Documentário polêmico sobre a Globo completa dez anos
(texto originalmente publicado em 08 de agosto de 2003)
Beyond Citizen Kane foi exibido pela primeira vez na Inglaterra, em 1993, e até hoje carrega aura de “proibido” no Brasil
Edmundo Leite
São Paulo – Há dez anos, um documentário sobre a TV Globo e o jornalista e empresário Roberto Marinho, morto na quarta-feira, provocou uma grande polêmica no Brasil. Exibido em maio de 1993 no Channel 4 da Inglaterra, Beyond Citizen Kane logo depois chegou ao País através de fitas de vídeo caseiras que se proliferaram por sindicatos, igrejas e faculdades, chegando a ser exibida até no Congresso Nacional, numa sessão organizada pelo hoje ministro Luiz Gushiken.
Com o título traduzido para Muito Além do Cidadão Kane, o documentário de Simon Hartag virou uma atração clandestina e ganhou a aura de censurado. Hoje, pode ser baixado na internet, recurso ainda inexistente na época no Brasil. O título do documentário faz menção ao célebre personagem Charles Foster Kane, o Cidadão Kane do filme homônimo de Orson Welles, de 1941, que mostra a trajetória de um magnata das comunicações e o império construído por ele.
Partindo do sugestivo nome, o documentário do canal inglês conta um pouco da história da televisão no Brasil e da Rede Globo, sempre num tom crítico. Abordando desde o acordo com a Time-Life, nos anos 60, o apoio à ditadura militar, o boicote à campanha das Diretas, o escândalo da venda da NEC, à polêmica edição do debate entre Lula e Collor nas eleições de 1989, o documentário inglês reúne 21 entrevistados para compor o quadro pretendido.
Nomes como Chico Buarque, Lula, Washington Olivetto, o ex-ministro da Justiça Armando Falcão, o inimigo Leonel Brizola e os ex-colaboradores globais Walter Clark e Armando Nogueira falam sobre a emissora. Uma frase de Chico Buarque, que já teve programa próprio na Globo, resume o tom do documentário: “Marinho é mais poderoso de que o Cidadão Kane. Ele é a maior força política de um país de 150 milhões de habitantes. Nada se faz sem consultá-lo. É assustador”.
Jogando com a torcida à favor, já que poder da emissora, real ou não, sempre foi um chavão impregnado no imaginário popular brasileiro, o documentário estava fadado ao sucesso. A proibição da exibição das fitas pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo deu o ingrediente que faltava: às acusações já feitas no documentário somava-se à de censura. Depois de duas sessões (não lotadas), as fitas do MIS foram confiscadas. Segundo Geraldo Anhaia Mello, na época coordenador de TV e Vídeo do museu, a ordem partiu do próprio governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho. A alegação oficial para o cancelamento das sessões foram problemas técnicos.
Na época, falou-se que a própria Globo teria comprado os direitos da fita para impedir sua veiculação no Brasil. “Mas acabou passando até na própria Globo”, disse Anhaia Mello, referindo-se ao fato de Leonel Brizola ter passado trechos do filme no horário eleitoral gratuito do PDT.
Apesar do sucesso da fita naquele ano, era comum após as exibições uma certa frustração entre os espectadores. Isso pelo fato de que nada de novo havia no documentário, cujo principal mérito era ser um inédito e bem feito trabalho de reportagem sobre a emissora de Roberto Marinho.
Segundo Anhaia Mello, que chegou a lançar um livro com a transcrição do conteúdo do documentário, a fita foi incorporada ao acervo do MIS. Segundo ele, apesar de a Globo ter tentado impedir a exibição do documentário na Inglaterra, não há restrição legal para sua exibição no País. “O que falta é alguém disposto a pagar pelos direitos de exibição para passar aqui”.
