1. Usuário
Assine o Estadão
assine


“Nunca imaginei que seria eu o escolhido a inaugurar o Auditório Ibirapuera”

Edison Veiga

21 agosto 2014 | 00:01

O pianista Marcelo Bratke comenta sobre sua ligação com o parque que hoje completa 60 anos

Hoje, o Parque do Ibirapuera completa 60 anos. No último domingo, publicamos matéria cheia de curiosidades a respeito da mais querida área verde de São Paulo. Hoje, o blog publica entrevistas com gente ligada à história do local.

Para começar, o músico Marcelo Bratke, que teve o privilégio de inaugurar o Auditório Ibirapuera, em 2005.

Foto: Romulo Fialdini/ Divulgação

Como soube que sua apresentação seria a de abertura do Auditório Ibirapuera? O que isso significou para você, pessoalmente, e para sua carreira?

Nunca imaginei que seria eu o escolhido a inaugurar o Auditório Ibirapuera. Em uma manhã como qualquer outra fui surpreendido com um email da cineasta, diretora teatral e produtora cultural Monique Gardenberg, que estava à frente da abertura do Auditório, me convidando para inaugurar oficialmente o Auditório Ibirapuera. Idealizei o concerto Saudades do Brasil que traria um diálogo musical entre o lado erudito da cultura popular e o espírito popular da música erudita. O concerto de inauguração foi repetido nos três dias seguintes, sendo quatro concertos de abertura no total, nos quais tive a prazer de ter como convidados especiais o grande percussionista Naná Vasconcelos e os jovens percussionistas alunos de Naná. Foi provavelmente a maior honra da minha carreira: inaugurar um espaço para música projetado por Oscar Niemeyer nos anos 50, mas construído somente 50 anos mais tarde no mais importante parque da cidade onde nasci. Foi também um passo artístico decisivo em relação a como eu poderia trazer para o mesmo palco, tantos universos musicais diferentes. Isto me interessa muito na música.

Como foi esse episódio em que você conheceu Oscar Niemeyer? Quando?

Em 2005, uns seis meses antes de receber o convite para inaugurar o Auditório Ibirapuera (era um domingo no final da tarde) estávamos, eu a minha esposa (Mariannita Luzzati) caminhando por Copacabana e ao passarmos em frente ao prédio onde ficava o escritório de Oscar Niemeyer, notei que as luzes estavam acesas. Me ocorreu tocar a campainha e arriscar dizer que eu era o neto do já falecido arquiteto Oswaldo Bratke (seu companheiro de profissão) e que gostaria muito de lhe dar um abraço. Para minha surpresa, a pessoa que atendeu o interfone me pediu um momento e voltou dizendo: Podem subir!
Me apresentei, ele me ofereceu uma cigarrilha (mas neguei, pois não fumo) e ficamos conversando por horas, eu, Mariannita, o bisneto do arquiteto e o próprio Oscar Niemeyer. Falamos sobre arquitetura, sobre meu avô, sobre política, música e sobre as montanhas. Ele me disse que gostaria muito de aprender a tocar piano para poder tocar Tristão e Isolda, de Richard Wagner, mas que achava que era um pouco tarde para isso! mas que estava estudando filosofia naquela época. Depois disso, conversamos só mais uma vez, por telefone, na ocasião da inauguração do Auditório Ibirapuera, quando ele me disse que não iria a inauguração pois o seu novo projeto de alteração da Marquise que fica ao lado do Auditório Ibirapuera não havia sido aprovado.

Antes, qual era sua relação com o Parque do Ibirapuera como um todo? Costumava frequentar? Alguma lembrança em especial do parque em sua vida?

Na minha infância frequentava o Parque do Ibirapuera (eu o chamava o parque de Euvirapuera) Ia com minha mãe ou com meu pai, gostava de um grande tobogã que colocaram em um canto do parque. Eu não enxergava bem nesta época e era meio tímido para interagir com outras crianças. Mas me lembro de minha mãe ter me levado ao Ibirapuera logo após uma pequena cirurgia. Como pra mim este foi um trauma (tinha uns 4 anos então) me lembro do cheiro da grama molhada e da felicidade de estar na sombra das árvores após ter entrado “na faca”.