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Direto das ruas dos ‘inimigos’

Edison Veiga

11 junho 2014 | 22:13

O ‘Estado’ foi conferir o clima da Copa do Mundo nas ruas Croácia, México e Camarões, em São Paulo

FOTO: WERTHER SANTANA/ ESTADÃO

Mede cerca de 50 metros, apenas, a Rua Croácia, na Vila Medeiros, zona norte paulistana. São 12 casas, nenhuma com croatas dentro. “Será que eles vão querer conhecer a nossa rua?”, perguntava-se o gráfico aposentado Amilton de Paula Germano (foto abaixo), de 66 anos.

Pouco provável. Mas, se ali forem, os croatas vão encontrar uma fervorosa torcida canarinho. Na terça, seu Amilton dedicava-se a transformar sua varanda em uma extensão remota das arquibancadas do Itaquerão: rolo em punho, deixava o chão todo listrado de verde e amarelo. “Olha só, são duas churrasqueiras para a gente ver os jogos comendo e bebendo”, mostrou, à reportagem, gentilmente convidando para acompanharmos a abertura da Copa ali. (O repórter, já escalado para outra pauta, foi obrigado a declinar.)

FOTO: WERTHER SANTANA/ ESTADÃO

Seu Amilton quer reunir a família toda para ver o jogo. Três filhos e três netos. Ele foi um dos primeiros moradores da rua. “Quando me mudei para cá, em 1970, tinha só três casas”, recorda-se. Não se chamava Rua Croácia ainda – o nome só foi dado pela Prefeitura em 1991. “Era Rua Três”, disse ele. “Só mato em volta e um campinho de futebol bem ali”, apontou alguns metros adiante.

Também fica na zona norte a Rua Camarões, que homenageia o adversário do Brasil no dia 23. São cerca de 1,2 mil metros, com início ao lado da Estação Pirituba da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Parte da rua é coberta por paralelepípedos, parte por um ralo asfalto – sem guia nas laterais. De um lado, a linha férrea. De outro, mato – e até um sofá verde abandonado. No horizonte, é possível avistar o Pico do Jaraguá. Por ali, a reportagem não notou nenhum enfeite verde-amarelo, nada que lembrasse a Copa do Mundo. As raras casas são ocupadas por funcionários da ferrovia.

É o caso de Ester Santos Alves, de 57 anos. Ela é bilheteira e vive na Rua Camarões há 17 anos. O marido é ex-funcionário da CPTM – trabalhava como motorista. E o filho, de 31 anos, também atua na companhia: é maquinista. “Gosto daqui porque a rua é bem tranquila. O único problema são esses carros aí”, disse dona Ester, apontando para uma fileira de veículos estacionados que não condiz com a pequena quantidade de casas dali.

Foi quando, por volta das 14h de terça, a reportagem flagrou uma operação policial. Dois PMs estavam ao lado de um Astra preto. Tratava-se de um carro roubado que, enfim, era encontrado. “Certamente o bandido o utilizou em algum crime e depois abandonou aqui. Isso é comum, pois como muitos utilizam esta via para estacionar enquanto vão trabalhar de trem, acaba sendo um destino que não desperta suspeitas”, contou a policial, que não quis se identificar.

Moradores também relatam o inverso: como são bastantes os carros que diariamente estacionam na Rua Camarões, o endereço acaba sendo visado por bandidos que querem roubar um automóvel. “O pessoal aproveita que é uma rua praticamente sem trânsito, quase uma rua particular, para deixar o carro aqui o dia todo quando vai trabalhar, de trem, em outras regiões da cidade”, explicou Adevaldo Gimenes, de 58 anos, operador de máquinas da CPTM.

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO

Mas São Paulo tem fama de saber ostentar contrastes. E, ao menos por aqui, o México – com quem o Brasil joga no dia 17 – é bem diferente de Croácia e Camarões. No Jardim Paulista, zona sul, a paisagem da rua de cerca de 700 metros exibe um casarão atrás do outro. Essas fortalezas de portões altos e seguranças por toda a parte não possibilitaram que a reportagem adotasse a mesma tática dos outros locais: campainha ou bater de palmas e bate-papo com morador.

Mas havia ali uma guarita com bandeirinha do Brasil. E aí, animado com a Copa? “Nem sei quem foi que botou essa bandeira aí em cima”, reclamou José Leonardo Leite Penteado, de 49 anos, segurança ali desde 2011. Ele contou que torce para a Alemanha “desde antes de 2002”. E parece torcer mesmo, usando a primeira pessoa do plural para se referir à seleção germânica. “Não gosto da seleção brasileira porque o nosso time nem é brasileiro. Veja bem: quem desse grupo o brasileiro realmente conhece?”, filosofou seu José.

Em tom de confidência, o segurança de coração alemão anunciou os seus palpites para os jogos brasileiros na primeira fase. “Vai ser 1 a 1 contra a Croácia. Depois, o Brasil vai perder de 1 a 0 para o México. E de 2 a 1 para Camarões”, sentenciou. Vamos cair logo na primeira fase? “Sim, tenho certeza. Um morador aqui das redondezas disse que se eu acertar os três placares vai me dar R$ 100 mil. E uma garrafa de uísque.”

O repórter já estava se despedindo quando o simpático segurança ainda disse: “Venha aqui depois dos três jogos. Servirei para você uma dose do uísque que vou ganhar.” Está combinado, seu José.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 12 de junho de 2014

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