SÃO MIGUEL PAULISTA
Restauração da capela mais antiga da capital, na zona leste, descobriu pinturas de 250 anos
Igreja mais antiga de São Paulo, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, na zona leste, completa hoje 390 anos. E tem muito para comemorar: depois das obras iniciadas em 2006, a construção de 1622 foi totalmente restaurada, ganhou museu e ainda viu a redescoberta de duas pinturas murais que estavam escondidas atrás de altares havia pelo menos 250 anos.
Para entender a história do local, é preciso voltar aos primeiros anos da cidade. Em 1560, índios guaianás se desentenderam com os colonos da então Vila de São Paulo de Piratininga. Comandados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá – aliado dos padres jesuítas –, eles caminharam 20 km ao leste e criaram uma nova aldeia, batizada de Ururaí.
Receosa de perder esses índios, a Companhia de Jesus delegou ao padre José de Anchieta a missão de reencontrá-los. Um percurso difícil à época, parte por terra, parte pelo Rio Tietê. Quando chegou ao local, o religioso tratou de renomear o povoado como São Miguel de Ururaí. Ali ergueu uma pequena capela, de bambu e sapé. Nascia o bairro de São Miguel Paulista.
A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje – tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.
Restauro. A histórica capela passou por um longo processo de restauração, dividido em duas etapas. Na primeira fase, que durou de 2006 a 2009, a meta foi recuperar o edifício estruturalmente. “Havia problemas elétricos, hidráulicos e de infiltração de água”, lembra o gestor do local, Alexandre Galvão. Foram investidos R$ 3 milhões, bancados pela iniciativa privada.
Paralelamente a esse trabalho, uma equipe de arqueólogos e historiadores se debruçou sobre fatos, documentos e registros para que, pela primeira vez, a história da capela fosse recuperada de forma oficial. “No Vaticano, descobrimos cartas de Anchieta a outros jesuítas que nos ajudaram a entender como o povoado nasceu e como a primeira igrejinha foi feita”, conta Galvão. A carta mais antiga encontrada foi escrita em 12 de outubro de 1561.
Todo esse material fez com que os administradores do templo vislumbrassem a instalação de um museu. Nascia então a segunda fase do projeto, orçada em R$ 2,8 milhões e iniciada em 2009. “Passamos a recuperar as imagens esculturais”, diz Galvão. “Quando restaurávamos os altares, descobrimos, escondidas atrás de dois deles, pinturas murais que estavam ocultas e ao mesmo tempo protegidas”, relata o restaurador Julio Moraes. “Foi uma importante surpresa.”
Essas pinturas estão sendo cuidadosamente restauradas. “O trabalho deve ser concluído em novembro”, estima Moraes. Acredita-se que esses murais tenham sido pintados no século 17. E estavam cobertos pelos altares desde cerca de 1760.
Quem quiser conferir essas obras, entretanto, precisa se apressar. Concluído o processo de restauro, elas deverão ser novamente “escondidas” pelos altares, por determinação dos órgãos de proteção do patrimônio. Mas haverá reprodução fotográfica delas no museu, que está aberto desde 2010 e atrai cerca de 400 pessoas por mês.
>> Arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo comenta a história da igreja.
Serviço
Capela (e Museu) de São Miguel Arcanjo: Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, s/nº, São Miguel Paulista. Visitação: de quinta a sábado, das 10h às 12h e das 13h às 16. Às quintas e sextas, é preciso agendar visita pelo telefone (11) 2032-3921 ou pelo e-mail capela.visitacao @hotmail.com. Ingressos: R$ 4. Mais informações: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br
Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 18 de julho de 2012
Prezados,
Seria difícil substituir o termo “reforma” no subtítulo desta matéria, por “restauração”, termo correto.
Reforma implica em alterar a forma, o que absolutamente, não é o caso.
Obrigado.
Olá, Waldir. Sugestão acatada. Vou alterar já. Obrigado.
responder este comentário denunciar abusoFico orgulhosa de saber que esta pérola da história da nossa cidade resiste ao tempo e ainda nos traz surpresas, quando criança brinquei muito em volta desta capela na praça onde ela está localizada, na escola lembro que fizemos pesquisa e maquete sobre ela, tem até uma história curiosa sobre as palmeiras em frente… O museu está lindo, quem puder não perca a oportunidade de conhecer esse pedaço da nossa história.
Fiquei curiosa para conhecer a história a respeito das palmeiras. Você pode nos contar?
responder este comentário denunciar abusoOi, Carla. Conte para a gente essa história das palmeiras!
responder este comentário denunciar abusoReza a lenda que os índios mortos nos confrontos com índios de outras aldeias eram enterrados em volta da capela, onde hoje é a praça e em frente a capela teriam sido enterrados o cacique e seu filho no exato local onde nasceram as palmeiras… Ouvi esta histótia quando era criança e sempre lembro quando passo em frente a elas.
responder este comentário denunciar abusoÉ fabuloso que restaurem as pinturas murais (serão afrescos?) do séc XVII. É trabalho minucioso, demorado, mas gratificante.
O que me parece estranho é que, uma vez terminada a laboriosa restauração, os painéis sejam novamente tapados pelos altares de madeira.
Entendo que estamos lidando com a «quadratura do círculo», como se diz. Ou aparece um, ou aparece o outro. Mas arquitetos existem para arquitetar, pensadores para pensar, técnicos para encontrar soluções.
Tem de ser encontrado um compromisso para que uma relíquia não venha a ocultar a outra. A posteridade nos agradecerá.
