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Edmundo Leite

Um deles nega ter sido o autor de mensagem admitindo ter saqueado bancas na avenida Paulista

Edmundo Leite

São Paulo – A repercussão da notícia de que torcedores são-paulinos assumiram, em comunidades no site Orkut, atos de vandalismo na avenida Paulista na última sexta-feira fez com que alguns deles se retratassem de diferentes maneiras nesta quarta-feira. Em mensagens no próprio Orkut e numa ligação telefônica para a redação do Portal Estadão, Phelipe Meschiatti, de 19 anos, negou ter escrito a mensagem postada em seu nome no tópico “Paulista vs Independente”, dizendo ter saqueado três bancas de jornais.

“Só para esclarecer: quem colocou aquelas declarações idiotas na comunidade não era eu. Infelizmente, invadiram o meu Orkut e deixaram aquelas declarações cretinas. Meu advogado já está entrando em contato com o jornal O Estado de São Paulo para maiores esclarecimentos”, escreveu Phelipe numa mensagem postada num tópico iniciado por ele intitulado “Esclarecimentos”.

Diante dos inúmeros recados que passou a receber por causa da mensagem, deletada por ele do tópico, Meschiatti alterou a descrição de seu perfil de apresentação no site, onde acrescentou que foi roubado na avenida Paulista e que tem um Boletim de Ocorrência comunicando o fato. E aproveitou para dizer que “não concordo com o que aconteceu, inclusive, fui embora antes de todo o quebra-quebra”.

Reprodução/Orkut

A explicação, no entanto, não impediu que muitos participantes do Orkut lotassem sua página de recados dos mais variados tipos, como xingamentos, votos de que seja punido e até algumas ameaças veladas, como uma – apagada pouco depois – dizendo que em breve ele ia aprender a respeitar a Tropa de Choque.

Por telefone, Phelippe voltou a negar ser o autor da mensagem sobre os saques e contou que, por morar próximo a uma sub-sede da Torcida Independente, estava sendo ameaçado e alvo de hostilidades na rua.

Segundo ele, que afirmou também nunca sequer ter participado de qualquer torcida organizada, ele se deu conta da perda da carteira com documentos e cartões bancários quando chegou em casa, na madrugada de sexta-feira. Imediatamente, contou, fez um Boletim de Ocorrência Eletrônico pela internet.

A partir, desse momento, diz, não mais acessou a internet e só soube da mensagem admitindo vandalismo quando amigos ligaram para ele comunicando sobre a reportagem do Estadão.com.br, que o havia procurado por e-mail antes da publicação.

Meschiatti enviou o BO por fax à redação, mas não soube explicar como alguém conseguiria acessar sua conta no Orkut com os números de seus documentos. Perguntado se portava em sua carteira dados como e-mail e senha da conta, disse não se lembrar, para depois afirmar que sim. Ele afirmou também que pode provar, com testemunhos das pessoas que o acompanhavam (o irmão, outros parentes e amigos) que não se envolveu em vandalismo e que não postou texto algum sobre isso.

Reprodução/Orkut

Outros torcedores que também relataram atos de violência preferiram se retratar e, pressionados por outros participantes, vários testemunhos – arquivados pelo Estadão – foram sumindo das páginas ao longo do dia. A própria discussão foi inteiramente removida. Andre Inde, que a havia iniciado, criou o tópico “Sobre a Paulista”, onde escreveu que “ tudo aquilo que falei, falei porque estava nervoso, porque eles rasgaram meu braço, sem eu ter feito absolutamente nada. Também não quebrei nada, falei mesmo pela raiva que sentia naquele dia, até porque isso queima o nome da torcida.”

Reprodução/Orkut

De acordo com o delegado Mário Jordão, titular da 1ª Seccional Centro, investigadores do 78º DP (Jardins) já estão acessando o site. “Essas informações são extremamente importantes para nós.” A partir das declarações contidas no Orkut, pessoas podem ser chamadas para depor, seja por possíveis atos de vandalismo ou por serem testemunhas.

