crianças e adolescentes no crime, chefes do morro, cotidiano de tiros, banalização da vida, violência sexual, violência policial etc” .
Para depois complementar:
“a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um – é peça fundamental e imprescindível para todos os que atuam nas favelas, os que fazem a cobertura jornalística das favelas, os que escrevem sobre as favelas e para as forças policiais que nelas agem e que, desde aquela época, eram criticadas por sua presença esporádica e não permanente.”
Mais que uma recomendação aos possíveis interessados, o trecho “…a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um…” , traz nas entrelinhas uma ordem do chefe da administração municipal aos seus subordinados. Conforme Joaquim Ferreira dos Santos, em sua coluna “Gente Boa”, no jornal O Globo, o prefeito avisou por e-mail a todos os seus secretários que escolherá dois deles na próxima reunião para responder perguntas sobre o estudo.
Referência
“Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi publicado pelo Estado em dois encartes de mais de 30 páginas cada um, numa quarta-feira e numa sexta-feira de abril de 1960, quando o Rio de Janeiro vivia seus últimos momentos de Distrito Federal, pois na quinta-feira seguinte, dia 21, seria inaugurada a cidade de Brasília.
O Estudo foi encomendado pelo jornal à extinta Sagmacs (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais). Orientado pelo padre Louis Joseph Lebret, fundador do movimento “Economia e Humanismo”, a pesquisa foi conduzida pelos sociólogos José Arthur Rios, Carlos Alberto de Medida e pelo arquiteto Helio Modesto. “Ao encomendar à Sagmacs uma pesquisa sobre as favelas do Rio, o “Estado” teve o objetivo de chamar a atenção dos governantes, administradores, legisladores, políticos e estudiosos das questões sociais para esse fenômeno tão característico dos centros urbanos do Brasil, que se manifesta de forma mais evidente no Distrito Federal”, dizia a apresentação do primeiro volume.
Apesar de trazer um rico e então inédito acervo de mapas, gráficos e tabelas, não era o aspecto estatístico que prevalecia, como já adiantava o título. “A tarefa que nos propusemos era conhecer a vida nas favelas, penetrar, quanto possível, na intimidade do favelado, descobrir suas atitudes fundamentais, suas reações e sentimentos, sua concepção de vida, de si mesmo e da cidade em que habita” , dizia a apresentação do estudo, que se desmembrou nos mais variados aspectos, como saneamento, lazer, educação, religiosidade, segurança e urbanização para fazer um panorama da situação nas favelas.
Tão logo foi publicado, tornou-se uma referência no assunto. Segundo notícia publicada no dia da inauguração de Brasília, “os suplementos divulgando a pesquisa estão sendo disputados por administradores, políticos, representantes das Associações Amigos de Bairro, bibliotecas, centro de estudos e pesquisas e editoras” .
O mesmo texto mencionava que os jornaleiros “que vendem diária e tradicionalmente o Estado no Rio de Janeiro sentem dificuldades em atender as centenas de insistentes pedidos de leitores para que obtenham exemplares das edições dos suplementos” . Para suprir a demanda dos leitores cariocas, o Estado cedeu o estudo ao jornal Tribuna da Imprensa, que o republicou no mês seguinte.
Ao apresentar o estudo patrocinado pelo Estado aos leitores de seu jornal no Rio, Carlos Lacerda afirmou que “pela primeira vez, num conjunto de pesquisas, se examina a favela sob seus aspectos sociais e econômicos. E exaltava a segunda parte, “que tem muito de crônica até – realçada pela limpidez do estilo em que se trai a presença de um escritor social de primeira categoria, misto de repórter e cronista, como a escrever a “Comédia Humana das favelas.”
Na época do estudo, o Rio de Janeiro contava 186 favelas nas quais moravam 750 mil pessoas, um quarto da população da cidade. Passados 45 anos e a cidade entrando em 2005 com mais de 6 milhões de habitantes, a atualidade dos problemas apontados em “Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi ilustrada pelo titular da pasta mais associada ao assunto, Marcelo Itagiba, da Segurança Pública, no mês passado: “o Rio foi uma cidade cercada de favelas e hoje é uma grande favela com a cidade no meio”.
(texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 08 de janeiro de 2005)
Link relacionado:
“Rio é favela com cidade no meio”, diz Itagiba
Cachorro Quente
Adoro cachorro quente. E não estará errado quem dizer até que amo cachorro quente. Gosto de todos os tipos e variações. Até mesmo daqueles que não são tão bons, daqueles que não estavam em seus melhores dias quando foram feitos. Além de curtir o gosto, me impressiona como esse sanduíche tipicamente americano se integrou à nossa cultura alimentar, incorporando ingredientes genuinamente brasileiros e transformando-se num dos itens mais originais de nossa culinária popular urbana de rua.
Apesar disso, não dá para viver numa dieta só de cachorro quente. Além de não fazer bem, comê-lo a toda hora, nas três refeições e quando mais desse, talvez acabasse tirando um pouco o lado divertido e prazeroso da coisa. Além do mais, também gosto muito de várias outros pratos que nada têm a ver com cachorro quente. E estranho os que dizem que gostar de cachorro quente exclui gostar desses outros pratos.
Agora, estranho mesmo é um pessoal que também gosta de cachorro quente, talvez até mais que eu, e que parece não conseguir viver sem cachorro quente. Podem estar numa pizzaria, churrascaria ou sorveteria, mas pedem cachorro quente, mesmo sabendo que ele não está no cardápio. Entram num restaurante português, japonês ou italiano e gritam bem alto para o garçom ou para cozinheiro: “SERVE CACHORRO QUENTE!!!”, de modo que todos os demais clientes também escutem.
A maioria desses cozinheiros até gostam bastante de cachorro quente, mas acabam se irritando com o pedido fora de lugar e, principalmente, com a maneira que ele é feito. Até os botecos que costumam improvisar para atender os clientes e as lanchontes especializadas em hambúrgures, que sempre têm cachorro quente como opção, estão começando a se queixar do tom dos pedidos, pois em vez de perguntar para o balconista se tem o que querem, gritam para o chapeiro: “SERVE CACHORRO QUENTE!!!”.
Amigos e familiares que também gostam de cachorro quente, mas não tanto assim, já estão evitando chamar esse pessoal para os churrascos, almoços e jantares, cansados de ouvir o pedido quando não fizeram cachorro quente porque não estavam a fim naquele dia.
Os “cachorroquentistas”, como se definem, costumam citar o receituário geral do cachorro quente, escrito há muitos anos, para justificar o direito de pedir cachorro quente quando, como e onde quiserem. O curioso é que, apesar de pedirem cachorro quente a toda hora, costumam reclamar muito quando alguns tentam colocar novos ingredientes no cachorro quente, esquecendo que o próprio cachorro quente brasileiro foi fruto dessas misturas e inovações.
Mesmo que esse cachorro quente não tenham sido feito para eles, querem que os outros comam o cachorro quente do jeito que eles gostam: fiel à receita original, ou com a chancela de um selo de qualidade de pureza cachorroquentista. Também esperneiam quando alguém que não comia cahorro quente começa a fazê-lo. E chegam mesmo a dizer que alguns não tem direito de servir cachorro quente, pois em algum ponto remoto de suas vidas não comiam cachorro quente em público, ou fizeram alguma crítica ao cachorro quente.
Assim, aos poucos, em vez de exaltar os valores do cachorro quente, acabam causando náuses em muitos que até simpatizavam, mas que já não querem nem sentir o cheiro por perto.
Abraços,
Edmundo
(Publicado originalmente em 18/1/2005 02:09 no grupo de discussões Komuna)
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