
FALTA UM | Nic Endo e Alec Empire, que, com CX Kidtronic, formam o Atari Teenage Riot
Extremamente politizado, o alemão Alec Empire joga tudo que pensa nas músicas do Atari Teenage Riot, que faz show hoje (15), no Cine Joia. E isso sem ser um militante chato – ao contrário. Foi no grupo fundado no início dos anos 90 que ele criou o absurdamente pesado digital hardcore e mostrou ao mundo que o punk e o hardcore não estavam mortos, mas andavam diferentes, afeitos à música eletrônica, especialmente ao techno. Hoje, com bandas como LCD Soundsystem devidamente idolatradas, parece óbvio. Há 20 anos não era.
O grupo passou uma década parado após a morte de um de seus fundadores, Carl Crack, em 2001. Mas em 2011, simultaneamente ao Occupy Wall Street, Alec trouxe a banda de volta com o clipe de ‘Black Flags’, que apoiava as ideias do OWS e também do grupo de hacktivistas Anonymous. Em seguida, veio o disco ‘Is This Hyperreal?’ e a constatação de que o Atari continuava igual: relevante, pesado e excelente.
Para a volta do Atari, você chamou CX Kidtronick, um americano, para o grupo. O que ele acrescentou? Diferente do que muita gente pensa, ele não veio para substituir Carl Crack. São muito diferentes. Ele nasceu nos Estados Unidos, Carl nasceu na África e cresceu na Alemanha. E CX tem sua própria história. Tocou com Saul Williams, produziu coisas com Trent Reznor, fez beats para Kanye West… É um cara que definitivamente agrega elementos novos ao grupo. E pode falar com mais autoridade sobre temas que a gente aborda.
Está falando de política, certo? Também. Se faço uma crítica ao Obama, nem sempre prestam atenção. É tipo: por que esse branquelo alemão está criticando o Obama? CX pode fazer isso num caminho muito diferente do que eu, alemão, faria. Cresceu lá, tem informações políticas e musicais bem diferentes das nossas. Só tem a acrescentar.
Quando você fala sobre o processo do ATR, parece tudo bem livre na hora de criar. Como funciona? É um projeto aberto. Em estúdio ou ao vivo, há sempre muitas pessoas de fora envolvidas com o que a gente faz. São guitarristas convidados, vocalistas… Gosto disso porque mantém as coisas excitantes. Nunca é a mesma fórmula. Se você trabalha com pessoas diferentes, imediatamente passa a pensar diferente.
Vocês têm fãs como os integrantes do Slayer e Trent Reznor. Que tipo de música inspira você? Meu gosto é muito amplo e, algumas vezes, o que me inspira vem de modo indireto. O Atari é uma colagem que deseja trazer as pessoas para bons momentos. Mas posso citar o punk… Bad Brains, Ramones, sempre, X-Ray Spex é uma influência enorme. Muito Public Enemy.
O que são essas influências indiretas? Muito jazz, Miles Davis, John Coltrane, Sun Ra… Música clássica, como Stockhausen e Wagner. Noise japonês. Sou um grande fã do ska jamaicano dos anos 60 e do começo do dub, que não é óbvio, mas é importante no Atari. Funk e soul.
Você nunca menciona o industrial como referência. Muita gente pensa que fui influenciado pelo industrial. Mas, honestamente, eu não ouvia nada disso quando comecei a tocar. Conhecia mesmo uma música do Nine Inch Nails, que tocava na MTV e eu gostava. Mas no início dos anos 90 eu estava realmente muito mais ligado no techno underground de Detroit. Parece piada, mas Nic Endo pode provar isso.
Tags: Alec Empire, Atari Teenage Riot, Bad Brains, digital hardcore, eletrônica, hardcore, jazz, John Coltrane, miles davis, música, música eletrônica, Nine Inch Nails, Public Enemy, punk, Ramones, rap, ska, Slayer, Sun Ra, techno, Trent Reznor, X-Ray Spex
O saxofonista Thiago França lança ‘Sambanzo, Etiópia’, seu trabalho
mais autoral. No que depender dele, todo mundo vai dançar
“Me sinto leve.” Assim Thiago França define sua fase atual. E, preocupado apenas em curtir o que faz, tem feito muito. Entre o fim de 2010 e o começo de 2011, gravou sete discos: ‘Metá Metá’, com Kiko Dinucci e Juçara Marçal; ‘Nó na Orelha’, de Criolo; ‘Memórias Luso-africanas’, de Gui Amabis; ‘Um Labirinto em Cada Pé’, de Rômulo Fróes; ‘Caravana Sereia Bloom’, de Céu; no primeiro de seu trio de jazz MarginalS; e no ‘Bahia Fantástica’, de Rodrigo Campos.
Entre tantos e excelentes trabalhos, um diz mais sobre ele: ‘Sambanzo, Etiópia’, o primeiro do Sambanzo, projeto mais autoral de sua carreira. O disco mistura um pouco de tudo que o inspirou – do samba de gafieira e terreiro ao jazz, passando por sons latinos e do Caribe. Tudo sempre com uma identidade muito forte, com a cara de Thiago. Foi sobre esse trabalho, que ele lança terça (13) no projeto Prata da Casa, do Sesc Pompeia, que conversamos.
Etiópia’ soa um pouco diferente das outras. Por que ela dá nome ao disco?