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 20 de Julho de 2005)

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Edmundo Leite

São Paulo – Pouco depois dos tumultos da madrugada de sexta-feira, já era possível ler na internet alguns relatos de torcedores do São Paulo que estiveram na avenida Paulista para festejar o título de tricampeão da Libertadores, mas que acabaram presenciando ou, em alguns casos, participando ativamente das cenas de violência que tomaram conta da comemoração.

Enquanto uns aproveitaram os fóruns de discussão ligados ao time e sua torcida no site Orkut para condenar a violência, tanto da parte dos torcedores como da polícia, outros não hesitaram em admitir publicamente que destruíram e saquearam bens públicos e estabelecimentos comerciais. “Tinha é que saquear tudo mesmo. Eu mesmo saqueei umas 3 banca (sic). Estou cheio de DVD, revista, cigarro”, escreveu sem pudores, morais ou gramaticais, Phelipe Meschiatti num tópico intitulado “Paulista vs Independente” na comunidade “Torcida Independente”, com 9.588 participantes cadastrados.

A justificativa para os saques, nas palavras de Phelipe, que também participa da comunidade “Eu amo a Paulista”, foi a truculência dos policiais. Chamando-os de “coxinhas”, Phelipe diz que a Tropa de Choque “foi dizimando tudo o que encontrava pela frente”. Após apontar a violência policial como causa dos tumultos e admitir os saques, Phelipe termina sua curta explanação atribuindo à conquista do título um aspecto redentor sobre a destruição na mais famosa avenida da cidade e glorificando implicitamente o caráter beligerante da torcida organizada. “O que importa é que somos tri. Independente, a mais temida do Brasil!”

Reprodução/Orkut

O autor do tópico de discussão, André, que incorporou ao seu sobrenome virtual o nome da torcida e a sigla do clube, havia dado, na mensagem inicial, o tom que seria adotado por Phelipe e outros participantes. “Eu assumo, quebrei também, tudo por causa da incompetência dos ‘coxinha’. Sei que não é certo, mas foi a revolta dos torcedores, porque esperamos 11 anos e quando somos tri não podemos comemorar”, escreveu André em seu relato de caracteres maiúsculos e banguela de algumas letras. Outro participante da discussão, que assina como Nefasto e tem em seu perfil pessoal o símbolo do time e as palavras de ordem da torcida, participou da discussão dizendo que “tem que quebrar tudo mesmo. Estava tentando até arrastar uns carros mas foi osso.”

Reprodução/Orkut

Em outra comunidade, a G.E.R.C. Tricolor Independente, a discussão “Bombas de gás na Paulista, quem estava lá?”, também apareceram relatos de saques: “Muito louco, tudo destruído. Roubei até uns chocolate (sic). Valeu, agora é o mundial”, escreveu Gabriel Fernandes, reprimido logo em seguida por Walter Silva: “Imagina se é a loja do teu pai lá, mano”. Walter, no entanto, admitiu que conclamou o enfrentamento com a polícia: “Se é para fazer merda era para ser em cima da polícia. Eu desci do carro, tentei agitar uma galera para subir ali pela Pamplona, mas não dava. Tinha muito cabeça de pinico. Agora vem um mané desse falar que levou chocolate. Pior que nem lá devia tá.”

Reprodução/Orkut

A exaltação do vandalismo, no entanto, não foi a tônica de todas as mensagens. Na maior parte delas, o repúdio à violência se misturava com vários tipos de relatos de vítimas da polícia. “Os coxinhas me pegaram sozinho indo para o carro, perto da Gazeta. Já não estava rolando treta nenhuma lá.. Aí os caras me espancaram”, contou Daniel Graça Orosz. “ Fiquei zuado demais. Fui de resgate para o Servidor Público Municipal da Vergueiro, onde tinha um monte de são-paulinos sendo atendido. Tomei ponto perto da boca, fiquei com dois dedos roxos (protejendo a cabeça), braços zuados e costas zuadas.”