NOSSA MEMÓRIA HISTÓRICA ESTÁ VIVA – PRECISAMOS REVERENCIÁ-LA, SEM O QUE NÃO SE VIVE PLENAMENTE O PRESENTE!
Uma jóia rara, parabéns a todos envolvidos na restauração dessa maravilha, o sentimento é de orgulho e agradecimento.
Agradecemos e parabenizamos ao Estadão e toda a equipe por esta belíssima matéria, que demostra o verdadeiro compromisso com a preservação de nossa memória e a valorização e promoção de nossos Bens Culturais! Muito obrigado!
ESTE É UM EXEMPLO A SER SEGUIDO POR TODOS OS ESTADOS E GOVERNO CENTRAL.SE ALEGAREM FALTA DE RECURSOS, QUE COOPTEM A INICIATIVA PRIVADA, AINDA QUE TENHAM DE FAZER CONCESSÕES QUE NÃO AFRONTEM A ÉTICA E A MORAL PÚBLICA.
Carla, conte a historia das palmeiras para a gente…atiçou minha curiosidade.
Até que enfim uma noticia da zona leste que não remete a violência e a pobreza, demonstra que temos algo de bom para mostrar.
Pena que o comentários dos leitores sejam tão pouco, se fosse alguma fofoca de artista ou algo de ruim com certeza haveria mais interesse.
foram onze os aldeiamentos dos jesuitas (sao miguel, carapicuiba, guarulhos, escada (guararema) e outros).
da escada é original. esta sendo restaurada.
estes pesquisadores deviam ver se tem carta de anchieta sobre a aldeia de sao jose (atual sao jose dos campos), pois se acredita que seja de 1560 .. mas só há documentos de 1643 em diante.
Capela de São Miguel, saudades……….do tempo em que minha mãe me levando pela mão íamos aos domingos, ainda bem cedinho, escuro ainda parecendo noite, “assistir” a missa em latim celebrada pelo saudoso Pe.Aleixo. Os meus primeiros passos para a vida cristã, foram iniciados aí na Capela, Parabéns pelo seu aniversário !
Pois é 390 anos de história, parabéns a este patrimônio, se seguíssemos os relatos dos historiadores São Miguel hoje estaria completando 452 anos. Os estudiosos dizem que sua construção começou em 1560.
Tem história essa igreja, já fiz matérias na época da faculdade, já fui a missa e sem contar que “de lei” tirar fotos depois do casamento ali na praça que também foi reformada, já que fica em frente a Catedral de São Miguel. Já corri muito por ali…..
É uma igreja simbólica, localizada na zona mais pobre da cidade. Se ficasse nos Jardins, seria badalada e aproveitada para promoção pessoal. Fica bem onde está, no ponto mais caótico de trânsito de São Miguel Paulista, descurada dos governantes, mas fiel testemunha da história deste povo tão descuidado e menosprezado em seus merecimentos!
Excelente observação.
responder este comentário denunciar abusoDesculpem se for ignorância de minha parte, mas, pra que restaurar as pinturas de duzentos e cinquenta anos pra, na sequência, escondê-las novamente atrás de madeiras??!!! De que adianta uma pintura existir se não for pra ser apreciada??!!! Coisa sem sentido…
Para manter salvo o nosso patrimônio!! Certas coisas não podem ficar a mostra, a luz é inimiga das pinturas, ainda mais uma de 250 anos, mas como foi dito na reportagem, terão reproduções delas no museu para compartilhar a sua beleza a todos.
responder este comentário denunciar abusoGostei de saber sobre a história desta Capela de São Miguel Arcanjo. Deus seja glorificado pelo restauro da Igreja e pela oração de seus fiéis.
Gostaria de saber de você tem as fotos dos murais descobertos, fiquei muito curioso para vê -los, e achei um pecado depois de restauradas esses murais serão escondidos, mas se for para o bem deles é que se deve fazer. Amei a reportagem, deveria ter mais reportagens assim para mostrar a riqueza de nosso país no requisito historiográfico, para as pessoas pararem de ficar glorificando as construções europeias em vez das brasileiras.
André,
A primeira foto que ilustra o post mostra um mural descoberto (à dir.).
Abraço.
sou um admirador das artes e apoio integralmente a reastauração que visa preservar todo o sentimento do artista empreendido nestas obras e, particularmente tenho um interesse especial e apaixonado por arquitetura de igrejas, porém, não concordo com o investimento seja da iniciativa privada ou pública nestas reformas pq a igreja católica, principalmente, recolhe muito dinheiro e vai tudo pro vaticano e tudo é cobrado dese o nascimento/batizado de criança até funeral pelos padres e o que é feito com todo este dinheiro? por gentileza, invistam em suas paróquias mantendo-as conservadas para que não haja degradação do patrimônio e que justifique estas campanhas visando a capitalização dos seus caixas.
Edison,
Parabéns por mais uma estória fantástica sobre a história da nossa cidade.
Já perdi as contas de quantos lugares fui ou observei melhor depois dos seus comentários / reportagens.
Você é um bem para a nossa cidade!
Muito obrigado!
Olá, meu caro. Muitíssimo obrigado.
(Mas só estou fazendo o meu trabalho!)
[...] Para ler a matéria completa, clique aqui. [...]
nada contra. porém, como ficam as favelas que se incendeiam todos os dias? porque a inicitaiva privada não investe neste setor? e a falta de iluminação nas ruas de são paulo?
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