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Guapuruvu do Quatiara (1978-2014)

Edison Veiga

04 setembro 2014 | 23:00

Uma árvore morre; seus frutos são as memórias afetivas dos moradores de um condomínio no Butantã

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Mas como assim uma árvore morre? OK, é um ser vivo e, portanto, morre. Mas não era para viver 100, 200 anos? Para ultrapassar a nossa própria geração? Um homem pode ser testemunha da vida toda de uma árvore? Então é assim: outro dia, estava lá o guapuruvu todo florido, alegrando os moradores do Edifício Quatiara. De repente, fim. O que eram flores amarelas, agora são só galhos. Secos. Caindo.

E o que era beleza agora é ameaça: a árvore pode despencar a qualquer momento – sobre gente, sobre carro, sobre chão. E o que era poesia agora é problema: faz dois meses que síndico e zelador estão num corre para tirar a árvore morta dali, entre assembleias de condomínio, autorizações mil e muitos etc. E agora o prédio ainda vai ter de desembolsar R$ 7 mil para uma empresa remover o que era árvore.

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Ninguém melhor do que o Seu Osvaldo (foto acima) para contar essa história. Osvaldo Pereira Matos, 56 anos, é zelador do Edifício Quatiara, no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo. Trabalha no prédio há 37 anos – começou como auxiliar de manutenção. Em 1978, um morador apareceu com uma muda de árvore. “Osvaldo, que tal plantar isso aqui no condomínio?”, propôs. “Não sabia o nome da árvore, nem nada. Media nem 1 metro. Ele disse que era bonita, que iria dar flores. Fui lá e plantei”, recorda-se.

(Este é um relato cheio da “língua geral paulista”. Tem Butantã, que é “terra duríssima”; tem Quatiara, que é nome popular da serpente Rhinocerophis cotiara; tem Guapuruvu – Schizolobium parahybae.)

A planta foi crescendo, crescendo. “Uns oito anos depois, começou a dar flores”, diz Seu Osvaldo, dia após dia cuidando, regando nos períodos de seca, limpando matinho em volta em época de chuva, enfeitando com luzinhas todo Natal. “Um dia perguntei para um jardineiro o nome da árvore e ele me falou: guapuruvu”, conta. Desde então Seu Osvaldo passou a colecionar fatos sobre a árvore. Aprendeu, por exemplo, que a sua madeira é pouco densa – no litoral, utilizada por caiçaras para fazer canoas. Entendeu seu ciclo de floradas sempre de agosto a outubro. Não se surpreendeu mais com o crescimento rápido, porque viu que a danada é assim mesmo, cresce uns 3 metros por ano.

É claro que foi o zeloso Seu Osvaldo o primeiro a notar que a árvore não andava bem. “No fim do ano passado, percebi que em vez de folhas grandes, ela estava cheia de folhas miúdas. E essas folhas estavam caindo muito”, relata. O guapuruvu já tinha uns 28 metros de altura, alcançava ali a altura do 10º andar – o Edifício Quatiara, projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake em 1972, tem 22 pavimentos.

Seu Osvaldo decidiu apresentar o problema da árvore para o síndico do prédio, o engenheiro elétrico Eduardo Hirakawa, de 66 anos. No começo, ele achou que fosse lá o que fosse, ia passar. Eduardo também conhecia a árvore desde o plantio – mudou-se para o prédio em 1973, logo quando o condomínio foi inaugurado.

Mas aí os meses foram passando, a árvore definhando. E, em 18 de maio, o Estado publicou uma matéria sobre guapuruvus morrendo no litoral norte (confira aqui). A causa provável: um fungo que seria inoculado na árvore por um besouro. “Quando li a reportagem, não tive dúvidas: nosso guapuruvu estava mesmo morrendo”, afirma o síndico. Assinada por Giovana Girardi, a matéria foi recortada e está guardada até hoje lá no prédio, tal e qual um atestado de óbito da árvore.

Então começou a saga do condomínio para dar um fim digno à árvore. Moradores foram comunicados em assembleia. À Prefeitura, um pedido de remoção acabou enviado. Autorizações ambientais começaram a ser providenciadas. “Um engenheiro agrônomo da subprefeitura veio aqui umas três vezes, para constatar que a árvore morreu mesmo”, conta Eduardo. “Quando soube, chorei”, admite Seu Osvaldo. “Dizem que um homem precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, não é? Para mim, falta o livro. Filho, tenho cinco; árvore plantei essa – mas não é justo ter de ver ela ser arrancada…”.

Faltam apenas detalhes para que o guapuruvu seja retirado dali, é verdade. “Isso deve acontecer nos próximos dias”, acredita o síndico. Como está em área que pertence ao condomínio, o processo deve ser feito por empresa privada. “Cotamos em três. O prédio terá de pagar cerca de R$ 7 mil”, revela o zelador.

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Nos últimos dois meses, essa história de morte da árvore querida criou comoção entre os moradores dos 84 apartamentos do Quatiara. Entre eles, o artista plástico italiano Francesco Di Tillo (foto acima), de 30 anos, que vive há menos de dois anos ali. “Fiquei chocado. Meu primeiro pensamento foi: ‘uma árvore morre?’. Porque no dia a dia a gente acaba se esquecendo do fato de que todas as vidas têm uma morte”, filosofa ele, da janela do 15º andar, contemplando tristemente os galhos do guapuruvu morto.

Francesco decidiu eternizar a árvore por meio das memórias afetivas dos moradores do prédio. Convocou uma dupla de cineastas (sua mulher, Marina Figueiredo Melo; e um amigo, Ricardo Martensen) e está gravando histórias relativas ao guapuruvu. Já entrevistou 20 pessoas. “Decidi que termino as filmagens com o corte da árvore”, diz.

Quando isso acontecer, vai haver uma assembleia no Quatiara. Para definir o que vai ser feito do vazio da árvore morta. “Tenho ouvido de tudo: alguns querem um novo guapuruvu. Outros preferem outra espécie, que seja mais resistente. E há os que defendem manter o local sem nada, como uma janela em memória da árvore”, comenta o artista plástico.

O filme de Francesco deve se chamar Guapuruvu. E, quem sabe, um dia Seu Osvaldo escreva um livro sobre o guapuruvu do Butantã.

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Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 5 de setembro de 2014