Os distúrbios na Paulista ainda foram abordados em outros tópicos do grupo. Muitos escreveram textos condenando a violência, lamentando os incidentes e o estrago causado à imagem da torcida. Numa resposta que remete diretamente à justificativa postada por Orlandinho Silva (“os coxinha abusaram da violência. Aí ninguém tem sangue de barata, fomos para cima sim”), William Santos de Azevedo exortou os colegas de torcida a reavaliarem seus atos: “chega de mortes, chega de tanta violência. Molecada nova, vá ao estádio ver o espetáculo, deixe a violência de lado. Vale mais um corredor vivo, do que um enfrentador morto”.

Um outro participante que condenou o atos de violência evidenciou em sua mensagem a falta de controle da torcida sobre os integrantes das uniformizadas, em grande parte formada por adolescentes: “Espero que essa molecada que está entrando agora pare de se crescer só porque são da Independente, pois nossa torcida é mais que isso. E, diretoria, vamos por ordem nessa p… Pois hoje, além de inde… sou indi… indignado com o que ocorreu na Paulista”, escreveu André Jones.

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Torcedores invadem a Paulista

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Veja o especial São Paulo tricampeão da Libertadores

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 19 de Julho de 2005)

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10.fevereiro.2005 19:16:24

Fazer jornalismo na internet

1995-2005

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Fazer jornalismo na internet

por Edmundo Leite

“… A nostalgia, como sempre, havia apagado as lembranças ruins e aperfeiçoado as boas. Ninguém se salvava de seus estragos…” (Gabriel Garcia Márquez, em Viver para Contar)

Fato corriqueiro nos dias de hoje, as primeiras coberturas jornalísticas com enviados especiais voltados exclusivamente para a internet provocavam estranhamento nos colegas repórteres, principalmente de jornais impressos. Em janeiro de 2000, pude ver essa reação ao fazer a cobertura do torneio pré-olímpico, em Londrina, quando a seleção brasileira sub-23 comandada por Wanderley Luxemburgo garantiu vaga para a Olimpíada de Sidney que seria realizada alguns meses depois.

Até então, a Agência Estado já havia contado com enviados exclusivos para a internet na Copa do Mundo de 1998, na França, e na Copa América de 1999, no Paraguai. Ainda assim, era comum a curiosidade, e às vezes a desconfiança. “E se você tiver um furo, vai publicar para todo mundo ficar sabendo e dar também?”, perguntou um repórter de um jornal nos primeiros dias, revelando como muitas vezes nos preocupamos mais com a concorrência do que com o leitor. Um outro comentou que, ao ligar para o seu jornal para fazer um breve relato dos fatos do dia, ouviu como resposta de seu editor que ele já tinha lido as notícias no site da Agência Estado.

A desconfiança, no entanto, não vinha só dos colegas, mas também dos entrevistados: “Vai sair onde?”, perguntavam alguns jogadores e integrantes da comissão técnica para depois se mostrarem surpresos, e algumas vezes até desdenhosos, com a resposta de que a reportagem não estaria em nenhum meio impresso. Alguns mais curiosos até se interessaram em saber que uma notícia poderia ter mais leitores que a de um grande jornal impresso e que leitores de qualquer lugar do mundo poderiam lê-la. Mas no geral, quando não ignoravam totalmente a internet, mostravam-se reticentes.

Se hoje é comum ver jogadores, principalmente da seleção, com seus laptops durante viagens, naqueles primeiros dias de 2000 apenas alguns poucos se arriscavam com a rede. A situação também se estendia à comissão técnica, que todo dia nas primeiras horas da manhã destacava um de seus integrantes para buscar os jornais na banca em frente ao hotel onde a seleção se hospedava. Sondando para saber se acessavam a internet, soube que pouco ou quase nunca faziam.

