Criada em 1881, Corporação Operária tem 22 músicos e se reúne toda sexta-feira
Dobrados, marchinhas, valsas… Sons que remetem ao tempo em que o programa noturno paulistano era passear pelos jardins ouvindo apresentações de bandas e fanfarras nos coretos. Quem for ao Sesc Santana no próximo fim de semana será convidado a fazer uma viagem pela história musical de São Paulo. E terá, como cicerone, a banda mais antiga da cidade: fundada em 1881, a Corporação Musical Operária da Lapa se apresenta ao lado da Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo.
Com 22 integrantes, a Corporação se reúne toda sexta-feira em um imóvel simples na Rua Joaquim Machado, na Lapa, zona oeste. Para ensaiar. À frente do grupo, o bancário aposentado Nestor Avelino Pinheiro, de 71 anos, mais de 20 de Corporação, maestro desde 2003. Ele sabe de cor a história da instituição. “Fui juntando os pedaços, pesquisando, porque nossa banda é importante para São Paulo”, explica.
O conjunto musical nasceu em outro endereço, na região conhecida como Lapa de Baixo. Chamava-se Lira da Lapa e, acredita-se, foi criada por influência do pianista e maestro ítalo-brasileiro Luigi Chiaffarelli (1856-1923), hoje nome de rua nos Jardins. Com o advento da República, em 1889, os músicos decidiram homenagear o novo momento histórico rebatizando a banda: virou Corporação Musical 15 de Novembro. “Aí, na primeira apresentação com esse nome, quebrou o pau”, conta Nestor. “Apareceram uns monarquistas, virou briga, confusão. Vários instrumentos acabaram destruídos.”
Em 1908, novo nome. Era uma época em que muitos integrantes trabalhavam na São Paulo Railway (SPR) – o grupo então se tornou Banda dos Empregados da SPR. “No fundo, eles tinham esperança de conseguir um dinheirinho da diretoria da SPR”, comenta o maestro.
O nome atual – Corporação Musical Operária da Lapa – é de 1914. Até então, a banda não tinha sede própria. Os ensaios eram ora na casa de um músico, ora na casa de algum admirador do trabalho deles. Dono de vários lotes de terra na região, o fruticultor e verdureiro italiano Nicola Festa (1863-1938), entusiasta das artes, doou um terreno para a Corporação. Os músicos se cotizaram e, no fim dos anos 1920, ergueram o imóvel que, até hoje, é sede do grupo.
Tempos modernos. “Quando assumi, tentei melhorar um pouco. Era engraçado: você ia no bar da esquina e ninguém sabia da existência da banda”, conta Nestor. “Então começamos a fazer mais apresentações, coloquei coisas mais modernas no repertório, uns boleros, Roberto Carlos, John Lennon…”
Atualmente, a Corporação Musical Operária da Lapa chega a fazer 15 apresentações por ano. “Dividimos o dinheiro do cachê entre os músicos e separamos uns 10% ou 15% para a manutenção da sede, como contas de luz e água”, diz ele. Outra mudança de sua gestão foi que, finalmente, mulheres passaram a ser aceitas na Corporação. “Era um ‘clube do bolinha’. Hoje, há três meninas: uma na bateria e duas nas clarinetas”, afirma.
Frentista aposentado, o tubista Arnaldo Alves de Moura (foto acima), de 76 anos, é o mais antigo músico da banda. “Já toquei em várias outras, todas extintas. Sempre que morria o maestro, acabava a banda”, conta ele, que desde os 13 anos integra corporações musicais. Sua primeira passagem no grupo da Lapa foi ainda na década de 1960. Depois, voltou no início dos anos 1990.
Do outro lado da ponta está o trompetista Vitor Craveiro Fusco (foto abaixo). Estudante do 8.º ano, o garoto de 13 anos é o caçula da turma – entrou na Corporação com apenas 8. “No começo, ficava meio tímido, já que todos são mais velhos. Mas com o tempo vi que são legais”, diz ele, que encara a música como hobby. “Não quero ser profissional. Quando crescer, vou ser biólogo ou chef de cozinha.”
Para Livio Tragtenberg, o maestro da Orquestra de Músicos das Ruas e diretor-geral do espetáculo que ocorrerá no Sesc Santana, é nesse amadorismo – nenhum integrante da Corporação é músico profissional – que está a beleza da banda mais antiga de São Paulo. “Tosco e brutal, o som deles é executado de uma forma muito própria, de um jeito que só eles conseguem. E nos remete a um passado, a uma vivência”, analisa Livio. “É maravilhoso tocar com eles. Precisamos ter mais gente fazendo música de forma amadora. Porque essa é a música que faz parte da vida.”
Não é a primeira vez que a Corporação se apresenta com os Músicos de Rua. Já fizeram shows em algumas unidades do Sesc e – o que lhes desperta maior carinho – foram uma das atrações da Virada Cultural de 2008. “Acabamos a apresentação na Praça da Sé e decidimos caminhar até o Vale do Anhangabaú tocando música”, recorda-se Nestor. “Juntou muita gente. O que nós mais queremos é tocar novamente um dia em uma Virada Cultural.”
“O que a Corporação Musical Operária da Lapa faz é mais do que música. É parte da história das pessoas da cidade”, resume Livio. São emoções de um tempo em que os coretos eram palcos, os jardins eram baladas e São Paulo tinha um quê de cidadezinha do interior.
