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Ursos, sucuris e ‘hienas africanas’ na Aclimação

Edison Veiga

21 abril 2011 | 00:01

“O terrível urso branco do polo norte, que há dias atacou seu tratador”, “o peixe elétrico do Amazonas” e “as hienas africanas – o terror dos cemitérios” eram algumas das atrações do Jardim da Aclimação, conforme anúncios de jornais do início do século 20. Sim, o mesmo local onde hoje funciona um dos mais tranquilos parques da capital paulista, no centro, já foi a sede do primeiro zoológico paulistano.

O espaço foi criado pelo médico, político e fazendeiro Carlos Botelho (1855-1947). Encantado com o parisiense Jardin d’Acclimatation, decidiu fazer algo parecido em São Paulo. Em 1882, adquiriu umas terras no antigo sítio do Tapanhoim, vizinho das chácaras do cônego Fidelis e da Glória, atual Cambuci, e não muito longe do prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia, da qual foi diretor clínico.

Detalhes dessa história estão no livro Carlos Botelho – Nasceu no Século XIX, Viveu no XX e Vislumbrou São Paulo do Século XXI, recém-lançado pelo bisneto do fundador do parque, o advogado e empresário Antonio Carlos Botelho Souza Aranha. “Todo esse material que reuni estava guardado na fazenda da família, em São Carlos”, conta o autor.

Eram três os pilares do Jardim da Aclimação: um zoológico, um ajardinado com alamedas e lagos e uma granja leiteira – o leite era vendido no copo a quem quisesse experimentar. Na ala do zoológico estão as mais inusitadas histórias. Em 1920, uma sucuri com cerca de 5 metros escapou. Dez homens foram necessários para recapturá-la. A jaula do urso polar Mauricio era resfriada com barras de gelo. Havia ainda uma onça-pintada, leões, lhamas, cotias e o camelo Gzar, no qual os visitantes podiam montar para tirar fotografias. Nos domingos, os elefantes eram banhados no lago.

Os bichos chegavam ao local de diversas maneiras. Os de espécies nacionais ou foram adquiridos pelo próprio Botelho ou doados por amigos. Seu grande amigo, o marechal Cândido Rondon, capturava animais em suas expedições em Mato Grosso e os enviava para lá. Em visita a zoológicos europeus, o filho de Botelho acertou um intercâmbio de bichos. Assim, feras – oriundas principalmente do zoológico de Hamburgo, na Alemanha – desembarcavam no Porto de Santos e subiam a serra rumo ao Jardim da Aclimação.

“Em pouco tempo, ali se tornou o local preferido do lazer dos paulistanos”, conta Souza Aranha. Depois da missa de domingo, o lugar ficava cheio. Casais de namorados passeavam de mãos dadas, crianças brincavam, lambe-lambes não economizavam seus cliques e, não raras vezes, o centro do parque tinha apresentações de uma banda fardada. Havia ainda barracas de tiro ao alvo, pescaria de bijuterias, roda-gigante, carrossel e até, mais badalada das atrações, um cineminha. Adquirido pela Prefeitura em 1939, o jardim tornou-se o Parque da Aclimação.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 21 de abril de 2011

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