Infelizmente, para alívio dos colegas e prejuízo dos leitores, não tive grandes furos de reportagem para relatar. Mesmo assim, era gratificante contar os fatos, os bastidores e o clima daquela campanha logo depois do acontecido. Algumas vezes, por conta do horário, com autonomia até para publicar diretamente em nosso site notícias que havia acabado de redigir. Como numa noite de sábado em que a comitiva da seleção tomou para si uma estrada da região ou o chilique protagonizado por Luxemburgo na véspera da decisão.

Dois anos depois, na cobertura da conquista do pentacampeonato mundial pela seleção brasileira na Copa do Mundo na Coréia do Sul e no Japão a realidade era outra. Enviados exclusivos para cobertura pela internet por outros veículos já eram vários.

E mesmo os profissionais que não estavam voltados para o “online” já não viam mais a internet com desconfiança, incorporando-a com uma importante ferramenta para o seu trabalho. O fuso horário de 12 horas também acabou fazendo da internet, no caso brasileiro, o meio com as notícias mais quentes, já que os veículos impressos ficariam com um dia de defasagem.

Apesar dessa realidade, a Fifa ainda não reconhecia a sua dimensão, chegando a restringir o credenciamento de profissionais de veículos que não tivessem um braço impresso.

Além de serem em maior número que antes, os jornalistas voltados para a cobertura pela internet agora contavam com um aparato tecnológico que ia de câmaras de vídeo e gravadores digitais a laptops com conexão sem fio. Recursos que ampliaram as possibilidades da maneira de noticiar os acontecimentos daquela histórica conquista.

Essa evolução tecnológica, no entanto, não mudou a maneira principal de como esses relatos muitas vezes eram enviados à redação para a publicação: um telefonema, seja de um moderno celular ou de um simples telefone público, para contar o fato que ainda estava fresco, como o momento que o capitão Émerson caiu em campo num treino recreativo na véspera da estréia da seleção. Horas depois, ele seria cortado para dar lugar a Ricardinho. Nas três horas que se passaram entre o tombo e o corte, por exemplo, várias notícias mostravam a evolução do caso.


10 anos de jornalismo online

Com o fuso horário de 12 horas inviabilizando a cobertura noticiosa pela edição impressa dos jornais, que tiveram que se adequar a uma nova abordagem que não ficasse restrita ao factual, um meio termo foi adotado pelo Estadão na Copa de 2002. Além do noticiário na internet e da cobertura mais densa da edição impressa, os leitores puderam contar com uma edição extra online. Assim, durante um mês, uma edição especial diária era produzida pela redação do portal em formato eletrônico, mas com uma diagramação do formato papel, trazendo um resumo do que tinha acontecido na madrugada.

Mas esses anos de jornalismo na internet não foram só de grandes eventos e coberturas externas. A cada avanço tecnológico, as possibilidades se expandiam e muitas vezes éramos tomados pela empolgação. Assim foi que, em 1996, nos primeiros dias de implantação do sistema editorial que permitia publicar notícias com rapidez até então desconhecida, nos vimos – eu e o Robson Pereira – cobrindo um jogo de vôlei ponto a ponto, com cada um ficando responsável por noticiar a pontuação de um time. Já no segundo set desistimos da empreitada, nos limitando ao resultado final de cada tempo.

Numa outra ocasião, num apagão nacional que aconteceu em março de 1999, quando a redação ficou com energia graças a um gerador, ficamos publicando notícias que levantávamos por telefone, enquanto alguns riam, dizendo que ninguém podia nos ler por causa do blecaute. O resultado, no entanto, foi compensador. Quando as luzes voltavam gradativamente ao resto do país, já contávamos com um amplo noticiário sobre o apagão, suas causas e repercussão.

Com o crescimento da internet nesses anos, não demorou para que as notícias fossem descobertas na própria rede, já que cada vez mais as pessoas e as empresas passavam a ter também uma existência virtual. Foi assim que, numa madrugada de julho de 1999, pudemos noticiar que o recém inaugurado site oficial da Confederação Brasileira de Futebol era na verdade da Nike, patrocinadora da seleção brasileira, que não escondia na internet o que negava no “mundo real”. O site saiu do ar no dia seguinte, para voltar depois sem a assinatura da empresa.