O processo todo, como ela apareceu, foi muito emblemático sobre como é o Sambanzo. Estava com o disco pronto, com seis músicas, e a gente tinha o sábado no estúdio do Diogo Poças para gravar. E na quinta tinha um show nosso no Jazz nos Fundos. Na passagem de som, o (Marcelo) Cabral começou a tocar e chegou naquele groove. Na hora, lembrei de uma melodia que eu tinha feito uns 10 anos atrás, um funkezinho meio besta. Aí foi um lance de tocar sem falar nada. O Cabral começou, o Pimpa entrou, depois o Samba, em seguida eu, aí o Kiko… Achei legal demais e pensei na hora: essa tem que entrar. O disco estava inteiro uma porrada só. Precisava de um respiro. E tem outra. Todo mundo macumbeiro… Sete é um número bom.
O Sambanzo sempre segue esse formato nas músicas?
O começo já foi assim. O primeiro show com essa formação eu marquei em uma quinta para tocar no sábado. Não deu tempo de mandar nada, nenhuma referência. O Cabral e o Samba Sam já tocavam comigo. O Kiko e o Pimpa iam tocar pela primeira vez. Então fui pensando no que dava pra fazer. Aí falei de fazer uma base meio latina, Pará… Em outro momento, eu falava que era meio afrobeat. Todo mundo ia tocando e, quando azeitava, eu começava a tocar. E foi legal demais… Já saí de lá com outro show marcado.
Esse formato, de tocar sem falar nada, seria possível com outros músicos?
Não. Provavelmente não daria certo. Eu já tinha gravado um disco, que não saiu, com outra formação. E eu não consegui concatenar artisticamente o que eu gostaria com aquele disco, com aquela formação, aquela instrumentação, aquela sonoridade… A relação pessoal que a gente tem é imprescindível. Essa amizade. Você sabe como falar com cada um, sabe que vão te entender.
Esse é seu disco mais autoral. O que pensou para ele?
Eu sempre entendi que queria fazer as pessoas dançarem. Gosto de fazer algo com um clima bom, que a galera vá se divertir. A dança é um elemento transformador da sociedade. É muito piegas, mas é verdade.
O disco já está na internet?
Sim, mais um disco inteiro de graça na internet, a partir de sexta (9). O link é sambanzo.blogspot.com. A música é livre, pra sempre. Só peço que baixem no meu link para ter a qualidade certa e eu ter uma ideia de quantas pessoas ouvem.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: 3ª. (13), 21h. QUANTO: Grátis (retirar ingresso com uma hora de antecedência).
Tags: África, Etiópia, gafieira, Jamaica, jazz, Kiko Dinucci, marcelo cabral, Pimpa, Prata da Casa, reggae, samba, Samba Sam, Sambanzo, show, ska, Thiago França
Com novo nome e nova data, o Mês da Cultura Independente (antigo ‘Outubro Independente’) começa hoje e traz para São Paulo nomes da música alternativa de todo o mundo, e também daqui, para uma série de shows gratuitos. Hoje (2), antes mesmo da abertura oficial, que é só à noite, a cantora Carolina Zingler se apresenta, às 12h30, no Centro Cultural São Paulo (CCSP).
Mas o primeiro grande show internacional do evento é amanhã: a jamaicana Doreen Shaffer (foto), vocalista do Skatalites desde a década de 60, se apresenta no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (CCJ), acompanhada pelo grupo Leões de Israel. Prepare-se para sucessos dela e também do Skatalites – muito ska, rocksteady e reggae.
A semana continua com shows das bandas paulistanas de punk Inocentes e Invasores de Cérebros, dom., no CCJ; de Arthur Kampela e convidados, 4ª, no CCSP; e do grupo argentino Malaquerencia, que toca 5ª no CCSP e mistura salsa, reggae, jazz e folclore.
Só que o mês, que afinal dura 30 dias, não acaba por aí: nas próximas semanas há ainda shows de outros nomes importantes, incluindo a banda de krautrock Faust, que vem ao Brasil pela primeira vez, e Joe Lally, baixista do Fugazi, que volta ao País para lançar seu terceiro disco solo – além de atrações nacionais, como Emicida e Ndee Naldinho.
Renan Dissenha Fagundes
Tags: CCJ, CCSP, Galeria Olido, krautrock, MCI, punk, rap, rock, shows, ska
Crédito: Paulo Liebert/AE
CRIOLO | o rap como ponto de encontro de diversos estilos
Rap? Não só, mas também. Kleber Gomes, que você reconhecerá mais fácil pelo apelido de Criolo, começou a carreira no hip hop, só que ele foi muito além e transformou seu trabalho em uma espécie de compêndio da música negra mundial. Experiência que rendeu o disco ‘Nó na Orelha’, um dos melhores de 2011 – e dá para afirmar isso sem que o ano tenha terminado. Se ainda não ouviu e não se convenceu, aproveite os dois shows que ele fará no Studio SP, na terça e na quarta, para mudar de ideia.
Na apresentação você verá como ele é capaz de mudar a cada música. Em ‘Bogotá’, Fela Kuti ficaria orgulhoso pelo bom uso do afrobeat. Em ‘Samba Sambei’, dá pra perceber que a Jamaica é logo ali, no palco. O samba de verdade chega em ‘Linha de Frente’. E tem a excelente balada ‘Não Existe Amor em SP’, seu maior sucesso. Mas e o rap? Está em tudo, mas nem sempre de modo óbvio.
Para tornar essa mistura ainda mais legal, ao lado de Criolo estão sempre excelentes parceiros, como Daniel Ganjaman, Marcelo Cabral, Kiko Dinucci e Thiago França, entre outros talentos da música brasileira.
ONDE: Studio SP (450 lug.). R. Augusta, 591, Consolação, 3129-7040. QUANDO: 3ª (19) e 4ª (20), 23h. QUANTO: R$ 30 (antecipado)/R$ 40 (na porta).
Tags: afrobeat, criolo, hip hop, música, rap, reggae, samba, show, ska, Studio SP
2013
2012
2011
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