Edmundo Leite
No mesmo ano de 1903 em que Henry Ford começou uma revolução automotiva com a fundação da fábrica que levava seu nome, uma outra transformação motorizada ganhava corpo num modesto barracão em Milwaukee. Foi ali que os jovens William Harley e Arthur Davidson, ambos com pouco mais de 20 anos, finalizaram a adaptação de um motor de combustão a uma bicicleta.
Se não estavam inventando a motocicleta, novidade surgida há alguns anos na Europa, e nem eram os primeiros a fazer isso nos Estados Unidos, estavam criando o que viria a se tornar um mito sobre rodas. A marca com a junção dos sobrenomes pintada na porta do barracão não demorou a conseguir seus primeiros clientes e emplacar comercialmente.
As três unidades montadas naquele ano foram vendidas por US$ 200 cada. Cinco anos depois, o empreendimento iniciado no barracão já era uma fábrica estruturada, com a produção de 450 motos.
Neste mesmo ano de 1908 começou uma tradição que viria acompanhar a marca ao longo de sua história: pela primeira vez, um batalhão de polícia, o de Detroit, adquiria motos Harley-Davidson para o patrulhamento. E em 1909 era introduzido o famoso motor com os dois cilindros em 45 graus, um ícone da marca até os dias de hoje.
O uso das motos da companhia pelas forças armadas americanas na primeira guerra deu um impulso ainda maior para o crescimento da marca. Porém, como todas as empresas americanas, sentiu o baque da grande depressão econômica dos anos 30, mas conseguiu sobreviver, enquanto a maioria das concorrentes desapareceu. Foi preciso uma outra guerra mundial para a marca voltar a crescer. Com toda a sua produção adaptada para fins militares, a Harley-Davidson produziu quase 100 mil motocicletas para os aliados combaterem na Europa.
Além das vendas para o governo, a companhia tinha outro motivo para comemorar: tornou-se o veículo preferido dos soldados, que – de volta para casa – agora procuravam os modelos civis da Harley-Davidson.
Foi nessa época que uma mudança de comportamento alterou também a imagem da marca. Até então uma atividade solitária, o motociclismo passou a se tornar uma atividade coletiva, com grupos de 20 a 30 motoqueiros dando inicio às gangues. Uma reportagem da revista Life de 1947 na qual um motoqueiro aparece sobre uma Harley com várias garrafas de cerveja vazias no chão foi a inspiração para o diretor Stanley Kramerd rodar alguns anos depois o clássico “O Selvagem” (The Wild One), com Marlon Brando no papel principal.
Mesmo não sendo uma Harley Davidson a moto pilotada por Brando no filme, as vestimentas de couro usadas por ele passaram a ser associadas à marca. Já nos anos 60, um outro filme levaria a Harley-Davidson ao estrelato: Sem Destino (Easy Rider), com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson.
Já uma lenda e vendendo – mais do que uma moto – um conceito de liberdade, a empresa foi adquirida em 1969 pelo conglomerado American Machine and Foundry Company (AMF), que colocou as três letras de sua sigla na marca, para desespero de muitos admiradores. A opção dos novos donos foi de expandir o número de consumidores, apostando também nas motos leves. A experiência não deu muito certo e no fim da década de 70 a fábrica voltava a se dedicar às motos de grande porte.
O problema agora era outro, vindo de fora. As marcas japonesas entraram também no mercado das grandes motocicletas, oferecendo novas tecnologias a preço mais barato, fazendo com que as vendas da Harley despencassem. Para piorar, a qualidade das motos começava a ser questionada. Uma piada da época dizia que junto com a Harley vinha uma panela para colocar em baixo da moto, por causa dos vazamentos de óleo.
A década de 80 começou com a AMF vendendo a Harley aos antigos donos, que tiveram que recorrer ao governo para se salvar da falência. Se no passado os conflitos bélicos foram uma garantia da venda de seus produtos, a guerra agora seria travada em outros campos. Com um forte lobby político, a empresa conseguiu que o governo americano aceitasse a alegação de que os japoneses vendiam seus produtos abaixo do preço e impusesse um sobretaxa nas motos importadas.