(Texto originalmente publicado em 2005 no Estadão.com.br)

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24.janeiro.2005 02:03:07

Cachorro Quente II

Cachorro Quente II (*adendo a Cachorro Quente)

Olá Beer, Galfano e Pinéccio,

Sei de cachorroquentistas que, por increça que parível, parecem ter esquecido que cachorro quente é para ser comido. Desmontam o bicho inteirinho, separam os ingredientes e começam a analisar. Cortam tudo em pedaços tão pequenos que muitas vezes não dá nem para perceber que aquilo era um cachorro quente. Um dos seus passatempos preferidos é tentar saber como foram feitos o pão e a salsicha. E, como qualquer um que se propõe a saber de onde vêm as salsichas, acabam tendo algumas surpresas, nem sempre agradáveis.

Uma vez vi dois caras discutindo porque um deles falou que aquele tipo de salsicha já tinha sido usada num antigo prato que não era mais servido nos dias de hoje. O primeiro estrilou, dizendo que era um absurdo, afirmando que a salsicha só existia por causa do cachorro quente. No meio da discussão, acabaram derrubando o cachorro quente no chão e estão sem se falar até hoje.

Uma outra briga que sempre vejo é por causa de um das lanchonetes que mais vendem cachorro quente, localizada em frente a uma grande escola para adolescentes. Tinha um cachorroquentista que não suportava ver a multidão se esbaldar de cachorro quente e toda vez que passava por lá praguejava contra o dono do estabelecimento. Dizia que ele, assim como outras lanchonetes muito freqüentadas, não podia vender cachorro quente e que seus clientes (na verdade ele disse “aqueles bostinhas”) nem ao menos comer cachorro quente sabiam. Ele quase morria de raiva ao ver os meninos comendo cachorro quente misturado com outras coisas que, para ele, eram gororobas.

Não adiantou o cara da lanchonete explicar que a molecada estava com fome, que gostavam de misturar tudo, e que alguns dos que nunca tinham comido cachorro quente adoraram. Irado, esse cachorroquentista disse ao comerciante (desculpem o termo) que cachorro quente era para poucos e que era preciso entender o valor nutricional, calórico e digestivo do cachorro quente para poder comer. Até abaixo assinado para impedir a lanchonete de vender cachorro quente ele fez. Chegou a conseguir umas assinaturas, mas não deu em nada.

O pior é que esse cachorroquentista às vezes tem que passar um carão, pois muitas vezes a lanchonete é o único lugar por perto que tem cachorro quente. Assim, quando não consegue que o sobrinho compre o cachorro quente para ele, sem opção, vai até lá, compra, mas nem olha para o cara do carrinho.

O que eu ainda continuo sem entender é essa estranha lógica dos cachorroquentistas:  querem vetar algumas casas que servem cachorro quente de oferecê-lo, dizendo que elas não são dignas de servi-lo, e ao mesmo tempo gritam “SERVE CACHORRO QUENTE!!!” em todas as outras que não servem.

É verdade que existem umas lanchonetes que têm vários cachorros quentes originais feitos com antigas receitas e poucas vezes servidos, mas os deixam lá no congelador, misturado com um monte de outras coisas igualmente boas. Parece que já encontram uma fórmula para reproduzir a receita e logo vão oferecer novamente cachorro quente original, só que em nova embalagem.

Abraços,

Edmundo

(Publicado originalmente em 24/1/2005 02:03 no grupo de discussões Komuna)

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O Brasil ganhou um lugar de destaque na nova onda em torno do cantor e músico Ray Charles, que morreu no ano passado aos 73 anos. Em meio à expectativa das indicações do filme que conta a sua vida ao Oscar e ao sucesso do tributo Genius Loves Company, foi lançado na Europa e Estados Unidos um DVD com um registro raro da primeira turnê de Ray Charles no Brasil, em 1963. Com um erro de acentuação no título, Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 mostra dois shows que Charles fez no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no dia 19 de setembro daquele ano.

