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No campo adversário (jogo 2: México 0 x 0 Brasil)

Edison Veiga

18 junho 2014 | 14:01

FOTO: ERICA DEZONNE/ ESTADÃO

Frijoles refritos, guacamole, linguiça com batata, taco… A mesa estava posta uma hora antes do jogo. “Gosto muito do Brasil, aqui fui muito bem acolhido.. Mas em Copa do Mundo torço em primeiro lugar para o México”, diz Jorge Afiune, de 51 anos. “Ou seja, hoje (ontem), pela primeira vez, serei obrigado a torcer contra o Brasil.”

Nascido na Cidade do México, ele se mudou para São Paulo em 2008, somando-se aos cerca de 4 mil conterrâneos que vivem aqui. Veio com a mulher, Hala Haddad, atualmente com 37 anos – ela é nascida na Síria -, e o casal de filhos (ambos mexicanos) Jorge e Andira, hoje respectivamente com 19 e 12 anos. “E oito malas”, recorda-se.

Até 2006, trabalhava com confecções. “Tinha uma loja de roupas, uniformes em geral”, conta. “Mas eram tantos camelôs que não tivemos mais como competir.” Decidiu abrir um restaurante de comida árabe, aproveitando o talento culinário de sua mulher, Hala. Mudaram-se para a cidade turística de San Juan, a 45 km da capital mexicana e ali abriram o Al Árabe.

Mas Jorge lembra que há uma diferença muito grande entre ter um restaurante de comida estrangeira no México e no Brasil. “Lá, nossa clientela era basicamente a comunidade árabe, a colônia. O brasileiro, o paulistano principalmente, gosta de experimentar outras culinárias, tem coragem de conhecer novos sabores”, compara. Então o restaurante árabe no México não andava tão bem em 2008.

Foi quando seu cunhado, que já morava em São Paulo há 20 anos, contou maravilhas sobre a capital paulista. “Ele achava que nossa comida ia fazer sucesso por aqui”, explica, lembrando que na época eles já tinham inventado misturas como o taco árabe, até hoje sucesso da casa. Seis meses depois, desembarcavam em São Paulo. Mais três meses e abriam a versão paulistana do Al Arábe, na Rua Artur de Azevedo, em Pinheiros – no andar de cima, mora a família. E foi onde eles assistiram ao jogo ontem, na companhia de oito amigos – brasileiros – e da reportagem do Estado. Vibrando muito, a cada ataque do México – sobretudo no segundo tempo. E a cada defesa do goleiro mexicano – isso foi em todo o jogo.

FOTO: ERICA DEZONNE/ ESTADÃO

Vinda a SP. “No começo, foi bem difícil. A gente chegava a oferecer comida de graça a quem passasse, para que conhecessem nosso restaurante”, conta Jorge. Aos poucos, a clientela foi conquistada, seja pelas cuidadosas receitas, com tempero mexicano em pratos árabes, seja pela simpatia do proprietário. “Gosto quando a pessoa entra aqui como cliente e sai como amigo”, é o lema que costuma repetir.

Seis anos depois da chegada ao Brasil – completados exatamente no último domingo -, a adaptação é plena. “Minha filha fala melhor português do que o espanhol”, exemplifica. “Acho muito difícil voltar um dia a viver no México.” A passeio, foi só uma vez – no ano passado.

O filho mais velho, também chamado Jorge, cursa Gastronomia. “Já ajudava aqui no restaurante e foi natural querer me profissionalizar nessa área”, diz ele. A maior parte dos amigos convidados pela família para assistir ao jogo ontem era da sua turma de faculdade. Ele está animado com a Copa do Mundo. “Vou ao Recife para assistir a México e Croácia, com quatro primos que vieram do México por causa da Copa”, conta. Sobre o coração dividido, sua teoria é simples: torce sempre para o Brasil e torce sempre para o México. Até que ambos se encontrem, como ontem. Aí, a nacionalidade fala mais alto: México! México! México!

O empate acabou comemorado pela família mexicana. Um eventual vitória do México, certamente também seria. Mas, uma coisa é certa: em coração de imigrante, não existe derrota. Sim, eles também sorririam para uma vitória brasileira.

FOTO: ERICA DEZONNE/ ESTADÃO

Versão ampliada de reportagem publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 18 de junho de 2014

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