A barreira duraria cinco anos, mas nem foi preciso tanto para a HD se recuperar. Em 1987, um ano antes do fim do prazo, a companhia deu uma demonstração de força e pediu ao Congresso que derrubasse as tarifas contra a importação das motos de grande porte pelas concorrentes.
Além de investir na melhoria das máquinas, sem perder um toque artesanal, a Harley-Davidson reforçou suas ações de marketing, voltadas agora a um público com grande poder aquisitivo que tem apreço por exclusividade. Remodelou as lojas, tornando-as tão assépticas quanto um shopping, e estimulou ainda mais o culto ao seu produto, deixando, calculadamente, a produção menor que a demanda e aumentando o mito.
(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em agosto de 2003)
O design das páginas é da Luciana Alencar
(Publicado originalmente no Estadao.com.br em 06 de junho de 2003)
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São Paulo – No ano em que se completam 30 anos do lançamento do primeiro disco-solo de Raul Seixas, chega às lojas de discos nos próximos dias uma versão inédita do último sucesso do cantor baiano, que morreu aos 44 anos em 1989. Anarkilópolis é uma versão de Cowboy Fora da Lei que deveria ter entrado no disco Metrô Linha 743, de 1984, pela Som livre. Não entrou por causa de problemas que naquela época eram cada vez mais recorrentes na vida de Raul. Depois de brigar com a mulher, o artista chegou embriagado ao estúdio, comprometendo a gravação, que não poderia mais ser trabalhada a tempo de ser incluída no álbum.
Guardião do famoso baú do cantor baiano, que ainda em vida o passou para ele a fim de que preservasse sua obra, Sylvio tem também uma gravação caseira com Raul cantando Anarkilópolis. “O Raul tinha esse refrão na cabeça desde 1973, tanto que originalmente ela se chamava Cowboy 73. Com o passar dos anos, ele mudou para Cowboy Fora da Lei“.
Sentado ao lado de um cover de Raul Seixas, que o visitava em seu apartamento, Sylvio Passos conta que tem várias outras gravações que poderiam ser lançadas, mas que precisam passar por um processo muito caro para melhorar sua qualidade. “Se fosse nos Estados Unidos ou na Europa um material como este estaria todo disponível. Mas aqui é difícil”. Isso porque o que pretende não é nada como uma Anthology, dos Beatles. “Seria uma coisa menor, não para o grande público, mas dirigida ao fã colecionador mesmo”.
A recuperação de Anarkilópolis pelo produtor Aramis Barros, que encontrou a fita, durou cerca de dois meses. “Tivemos que fazer uma colagem, pois eram fragmentos da voz guia, com Raul fazendo estudos para a música. Como tínhamos a base original melódica gravada, o que fizemos foi juntar tudo e dar uma coerência para a história que ele contava”.
Para viabilizar o lançamento da música inédita em um CD, a Som Livre optou por editar uma coletânea. A seleção deixou de lado os grandes sucessos para destacar as músicas de Raul que tiveram participação de outros artistas da música brasileira.
O destaque entre os nomes ilustres é o ministro da Cultura Gilberto Gil, que fez os arranjos e tocou violão em Que Luz é Essa?, retirada do LP O Dia em que a Terra Parou, de 1977. Nas demais faixas aparecem tocando Jackson do Pandeiro, Sergio Dias e Liminha, André Christovam e Celso Blues Boy, e Pepeu Gomes.
Participações em voz mesmo, só o backing vocal de Sergio Sampaio em Eu sou Eu Nicuri é o Diabo e os duetos com Wanderléa em Quero Mais e Marcelo Nova, ainda no Camisa de Vênus, em Muita Estrela, Pouca Constelação. Essa última uma participação especial de Raul num trabalho do grupo baiano em 1987.
