Veja como foi o drama de Émerson
Edmundo Leite
Ulsan, Coréia do Sul – Faltavam poucos minutos para seis horas da tarde em Ulsan quando Rivaldo chutou para o gol do estádio Munsu, onde a seleção brasileira fazia um treino de reconhecimento no local onde iniciará a luta pelo pentacampeonato. Émerson, que fazia as vezes de goleiro no recreativo disputado em meio campo, saltou para a defesa, defendeu a bola, mas caiu de mau jeito, sobre o braço. Uma roda logo se formou em torno do capitão da seleção brasileira, que passou a ser atendido pelo médicos José Luiz Runco e Rodrigo Laimar.
O diagnóstico foi dado ainda em campo. “Percebemos no toque”, disse Runco. O jogador que havia se tornado uma referência para o time de Scolari sofrera uma luxação no ombro direito.
A partir desse momento, acabava, a um dia antes da partida de estréia, a Copa do Mundo para o volante que em 98 foi chamado para a seleção quando o atacante Romário foi cortado por contusão. Apesar da ótima visibiliadade da tribuna de imprensa do novíssimo estádio Munsu, pouco ou quase nada se podia saber. Com todos os outros 22 jogadores acompanhando o atendimento médico ao capitão, não era possível ver os dois médicos colocando o ombro de Émerson de volta ao lugar.
A “redução”, como é chamado o procedimento adotado nesse tipo de contusão durou dois minutos. Pouco depois, Émerson estava acompanhando o treino ao lado do gramado. Não demorou, deixou também o gramado, acompanhado dos médicos em direção ao vestiário. Nesse momento, apesar da aparente tranqüilidade com que continuou o recreativo, os jogadores da seleção já sabiam que algo grave havia acontecido. Edílson, ainda durante o atendimento a Emerson, foi um dos primeiros a perceber e comentar com os colegas.
Para os repórteres, a impressão de que algo grave estava acontecendo começou com a movimentação do pessoal da Fifa na zona mista, local onde os jogadores dariam estrevista após o treino. O entra e sai do pessoal de apoio e dos representantes da Fifa era constante e a demora para a saída dos jogadores aumentou a expectativa. Quando os primeiros atletas apareceram, a tensão já era evidente.
Cabisbaixos, o discurso comum era o de que uma possível baixa não abalaria o grupo, mas que ainda não havia definição do que tinha acontecido. Mas Rivaldo já dizia que achava que Emerson não teria condições de jogar nesta segunda-feira. Logo em seguida, Emerson passa, sem falar, com o braço imobilizado por uma tipóia.
O anúncio de que Runco só falaria no hotel da seleção aumentou as especulações sobre o que teria acontecido. O médico deixou o estádio antes da delegação para preparar um relatório e enviar para o Comitê Médico da Fifa. Junto do relatório, um pedido autorizando a inscrição de um novo atleta.
Uma entrevista coletiva foi improvisada para que Runco comunicasse que o capitão do time estava fora do Mundial. “Infelizmente, ele precisará de pelo menos 4 semanas para voltar a jogar futebol”. O médico explicou que o Emerson se contundiu porque caiu com o braço aberto, provocando um deslocamento da articulação. E, de cara, descartou qualquer possibilidade de investir numa rápida recuperação.
“Até pode acontecer de ele se recuperar antes, mas não podemos trabalhar na hipótese do “se”. Por se tratar da primeira contusão no local, ela não poderia ser tratada apressadamente. “As estruturas internas foram lesionadas e é preciso cicatrizar”.
Runco aproveitou para rebater as críticas de que se não era temível expor um jogador a um risco desse num treino recreativo um dia antes de uma estréia em Copa do Mundo. “É uma praxe no futebol brasileiro colocar os goleiros na linha e jogadores no gol nesse tipo de treino. Poderia ter acontecido com qualquer um”.
Confirmado que Emerson estava fora, restava saber se a Fifa autorizaria a convocação de um substituto. Um médico coreano da Fifa logo chegou ao Hotel Hyundai para avaliar Emerson. Além da questão médica, havia uma dúvida burocrática: se o prazo de 24 horas antes da estréia para a inscrição de um jogador havia ou não vencido. Se valeria o horário que o jogador se contundiu ou o que foi enviado o aviso da CBF.
A essa altura, os nomes dos prováveis convocados já eram especulados e iam desde Juninho Pernambucano a César Sampaio e Mauro Silva. A comissão técnica, no entanto, insistia que só falaria com a posição oficial da entidade que controla o futebol mundial e a competição.
Apesar do clima de consternação, a comissão técnica estava confiante de que a autorização seria dada. “Do ponto de vista médico, acho difícil alguém contestar. Estariam me chamando de mentiroso”, disse Runco. “E até porque seria um imbecilidade alguém cortar o capitão do time um dia antes da estréia”. Nesse ponto, Runco informava que Emerson tomou um injeção de antiinflamatório e ainda seria submetido a uma ressonância magnética pela manhã para dar mais subsídios à decisão da Fifa.
Nem foi preciso esperar tanto. Pouco depois, chegava a comunicação de que a Fifa aceitara o pedido brasileiro e que o corintiano Ricardinho seria convocado. No salão do segundo andar do hotel, houve até quem comemorasse o anúncio do nome.
O substituto para o jogo contra a Turquia será anunciado somente nesta segunda-feira pelo técnico Scolari. A dúvida é se ele optará por apenas uma substituição ou fará mudanças que afetem todo o meio-campo da equipe.
A História se repete Há exatos quatro anos, no dia 2 de junho de 1998, Emerson vivia uma situação oposta. Enquanto Romário chorava por ter sido cortado da seleção a poucos dias do início da Copa, ele era convocado por Zagallo para substituir o atacante. (Veja a notícia da convocação de Emerson em 98)
Edmundo Leite
(texto originalmente publicado no site da Copa do Mundo de 2002 do Estadão)
[...] Coréia do Sul – Nada como um susto para deixar as pessoas mais atentas. Com a contusão e o corte do volante Émerson ainda frescos na memória, o técnico Luiz Felipe Scolari adotou a cautela no treino de [...]
[...] Émerson caiu em campo num treino recreativo na véspera da estréia da seleção. Horas depois, ele seria cortado para dar lugar a Ricardinho. Nas três horas que se passaram entre o tombo e o corte, por exemplo, [...]
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[...] # O drama do corte de Émerson [...]
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