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O registro em preto-e-branco da histórica apresentação foi retirado de um videoteipe exibido três dias depois dos shows pela extinta TV Excelsior, responsável pela vinda do cantor ao País. Além de mostrar Charles num dos melhores momentos de sua carreira, às vésperas de completar 33 anos, o DVD tem um atrativo extra para o público brasileiro: o programa, exibido uma única vez, está exatamente como foi transmitido pela Excelsior, inclusive com os comerciais das também extintas Lojas Erontex, patrocinadoras do show. O lançamento do DVD no Brasil, pela Warner Music, que obteve os direitos do acervo de Ray Charles pouco antes de sua morte, está previsto para o fim de fevereiro.

Briga por audiência

A façanha da Excelsior de trazer o então cantor de maior sucesso no mundo foi resultado de uma briga de emissoras de TV por audiência. Nos últimos anos, a Record reinava absoluta na preferência do público e havia trazido para apresentações em seu teatro grandes nomes da música internacional, como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Tony Bennet, Dizzy Gisllespie, Pepino de Capri, Rita Pavoni e Charles Aznavour, além de astros do cinema como Tony Curtis, Marlene Dietrich e Jane Russell. As apresentações aconteciam no Teatro Record, que ficava na atual “região dos lustres” na Rua da Consolação. Aos poucos, porém a Record estava perdendo terreno para Excelsior, que arrendara o Cultura Artística, um pouco abaixo, na Nestor Pestana, ao lado da Praça Roosevelt, para servir de auditório de seus programas.

Segundo o produtor musical e crítico Zuza Homem de Mello, a Excelsior não poupava esforços para alcançar a concorrente: “Eles estavam com muito dinheiro”, conta Zuza, que conhecera o artista em 1959 nos Estados Unidos e que não foi aos shows em São Paulo por estar trabalhando na Record no mesmo horário.

Em meio a essa disputa, a chegada de Ray Charles, era uma grande estocada na emissora concorrente, que pouco antes havia protagonizado um dos maiores micos da história da televisão brasileira: anunciara com pompa, durante dias, uma grande atração internacional surpresa, para no dia 31 de março mostrar um sósia e cover de Frank Sinatra vindo dos Estados Unidos.

A brincadeira, ou trote, da Record frustrou o seu público e rendeu várias críticas nos jornais. Com isso, a presença de Ray Charles na Excelsior foi tratada como um acontecimento épico pela emissora. O título do disco lançado para aproveitar a presença do astro no País, por exemplo, – “Ray Charles entre nós” – ecoava referências divinas. Programados inicialmente para junho, os shows acabaram acontecendo somente em setembro. Os anúncios de página inteira publicados à época pelo O Estado de S. Paulo davam o tom da expectativa, com um exclamativo “Ele veio mesmo” como cabeçalho.

Anúncio do show de Ray Charles publicado no Estado (Clique na imagem para vê-la ampliada)

Apesar do status de maior estrela a pisar em palcos brasileiros, Charles não deixaria de ter contratempos em sua estada no País. Um deles justamente por conta da briga entre as emissoras. Num lance parecido com a recente exibição pelo SBT de um filme anunciado pela Globo, a Record e a TV Rio, braço da emissora naquele estado, exibiram um vídeo-tape de uma apresentação de Ray Charles no Newport Jazz Festival de 1959. O golpe da Record rendeu uma polêmica. Um “comunicado ao público” da Ray Charles Corporation, publicado no Estado em 14 de setembro, assinado pelo agente Henry Golddrand, dizia que o vídeo fora exibido sem autorização do artista e que uma ação criminal contra os responsáveis seria movida pela empresa.