Aniversário – Enquanto aguardam o lançamento da musica inédita, fãs de Raul Seixas estão preparando várias comemorações em homenagem ao 58.º aniversario de nascimento do cantor, que seria em 28 de junho. A maioria delas são shows tributos em bares de várias cidades do país. Também estão programadas algumas apresentações dos principais covers – alguns deles têm um circuito regular de shows – e exposições de objetos do cantor organizados pelo fã-clube.
Leia a letra da música:
Anarkilópolis (Cowboy Fora da Lei nº 2) – Raul Seixas/Sylvio Passos – 1984
Eu estava na cidade comprando milho pras galinhas
Quando um garoto chegou correndo para me avisar
Que a diligência do correio tinha deixado uma carta pra mim
Uma carta De quem seria essa merda …é, pois é… , mas…
ah… que era da prefeitura de Anarkilópolis
Me convidando para uma festa da sua emancipação
Ok boy.
Uísque de montão eu vou beber
E fazer tudo que eu quero fazer
Cada um manda no seu nariz
Por isso que o povo lá é feliz
É isso aí!
Meu filho, é isso aí…
Agora
Montei no meu “silver-jegue”
E parti com o firme propósito
de unir o útil ao agradável
Pois Anarkilópolis era também
O berço da minha amada
A bela Josefina Lee
Filha única do meu amigo
Xerife James Adean
Enquanto o jegue seguia rinchando
Eu seguia pela estrada cantando:
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra história é com vocês
Quando eu e meu jegue chegamos em Anarkilópolis
Pensei que tinha me enganado até de cidade
Tinha uns caras mal encarados armados até os dentes
Percebi logo a situação
Os bandidos haviam dominado o lugar
E mantinham todos como reféns
James Adean não era mais o Xerife
E só se via a cara das pessoas com tristeza e medo
Deus me livre, quase que eu dancei
Dedo no gatilho era da lei
Sozinho e desarmado estava ali
Pra o diabo, os que me chamaram aqui
Foi então…
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra história é com vocês
Meu filho, é isso aí…
(Publicado originalmente no Estadao.com.br em 06 de junho de 2003)
(publicado originalmente no Estadao.com.br em 06 de junho de 2003)
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São Paulo – Há 30 anos, numa passeata no centro do Rio de Janeiro em 7 de junho, quando um ainda desconhecido cantor saiu com seu violão pelas ruas entoando uma canção-lamento para os pedestres, a música brasileira começava a conhecer aquele que viria a se tornar um de seus maiores mitos.
Num tempo em que a mínima aglomeração de pessoas podia ser entendida como ato de subversão, a performance de Raul Seixas com a sua Ouro de Tolo desancando a classe média foi parar no Jornal Nacional daquela noite, dando impulso para os versos “Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho 4 mil cruzeiros por mês…” ganhar outras ruas em todo o país.
A intenção da passeata era promover Krig-ha, bandolo!, disco de estréia da carreira-solo do cantor baiano que seria lançado no mês seguinte. Puxado pela já conhecida Ouro de Tolo, lançada antes em compacto, e pelos hits Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante e Al Capone, o álbum logo estouraria nas rádios e lojas de discos.
Começava assim o estrelato do primeiro bad boy do rock nacional, ainda órfão de Roberto Carlos e seu bom-mocismo jovem guarda. Com alguns anos de atraso por causa da linha dura imposta pelo AI-5, o rock feito no Pais experimentava as mudanças que no resto do mundo haviam atingido seu ápice com o festival de Woodstock, em 1969.
A aura hippie da caminhada e o estilo de menestrel do artista, no entanto, tinham um suporte que estava longe do improviso. Ao dar os primeiros passos pela avenida Rio Branco, a imprensa já esperava Raul, a esta altura amparado pela poderosa estrutura da Phillips, gravadora multinacional dos principais artistas da MPB à exceção de Roberto – e que o havia contratado logo após a sua aparição no 7.º Festival Internacional da Canção, em setembro do ano anterior.