Sonho. Como na pequena Nazaré Paulista, hoje com 16 mil habitantes, onde Nestor viveu até os 20 anos. “Ainda menino, eu me encantava quando vinha uma banda se apresentar na cidade. Tinha um gravador e saía registrando tudo”, lembra. Em sua adolescência, a cidade chegou a ter uma banda – e Nestor, sem entender nada de música, foi um orgulhoso integrante, tocando caixinha. Com a mudança para São Paulo, a faculdade de Economia, o emprego no banco, o casamento, os quatro filhos e os cinco netos, o sonho de ser músico ficou de lado. “Só quando todos estavam criados, decidi fazer o que mais gosto na vida e fui realmente aprender música”, conta o maestro. Que, sem nenhum músico na família, sonha, um dia, passar o que sabe aos dois bisnetos – Pedro Henrique, de 4 anos, e João Vitor, de 2.
Serviço
ORQUESTRA DE MÚSICOS DAS RUAS DE SÃO PAULO E CORPORAÇÃO MUSICAL OPERÁRIA DA LAPA: DIAS 11, ÀS 21H, E 12, ÀS 18H, NO SESC SANTANA (AVENIDA LUIZ DUMONT VILLARES, 579, TEL: (11) 2971-8700). R$ 16.
Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 5 de fevereiro de 2012
Parabens; a Banda, e a essa reportagem que nos remete a tempos bons de noticiais simples, porem com conteudo saudavel.
Parabens a ese veiculo de comunicação que não visou ibope.
Que Deus Abençoe a Todos.
Edmur Pavanelli
que bela nota, longa vida para essa banda e que as entidades culturais de Sampa façam muitos convites para apresentações.
Falou e disse. É obrigação,inclusive da Prefeitura, convidar e prestigiar a Corporação, levando-a nas comemorações e eventos públicos e até mesmo na “Virada Cultural”. Por que não?
responder este comentário denunciar abusoEnquanto há música e músicos, não há violência, o ambiente não fica propício par a paz!
Retificando o post anterior,Enquanto há música e músicos, não há violência, o ambiente fica propício para paz!
Maravilhosa reportagem. Parabéns ao Estadão e à Banda, que é um diamante, que se entregue à um desses mestres do marketing, tipo Antonio Carlos Martins pode se transformar num brilhante fulgurante.
Parabéns pela reportagem. Muito bom de ler. Moro na Lapa desde sempre e me identifiquei com ela. Sugestão para a serie de reportagens. União Fraterna da nossa querida Lapa
Esta não é a banda mais antiga do Brasil e a quarta da América. Mas a Corporação Euterpe da cidade de Pindamonhangaba, com 184 anos. de existência.
Veja você mesmo: http://www.agoravale.com.br/agoravale/noticias.asp?id=16858&cod=1
Não só a amais antiga do Brasil, e também a quarta mais antiga das Américas.
responder este comentário denunciar abusoRaufe, estamos dizendo que é a banda mais antiga da cidade, e não do Brasil. Grato pela sua participação, um abraço.
responder este comentário denunciar abusoMuito ouvir banda tocando música de banda. As que se metem a jazz band se tornam repetitivas, enjoativas.
Parabéns à todos os integrantes da Banda “Corporação Operária da Lapa”, sou filho de músico de Banda de Música, fiquei muito emocionado e contente vendo uma matéria enfocando uma Banda de Música, símbolo de qualidade musical e de nostalgia (bons tempos aqueles das retretas em coretos de praças públicas). Independente da idade da Banda, o importante é a qualidade dos músicos e o seu repertório musical.Deus abençoe à todos pela iniciativa de manter em pé nos dias de hoje (com pouca qualidade musical), a felicidade proporcionada à todos nós de ainda poder apreciar uma Banda de Música. Muito obrigado!
Ai que saudades de um tempo que não volta mais atrás. Deve ser por isso que o garotinho está vivendo este momento único em sua vida. Quando estiver adulto vai dizer a mesma coisa que eu.Podem escrever o que stou dizendo! Entre em contato comigo pelo MSN também:
Parabéns..! Parabéns..! Muitos Parabéns, deveriam prestigiar todas as Bandas do Brasil.. Só pelo esforço de seus integrantes, ele merecem todo nosso apoio e consideração…
Quase 20 anos atrás eu trabalhava no alto da Pio XI e diversas vezes descia a pé pra pegar o ônibus próximo da estação da Lapa. Uma dessas vezes eu vi uma banda tocando numa das travessas que passei, suponho que fosse a Rua Joaquim Machado, não tenho certeza porque eu não fazia sempre o mesmo caminho. Achei aquela banda muito animada, mas prossegui e nunca a revi nem soube nada dela. Agradeço seu artigo porque agora imagino que aquela banda simpática que vi era a Corporação Musical Operária da Lapa.
Retificando a redação do comentário do dia 05/02/2012 às 17:15
Parabéns à todos os integrantes da Banda “Corporação Operária da Lapa”, sou filho de músico de Banda de Música, fiquei muito emocionado e contente vendo uma matéria enfocando uma Banda de Música, símbolo de qualidade musical e de nostalgia (bons tempos aqueles das retretas em coretos de praças públicas). Independente da idade da Banda, o importante é a qualidade dos músicos e o seu repertório musical. Deus abençoe à todos pela iniciativa de manter em pé nos dias de hoje uma Banda de Música com tal envergadura, proporcionando à todos nós felicidade, pois nos dias de hoje, infelizmente, predomina a má qualidade musical. Muito obrigado!
faço minha as suas palavras: jorge.
quero parabenizar a equipe do estadão, principalmente ao jornalista Edison Veiga pela feliz matéria e aos músicos que fazem com muito gosto o ensaio às sexta feiras, quero convidar a vc Edison para participar no próximo dia 10/02 de meu aniuversário (trompete: Cirilo) e Sr. Albino Apolinário (clarinete). parabéns a todos e quero lembrar que o maior Cartão de visitas de uma Cidade é a Banda de Música.
2012
2011
2010
Deixe um comentário: