O pianista e maestro Vladimir Ashkenazy, um dos grandes músicos do século 20 (e do 21!), vem a São Paulo. Confira nossa conversa exclusiva com ele

CHANCES | Ashkenazy rege quatro concertos, um deles ao ar livre
Foi no distante 6 de julho de 1937, na cidade de Gorky (hoje Nizhny Novgorod, no oeste da Rússia), que nasceu Vladimir Davidovich Ashkenazy. Os estudos de piano, iniciados aos seis anos de idade, logo fariam do prodígio um dos maiores pianistas de que já se teve notícia, com uma trajetória mundialmente conhecida – tanto nas salas de concerto quanto por suas gravações. Nos anos 1980, ele passou também a atuar como regente, construindo outra carreira extremamente respeitada. Pois é nesta função que ele vem a São Paulo, à frente da Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim. São quatro récitas: uma matinê para crianças amanhã (12), com ingressos esgotados; uma apresentação o ao ar livre, no Auditório Ibirapuera, no domingo (13); e dois concertos no Teatro Municipal, 2ª (14) e 3ª (15), dentro da temporada do Mozarteum. De sua casa em Meggen, na Suíça, ele atendeu o Divirta-se. Ao final da entrevista, contou ao repórter que jogava futebol na infância, uma paixão que carregou pela vida, e confessou ter um desejo: conhecer o rei Pelé.
Maestro, por que fazer música? Por que fazer música? Puxa… (suspiro). Eu nasci assim. Provavelmente, era o meu destino. Provavelmente, eu não poderia fazer nenhuma outra coisa. Meu pai era músico, embora não levasse uma carreira a sério. A música sempre esteve aí para mim. Ele tocava muito Chopin, Liszt, e aquilo me impressionava… Minha mãe percebeu que eu cantava muito, e logo fui estudar piano. Quando eu tinha oito anos, vi uma orquestra pela primeira vez. Nunca mais me esqueci, me lembro como se fosse ontem. Fiquei fascinado, captando cada som…
E você acha que suas razões sempre foram as mesmas? Bem, quando se é criança, você não articula muito as coisas. Você não expressa o que sente. Com o tempo, você começa a perceber que a música séria existe, que você consegue expressar coisas que são impossíveis de serem expressas de outra forma. Passa a perceber quantos elementos espirituais estão envolvidos nisso. A música talvez – veja bem, talvez – seja um dos maiores mistérios na criação artística.
Sua carreira é tão elogiada por suas performances ao vivo como pela extensa e premiada lista de gravações que você fez. O que lhe interessa particularmente nesses dois universos? A busca é a mesma? A busca é essencialmente a mesma: comunicar o que você quer comunicar. Claro que há diferenças. Num concerto você tem uma única chance. É ali, no momento. Em uma gravação você pode parar, voltar, repetir. Mas a intenção é a mesma, é o que deve ser feito. Muita gente já me perguntou se muda o fato de não haver público. Não muda. A música é mais importante que as pessoas, e é isso que se deve buscar.
Quando você é feliz sendo músico? Feliz? O tempo todo (risos)! Quando me apresento, sou feliz. Quando gravo, também. Quando ensaio, também, porque estou tentando atingir algo que eu imagino que deva ser daquela forma. É um prazer constante, eterno. Quem pode dizer o que a música deve ser? É um grande mistério!
Quais foram as maiores lições que você aprendeu ao longo de uma vida dedicada à música? Olhe, eu devo muito a todos os meus professores. Acho que a grande lição remonta aos tempos de estudante no Conservatório de Moscou (onde foi discípulo de Lev Oborin). Lá eu aprendi que quando se toca algo, nunca deve ser nada menos que ótimo. Que para fazer música é preciso estar absolutamente envolvido. Deve-se tocar o que quer, não o que se consegue. Se a sua intenção, ao tocar determinada peça ou trecho, é uma, cada vez que você toca ela deve estar ali.
E o que você diria para um jovem que está começando a perseguir o sonho de se tornar músico? É muito, mas muito, muito, muito simples. Se você tem um dom, seja grato por ele e treine. Treine, treine, treine, ensaie, ensaie, ensaie. Se você ama a música, agarre-se a ela em sua vida. Não pense no sucesso. Se ele vier, ótimo. Se não vier, tudo bem também – você é músico. A música é um presente que a vida deu a você. Agradeça por tê-lo recebido e nunca o abandone.
+ Matinê para crianças. ONDE: Auditório Ibirapuera. Pq. do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2, 3629-1075. QUANDO: Sáb. (12), 16h. QUANTO: Ingressos esgotados.
+ Concerto ao ar livre. ONDE: Auditório Ibirapuera (plateia externa). QUANDO: Dom. (12), 11h. QUANTO: Grátis.
+ Teatro Municipal. ONDE: Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, Centro, 3397-0300. QUANDO: 2ª (14) e 3ª (15), 21h. QUANTO: R$ 110/R$ 300.
Tags: Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim, Vladimir Davidovich Ashkenazy
2013
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