Denúncia anônima

O outro contratempo, que segundo relatou o Estado no dia da estréia em São Paulo quase ameaçou a temporada de Charles no Brasil, foi originado por uma denúncia anônima. A Polícia Marítima, então responsável pelo controle de estrangeiros, recebeu uma denúncia de que Charles estava no País com visto de turista, o que o impediria de cumprir qualquer contrato de trabalho em território nacional. Para resolver o impasse Charles deveria voltar ao Estados Unidos, se apresentar a um dos consulados brasileiros e ainda apresentar “atestado médico para provar sua capacidade física para o trabalho”. O problema virou caso diplomático e foi resolvido após intervenção da embaixada americana junto ao Itamarati.

Se havia alguma dúvida de sua capacidade física para o trabalho ela foi tirada com os 10 shows que ele fez durante os sete dias que ficou no Brasil. A temporada começou no Rio, com shows no Teatro Municipal e no Maracanãzinho. A passagem por São Paulo começou com os dois shows feitos na mesma noite de quinta-feira no Cultura Artística e terminou com apresentações no ginásio do Clube Paulistano, no fim de semana.

A estréia de Charles, que trouxe uma trupe de mais de 40 pessoas, entre músicos e um quarteto feminino de vozes, as “Raylets”, agitou o centro de São Paulo. Uma multidão ficou de prontidão durante o dia em frente ao Hotel Jaraguá, bem próximo ao auditório da Excelsior, para conseguir autógrafos do ídolo. Mas Charles só deixou o hotel momentos antes do show. Ao chegar ao Cultura Artística, outra multidão o esperava e, após 15 minutos de autógrafos, “somente logrou ingressar no Teatro contando para tanto com a ajuda de elementos da Guarda Civil e da Força Pública”, noticiou o Estado.

A performance daquela noite foi exaltada no dia seguinte no artigo O cantor e seus êxitos: “…foi com a sua grande voz que Ray Charles cantou e conquistou uma platéia, apresentando um repertório que tinha muito de novo e as canções pelo público gratamente relembradas, principalmente “I Can´t Stop Loving You”. Essas apresentações, agora disponíveis em DVD, de certa forma marcaram o fim do investimento das TVs da época em atrações internacionais por causa da alta do dólar, abrindo caminho para a Era dos Festivais. Ray Charles ainda voltaria a São Paulo outras cinco vezes ao longo de sua carreira. Mas já nessa primeira volta, em 1970, a cidade e o seu centro, onde se hospedara e apresentara, já não eram os mesmos. Assim, além da lembrança de um grande artista, o DVD Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 traz como bônus a nostalgia de uma cidade que não existe mais.

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Aspectos Humanos da Favela Carioca

Aspectos Humanos da Favela Carioca

Edmundo Leite

São Paulo – Um estudo histórico sobre as favelas cariocas encomendado pelo jornal O Estado de S. Paulo na década de 60 está servindo como base para a prefeitura do Rio de Janeiro discutir o problema da violência nos morros da cidade. Publicado originalmente nas páginas do Estado em 13 e 15 abril de 1960, “Aspectos Humanos da Favela Carioca”, teve um de seus capítulos, intitulado “Delinqüência”, reproduzido na edição de quarta-feira do Diário Oficial do Município, no suplemento “Rio-Estudos”.

Sob o título “Favelas: Uma pesquisa para pensar”, o texto introdutório ao capítulo na publicação oficial do município diz que

“trata-se de uma pesquisa de campo com centenas de entrevistas, que nos permite ver a reprodução de uma série de situações que, em menor ou maior medida, se mantém até hoje: crianças e adolescentes no crime, chefes do morro, cotidiano de tiros, banalização da vida, violência sexual, violência policial etc” .

Para depois complementar:

“a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um – é peça fundamental e imprescindível para todos os que atuam nas favelas, os que fazem a cobertura jornalística das favelas, os que escrevem sobre as favelas e para as forças policiais que nelas agem e que, desde aquela época, eram criticadas por sua presença esporádica e não permanente.”