Se a inusitada mistura de rock com baião do roqueiro, ainda sem barba, cantando Let Me Sing, Let me Sing pegou de surpresa o público do festival da Globo, a Phillips sabia onde estava jogando as suas fichas. Raul Seixas não era um desconhecido no meio musical: na década de 60, acompanhava os ídolos da Jovem Guarda nas excursões por Salvador com o seu conjunto Raulzito e os Panteras e, desde 1970, era um renomado produtor de artistas populares na CBS. Doce, Doce, Amor, de Jerry Adriany, por exemplo, é uma das várias músicas que compôs nesse período.
Apesar da lenda (uma das muitas) espalhada por ele mesmo de que fora demitido desta gravadora por ter feito clandestinamente com os amigos Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e o andrógino Eddy Star o ótimo disco Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez, Raul estava apenas trocando de casa: recebera um ultimato de seu chefe, que lhe disse para optar entre a carreira de produtor ou de cantor, pois ali na CBS só teria espaço para uma destas atividades.
Não é difícil supor, dada a proximidade de datas, que neste momento o flerte do artista com a Phillips já era praticamente um namoro. Ironicamente, quando tomou a decisão de seguir outro rumo, o responsável por sua contratação pela mais prestigiosa gravadora da época foi Roberto Menescal, um dos pais da bossa nova, ritmo que Raul Seixas não cansava de malhar desde os seus tempos de roqueiro em Salvador.
Com liberdade total na nova casa, Raul fez Krig-ha, bandolo! e mostrou a que veio. Do título tirado de um antigo gibi de Tarzan à foto da capa, da vinheta de abertura (cantando rock aos 9 anos de idade), ao seu depoimento de encerramento, ele dá no disco uma amostra do que viria nos trabalhos seguintes, com dez canções misturando protesto, misticismo, fusão de ritmos, arranjos de primeira do maestro Miguel Cidras, rocks, baladas, ironia, sarcasmo e mal-dizer.
Se o disco era irretocável, o show de lançamento, no Teatro Teresa Raquel, não ficou devendo em nada ao desempenho em estúdio. Mostrando pleno domínio do palco, com uma performance de interpretações enérgicas e raivosas, conversas com o público e discursos, Raul Seixas não deixava dúvidas que um grande show-man surgia no cenário.
Junto com o sucesso, veio também o trinômio sexo, drogas e rock n´ roll, que no decorrer dos anos iria causar estragos irreparáveis à sua imagem e, sobretudo, à sua saúde, ao mesmo tempo que alimentaria a idolatria ao mito. Em passagens que não deixam nada a dever aos mais problemáticos astros do rock mundial, não faltaram bebedeiras, acusação de satanismo, cinco separações, briga com gravadoras e empresários, morte de uma pessoa em seu apartamento, cancelamento de shows e até uma tentativa de linchamento por ser considerado impostor de si mesmo em uma apresentação. Mas aí, quase dez anos tinham se passado e o álcool já havia tirado do frágil magro barbudo muitas coisas. A mais palpável delas, o pâncreas.
Quando cantava em Ouro de Tolo que tinha uma porção de coisas grandes para conquistar e que não podia ficar ali parado, Raul sabia o que dizia, ou pelo menos parecia saber. A intenção de ser conhecido vinha desde a infância, com o sonho de ser escritor, ator, cantor, de deixar a sua marca no mundo, como imaginou várias vezes em seus diários guardados com zelo num baú.
O que Raul Seixas não sabia, ou pelo menos não parecia saber, é que estava iniciando também naquele 1973 uma mudança de rumo na literatura brasileira e mundial. Mudança que tomaria forma somente alguns anos depois, já perto de sua morte em 1989: acompanhava-o naquela passeata pelas ruas do Rio o parceiro que conhecera pouco tempo antes e com quem comporia muitos de seus maiores sucessos. “A minha grande escola para escrever foi a letra de música”, não se cansa de repetir o hoje imortal Paulo Coelho sobre o sucesso de seus livros no mundo inteiro.
Edmundo Leite
(publicado originalmente no Estadao.com.br em 06 de junho de 2003)
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