Mais que uma recomendação aos possíveis interessados, o trecho “…a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um…” , traz nas entrelinhas uma ordem do chefe da administração municipal aos seus subordinados. Conforme Joaquim Ferreira dos Santos, em sua coluna “Gente Boa”, no jornal O Globo, o prefeito avisou por e-mail a todos os seus secretários que escolherá dois deles na próxima reunião para responder perguntas sobre o estudo.

Referência

“Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi publicado pelo Estado em dois encartes de mais de 30 páginas cada um, numa quarta-feira e numa sexta-feira de abril de 1960, quando o Rio de Janeiro vivia seus últimos momentos de Distrito Federal, pois na quinta-feira seguinte, dia 21, seria inaugurada a cidade de Brasília.

O Estudo foi encomendado pelo jornal à extinta Sagmacs (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais). Orientado pelo padre Louis Joseph Lebret, fundador do movimento “Economia e Humanismo”, a pesquisa foi conduzida pelos sociólogos José Arthur Rios, Carlos Alberto de Medida e pelo arquiteto Helio Modesto. “Ao encomendar à Sagmacs uma pesquisa sobre as favelas do Rio, o “Estado” teve o objetivo de chamar a atenção dos governantes, administradores, legisladores, políticos e estudiosos das questões sociais para esse fenômeno tão característico dos centros urbanos do Brasil, que se manifesta de forma mais evidente no Distrito Federal”, dizia a apresentação do primeiro volume.

Apesar de trazer um rico e então inédito acervo de mapas, gráficos e tabelas, não era o aspecto estatístico que prevalecia, como já adiantava o título. “A tarefa que nos propusemos era conhecer a vida nas favelas, penetrar, quanto possível, na intimidade do favelado, descobrir suas atitudes fundamentais, suas reações e sentimentos, sua concepção de vida, de si mesmo e da cidade em que habita” , dizia a apresentação do estudo, que se desmembrou nos mais variados aspectos, como saneamento, lazer, educação, religiosidade, segurança e urbanização para fazer um panorama da situação nas favelas.

Tão logo foi publicado, tornou-se uma referência no assunto. Segundo notícia publicada no dia da inauguração de Brasília, “os suplementos divulgando a pesquisa estão sendo disputados por administradores, políticos, representantes das Associações Amigos de Bairro, bibliotecas, centro de estudos e pesquisas e editoras” .

O mesmo texto mencionava que os jornaleiros “que vendem diária e tradicionalmente o Estado no Rio de Janeiro sentem dificuldades em atender as centenas de insistentes pedidos de leitores para que obtenham exemplares das edições dos suplementos” . Para suprir a demanda dos leitores cariocas, o Estado cedeu o estudo ao jornal Tribuna da Imprensa, que o republicou no mês seguinte.

Ao apresentar o estudo patrocinado pelo Estado aos leitores de seu jornal no Rio, Carlos Lacerda afirmou que “pela primeira vez, num conjunto de pesquisas, se examina a favela sob seus aspectos sociais e econômicos. E exaltava a segunda parte, “que tem muito de crônica até – realçada pela limpidez do estilo em que se trai a presença de um escritor social de primeira categoria, misto de repórter e cronista, como a escrever a “Comédia Humana das favelas.”

Na época do estudo, o Rio de Janeiro contava 186 favelas nas quais moravam 750 mil pessoas, um quarto da população da cidade. Passados 45 anos e a cidade entrando em 2005 com mais de 6 milhões de habitantes, a atualidade dos problemas apontados em “Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi ilustrada pelo titular da pasta mais associada ao assunto, Marcelo Itagiba, da Segurança Pública, no mês passado: “o Rio foi uma cidade cercada de favelas e hoje é uma grande favela com a cidade no meio”.

(texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 08 de janeiro de 2005)

Link relacionado:
“Rio é favela com cidade no meio”, diz Itagiba

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